sexta-feira, 2 de janeiro de 2026

Cinemateca abre 2026 com ciclo de homenagem aos projecionistas e à sala escura

A Cinemateca Portuguesa começa 2026 com o Ciclo Uma Cinemateca em Chamas – História de Projeção e Projecionistas. Ao longo do mês de Janeiro, os projeccionistas, a sala escura e a película são os homenageados.

O ciclo é composto por mais de 60 filmes, em sessões que enaltecem a experiência física de se ver cinema e de se viver em contacto com os "filmes enquanto filmes". As obras escolhidas são muito diversificadas, de diferentes períodos e latitudes, "sobre cinemas, sobre idas ao cinema, sobre adormecer no cinema ou ficar zangado no cinema, sobre se apaixonar no (e pelo) cinema, sobre os 'perigos' e os 'benefícios' dos filmes, sobre os erros e os acertos da projecção, sobre o seu efeito hipnótico, sobre a projecção enquanto evento e enquanto performance, sobre a cabine como espaço de reclusão, como espaço de protecção, espaço de caos, de perturbação e de transformação e, também, sobre o filme enquanto objecto, enquanto testemunho material de uma ocorrência, enquanto memória, enquanto assombração e celebração do que foi ou do que poderia ter sido", refere a Cinemateca Portuguesa, em comunicado.

Uma Cinemateca em Chamas – História de Projeção e Projecionistas será a oportunidade de ver alguns títulos que passam pela primeira ver e, fundamentalmente,  "para se (re)descobrir grandes filmes projectados nos seus suportes de origem: de THE PURPLE ROSE OF CAIRO (em 35 mm), de Woody Allen, a THE FLICKER (em 16 mm), de Tony Conrad; da sessão dupla do realizador experimental (e projeccionista da Filmmaker’s Cinematheque criada por Jonas Mekas) Jerome Hiller à sessão Grindhouse (em 35 mm) de PLANET TERROR e DEATH PROOF, respectivamente, de Robert Rodriguez e de Quentin Tarantino; de uma sessão dupla em que um dos maiores directores de fotografia do cinema português, Acácio de Almeida, homenageia a matéria-prima do cinema, a luz, até aos dois GREMLINS, de Joe Dante (também em 35 mm); do compêndio de suportes que é WE CAN’T GO HOME AGAIN, de Nicholas Ray, rodado em 35 mm, 16 mm, Super 8 e  vídeo, ao regresso das três dimensões à M. Félix Ribeiro com CAVALCADE – 3D, de David Crosswaite, e DIAL M FOR MURDER – 3D, de Alfred Hitchcock", entre outros.

Estará ainda patente a exposição O Regresso do Cometa Halley – histórias de projeção e projecionistas, baseada nas colecções da Cinemateca, que ocupará vários espaços do edifício da Rua Barata Salgueiro, e haverá uma sessão em que a película é rainha, em que se instalarão quatro projectores diferentes (de 8 mm, 9.5 mm, 16 mm e 35 mm) na Sala M. Félix Ribeiro. O chefe da cabine José Martins irá, ao longo da sessão, explicar as diferenças entre os diferentes formatos, projectando pequenos filmes em cada um dos aparelhos. Reserva-se ainda uma Carta Branca muito especial a oito projeccionistas da Cinemateca, um Ciclo dentro do Ciclo, que espelha preferências pessoais, memórias e experiências marcantes vividas na sala escura.

O programa completo de Uma Cinemateca em Chamas – História de Projeção e Projecionistas está disponível em https://www.cinemateca.pt/CinematecaSite/media/Documentos/janeiro-26.pdf.

Estreias da Semana #699

Esta Quinta-feira, 1 de Janeiro de 2026, chegaram aos cinemas as primeiras estreias do ano. São quatro os novos filmes em sala. A Criada e Miroirs No. 3 são dois dos filmes em destaque.

A Criada (2025)
The Housemaid
Millie é uma mulher lutadora e feliz por recomeçar a vida como empregada doméstica de Nina e Andrew, um casal rico. No entanto, logo percebe que os segredos da família são mais perigosos do que os seus.

