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quinta-feira, 21 de outubro de 2021

Entrevista: Bruno Gascon, realizador de Sombra: «Num mundo de sombras queria que ela fosse a esperança»

As crianças desaparecidas e suas famílias são o foco de Sombra, o mais recente filme de Bruno Gascon, que estreou nos cinemas portugueses no passado dia 14 de Outubro. O realizador respondeu a algumas perguntas do Hoje Vi(vi) um Filme e revelou mais sobre o processo de produção do filme e a visibilidade que Sombra dá aos casos que o inspiraram.

Depois do tráfico humano, agora abordas a temática das crianças desaparecidas. Este realismo social é o que mais te dá gosto filmar, é o que te define enquanto realizador?

Bruno Gascon: Na verdade, sim. Gosto de sentir que posso colocar o que sei fazer ao serviço da sociedade levando as pessoas a pensarem sobre temas que por norma preferem relegar para segundo plano ou simplesmente ignorar. Não sei se é o que me define enquanto realizador, mas é sem dúvida algo que me satisfaz não só enquanto realizador, mas enquanto pessoa.

Entre o trabalho de pesquisa e a recolha de testemunhos, como foi toda a preparação do filme? Quais os momentos que mais te marcaram durante a pré-produção e rodagem de Sombra?

Bruno Gascon: A ideia já tinha surgido na preparação da Carga pelo que já tinha muita informação recolhida, ainda assim considero que o verdadeiro arranque começou com o contacto com a Associação Portuguesa de Crianças Desaparecidas e com os encontros com as mães e famílias. Não foi algo feito de ânimo leve, estabeleci mesmo uma relação com estas pessoas e tivemos muitos encontros não só durante a escrita, como na pré-produção, rodagem e mesmo após a rodagem terminar. Foram eles os primeiros a verem o filme, por exemplo. O mais marcante em todo este processo foi sem dúvida ouvir cada história pela primeira vez e perceber tudo aquilo pelo qual aquelas pessoas passaram e de alguma forma sentir a responsabilidade de lhes fazer justiça.

A mãe de Rui Pedro, Filomena, foi fundamental para o filme. Em que medida quiseste que a personagem de Ana Moreira se aproximasse dela?

Bruno Gascon: A Filomena é a inspiração maior para a Isabel, embora a Isabel não seja a Filomena. São mulheres diferentes (até porque a Isabel tem também inspiração em outras mulheres), mas que partilham traços comuns: a coragem e o amor pelos filhos. Quando comecei a preparar a personagem com a Ana tentámos que a personagem não fosse colada à personalidade da Filomena (quem a conhece consegue ver as diferenças). Sobretudo não a queríamos representar como uma vítima, mas sim como uma mulher forte, corajosa e capaz de superar os seus próprios limites para encontrar o filho. Num mundo de sombras queria que ela fosse a esperança. A Ana incorporou isso magnificamente.

No elenco, como se deu a escolha da protagonista?

Bruno Gascon: Já conhecia o trabalho da Ana Moreira e senti que ela seria a pessoa ideal, mal a abordei. Procurava uma actriz que tivesse uma fragilidade e força simultâneas e que conseguisse transmitir a luz da Isabel através do seu olhar. A Ana tem isso. Não consigo imaginar este filme com outra actriz como protagonista. A Ana fez um trabalho incrível, foi um prazer desenvolvermos esta personagem juntos.


Qual a principal simbologia que quiseste colocar na cor amarela, tão presente na roupa de Isabel?

Bruno Gascon: O amarelo simboliza a esperança, o nunca desistir. A Isabel é a única personagem que caminha entre a luz e a sombra. A cor que ela veste é uma negação do luto e uma demonstração externa do seu estado de espírito. Ao longo do filme o amarelo vai alterando: quando está mais forte é quando ela sente mais esperança, ou quando acredita que está perto de algo que a leve ao filho, quando desvanece simboliza o desespero e as quebras motivadas precisamente pela desilusão que tem pela ausência de respostas.

Sombra surge como que para impedir que todos estes desaparecimentos e tantos outros caiam no esquecimento. Achas que pode ser uma forma de voltar a olhar para todos estes casos de outra forma ou mesmo surgirem novas pistas ou investigações (jornalísticas, por exemplo)?

