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terça-feira, 9 de julho de 2024

Sugestão da Semana #621

Das estreias da passada Quinta-feira, a Sugestão da Semana destaca Histórias de Bondade. o novo filme de Yorgos Lanthimos.

HISTÓRIAS DE BONDADE


Ficha Técnica:
Título Original: Kinds of Kindness
Realizador: Yorgos Lanthimos
Elenco: Emma Stone, Jesse Plemons, Willem Dafoe, Margaret Qualley, Hong Chau, Joe Alwyn, Mamoudou Athie, Hunter Schafer
Género: Comédia, Drama
Classificação: M/16
Duração: 164 minutos

domingo, 10 de março de 2024

Crítica: Pobres Criaturas / Poor Things (2023)

"I have adventured it and found nothing but sugar and violence."
Bella Baxter


*8.5/10*


O arrojo de Yorgos Lanthimos não é para todos os gostos. Os seus filmes podem provocar um contraditório misto de sensações e sentimentos: admiração, repulsa, descrença ou fascínio. Pobres Criaturas segue a mesma linha do choque e sordidez, habituais no realizador, enquanto consegue ser um admirável conto sobre a emancipação feminina (mesmo que tudo possa ter começado pela ambição desmedida de um homem).

Pobres Criaturas acompanha "a fantástica evolução de Bella Baxter (Emma Stone), uma mulher ressuscitada pelo brilhante e heterodoxo médico Godwin Baxter (Willem Dafoe). Sob a protecção de Baxter, Bella quer aprender. Sedenta por conhecer o mundo, foge com Duncan Wedderburn (Mark Ruffalo), um advogado elegante e debochado, numa aventura vertiginosa. Livre dos preconceitos do seu tempo, Bella cresce firme no propósito de defender a igualdade e a libertação".


Eis uma protagonista apaixonante que cresce (não só literal, como intelectualmente) ao longo das quase duas horas e meia de filme. Bebé, criança, adolescente e adulta. A maturidade conquista-se fora de casa mas, ainda enclausurada, Bella já mostra a sua genica e rebeldia.

Mas Bella solta as amarras, procura a independência fora de portas - com paragens em Lisboa, Alexandria e Paris -, e entre diversas relações abusivas, ela faz escolhas, independentemente da vontade dos outros. Depois de descobrir a sexualidade, Bella luta e vai conquistando a sua liberdade e identidade individual. Cruza-se com personagens que lhe enriquecem o pensamento - e que delícia são os (poucos) momentos que passa com Martha (Hanna Schygulla) e Harry (Jerrod Carmichael), que conhece durante a viagem de navio - e é visível como a ingenuidade inicial se vai dissipando. A chegada a Paris leva-a ao seu momento mais decadente e humilhante, mas aprende depressa a definir regras no meio da degradação que, no fundo, se torna em apenas mais uma escolha.


Se Pobres Criaturas funciona tão bem, muito se deve à extraordinária ligação entre Emma Stone e Yorgos Lanthimos. A actriz encarna a evolução da personagem com total confiança no realizador. Expõe-se física e emocionalmente, experimenta emoções, movimentos e trejeitos incomuns, transfigura-se e supera todas as provas com distinção. O talento de Stone revela-se na sua plenitude na pele de Bella. E, apesar do principal pecado de Lanthimos ser não saber quando parar e estender-se em devaneios que nada acrescentam, certo é que a protagonista é tão viciante que se poderia continuar a acompanhá-la meses a fio - quem sabe numa série sobre ela?


Esteticamente irrepreensível - e filmado em película -, direcção artística, caracterização, guarda-roupa e fotografia criam um imaginário antiquado-futurista, entre sonho e realidade - mais onírico que realista, efectivamente. Uma realidade, em muitos momentos, surrealista, repleta de elementos cómicos e incómodos - muitos deles fruto das invenções de Godwin Baxter, uma espécie de Dr. Victor Frankenstein ao estilo de Lanthimos -, bem como dramáticos, tudo tão bem conduzido pela provocadora banda sonora, de Jerskin Fendrix.

Destaque para a utilização da lente "olho de peixe" - que Lanthimos tem tornado sua imagem de marca - e a alternância do preto e branco inicial, correspondente aos primeiros tempos da vida de Bella no ambiente controlado da casa de Godwin, passando o filme a ser a cores assim que Bella foge com Duncan, rumo ao desconhecido.


