sexta-feira, 3 de abril de 2026

Crítica: Entroncamento (2025)

"Também andas à procura de trabalho a sério?"

Nádia

*9/10*

Pedro Cabeleira voltou às longas-metragens depois de oito anos de interregno (com duas curtas pelo meio). Entroncamento foca-se na sua cidade natal e nos jovens que a habitam, os que chegam ou partem, todos eles perdidos e sem futuro à vista.

"Em fuga de um passado turbulento, Laura refugia-se no Entroncamento para reconstruir a sua vida. Dividida entre um emprego honesto e os esquemas do pequeno crime, cruza-se com uma juventude desencantada não muito diferente de si. Nas ruas da cidade ferroviária sobressaem as lealdades, a ganância, a violência e a má sorte, mas toda a gente só quer uma vida melhor."

Os jovens voltam a estar no centro da acção na nova longa de Cabeleira. Verão Danado (2017) retratava uma geração sem rumo, estagnada, alienada por drogas e música. Agora o realismo social entra em cena: como se Verão Danado fosse uma adolescência tardia e Entroncamento a vida adulta desesperançada. Desta vez, o foco são aqueles que a cidade e o Estado deixaram à sua sorte, sem oportunidades e à beira da pobreza.

São os homens que mandam no bairro e vivem entre ameaças, conflitos e violência (e, pelo meio, uns charros para desanuviar). Não há saídas, nem esperança, mas um círculo vicioso onde o tráfico de droga é a mais rápida forma de sustento. O Entroncamento, sempre com a estação de comboios como pano de fundo, é o cenário onde estas personagens, esquecidas pela sociedade, se movem, naquele pequeno mundo só seu. O preconceito, a discriminação e o racismo imperam dentro e fora da comunidade e condicionam, ainda mais, as poucas oportunidades.

Entre a denúncia de muito do que falha na lógica dos bairros sociais, território de exclusão e de "desempoderamento", Entroncamento tem um lado feminista bem vincado. As duas mulheres do filme, Laura (Ana Vilaça) e Nádia (Cleo Diára), assumem um papel preponderante: contra abusos, violência ou racismo, são elas quem luta para fugir das alternativas que têm pela frente: uma vida de pobreza, de vício ou de crime. O realizador coloca estas duas mulheres em situações mais associadas a personagens masculinas e mostra como a fórmula de Jean-Luc Godard "uma Mulher e uma Arma" continua a funcionar perfeitamente no Cinema.

As personagens são realistas, muito devido à grande dedicação de actores amadores e profissionais e à ligação que Pedro Cabeleira estabelece com e entre ambos. Há naturalidade nos diálogos, nos conflitos e nos olhares, sem qualquer tipo de esforço ou formalidade.

No elenco, há uma transfiguração dos actores profissionais e várias descobertas entre os, até então, amadores. Enorme destaque para a protagonista, a magnética Ana Vilaça. A actriz incorpora Laura carregando o peso de um passado deixado no Porto, com marcas visíveis de violência e a revolta escondida numa postura observadora e desafiante. A grande descoberta de Pedro Cabeleira é Henrique Barbosa, o ex-presidiário Gilinho, em busca de redenção e de estabilidade para a família que construiu com Nádia (Cleo Diára) e a sua filha. Gilinho é um solitário jovem cigano em cisão com a família de sangue, que o despreza por ter escolhido uma mulher negra como companheira de vida. Um novo actor a ter em grande conta.

No seu todo, o elenco merece elogios: Rafael Morais, Tiago Costa, Cleo Diára, Sérgio Coragem, André Simões, Maria Gil ou Ivo Arroja, entre outros, transformam Entroncamento num grande filme.

Tecnicamente irrepreensível, a câmara, irrequieta como as personagens, introduz a plateia no meio da acção, entre conversas, rivalidades, lágrimas e violência. A direcção de fotografia, mais uma vez a cargo de Leonor Teles, capta as cores incertas mas vívidas do dia e as sombras e luzes da noite, os reflexos de um passado que paira e assombra e o desalento de um futuro que não se vislumbra.

Entroncamento é uma obra pouco comum no cinema português, um filme desafiante, de denúncia da pobreza dos que são deixados à margem da sociedade, e que, ao mesmo tempo, consegue espelhar alguma esperança no meio do desalento. Os anos de amadurecimento do argumento fizeram bem à longa-metragem e revelam uma evolução e nova abordagem do realizador.

Estreias da Semana #712

Esta Quinta-feira, chegaram às salas de cinema portuguesas sete novos filmes. O DramaReady or Not 2: O Ritual Super Mario Galaxy - O Filme são algumas das estreias em destaque.