Bruno Gascon: Sem dúvida. Obviamente a Sombra é um filme, uma obra de ficção e é assim que deve ser vista, mas acredito que a arte e a cultura têm um papel essencial na sensibilização ou na passagem de mensagens relevantes. O facto de estrearmos o filme levou a que os media colocassem na ordem do dia este tema e de repente além de se falar do filme há toda uma transmissão de informação sobre o que se deve fazer quando uma criança desaparece, por exemplo. É dada voz a associações como a Associação Portuguesa de Crianças Desaparecidas (APCD) e a outras entidades. Isso é muito positivo e gratificante. Mesmo ao nível da Polícia Judiciária, temos informações por parte da APCD de que o filme os sensibilizou muito, se isso vai fazer a diferença? Não sei. Mas não vou mentir, gostava muito que fizesse.

Que outros projectos estás a preparar?

Bruno Gascon: Filmei entre Março e Maio deste ano o meu terceiro filme. É muito diferente de tudo o que fiz até agora. Estou agora a acompanhar a pós-produção e estou a meio da investigação para um novo projecto sobre o qual ainda não posso revelar muito.

domingo, 17 de outubro de 2021

Sugestão da Semana #477

Das estreias da passada Quinta-feira, a Sugestão da Semana destaca o filme português Sombra, realizado por Bruno Gascon e protagonizado por Ana Moreira. O filme, que aborda a temática do desaparecimento de crianças e se baseia no Caso Rui Pedro, tem crítica no Hoje Vi(vi) um Filme.



Ficha Técnica:
Título Original: Sombra
Realizador: Bruno Gascon
Elenco: Ana Moreira, Miguel Borges, Vítor Norte, Tomás Alves, Ana Cristina Oliveira, Sara Sampaio, Joana Ribeiro, Oksana Tkach, Ana Bustorff, Sara Norte
Género: Drama
Classificação: M/14
Duração: 115 minutos

quarta-feira, 13 de outubro de 2021

Crítica: Sombra (2021)

"Eu só sei esperar por ele."

Isabel

*6.5/10*

Bruno Gascon não receia temas delicados e o realismo social continua a marcar a sua filmografia. Depois do tráfico humano, em Carga (2018), agora o foco está nas crianças desaparecidas e suas famílias, a quem Sombra, a segunda longa-metragem do realizador, presta homenagem.

"Em 1998, Isabel tinha a família perfeita até que um dia chega a casa e descobre que o seu filho de 11 anos desapareceu. A partir desse momento tudo muda. Apesar da cobertura mediática do caso e da existência de um suspeito a justiça falha constantemente e Isabel percebe que somente ela poderá manter viva a busca por Pedro. Passam-se quinze anos e apesar de todos os obstáculos que encontra Isabel vai continuar a fazer de tudo para reencontrar o filho que todos querem que esqueça, mas que ela acredita que ainda está vivo."

O desaparecimento de crianças, a dor das famílias, a incompetência das autoridades e o mediatismo temporário dos casos, tudo se transforma num pesadelo interminável que Sombra retrata bem. Apesar de um início morno, a longa-metragem ganha intensidade e tensão, em especial, quando surgem novos dados e um novo inspector à frente da investigação. O Caso Rui Pedro foi uma das grandes referências de Bruno Gascon para este filme.

O filme divide-se por anos, com a montagem a destacar a passagem do tempo, o quanto o caso se arrasta com poucos ou nenhuns desenvolvimentos, e o definhar de uma família, totalmente destroçada. Pelo meio, há interlúdios onde ouvimos, em voz off, a protagonista Isabel, a falar sobre o que sente e o quanto lhe dói a ausência do filho, como se mergulhasse num abismo sem fim, e que são um ponto menos positivo do filme, cortando o ritmo da acção. Tudo o que nos é dito nós vemos e captamos na interpretação sentida e emotiva de Ana Moreira, em cada plano, em cada cena.

E a actriz é sublime na pele de Isabel. A fragilidade que aparenta esconde a força de nunca desistir, a resiliência, mesmo que a dor a tente derrubar (e a vença, momentaneamente), várias vezes, ao longo dos anos. Em Sombra, os expressivos olhos da actriz são verdadeiro espelho do que vai na alma e coração da personagem. No elenco, destaque ainda para Miguel Borges, o pai, num conflito constante entre seguir em frente ou continuar a alimentar a esperança de encontrar o filho; e Ana Cristina Oliveira, mais uma vez num papel secundário - mas chave para esta história -, que desempenha com a garra e talento que a tem caracterizado.

Ainda de destaque é o trabalho da direcção de fotografia que realça as sombras do título, criando um ambiente escuro e frio, adensando a tristeza que assombra a vivência desta família. E entre os tons sombrios que percorrem o filme, há uma cor viva que sobressai como luz no guarda roupa de Isabel (e também na cor do lettering do título): o amarelo, que Ana Moreira enverga em quase todas as cenas (seja num vestido, blusa ou mala de viagem), e parece sugerir a réstia de expectativa no reencontro com a alegria de viver perdida - e com o filho.