E, se há personagens misóginas, Pobres Criaturas faz-lhes frente e revela ser o seu contrário: é sobre empoderamento feminino, sobre uma Mulher à procura do seu lugar no mundo - e a encontrá-lo.

segunda-feira, 29 de janeiro de 2024

Sugestão da Semana #598

Das estreias da passada Quinta-feira, a Sugestão da Semana destaca Pobres Criaturas, de Yorgos Lanthimos, protagonizado por Emma Stone.

POBRES CRIATURAS


Ficha Técnica:
Título Original: Poor Things
Realizador: Yorgos Lanthimos
Elenco: Emma Stone, Mark Ruffalo, Willem Dafoe, Ramy Youssef, Jerrod Carmichael, Margaret Qualley, Christopher Abbott, Damien Bonnard
Género: Comédia, Drama, Romance
Classificação: M/16
Duração: 141 minutos

quarta-feira, 8 de novembro de 2023

LEFFEST 2023 acontece de 10 a 19 de Novembro e já tem programa fechado

O LEFFEST - Lisboa Film Festival acontece de 10 a 19 de Novembro no Teatro Tivoli BBVA, Cinema Medeia Nimas, Cine-Teatro Turim, Academia das Ciências de Lisboa, Palácio Sinel de Cordes, Galeria Imago Lisboa e Centro Cultural da Malaposta.

Protagonizado por Emma Stone, Pobres Criaturas (Poor Things), de Yorgos Lanthimos, é o Filme de Abertura do festival, no dia 10 de Novembro, às 18h00, no Teatro Tivoli BBVA.

O júri desta edição será presidido pelo realizador palestiniano Elia Suleiman, acompanhado pelo realizador e fotógrafo Khalik Allah, a actriz e realizadora Fanny Ardant, o escritor Giorgi Gospodinov, o músico e compositor Nitin Sawhney, a escritora Rachel Kushner e a artista Adriana Molder.

Na Selecção Oficial - Em Competição, estão na corrida dez filmes: Cerrar los ojos – Close your Eyes, de Victor Erice (Espanha, Argentina, 2023), Creatura, de Elena Martín Gimeno (Espanha, 2023), Do not Expect too Much of the End of the World, de Radu Jude (Roménia, Luxemburgo, França, 2023), Grace, de Ilya Povolotski (Rússia, 2023), Le Procès Goldman - The Goldman Case, de Cédric Kahn (França, 2023), Los delincuentes – The Delinquents, de Rodrigo Moreno (Argentina, Brasil, Chile, 2023), MMXX, de Cristi Puiu (Roménia, França, Moldávia, 2023), Paradise Is Burning, de Mika Gustafso (Suécia, Itália, Dinamarca, 2023), Riddle of Fire, de Weston Razooli (EUA, França 2023), e Ubu, de Paulo Abreu (Portugal, 2023).

Na Selecção Oficial - Fora de Competição, serão apresentados 18 filmes: o já referido Pobres Criaturas; Green Border, de Agnieszka Holland (Polónia, EUA, França, Bélgica, Alemanha, República Checa, Turquia, 2023); About Dry Grasses, de Nuri Bilge Ceylan (Turquia, França, 2023); Perfect Days, de Wim Wenders (Japão, Alemanha, 2023); Anselm (3D), de Wim Wenders (Alemanha, 2023); Hit Man, de Richard Linklater (EUA, 2023); Rotter Himmel – Afire, de Christian Petzold (Alemanha, 2023); Evil Does not Exist, de Ryûsuke Hamaguchi (Japão, 2023); Anatomie d’une chute - Anatomy of a Fall, de Justine Triet (França, 2023); May December, de Todd Haynes (EUA, 2023); Io Capitano - Me Captain, de Matteo Garrone (Itália, Bélgica, França, 2023); Priscilla, de Sofia Coppola (EUA, Itália, 2023); The Old Oak, de Ken Loach (Reino Unido, França, Bélgica, 2023), Critical Zone, de Ali Ahmadzadeh (Irão, Alemanha, 2023); Making Of, de Cédric Kahn (França, 2023); La Passion de Dodin Bouffant - The Pat-au-Feu, de Tran Anh Hùng (França, Bélgica, 2023); Dance First, de James March (Reino Unido, Bélgica, 2023); e O Corno do Centeio - The Rye Horn, de Jaione Camborda (Espanha, Portugal, 2023).

