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domingo, 12 de março de 2023

Sugestão da Semana #551

Das estreias da passada Quinta-feira, a Sugestão da Semana destaca A Voz das Mulheres, de Sarah Polley. O filme já tem crítica no Hoje Vi(vi) um Filme.

A VOZ DAS MULHERES


Ficha Técnica:
Título Original: Women Talking
Realizadora: Sarah Polley
Elenco: Rooney Mara, Claire Foy, Jessie Buckley, Ben Whishaw, Judith Ivey, Sheila McCarthy, Michelle McLeod, Kate Hallett, Liv McNeil, August Winter
Género: Drama
Classificação: M/14
Duração: 104 minutos

quinta-feira, 9 de março de 2023

Crítica: A Voz das Mulheres / Women Talking (2022)

"Hope for the unknown is good. It is better than hatred of the familiar."

Ona

*8/10*

Em A Voz das Mulheres (Women Talking, no original), Sarah Polley criou um filme sobre o empoderamento feminino contra uma comunidade violenta e patriarcal. É inevitável vê-lo sem lembrar 12 Homens em Fúria, de Sidney Lumet. Só que, neste caso, a decisão de uma vida está nas mãos das Mulheres, as vítimas, reunidas num palheiro.

"Baseado no romance best-seller de Miriam Toews, A Voz das Mulheres retrata um grupo de mulheres que se encontram numa colónia religiosa isolada, enquanto lutam para reconciliar a sua fé com uma série de agressões sexuais cometidas pelos homens da colónia."

Sem luz eléctrica ou telefone, drogadas e violentadas anos a fio, privadas de aprender a ler ou escrever, tomadas como loucas, eis que chegou o dia em que a máscara dos homens começa a cair. Enquanto eles vão à polícia local, elas reúnem-se para decidir o que fazer a seguir: ficar e não fazer nada; ficar e lutar; ou ir embora da comunidade.

Estas mulheres podem não saber ler ou escrever mas são capazes de votar e de se unir para tomar uma decisão importante, esgrimindo argumentos a favor ou contra cada uma das opções. A Voz das Mulheres é a conquista deste empoderamento e da liberdade de escolha, mesmo no seio de uma comunidade patriarcal conservadora e extremamente religiosa.

A câmara de Polley envolve a plateia como parte da decisão, partilhando o espaço no palheiro, fitando, de rosto em rosto, quem apresenta os seus argumentos ou exprime emoções - ou apresentando, em flashbacks, o abuso que cada uma sofreu -, mas percorre igualmente os campos em volta e entra nas casas das protagonistas. A realizadora cria um ambiente de partilha de um segredo.

Neste filme, muito mais que as imagens, as palavras são tudo e também quem as diz: um elenco de mulheres talentosas, onde se destacam Claire Foy, Jesse BuckleySheila McCarthy.

Direcção artística e guarda-roupa cumprem bem o seu papel na representação de uma comunidade parada no espaço e no tempo, a par da discreta banda sonora, também da autoria de uma mulher, Hildur Guðnadóttir.

De tranças entrelaçadas ou de mãos dadas, partilham-se dilemas e o medo do desconhecido, mas todas sabem que urge tomar uma decisão. A Voz das Mulheres é todo sobre o futuro e uma intensa lição de união.

sexta-feira, 31 de julho de 2020

Crítica: A Flor da Felicidade / Little Joe (2019)

*7/10*



A Flor da Felicidade, de Jessica Hausner, conduz-nos a uma experiência essencialmente estética, onde o terror psicológico nos faz balançar entre a paranóia e os efeitos secundários de uma experiência científica. O egoísmo inerente à busca incessante pela felicidade pode fazer com que a Natureza, criada em laboratório, se queira vingar...

Nos tempos que correm, ver o filme de Jessica Hausner transporta-nos para um ambiente tão familiar que torna a experiência ainda mais assustadora. As personagens usam máscara e conversam sobre uma possível infecção viral. Querem ficção mais actual e assustadora?


Alice (Emily Beecham) é uma fitóloga experiente, que trabalha numa empresa especializada no desenvolvimento de novas espécies de plantas, onde criou uma flor muito particular, com um vermelho intenso, notável pela sua beleza e benefícios terapêuticos. Se for conservada à temperatura adequada, bem alimentada e se falarmos com ela regularmente, a planta deixa o seu dono feliz. Alice quebra o regulamento da empresa ao oferecer uma destas flores ao seu filho adolescente, Joe. Juntos, dão-lhe o nome Pequeno Joe (Little Joe). Mas, à medida que a planta cresce, Alice é inundada por dúvidas quanto à sua criação: talvez esta planta não seja tão inofensiva como o nome sugere.