Sombra é uma homenagem aos que ficaram e continuam a lutar e aos que desapareceram para que nunca caiam no esquecimento.

terça-feira, 7 de julho de 2020

Revelado Primeiro Teaser do filme Sombra

O primeiro teaser do filme Sombra, de Bruno Gascon, foi revelado. A longa-metragem é protagonizada por Ana Moreira e presta homenagem às mães de crianças desaparecidas.


Baseada em factos reais, Sombra é a segunda longa-metragem de Bruno Gascon, realizador de Carga (sobre tráfico humano). O filme gira em torno da dúvida permanente que assola os pais de crianças desaparecidas. Para escrever o guião, o realizador conversou com mães que atravessam esta situação, como Filomena Teixeira, mãe de Rui Pedro, o menino de 11 anos que desapareceu em 1998.

Sombra chega aos cinemas no dia 22 de Outubro e, no elenco, conta com nomes Ana Moreira, Miguel Borges, Vítor Norte, Tomás Alves, Joana Ribeiro, Sara Sampaio, Ana Cristina Oliveira, Lúcia Moniz, Raimundo Cosme, Oksana Tkach, Ana Bustorff, Miguel Monteiro, Sara Norte, João Cabral, Kim Grygierzec, entre outros.

Sinopse

Em 1998, Isabel tinha a família perfeita até que um dia chega a casa e descobre que o seu filho de 11 anos desapareceu. A partir desse momento tudo muda. Apesar da cobertura mediática do caso e da existência de um suspeito a justiça falha constantemente e Isabel percebe que somente ela poderá manter viva a busca por Pedro. Passam-se quinze anos e apesar de todos os obstáculos que encontra Isabel vai continuar a fazer de tudo para reencontrar o filho que todos querem que esqueça, mas que ela acredita que ainda está vivo. Uma mãe sabe.

terça-feira, 13 de novembro de 2018

Sugestão da Semana #350

Das estreias da passada Quinta-feira, a Sugestão da Semana destaca o filme português Carga, de Bruno Gascon, com Sara Sampaio no elenco. A crítica do Hoje Vi(vi) um Filme pode ser lida aqui.

CARGA


Ficha Técnica:
Título Original: Carga
Realizador: Bruno Gascon
Actores: Michalina Olszanska, Sara Sampaio, Vítor Norte, Dmitry Bogomolov, Duarte Grilo, Miguel Borges, Ana Cristina Oliveira, Rita Blanco, Rui Porto Nunes, Rui Luís Brás
Género: Drama
Classificação: M/16
Duração: 113 minutos

quarta-feira, 7 de novembro de 2018

Crítica: Carga (2018)

"The road is long but nobody said it was easy..."
Viktoriya


*7.5/10*

Entre as paisagens geladas da Serra da Estrela e os quartos escuros de casarões abandonados, abrem-nos os olhos para a realidade cruel do tráfico de seres humanos. Carga é o corajoso filme português, realizado por Bruno Gascon, que quer despertar consciências e denunciar um problema global.

Um thriller onde as mulheres são vítimas mas igualmente heroínas, Carga é uma surpresa violenta e bem concretizada, com um leque de actores que dão tudo, e que vão de nomes conceituados como Vítor Norte à estreante Sara Sampaio, a modelo que quer ser actriz - e não se sai nada mal.

Esta é a história de Viktoriya (Michalina Olszanska), uma jovem russa apanhada numa rede de tráfico ilegal, que apenas tem uma hipótese: lutar para sobreviver; e de António (Vítor Norte), um velho camionista que se cruza no caminho da jovem, despoletando um encontro que o leva a questionar todos os seus princípios.


Eis um tema de difícil abordagem, poucas vezes filmado no cinema. Carga transmite-nos o frio, o medo e o desespero que rodeiam as personagens. A tensão é crescente e, até ao final, Bruno Gascon oferece-nos planos bem estudados e algumas mensagens subtis tanto acerca das personagens como sobre o enredo.

Carga é falado em três línguas diferentes (inglês, português e russo), e o silêncio está muito presente, quer pelas dificuldades de comunicação, quer pelo sigilo que convém guardar dos crimes e ilegalidades que se passam naquele submundo. As ameaças são muitas e a desconfiança paira sobre traficadas e traficantes. Curiosamente, todas as personagens têm uma dualidade muito realista. Têm personalidades fortes, fraquezas e segredos. Este é um dos pontos mais fortes do filme, que o aproximam ainda mais do público.