Na Secção Descobertas, os filmes na corrida ao Prémio TAP Revelação são: Pet Shop Days, de Olmo Schnabel (EUA, 2023); Celluloid Underground, de Ehsan Khoshbakht (Irão, Reino Unido 2023); Sunday, de Shokir Kholikov (Uzbequistão, 2023); Levante / Power Alley, de Lillah Halla (Brasil, Alemanha, 2023); Grandmothers’ Footsteps, de Lola Peploe (Itália, França, Reino Unido, 2023); e Dulcineia, de Artur Serra Araújo (Portugal, 2023)

Haverá uma homenagem ao realizador e actor Clint Eastwood, uma retrospectiva da obra de Nuri Bilge Ceylan, e o programa Os Quartos do Cineasta Pedro Costa, dedicado ao realizador português, que conta com vários filmes, entre os quais a estreia portuguesa de As Filhas do Fogo, e a apresentação do livro que dá título à secção: Os Quartos do Cineasta, Pedro Costa, de Jacques Rancière. Também a realizadora Justine Triet será alvo de uma homenagem (O trajecto de Justine Triet), com a exibição dos seus quatro filmes mais recentes.

Destaque ainda para o Ciclo Temático - Cartas dos Antepassados - Suspiros Esquecidos no Ecrã, com curadoria de Alexey Artamonov, Denis Ruzaev e Ines Branco Lopez; e para as Sessões Especiais - Diálogos Depois do Fim, filme e série de Tiago Guedes.

Na secção A Memória do Cinema - Restauros Digitais conta com a exibição de quatro filmes: Return to Reason, de Man Ray (com música dos Sqürl), 1923; Tokyo Twilight, de Yasujiro Ozu, 1957; L’amour Fou, de Jacques Rivette, 1969; e Record of a Tenement Gentleman, de Yasujiro Ozu, 1947.

Nos dias 17 e 18 de Novembro, o LEFFEST apresenta, na Academia das Ciências, o programa: A Inteligência Artificial e a Criação – Onde estamos e para onde vamos?.

O festival conta ainda com várias sessões especiais, exposições, teatro e concertos. Mais informações sobre o Lisbon Film Festival 2023 em https://leffest.com/.

sexta-feira, 27 de março de 2020

Animais Cinéfilos #13

Na época difícil que vivemos, para muita gente a única companhia durante estas semanas - ou meses - serão os animais de estimação. Sejam cães, gatos, pássaros, peixes, roedores, répteis, animais de quinta ou outros tantos, estes companheiros de jornada ganharão uma importância ainda maior para combater o isolamento forçado. Se os devemos tratar bem todos os dias, agora espero que aprendamos a dar-lhes ainda maior valor.


E apaixonada por animais e cinema como sou, não poderia faltar um Animais Cinéfilos muito especial em época de pandemia. 

No filme que escolhi para hoje, os animais são mesmo membros da família, quer o cão irmão do protagonista - que futuramente pondera ser uma lagosta -, quer todos os outros solteiros infelizes que não conseguem encontrar um par amoroso. Em tempos terríveis, talvez não seja má ideia recordar um filme distópico, mas com muito humor, num dos melhores trabalhos do grego Yorgos Lanthimos.

Escolhi A Lagosta e os seus animais, num mundo desumanizado.

sábado, 7 de dezembro de 2019

European Film Awards 2019: Os Vencedores

Os prémios da Academia Europeia de Cinema - European Film Awards foram anunciados este Sábado, dia 7 de Dezembro. O grande vencedor da 32.ª edição foi A Favorita, de Yorgos Lanthimos.


Fica a conhecer todos os premiados deste ano.

Melhor Filme
A Favorita, de Yorgos Lanthimos

Melhor Comédia
A Favorita, de Yorgos Lanthimos

Prémio Revelação - FIPRESCI
Les Misérables, de Ladj Ly

Melhor Documentário
For Sama, de Waad al-Kateab e Edward Watts

Melhor Filme de Animação
Buñuel en el laberinto de las tortugas, de Salvador Simó

Melhor Curta-metragem
The Christmas Gift, de Bogdan Mureşanu

Melhor Realizador
Yorgos Lanthimos, por A Favorita

Melhor Actriz
Olivia Colman, A Favorita

Melhor Actor
Antonio Banderas, Dor e Glória

Melhor Argumento
Céline Sciamma por Portrait de la jeune fille en feu

Melhor Fotografia
Robbie Ryan por A Favorita

Melhor Montagem
Yorgos Mavropsaridis por A Favorita

Melhor Direcção Artística
Antxon Gómez por Dor e Glória

Melhor Guarda-roupa
Sandy Powell por A Favorita

Melhor Caracterização
Nadia Stacey por A Favorita

Melhor Banda Sonora
John Gürtler por System Crasher

Melhor Som
Eduardo Esquide, Nacho Royo-Villanova, Laurent Chassaigne por A Twelve-Year Night