A realizadora criou um filme repleto de influências, mas que assume uma personalidade muito própria, não apenas na abordagem temática, como em termos visuais e estéticos. O ambiente de A Flor da Felicidade é quase tão estéril como Little Joe, desde o visual milimetricamente filmado e iluminado - excelente trabalho do director de fotografia Martin Gschlacht, que valoriza as cores garridas no branco glaciar do laboratório ou a luz néon em casa de Alice, criando uma atmosfera quase extra-terrestre -, à frieza de sentimentos das personagens. 

O terror que paira em redor da vida de Alice, com desconfianças e inseguranças a minar e a fazê-la duvidar da sua competência enquanto cientista, vê-se adensado pela fabulosa e aterradora banda sonora do compositor japonês Teiji Ito. Eis mais um elemento certeiro e angustiante de A Flor da Felicidade, espalhando o pólen do suspense e da estranheza para lá do ecrã.


Para além de todas as questões éticas que uma experiência destas pode levantar, a dúvida que persiste está entre os poderes malignos de uma flor (eis um vilão criado pelo Homem ou é ele o próprio Homem?) e a preocupação maternal levada ao extremo de um esgotamento emocional. De destacar que as personagens que mais receiam os efeitos nefastos de Little Joe são mulheres, elas próprias as mais difíceis de convencer.

Apesar de, a certo momento, tudo se tornar algo previsível, Jessica Hausner revela maturidade e destreza ao levar para o grande ecrã um filme que eleva da sua personalidade enquanto cineasta. É capaz de provocar uma desconfortável estranheza na plateia, mas igualmente um encantamento, qual perfume da flor da felicidade, que não nos deixar tirar os olhos da acção.

segunda-feira, 24 de dezembro de 2018

Sugestão da Semana #356

Das estreias da passada Quinta-feira, a Sugestão da Semana destaca O Regresso de Mary Poppins. Querem melhor filme para o Natal?

O REGRESSO DE MARY POPPINS


Ficha Técnica:
Título Original: Mary Poppins Returns
Realizador: Rob Marshall
Actores: Emily Blunt, Lin-Manuel Miranda, Ben Whishaw, Meryl Streep, Emily Mortimer, Colin Firth, Julie Walters, Dick Van Dyke, Angela Lansbury
Género: Comédia, Família, Fantasia
Classificação: M/6
Duração: 130 minutos

domingo, 22 de maio de 2016

Sugestão da Semana #221

Das estreias da passada Quinta-feira, o Hoje Vi(vi) um Filme destaca A Lagosta como Sugestão da Semana. O mais recente filme do realizador grego Yorgos Lanthimos conta com Colin Farrell, Rachel WeiszLéa Seydoux, Ben Whishaw e John C. Reilly no elenco. A crítica pode ser lida aqui.

A LAGOSTA


Ficha Técnica:
Título Original: The Lobster
Realizador: Yorgos Lanthimos 
Actores: Colin FarrellRachel WeiszLéa SeydouxBen WhishawJohn C. Reilly, Jessica BardenAriane LabedAngeliki Papoulia
Género: Comédia, Drama, Romance
Classificação: M/16
Duração: 118 minutos

terça-feira, 3 de maio de 2016

Crítica: A Lagosta / The Lobster (2015)

"If you encounter any problems you cannot resolve yourselves, you will be assigned children, that usually works."
Hotel Manager
*9/10*

A imaginação macabra e cruelmente surrealista - e futurista - de Yorgos Lanthimos continua aguçada e provocadora. Não tão dura como Canino, mas igualmente incómoda e frontal, A Lagosta (The Lobster), a última longa-metragem do realizador grego, vem mostrar-nos o quão egoístas e egocêntricos somos, no fundo.

Num futuro distópico não tão distante quanto isso, todos os solteiros, de acordo com as leis da Cidade, são levados para o Hotel, onde se vêem obrigados a encontrar um par romântico em 45 dias. Caso contrário, serão transformados num animal à escolha e libertados na floresta.

Uma história de amores por necessidade, ou vice-versa. Dentro ou fora do Hotel, nada parece simples. Nas suas críticas à humanidade, Lanthimos não teme nenhuma temática e apresenta-nos argumentos geniais. A Lagosta é tão poético como demente, tão sentimental como impiedoso. Nem a mais frágil das personagens é inocente.


Numa primeira metade mais entusiasmante, onde percebemos o desumano modo de funcionamento do Hotel, A Lagosta continua, ligeiramente menos surpreendente, mas Lanthimos não deixa o seu filme perder o fulgor ao entrar na floresta e continua a surpreender pelas novas regras, paradoxais, mas não menos inacreditáveis que as anteriores.