No elenco, encontramos grandes desempenhos. A protagonista Michalina Olszanska tem uma forte presença e magnetismo, incorporando todo o sofrimento de Viktoriya de uma forma muito natural.  O veterano Vítor Norte é o homem que vive numa luta interior, tão culpado como subjugado pela rede de tráfico. Dmitry Bogomolov é Viktor, manipulador, sem escrúpulos, que quase não manifesta emoções. Ana Cristina Oliveira tem poucos minutos no ecrã mas conquista todas as atenções com a sua Sveta, em especial, num fabuloso monólogo, em que revela toda a dor que carrega, ao lado de Sara Sampaio. A modelo é a cara das jovens traficadas e sai-se muito bem no seu primeiro papel, emotiva e segura de si. Duarte Grilo e Miguel Borges surgem como homens fortes de Viktor, ambos num conflito interno, lutando para não mostrar fraquezas.


Carga só peca por um clímax demasiado prolongado, onde surgem flashbacks que poderiam funcionar melhor com uma montagem diferente. A banda sonora, por sua vez, é um dos pontos fortes da longa-metragem.

Um filme cheio de girl power, que realça as mulheres como grandes lutadoras que são, Carga marca uma nova etapa no cinema português, com um certo activismo latente, numa denúncia acesa da violência que é o tráfico humano, sem receios, nem tabus. 

segunda-feira, 5 de novembro de 2018

Entrevista a Bruno Gascon, realizador de Carga: "Tentei criar uma sociedade dentro de uma rede de tráfico de seres humanos"

Bruno Gascon gosta de temas difíceis e a sua primeira longa-metragem, Carga, faz jus a isso mesmo, é sobre o tráfico de seres humanos. Com duas curtas no currículo cinematográfico, o realizador estudou em Amesterdão e, de regresso a Portugal, começou por fazer documentários e programas de televisão sobre temas sociais. Agora, nos seus filmes, são esses os temas que continua a preferir.

Bruno Gascon - Foto: Luís Sustelo
O Hoje Vi(vi) um Filme esteve à conversa com Bruno Gascon (B.G.) sobre Carga. O filme estreia nos cinemas a 8 de Novembro.

Escolheste logo um tema muito forte para a tua primeira longa-metragem...
B.G.: Sim, eu gosto de temas fortes e posso já adiantar que a minha próxima longa vai ter um tema forte também. Posso dizer que é um tema actual. Gosto de explorar o pensamento humano e a mentalidade em relação a certo tipo de temas. Às vezes, as pessoas gostam de olhar para o lado e não enfrentar os problemas. A sociedade só evolui se tu falares sobre esses temas e sendo, no meu caso, ficção, acho que é uma forma de passar a mensagem também.

Como foi todo o processo da construção do argumento, as pesquisas, etc.?
B.G.: Em Amesterdão, entrei logo em contacto com este tipo de problemas. Existe aquela ideia de que lá, no red light [district], a prostituição é uma coisa livre, mas o que a maior parte das pessoas não sabe é que muitas daquelas mulheres são traficadas. Depois voltei [para Portugal], encontrei várias histórias sobre isso e decidi contar, na minha primeira longa, um tema pesado que é um problema global. Sobretudo, tentei demonstrar que não é só um problema de terceiro mundo, como ouvi muitas vezes, e as pessoas nem sequer tinham a noção disso. Muitas vezes, esse problema está mesmo ao nosso lado, no nosso vizinho, nos nossos amigos, na nossa família.

Vocês falaram - ou pelo menos a Joana Domingues [produtora] falou - com vítimas de tráfico humano, não foi?
B.G.: Sim, eu ouvi histórias até porque não tive acesso a essas pessoas. As mulheres que foram traficadas são muito protegidas e vivem em casas protegidas. Estão muito desconfiadas e é-lhes difícil confiar nas pessoas. A minha pesquisa foi muito por aí, ter acesso às histórias e tentar recriar a realidade o mais cruel possível. O que faço muitas vezes, seja uma traficada, seja um rei do tráfico, é meter-me nos pés da pessoa e tentar perceber o que é que eu faria naquela situação. Tal e qual fui fazendo nas minhas curtas - a curta anterior é sobre suicídio e a primeira é sobre esquizofrenia. [Em Carga] Tentei criar uma sociedade dentro de uma rede de tráfico de seres humanos. Aquelas personagens têm características comuns a todos nós e o que introduzi foi esse problema global. Temos, por exemplo, o António, que é interpretado pelo Vítor Norte que é um camionista e é uma personagem que está numa situação limite. Eu gosto de pôr as personagens nessas situações limite. Ele faz aquilo por dinheiro ou desculpa-se com o problema do dinheiro, mas depois vamos perceber que isso o vai atormentando ao longo do filme.