Melhores Efeitos Visuais
Martin Ziebell, Sebastian Kaltmeyer, Néha Hirve, Jesper Brodersen, Torgeir Busch por About Endlessness

Prémio Carreira
Werner Herzog

Contribuição Europeia para o Cinema Mundial
Juliette Binoche

Melhor Co-produção Europeia – Prémio EURIMAGES
Ankica Jurić Tilić

Melhor Série de Ficção
Babylon Berlin

Prémio do Público
Cold War, de  Pawel Pawlikowski

quarta-feira, 13 de fevereiro de 2019

Crítica: A Favorita / The Favourite (2018)

"Sometimes a lady likes to have some fun."
Lady Sarah


*8.5/10*

Eis o trio de actrizes mais triunfal do ano: Olivia Colman, Rachel Weisz e Emma Stone. Yorgos Lanthimos está de regresso com A Favorita, um filme que sai um pouco dos cânones a que nos tem acostumado. Uma longa-metragem de época especialmente bem filmada, com protagonistas assombrosas, que vagueia entre a comédia negra e o drama com a destreza que só mesmo o realizador grego consegue captar.

Repleto de influências de outros filmes e cineastas (o filmSPOT tem um bom artigo sobre isto mesmo), a verdade é que A Favorita consegue destacar-se pela identidade própria que traz em si.


No início  do  século  XVIII,  a Inglaterra  está  em  guerra com a França.  No  entanto, as corridas  de  patos continuam a prosperar e comem-se ananases ostensivamente no reino. Uma frágil rainha Anne (Olivia Colman) ocupa o trono e a sua amiga mais próxima, Lady Sarah (Rachel Weisz), governa o país por ela, ao mesmo tempo que cuida da saúde precária de Anne e gere o seu temperamento imprevisível. Quando a nova criada Abigail (Emma Stone) chega, o seu charme conquista Sarah. Abigail vê uma oportunidade de voltar às suas raízes aristocráticas. Como a guerra acaba por consumir o  tempo de Sarah,  Abigail  entra em  cena subtilmente para assumir o  papel  de dama de companhia da rainha e não deixará que nenhuma mulher, homem, política ou coelho se coloque no seu caminho.

Menos inusual, mas com a mesma perspicácia e ousadia, Yorgos Lanthimos comanda a câmara com pulso e brusquidão, abanando os sentidos e emoções da plateia, que balança entre a beleza estética e a história, onde o poder domina todas as personagens e a humilhação espreita em cada canto do palácio. Desde a lente olho de peixe à grande angular, são várias as técnicas de distorção do "olhar" que vemos ao longo de A Favorita, e Lanthimos insere-nos na estranheza de uma época distante e nas extravagâncias da corte de uma rainha doente e deprimida. Enquanto a rainha definha, a corte perde tempo com trivialidades ou passatempos delirantes (quase tanto quanto a filmografia de Lanthimos).


A fabulosa fotografia, que tira partido da exigência que a película necessita, é um dos motores de A Favorita, com muitas cenas onde são apenas velas que iluminam o cenário. Um trabalho de mestre do director de fotografia Robbie Ryan.

São as mulheres que dominam as decisões do reino, e apenas a personagem de Nicholas Hoult, Robert Harley, se destaca no que toca a influências masculinas. A palavra final é da rainha, que não gosta de pensar em demasia (já Fernando Pessoa falava na dor de pensar), e tanto Sarah como Abigail lutam por serem o cérebro da realeza, a favorita de Anne.

Olivia Colman é enorme no papel de rainha, transfigurando-se conforme a debilidade da personagem. Uma mulher atormentada pelas dores física e psicológica, ingénua, desnorteada e apaixonada, em especial pelos seus 17 coelhos de estimação. Anne parece, por vezes, uma criança mimada ou um bebé indefeso. A actriz engordou cerca de 16 kg para vestir a pele da rainha Anne e é grande parte da alma do filme.