Caso 137 (2025)
Dossier 137
O dossier 137 parece ser apenas mais um caso para Stéphanie, investigadora do IGPN, o organismo de controlo da polícia. Um protesto tenso, um jovem ferido, circunstâncias que têm de ser esclarecidas para determinar a responsabilidade... Mas um elemento inesperado inquieta Stéphanie, transformando o ficheiro 137 em algo mais do que um simples número.

Ladrões da Treta (2025)
Le Million
Pensando erradamente que não vai ser promovido pela empresa onde trabalha, Stan fica de rastos e decide roubar a mala com um milhão de euros em dinheiro sujo que o patrão guarda no cofre. Segue para o aeroporto com a namorada... Mas, pelo caminho, recebe um telefonema que lhe diz que vai ter a promoção com que sempre sonhou. Tem uma noite para reparar o seu erro e colocar o milhão de euros de volta no cofre. Para isso, conta com a ajuda de Hippolyte, um serralheiro com uma grande falta de ética...

O Drama (2026)
The Drama
Um casal noivo e feliz vê-se posto à prova quando um acontecimento inesperado faz descarrilar a sua semana de casamento.

Os Domingos (2025)
Los Domingos
Ainara, uma brilhante e idealista jovem de 17 anos, tem de decidir que curso quer seguir. Porém, a adolescente sente-se cada vez mais próxima de Deus e pondera abraçar a vida de freira. A notícia surpreende toda a família, provocando uma rutura e colocando todos à prova.

Romaria (2025)
Romería
Marina, de 18 anos, órfã desde tenra idade, viaja até à costa atlântica de Espanha para obter a assinatura dos avós paternos que nunca conheceu para uma candidatura a uma bolsa de estudo. Marina navega num mar de novas tias, tios e primos, sem saber se será acolhida, ou se encontrará resistência. Mexendo com emoções há muito enterradas, reaviva a ternura e descobre feridas ocultas ligadas ao passado, enquanto junta as memórias fragmentadas e muitas vezes contraditórias dos pais de quem mal se lembra.

Ready or Not 2: O Ritual (2026)
Ready or Not 2: Here I Come
Grace (Samara Weaving) sobreviveu ao ataque brutal da família Le Doma. Julga ter acordado num hospital, mas descobre que foi levada para os terrenos de um clube de campo exclusivo. De repente, vê-se envolvida noutro jogo mortal, com quatro famílias rivais a competirem para a matar e tomar posse da sua fortuna.

Super Mario Galaxy - O Filme (2026)
The Super Mario Galaxy Movie
Mário aventura-se no espaço, explorando mundos cósmicos e enfrentando desafios galácticos, longe do familiar Reino dos Cogumelos.

terça-feira, 31 de março de 2026

Sugestão da Semana #711

Das estreias da passada Quinta-feira, a Sugestão da Semana destaca Entroncamento, de Pedro Cabeleira.

ENTRONCAMENTO


Ficha Técnica:
Título Original: Entroncamento
Realizador: Pedro Cabeleira
Elenco: Ana Vilaça, Rafael Morais, Tiago Costa, Cleo DiáraHenrique Barbosa, Sérgio Coragem, André Simões, Luís Filipe Eusébio, Carlos Carvalho, Ivo Arroja
Género: Drama
Classificação: M/16
Duração: 131 minutos

sexta-feira, 27 de março de 2026

Estreias da Semana #711

Esta Quinta-feira, chegaram às salas de cinema portuguesas nove novos filmes. Eles Matam-te, Entroncamento e Memórias do Teatro da Cornucópia são três das estreias em destaque.

Eles Matam-te (2026)
They Will Kill You
Uma mulher responde ao anúncio que procura uma empregada doméstica para um arranha-céus da cidade de Nova Iorque, sem perceber que está a entrar numa comunidade onde têm ocorrido vários desaparecimentos ao longo dos anos e que pode estar sob o domínio de um culto satânico.

Entroncamento (2025)
Em fuga de um passado turbulento, Laura refugia-se no Entroncamento para reconstruir a sua vida. Dividida entre um emprego honesto e os esquemas do pequeno crime, cruza-se com uma juventude desencantada não muito diferente de si. Nas ruas da cidade ferroviária sobressaem as lealdades, a ganância, a violência e a má sorte, mas toda a gente só quer uma vida melhor.

Eu Sou Martin Parr (2024)
I Am Martin Parr
Desde a década de 1970, Martin Parr tem empunhado destemidamente o seu espelho fotográfico único, oferecendo-nos alguns dos clichés visuais mais extraordinários e singulares dos tempos modernos. Por vezes sério, frequentemente absurdo, mas sempre lúdico, o seu comentário perspicaz e muitas vezes mordaz sobre a sociedade de consumo tem sido motivo de controvérsia e discussão.