O realizador filma este ambiente repressivo na sua singularidade tão sarcástica como lírica. Um amor de aparências, de cinismo e falsidade. Com planos provocadores e irónicos ou usando a câmara lenta para aumentar a adrenalina das caçadas de solteiros fugitivos, por exemplo, Lanthimos não descura nenhum aspecto.


No elenco, Colin Farrell surpreende como o protagonista David, ele que, se falhar, quer transformar-se na lagosta que dá título ao filme, "porque as lagostas vivem mais de cem anos, têm sangue azul como os aristocratas e são férteis toda a vida. Eu também gosto muito do mar." Frágil, desesperado, tímido, ele é mais uma peça deste jogo em que todos desejam o mesmo: continuar a sua vida como humanos. Rachel Weisz parece-nos a mulher ideal neste filme tão surreal. Doce, decidida e apaixonada, transparece uma fragilidade muito natural. Por seu lado, Léa Seydoux é a impiedosa líder da resistência de solteiros, uma ditadora que faz frente à também ditadura do Hotel. Ainda de destacar são as interpretações de Ben WhishawJohn C. Reilly e das gregas Angeliki Papoulia (Canino), a mulher sem coração, e Ariane Labed (Attenberg), a empregada do Hotel, muito dedicada àquilo em que acredita.

Conquistou o Prémio do Júri em Cannes e chegou para nos deixar sem palavras. Tão inacreditável, mas, ao mesmo tempo, tão plausível. Uma denúncia ao egoísmo e à crueldade dos Homens, num Mundo onde nos fazem acreditar que não se pode viver sem um parceiro, custe o que custar.

quinta-feira, 10 de dezembro de 2015

Crítica: No Coração do Mar / In the Heart of the Sea (2015)

"The tragedy of the Essex is the story of men. And a Demon."
Thomas Nickerson
*5/10*

Essencialmente visual, assim é o mais recente filme de Ron Howard, No Coração do Mar. A longa-metragem tem apenas a função de contar uma história verídica e serve-se do facto desta ter inspirado Herman Melville para escrever Moby Dick como factor catalisador de atenções. O marketing a funcionar.

O problema é que pouco mais funciona tão bem. Howard apoia o seu filme essencialmente nos efeitos visuais e em todo esse espectáculo que distrai ligeiramente do argumento, tão mal suportado. Uma história verídica nem sempre é sucesso garantido, precisa ser bem narrada, bem explorada. As baleias não podem fazer todo o trabalho. Realizador e argumentista deveriam ter feito melhor.

Baseado no livro de Nathaniel Philbrick sobre a verdadeira e dramática viagem do navio baleeiro Essex, No Coração do Mar leva-nos a 1820. O navio é atacado por uma baleia gigante. Com a tripulação a ser levada ao limite e forçada a fazer o impensável para sobreviver, enfrentando tempestades, fome, pânico e o desespero, os homens vão colocar em causa a suas crenças mais profundas, desde o valor real das suas vidas à moralidade do seu ofício. Nesta histórica viagem, o capitão (Benjamin Walker) procura uma saída no mar imenso e o imediato Owen Chase (Chris Hemsworth) uma maneira de destruir a gigantesca baleia.


O questionar de valores, o desespero que coloca os instintos mais primitivos à frente do socialmente aceite, e mesmo o dilema moral - afinal, será mesmo a baleia a má da fita? - não são explorados na sua plenitude e o clímax nunca é atingido. As personagens têm pouca personalidade, à excepção de Owen Chase e do jovem Thomas Nickerson (Tom Holland novamente a dar nas vistas depois de O Impossível) - eles são realmente os únicos que nos farão continuar a ter interesse em No Coração do Mar. O mais velho é o modelo de homem que o mais novo quer seguir, na coragem, determinação e na forma como nunca desiste. Cillian Murphy como Matthew Joy, companheiro e amigo de Chase, também merece destaque.

O filme alterna entre dois tempos: a acção em alto mar, nesta luta contra as baleias, é-nos apresentada ao mesmo tempo que Melville (Ben Whishaw) vai descobrindo os detalhes desta história, contada pelo único sobrevivente ainda vivo, Tom Nickerson (Brendan Gleeson). A montagem alterna entre estes dois momentos espacio-temporais e o ritmo é bem conseguido, contrabalançando a luta da tripulação contra a força da Natureza, em 1820, e a nostalgia, a dor de recordar, as emoções, enquanto Nickerson relata os acontecimentos.


Mas, afinal, o protagonismo de No Coração do Mar vai todo para os efeitos visuais, muito bem concretizados, é verdade, mas que roubam o brilho e o interesse às personagens e história - aqui é que deveriam estar as atenções. O 3D (Imax ou não) atordoa e desfocaliza ainda mais a atenção da plateia, quase anestesiada pela componente visual, onde ondas e baleias gigantes, querem transpor o ecrã da sala de cinema e deixar lá os marinheiros pouco empáticos.