Ao seu lado, as duas servas rivais - Rachel Weisz, Lady Sarah, a melhor amiga da rainha que assume as decisões do reino a favor das suas simpatias políticas e que mais possam convir ao marido; uma mulher fria e calculista, que acaba por ser também manipulada; e Emma Stone, a criada Abigail, ambiciosa e sem escrúpulos, que vagueia entre o ar mais angelical e inocente ao mais perverso e maquiavélico. As duas actrizes superam-se, Weisz com maturidade e seriedade, num desempenho cheio de elegância e talento, Stone com a rebeldia que lhe é característica. Mais uma vez, revela-se uma excelente actriz de comédia e apenas fica a faltar-lhe um pouco mais de maldade - que a personagem pede muito.


Com A Favorita, Yorgos Lanthimos saiu da sua zona de conforto, onde deixa a plateia desconfortável com os seus retratos-limite da sordidez humana (Canino, A Lagosta, O Sacrifício de um Cervo Sagrado...), para se aventurar num filme menos complexo mas repleto das suas marcas autorais e influências. E temos de confessar, nem num filme de época ele nos dá sossego. E ainda bem.

segunda-feira, 11 de fevereiro de 2019

Sugestão da Semana #363

Das estreias da passada Quinta-feira, a Sugestão da Semana destaca A Favorita, de Yorgos Lanthimos. Olivia Colman, Emma Stone e Rachel Weisz formam o trio protagonista.

A FAVORITA


Ficha Técnica:
Título Original: The Favourite
Realizador: Yorgos Lanthimos
Actores: Olivia Colman, Emma Stone, Rachel Weisz, Nicholas Hoult
Género: Biografia, Comédia, Drama
Classificação: M/16
Duração: 119 minutos

quarta-feira, 10 de janeiro de 2018

Crítica: O Sacrifício de um Cervo Sagrado / The Killing of a Sacred Deer (2017)

"It's the only thing I can think of that is close to justice." 
Martin

*6.5/10*

Yorgos Lanthimos tem uma imaginação prodigiosa. Sabe chocar, surpreender e trabalhar o non sense como poucos. Canino, em 2009, catapultou-o para a fama pela forma ímpar e macabra que retratou a história do filme. Recentemente, A Lagosta marcou a sua estreia em inglês e O Sacrifício de um Cervo Sagrado segue a mesma linha do filme anterior.

Mas a fórmula está a repetir-se e, apesar da originalidade e competência técnica continuarem a brilhar, a sensação de dejá vu começa a surgir. Apesar de O Sacrifício de um Cervo Sagrado ser um filme de terror - e dentro do género tem um argumento incómodo a jogar com o sobrenatural, que funciona -, repete toda a estranheza das relações humanas, os diálogos impessoais, as conversas despropositadas.


Steven (Colin Farrell) é um cardiologista conceituado, casado com Anna (Nicole Kidman), com quem tem dois filhos. Já há algum tempo que ele mantém contacto frequente com Martin (Barry Keoghan). A relação entre ambos é de grande cumplicidade e o médico decide apresentá-lo à família. Entretanto, o jovem sente que não está a receber a mesma dedicação e, por isso, decide elaborar um plano de vingança.

O realizador grego continua os seus planos geométricos, iluminados e limpos. Semelhanças ao cinema de Stanley Kubrick ou Michael Haneke têm-se sucedido e fazem crer que Lanthimos está a perder as suas próprias marcas autorais. Ainda assim, se isso não estiver a acontecer, está, pelo menos, a perder qualidades. O realizador continua a desafiar valores, mas desta vez vai mais longe - e com pouco sucesso, a meu ver -, ao querer associar o seu filme a simbolismos bíblicos e a peças gregas de autores clássicos.


O protagonista é tão semelhante ao de A Lagosta que até o actor é o mesmo: Colin Farrell. As personagens têm pouca profundidade, tal como no filme anterior, são despersonalizadas tal como os planos que a câmara capta. Eles são cobardes e hipócritas. Não há qualquer ligação entre a plateia e a família protagonista.

Curiosamente, e é ele o ponto forte do filme, vamos admirar o "vilão". Admirá-lo e temê-lo, tal como a família Murphy. Rodeia-o uma aura diabólica e violenta e, ao mesmo tempo, frágil e intimidante. Barry Keoghan tem uma interpretação aterradora na pele deste jovem Martin, omnipresente e de poderes sobrenaturais. A sua vingança personifica-se numa maldição que, para ele, não passa de justiça. Nicole Kidman é a mais corajosa de O Sacrifício de um Cervo Sagrado, para além de dar um show de interpretação com uma personagem pouco rica, uma mãe a quem a actriz confere poder e determinação.