A Hora Silenciosa (2024)
The Silent Hour
O detective Frank Shaw (Joel Kinnaman) volta ao serviço após uma lesão que o deixa com surdez permanente. Incumbido de ser o intérprete em língua gestual de Ava Fremont (Sandra Mae Frank), a mulher surda que testemunhou um homicídio brutal da parte de um gangue, dá consigo encurralado num prédio de apartamentos prestes a ser demolido quando os assassinos voltam para eliminar a testemunha. Isolados do mundo e sem conseguirem ouvir quem os persegue, Frank e Ava só contam um com o outro para sobreviver.

Miroirs No. 3 (2025)
Numa viagem de fim-de-semana ao campo, Laura (Paula Beer) sobrevive milagrosamente a um acidente de viação. Fisicamente ilesa, mas profundamente abalada, é acolhida por uma mulher que testemunhou o acidente e que passa a cuidar de Laura com devoção maternal. Quando o marido e o filho adulto desistem da resistência inicial à presença de Laura, os quatro constroem lentamente uma rotina familiar. Contudo, em breve não vão conseguir ignorar o passado.

Os Enforcados (2025)
Regina e Valério são um casal feliz que desfruta da sua fortuna a partir da luxuosa vivenda no topo das colinas do Rio de Janeiro. Desde a morte do pai de Valério, o maior mafioso da cidade, procura desesperadamente uma saída. O tio de Valério, Linduarte, insiste em que ele assuma as suas responsabilidades. Uma noite, ao tentar chamar Linduarte à razão, o casal mata-o acidentalmente. Caem então numa espiral de violência que os conduz ao mesmo caminho de que queriam escapar.

quarta-feira, 31 de dezembro de 2025

Crítica: Foi Só Um Acidente / It Was Just an Accident / Yek tasadef sadeh (2025)

*9/10*


Desde que foi condenado, em 2010, a seis anos de prisão e a uma proibição de 20 anos de exercer actividades cinematográficas, que a filmografia de Jafar Panahi espelha o seu estado de espírito - e cresce a olhos vistos. Em 2011, Isto Não É um Filme foi uma leve provocação à sentença que lhe calhou, e retratava o cineasta em prisão domiciliária, na companhia da sua iguana de estimação, e do realizador Mojtaba Mirtahmasb. Juntos, pretendiam mostrar o poder do cinema contra a repressão e liberdade de expressão. Em 2013, Closed Curtain foi uma espécie de grito de desespero de Panahi, um murro no estômago também para o público. Em Taxi (2015), começaram as suas "aventuras" pelas ruas de Teerão numa docuficção onde Panahi interpreta um taxista. Já Três Rostos e Ursos Não Há são duas incursões noutros territórios, com o realizador a interpretar-se a si mesmo na acção. 


Foi Só Um Acidente é filmado depois de, em 2022, as autoridades iranianas terem voltado a prender Jafar Panahi durante sete meses, até este ter feito uma greve de fome e pago uma caução. A revolta está espelhada na longa-metragem, criada a partir de várias conversas com outros reclusos do regime iraniano, e que se revela bastante diferente das suas antecessoras. 

"Eghbal viaja de carro com a mulher grávida quando atropela e mata um cão. Encalhado na estrada, procura ajuda na garagem de Vahid, sem saber que o seu salvador acredita que é ele o agente prisional que o torturou."

O pânico que toma conta de Vahid ao reconhecer a voz e os passos de Eghbal rapidamente se transforma num insaciável desejo de vingança: mas sem nunca lhe ter visto a cara durante o tempo em que esteve preso, as dúvidas começam a assolá-lo. E é a partir daí que se entra numa espécie de road movie rumo à mais justa vingança possível. E eis que entram em cena outros antigos presos políticos, submetidos a torturas arrepiantes pela mão do mesmo homem. Pagar na mesma moeda a quem lhes arruinou a vida pode não ser a decisão mais ética, mas aqui o que importa é não se vingarem do homem errado.


O conflito moral é o motor de Foi Só Um Acidente e Jafar Panahi sabe como adensá-lo até ao extremo, desde logo ao começar por humanizar o possível torturador na primeira cena, mostrando a sua família: uma filha pequena e a mulher grávida.