Moby Dick merecia mais e o público também.

domingo, 16 de junho de 2013

Ads & Cinema #4

A Prada escolheu três actores de Hollywood para protagonizar a sua mais recente campanha masculina para o Outono/Inverno 2013. Christoph Waltz, Ben Whishaw e Ezra Miller foram fotografados pelo fotógrafo britânico David Sims. O resultado é simples, sóbrio e muito elegante, lembrando os anos 60 e o cinema da Nouvelle Vague.

Aqui fica o resultado da campanha publicitária, bem como um vídeo de bastidores:






sexta-feira, 7 de dezembro de 2012

Crítica: Cloud Atlas (2012)

"I believe there is a another world waiting for us, Sixsmith. A better world. And I'll be waiting for you there. "

Robert Frobisher
*6.5/10*
Os realizadores da trilogia Matrix, Andy e Lana Wachowski, aliaram-se a Tom Tykwer e prometiam vir revolucionar o cinema deste ano. Cloud Atlas, que liga personagens do passado, presente e futuro, revelou-se, afinal, um filme pouco mais do que razoável, com um elenco de luxo, sim, mas sem nada que o torne especial ou o faça destacar-se.
Um emaranhado de histórias pouco criativas, de onde pouco se extrai, Cloud Atlas ambicionou ser muito mais do que o que conseguiria alcançar. Dos seis casos que nos são expostos, destacam-se pela positiva dois ou três; visualmente, há bons momentos, mas como um todo, os irmãos Wachowski e Tykwer não conseguem impressionar e, muito menos, demarcar-se do que já foi feito.

Tendo por base o livro de David Mitchell, em Cloud Atlas as personagens conhecem-se e voltam a reunir-se de uma vida para a próxima. Nascem e renascem. Acções e escolhas individuais têm consequências e impacto entre si quer no passado, presente ou futuro. Uma alma é moldada, de assassino a herói, e um simples acto de bondade tem repercussões ao longo de séculos, tornando-se na inspiração de uma revolução.

As boas intenções dos realizadores parecem estar espelhadas na sinopse. Elas existem, mas faltou maior dedicação para atingir o patamar a que se propuseram. As próprias personagens surgem quase como épicas, mas no desenrolar do filme percebemos que não têm muito conteúdo.

Cada actor divide-se por uma multiplicidade de personagens, que vivem em tempos distantes. Todos eles têm alguma relação com os restantes, as acções de uns têm repercussões na vida e no mundo dos outros. Certo é que a continuidade de história para história está extremamente bem conseguida e o trabalho de montagem merece elogios. No que toca ao argumento, Cloud Atlas peca pelo vazio da mensagem que pretende transmitir. Das seis histórias, apenas metade se destaca por algum motivo, ou acrescentam algo ao todo.
É a história do compositor interpretado por Ben Whishaw que conquista a atenção e demonstra maior originalidade e qualidade. É ela a chave do filme, através da Cloud Atlas Sextet, que funciona como uma metáfora de toda a longa-metragem com as suas seis narrativas. É nestas cenas que o espectador consegue sentir-se envolvido no que vê, criando laços com o seu protagonista, que pode ser visto como o verdadeiro criador de Cloud Atlas. De destacar, também é a narrativa futurista, onde o amor e os direitos humanos estão em jogo. Por último, protagonizado por Jim Broadbent, o caso do editor livreiro que se vê internado num lar de idosos proporciona talvez dos momentos mais divertidos da longa-metragem.

Cloud Atlas ganha muito na excelente caracterização das personagens, tornando os actores por vezes irreconhecíveis. A nível visual, a direcção de fotografia faz um bom trabalho, a par da realização, e os efeitos especiais estão bem conseguidos.

O elenco é outro ponto de interesse do filme. Tom Hanks lidera as interpretações, na pele de uma grande diversidade de personagens, desde um pastor protector da família, a um escritor endiabrado, ou um médico ganancioso, por exemplo. Ben Whishaw prova mais uma vez o seu talento, com uma discreta mas importante participação, na pele de Robert Frobisher, personagem com pequenos pormenores que a tornam cativante e essencial. O veterano Jim Broadbent oferece-nos agradáveis interpretações em todas as personagens que encarna, em especial duas delas: o compositor Vyvyan Ayrs e o editor Timothy Cavendish. Outros nomes a realçar no elenco são Jim Sturgess, Hugo Weaving, Halle Berry ou Doona Bae.

Cloud Atlas assemelha-se a um sonho, confuso, com muitas personagens e histórias cruzadas, mas está longe de ser um filme inesquecível. Andy e Lana Wachowski e Tom Tykwer queriam chegar às nuvens mas pouco fizeram por levantar os pés do chão.