Hitpig - O Herói da Bicharada (2024)
Hitpig!
Num mundo futurista, Hitpig é um porco caçador de recompensas que apanha animais fugidos e os devolve aos donos. O seu maior trabalho até à data é devolver uma elefante bailarina chamada Pickles a um empresário de Las Vegas por um milhão de dólares. A missão rapidamente se torna uma aventura louca à volta do mundo, até Hitpig perceber finalmente que a maior recompensa não é capturar as coisas, mas libertá-las.

Marcel e Monsieur Pagnol (2025)
Marcel et Monsieur Pagnol
Em 1955, Marcel Pagnol, de 60 anos, é um aclamado dramaturgo e cineasta. Quando o chefe de redação da revista Elle encomenda uma coluna semanal sobre a infância de Pagnol, este vê nisso uma oportunidade para regressar às suas raízes artísticas: a escrita. Apercebendo-se de que a memória lhe está a falhar e profundamente afectado pelos resultados decepcionantes das suas duas últimas peças, Pagnol começa a duvidar da sua capacidade de prosseguir o trabalho. É então que o pequeno Marcel - o rapaz que ele costumava ser - lhe aparece como que por magia. Juntos, vão explorar a incrível vida de Marcel Pagnol e trazer de volta à vida os seus encontros e memórias mais queridas.

Memórias do Teatro da Cornucópia (2025)
Reputado emblema do teatro interventivo português, o rasgo da Cornucópia surgia na obscuridade fascista para combater no palco a ditadura. Entre os clássicos, nasce e morre um projecto, mas permanece icónico um rosto: Luís Miguel Cintra, que partilhou a sua arte com a permanente cumplicidade da cenógrafa Cristina Reis. Juntos, guiados por imagens, dão o seu testemunho contando esta História.

O Rapaz da Ilha de Amrum (2025)
Amrum
Ilha de Amrum, Primavera de 1945. Nos últimos dias da guerra, Nanning, de 12 anos, enfrenta o mar traiçoeiro para caçar focas, pesca à noite e trabalha na quinta vizinha para ajudar a mãe a alimentar a família. Apesar das dificuldades, a vida na bela ilha varrida pelo vento quase parece um paraíso. Quando a paz finalmente chega, revela-se uma ameaça mais profunda: o inimigo está muito mais perto do que ele imaginava.

Reféns na Ponte (2024)
Aftermath
Um antigo combatente que sofre de stress pós-traumático, fica encurralado com a irmã adolescente na ponte Tobin Memorial, em Boston, enquanto um grupo de ex-militares revolucionários fortemente armados toma toda a gente como refém.

Tudo Me Lembra de Ti (2026)
Reminders of Him
Após sair da prisão, Kenna (Maika Monroe) tenta retomar a relação com a filha, mas enfrenta a resistência de todos, exceto de um dono de bar. À medida que se aproximam, ela tenta encarar os erros do passado e construir um futuro promissor.

quarta-feira, 25 de março de 2026

Sugestão da Semana #710

Das estreias da passada Quinta-feira, a Sugestão da Semana destaca Projeto Hail Mary, de Phil Lord e Christopher Miller, protagonizado por Ryan Gosling.

PROJETO HAIL MARY


Ficha Técnica:
Título Original: Project Hail Mary
Realizadores: Phil Lord e Christopher Miller
Elenco: Ryan Gosling, Sandra Hüller, James Ortiz, Lionel Boyce, Ken Leung, Milana Vayntrub, Priya Kansara
Género: Aventura, Ficção Científica, Mistério
Classificação: M/12
Duração: 156 minutos

segunda-feira, 23 de março de 2026

Monstra 2026: Vencedores

Os filmes vencedores do Festival MONSTRA 2026 foram anunciados este Sábado, 21 de Março, no Cinema São Jorge, em Lisboa. Cão Sozinho, de Marta Reis Andrade, venceu o Grande Prémio Vasco Granja | SPA; Safo, de Rosana Urbes recebe Melhor Curta-metragem Internacional | UBBO; e A Pequena Amélie ou a Personagem da Chuva, de Maïlys Vallade e Liane-Cho Han, conquistou o Grande Prémio MONSTRA | RTP.

Cão Sozinho, de Marta Reis Andrade

A 25.ª edição do evento aconteceu de 12 a 22 de Março, no Cinema São Jorge, Cinemateca Portuguesa e e Cinema City Alvalade, em Lisboa.