Não são precisas mais explicações, Lanthimos joga com medos e aparências, com a moral e as crenças de cada um, e cria um filme de terror incómodo, mas que sabe a pouco. Os fãs do seu trabalho queriam mais novidades, menos exagero, menos preguiça.

domingo, 22 de maio de 2016

Sugestão da Semana #221

Das estreias da passada Quinta-feira, o Hoje Vi(vi) um Filme destaca A Lagosta como Sugestão da Semana. O mais recente filme do realizador grego Yorgos Lanthimos conta com Colin Farrell, Rachel Weisz, Léa Seydoux, Ben Whishaw e John C. Reilly no elenco. A crítica pode ser lida aqui.

A LAGOSTA


Ficha Técnica:
Título Original: The Lobster
Realizador: Yorgos Lanthimos 
Actores: Colin Farrell, Rachel Weisz, Léa Seydoux, Ben Whishaw, John C. Reilly, Jessica Barden, Ariane Labed, Angeliki Papoulia
Género: Comédia, Drama, Romance
Classificação: M/16
Duração: 118 minutos

terça-feira, 3 de maio de 2016

Crítica: A Lagosta / The Lobster (2015)

"If you encounter any problems you cannot resolve yourselves, you will be assigned children, that usually works."
Hotel Manager
*9/10*

A imaginação macabra e cruelmente surrealista - e futurista - de Yorgos Lanthimos continua aguçada e provocadora. Não tão dura como Canino, mas igualmente incómoda e frontal, A Lagosta (The Lobster), a última longa-metragem do realizador grego, vem mostrar-nos o quão egoístas e egocêntricos somos, no fundo.

Num futuro distópico não tão distante quanto isso, todos os solteiros, de acordo com as leis da Cidade, são levados para o Hotel, onde se vêem obrigados a encontrar um par romântico em 45 dias. Caso contrário, serão transformados num animal à escolha e libertados na floresta.

Uma história de amores por necessidade, ou vice-versa. Dentro ou fora do Hotel, nada parece simples. Nas suas críticas à humanidade, Lanthimos não teme nenhuma temática e apresenta-nos argumentos geniais. A Lagosta é tão poético como demente, tão sentimental como impiedoso. Nem a mais frágil das personagens é inocente.


Numa primeira metade mais entusiasmante, onde percebemos o desumano modo de funcionamento do Hotel, A Lagosta continua, ligeiramente menos surpreendente, mas Lanthimos não deixa o seu filme perder o fulgor ao entrar na floresta e continua a surpreender pelas novas regras, paradoxais, mas não menos inacreditáveis que as anteriores.

O realizador filma este ambiente repressivo na sua singularidade tão sarcástica como lírica. Um amor de aparências, de cinismo e falsidade. Com planos provocadores e irónicos ou usando a câmara lenta para aumentar a adrenalina das caçadas de solteiros fugitivos, por exemplo, Lanthimos não descura nenhum aspecto.


No elenco, Colin Farrell surpreende como o protagonista David, ele que, se falhar, quer transformar-se na lagosta que dá título ao filme, "porque as lagostas vivem mais de cem anos, têm sangue azul como os aristocratas e são férteis toda a vida. Eu também gosto muito do mar." Frágil, desesperado, tímido, ele é mais uma peça deste jogo em que todos desejam o mesmo: continuar a sua vida como humanos. Rachel Weisz parece-nos a mulher ideal neste filme tão surreal. Doce, decidida e apaixonada, transparece uma fragilidade muito natural. Por seu lado, Léa Seydoux é a impiedosa líder da resistência de solteiros, uma ditadora que faz frente à também ditadura do Hotel. Ainda de destacar são as interpretações de Ben Whishaw, John C. Reilly e das gregas Angeliki Papoulia (Canino), a mulher sem coração, e Ariane Labed (Attenberg), a empregada do Hotel, muito dedicada àquilo em que acredita.

Conquistou o Prémio do Júri em Cannes e chegou para nos deixar sem palavras. Tão inacreditável, mas, ao mesmo tempo, tão plausível. Uma denúncia ao egoísmo e à crueldade dos Homens, num Mundo onde nos fazem acreditar que não se pode viver sem um parceiro, custe o que custar.