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sábado, 28 de dezembro de 2019

Crítica: Marriage Story (2019)

"Getting divorced with a kid is one of the hardest things to do. It's like a death without a body."
Bert Spitz


*7.5/10*

Marriage Story, de Noah Baumbach, respira teatro por todos os poros. A história de um divórcio, vagamente inspirada na separação do realizador e Jennifer Jason Leigh, é um trabalho pessoal, repleto das marcas a que Baumbach já nos habituou na sua filmografia. A temática pesada é apresentada com leveza, proporcionada pelo humor, contrabalançada por diálogos intensos e emotivos.

Comparações com Kramer contra Kramer são pertinentes, mas Marriage Story tem muito mais amor envolvido. O amor não acabou, mas a emancipação da mulher surge como o maior bloqueio à continuidade da relação.

O filme de Baumbach é um olhar sobre o fim de um casamento e a união de uma família. Seguimos o processo de divórcio de Charlie (Adam Driver), um encenador de teatro bem sucedido de Nova Iorque, e Nicole (Scarlett Johansson), uma actriz que sonha regressar à cidade natal, Los Angeles. Os dois têm um filho em comum, Henry (Azhy Robertson), de oito anos.


Um divórcio que se queria pacífico e sem advogados, de repente, torna-se uma batalha legal e um chorrilho de ofensas, que nenhum dos dois envolvidos pretende. Este aparentemente inevitável conflito cria situações pouco realistas, tendo em conta a vontade dos protagonistas, e leva-nos a distanciar do drama a que assistimos. As personagens contradizem acções e sentimentos, há momentos demasiado exagerados - onde o humor quer ser desculpa para aliviar a gravidade da situação - e outros em que somos totalmente envolvidos pelos diálogos entre o casal. Marriage Story proporciona-nos sentimentos contraditórios. 

Há uma clara simpatia pela personagem de Adam Driver, o eterno apaixonado que sofre e se desdobra entre duas cidades para estar perto do filho. Do lado de Nicole, sentimo-nos menos ligados, menos compreensivos. Talvez por ser um homem a realizar ou por ser inspirado no seu próprio divórcio... Ainda assim, é inevitável destacar a discussão entre Charlie e Nicole, intensa e carregada de emoções, onde Driver e Johansson dão tudo de si. Uma cena que ficará, sem dúvida, na História do cinema.


Apesar de tudo, Adam Driver é, sem dúvida, o destaque da longa-metragem. Expressa as emoções como poucos, consegue transmitir tudo com um simples olhar: sofrimento, esperança, desilusão... Dá gosto vê-lo representar - e cantar!

O argumento transborda dramaturgia, é filmado como se estivéssemos a ver os actores moverem-se num palco... Tudo aqui é teatro! Fica a sensação que Marriage Story resultaria estrondosamente  bem numa adaptação teatral, mais do que cinematográfica. 

terça-feira, 30 de abril de 2013

IndieLisboa'13: Frances Ha

*6/10*

A secção Observatório do IndieLisboa'13 trouxe-nos o mais recente filme de Noah Baumbach, Frances Ha, uma comédia a preto e branco, protagonizada por Greta Gerwig – que escreve o argumento em conjunto com o realizador. 

Em Nova Iorque, Frances é a uma aspirante a dançarina “apaixonada” pela sua melhor amiga Sophie, sem a atracção sexual. Ambas têm uma ligação muito forte, mas percebem que terão que crescer e descobrir se conseguem viver uma sem a outra. É quando Sophie muda de casa, que Frances se dá conta de que tem de continuar a sua vida sozinha.

Noah Baumbach trouxe-nos um filme que retrata o aparente medo de crescer, de ser adulto, coisa que Frances parece querer evitar a todo o custo apesar dos seus 27 anos de idade. A história é divertida, no meio das aventuras e desventuras da protagonista, mas não traz grandes novidades, com o argumento a querer ser muito mas não indo além da curiosidade inicial que desperta. Ao mesmo tempo, a espécie de adoração por uma personagem que não será, de todo, um exemplo de maturidade não é talvez um ponto muito positivo de Frances Ha.


Brilhante é a fotografia - de Sam Levy -, a preto e branco, que confere um tom mais intimo e pessoal à longa-metragem. A seu favor, está ainda o facto de grande parte das cenas terem uma espécie de musicalidade, ritmo ou mesmo coreografia, intensificado pelo facto de Frances ser dançarina. Greta Gerwig, por seu lado, é o centro do filme. É ela que o conduz e lhe oferece uma força e animação que farão as delícias de muitos espectadores, com uma interpretação cheia de garra e de momentos hilariantes.

Frances Ha peca pelo argumento, mas proporciona-nos momentos de grande beleza visual e tem ao comando uma grande actriz, na pele de uma personagem que faz surgir muitos sorrisos.