Este é, sem dúvida, o filme mais violento do realizador iraniano. Pouco gráfico, mas muito agressivo nas palavras e ideias. Os horrores relembrados pelos antigos presos políticos, representados pelos vários actores, e todas as formas de exteriorizar a raiva e o ódio que sentem são uma arma para desafiar o sistema doentio onde sobrevivem.


Filmado em segredo, a grande maioria das cenas de Foi Só Um Acidente são rodadas em zonas isoladas ou de dentro da carrinha - ela própria testemunha de todos os pecados ou arrependimentos das personagens. Este secretismo estende-se da realidade à ficção, e a tensão passa para o outro lado do ecrã, que assiste também impassível a todas as injustiças cometidas pelo regime iraniano.


E no meio deste drama violento, há momentos de humor que não fazem desaparecer a aura pesada de Foi Só Um Acidente, mas recordam que continua a ser Panahi atrás da câmara. Sente-se brutalmente a sua revolta e desilusão com o país que ama, mas é sempre o seu coração pacificador a tomar as rédeas. Uma lição de vida para todos que o assistam.

domingo, 28 de dezembro de 2025

Sugestão da Semana #698

Das estreias da passada semana, a Sugestão da Semana destaca a reposição do filme de 2010, Incendies - A Mulher Que Canta, de Denis Villeneuve, num restauro 4K, em jeito de comemoração do 15.º aniversário da sua estreia.

INCENDIES - A MULHER QUE CANTA


Ficha Técnica:
Título Original: Incendies
Realizador: Denis Villeneuve
Elenco: Lubna Azabal, Mélissa Désormeaux-Poulin, Maxim Gaudette, Rémy Girard, Allen Altman, Abdelghafour Elaaziz, Dominique Briand
Género: Drama, Guerra, Mistério
Classificação: M/16
Duração: 131 minutos



quinta-feira, 25 de dezembro de 2025

Estreias da Semana #698

Na semana do Natal, os filmes chegaram às salas de cinema portuguesas na véspera e antevéspera do feriado. Há quatro estreias a encerrar 2025. A elas junta-se a reposição de Incendies - A Mulher Que Canta (2010), de Denis Villeneuve.

Anaconda (2025)
Um grupo de artistas de circo, a caminho do que pensam ser o local de um novo espectáculo, fica preso numa exuberante floresta tropical após o barco em que seguiam ser destruído por uma anaconda. Cruzam-se com um caçador furtivo que está a caçar que pretende usá-los como isco suficiente para a apanhar. Mas como artistas de circo, os sobreviventes têm alguns truques na manga.

Outro (2025)
O.T.H.E.R.
Alice, que regressa relutantemente ao lar da sua infância após a morte súbita da sua mãe, descobre que a casa - assustadoramente congelada no tempo - esconde um segredo sinistro: um sistema de vigilância de alta tecnologia segue todos os seus movimentos e uma presença sombria espreita nas sombras.

Shelby Oaks (2025)
Uma equipa de investigadores paranormais descobre o legado sombrio da sua investigação quando Mia descobre perturbadoras pistas relacionadas com o desaparecimento da sua irmã Riley, há 12 anos.

Spongebob o Filme: À Procura das Calças Quadradas (2025)
The SpongeBob Movie: Search for SquarePants
Desejoso de provar que é um verdadeiro herói, SpongeBob parte numa aventura para demonstrar a sua coragem a Mr. Krabs seguindo O Holandês Voador, um misterioso e aventureiro pirata fantasma numa comédia marítima que o leva às profundezas do oceano, onde nenhuma esponja jamais esteve.

terça-feira, 23 de dezembro de 2025

Sugestão da Semana #697

Das estreias da passada Quinta-feira, a Sugestão da Semana destaca Nouvelle Vague, de Richard Linklater.

NOUVELLE VAGUE


Ficha Técnica:
Título Original: Nouvelle Vague
Realizador: Richard Linklater
Elenco: Zoey Deutch, Alix Bénézech, Paolo Luka Noé, Guillaume Marbeck, Tom Novembre, Aubry Dullin, Jade Phan-Gia
Género: Comédia, Drama, História
Classificação: M/12
Duração: 106 minutos