Eis a lista completa de premiados da MONSTRA 2026:

COMPETIÇÃO NACIONAL

> Competição Portuguesa Vasco Granja

Grande Prémio Vasco Granja | SPA

Cão Sozinho, de Marta Reis Andrade (Portugal)


Prémio Especial do Júri

Sombras de Nós Próprios, de Pedro Serrazina (Portugal)


Prémio do Público

Porque Hoje é Sábado, de Alice Eça Guimarães (Portugal)


A Pequena Amélie ou a Personagem da Chuva, de Maïlys Vallade e Liane-Cho Han

COMPETIÇÃO INTERNACIONAL

> Competição Longas Metragens

Grande Prémio MONSTRA | RTP

A Pequena Amélie ou a Personagem da Chuva, de Maïlys Vallade, Liane-Cho Han (França)


Prémio Especial do Júri

Decorado, de Alberto Vázquez (Espanha, Portugal)


Prémio do Público

A Pequena Amélie ou a Personagem da Chuva, de Maïlys Vallade, Liane-Cho Han (França)


Menção Especial 

Uma História sobre Fogo, de Li Wenyu (China)


> Competição Médias Metragens

Grande Prémio MONSTRA | FILMIN

Inverno em Março, de Natalia Mirzoyan (Estónia, Arménia, França, Bélgica)

Ouvido de Cão, de Péter Vácz (Hungria)


Prémio do Público

Sulaimani, de Vinnie Ann Bose (França)


Menção Especial 

Luna Rossa, de Priit Pärn, Olga Pärn (Estónia, Fraça)

A Rapariga que chorou pérolas, de Chris Lavis, Maciek Szczerbowski (Canadá)

Safo, de Rosana Urbes 

> Competição Curtas Metragens

Grande Prémio MONSTRA | UBBO

Safo, de Rosana Urbes (Brasil)


Prémio Melhor Curta Portuguesa

Cão Sozinho, de Marta Reis Andrade (Portugal)


Prémio Especial do Júri

Desi Oon, de Suresh Eriyat (Índia)


Prémio do Público

Alimentar, Lavar & Amar, de Veronika Pasterná Szemlová (Chéquia)


Menção Especial

Radix, de Anne Breymann (Alemanha)

Impromptu, de Steven Subotnick (EUA)


> Competição Curtas Metragens de Estudantes

Grande Prémio MONSTRA

Eu e Tu e o Fumo, de Rachel Shiloach (Reino Unido)


Grande Prémio MONSTRA Júri Júnior

Amor de Esporos, de Kim Seungyean, Park Jeesun (Coreia do Sul)


Prémio Melhor Curta de Estudantes Portuguesa

Entre Pelos, de Feno Dias, Theo Quinhones, Lucas Serra (Portugal)


Prémio Melhor Curta de Estudantes Portuguesa Júri Júnior 

Peles Mortas, de NanTung Lin (Portugal, Taiwan, Bélgica, Finlândia)


Prémio do Público

A Dor da Existência, de Oscar Jacobson (Alemanha)


Menção Especial 

Adeus Ondas, de Ruihan YANG (Japão, China)


Menção Especial Júri Júnior

Judy 1964, de Marie-Hélène Van Thuyne (Bélgica)

Jardim Rossini, de William Burger, Siméon Jacob, Odelia Laine, Garance Mondamert, Tara Rewal, Arthur Wong, Mathilde Vergereau (França)


> Competição Curtíssimas

Grande Prémio MONSTRA | FNAC

Jogo do Telefone, de Laura Boráros (Chéquia)


Prémio Melhor Curtíssima Portuguesa 

Beak Quiet, de Gonçalo Dias (Portugal)


Menção Especial 

O Beijo da Minhoca Biakosta, de Chila Mochila (Portugal)


> Competição Perspetivas

Prémio Perspectivas Longas 

Link Click: Bridon Arc, de Haolin Li (China, Coreia do Sul)


Prémio Perspectivas Curtas 

Cinema Mudo, de Krste Gospodinovski (Macedónia do Norte)

 

> Competição MONSTRINHA

Grande Prémio MONSTRINHA | Electrão

A Ursa e o Pássaro, de Marie Caudry (França)


Prémio Especial do Júri

E Assim Seria Linda, de Mathilde George (França)


Prémio do Público Escolas

Uma dor no Rabo, de Elena Walf (Croácia, Alemanha)


Prémio do Público Geração M

Bordeira - Zé, de Francisco Valle (Portugal)


Prémio do Público Pais e Filhos

Sonho de Voar, de Elena Walf (Croácia, Alemanha)


Todas as informações sobre a MONSTRA em https://www.monstrafestival.com/pt/.