Ia agora falar-te sobre isso. As tuas personagens são muito ambíguas... Querias que as pessoas se identificassem? Que sentissem como se fossem personagens quase reais?
B.G.: Sim, tentei dar o máximo de realidade às minhas personagens e tento sempre fazer isso. Porque acho que não existem bons ou maus. Existe todo um lado cinzento que todos temos, no nosso dia-a-dia. Temos muitas camadas. Todos já tivemos más acções, todos já tivemos boas acções e é isso que tento tirar daquelas personagens. E, como o filme retrata, todas têm uma carga, aquela carga emocional é trazida por todas elas, tal como nós, na nossa vida, temos uma carga. Todos temos problemas, todos fazemos boas acções. Se uma pessoa é mais retraída ou fala menos é porque, provavelmente, existiu alguma coisa ao longo da vida dela que a tornou assim. E é essa experiência que eu quero que as personagens tenham, sejam elas boas ou más.

Porque aqui até com os mais mauzões nós simpatizamos ligeiramente, não é?
B.G.: Sim, no fundo, eles também são pessoas e, de certa forma, também têm boas acções. Por exemplo, o Viktor, que é protagonizado pelo Dmitry Bogomolov, é o chefe da rede de tráfico mas fá-la funcionar como uma empresa. Ele não deixa de ser um ser humano que teve problemas no passado, tem o tal background e essa carga emocional sobre ele também. O Dmitry deu-lhe um cunho muito pessoal. O próprio Dmitry foi criando aqueles movimentos e aquela personagem de acordo com o que fomos falando. Aquela rede já era uma coisa que vinha da geração anterior, é um negócio de família e o Viktor sempre se sentiu subjugado pelo pai. Não queria cometer os mesmos erros que o pai, porque ele era muito emotivo, e o Dmitry é uma pessoa mais fria, mais manipuladora, e quis demonstrar que era melhor do que o pai.


Vamos passar para a Sara Sampaio. Como surgiu a oportunidade trabalhar com ela?
B.G.: Falei com ela, ela leu o guião, disse-me que o tinha lido numa viagem de avião, que tinha adorado, que existia violência no filme, é verdade, mas que não era gratuita, tinha um sentido. Quando lhe expliquei a personagem dela e que queria que ela fosse a cara e a imagem de todo aquele grupo de pessoas, ela aceitou na hora. As pessoas estão sempre à espera de ver a Sara modelo e aqui é um registo completamente diferente. A Sara aqui não está embelezada, não está a vestir roupas de passerelle, de várias marcas, a Sara aqui é a Sara actriz e as pessoas vão ficar surpreendidas com o resultado.

E relativamente aos outros actores? Alguns já conhecias, como por exemplo o Duarte [Grilo]...
B.G.: Na verdade, o único que eu conhecia era o Duarte. Todos os outros foram contactos feitos a seguir. Quando escrevi o guião já tinha pensado em todos aqueles actores para aqueles papéis. Sendo uma primeira longa-metragem, eu tinha sempre aquele receio "eles não vão aceitar, não me conhecem de lado nenhum, é uma primeira obra", mas tal e qual como a Sara, assim que eu falei uma vez, todos eles aceitaram. Ou seja, foi das partes mais fáceis, ter aquelas pessoas, aqueles actores enormes a interpretarem estes papéis. Fiquei com uma óptima relação com todos eles. Foi isso que me surpreendeu de certa forma, porque eu estava habituado a ver na televisão, no cinema, no teatro todas aquelas pessoas e ver aqueles nomes a trabalharem contigo e a serem pessoas extremamente humildes, trabalhadoras... Senti-me honrado por virem fazer este filme comigo.

Como foi trabalhar com eles?
B.G.: Foi facílimo. Por exemplo o Vítor Norte, que já tem muitos anos de experiência, é das pessoas mais humildes e com um nível de exigência enorme. Está sempre muito preocupado, em todos os takes, em todos os planos, se está bem ou não. Com a Rita [Blanco] eu aprendi muito. A Rita é um poço de energia. Estar quieto ou mal-disposto ao pé da Rita é impossível. Ela é uma pessoa extremamente inteligente e ensinou-me muito sobre cinema. É incrível... A pessoa que mais me surpreendeu, na verdade, foi a Michalina [Olszańska]...

E eu ia perguntar-te como é que a escolheram...
B.G.: É uma história curiosa. Quando chegou a altura de escolher a personagem principal eu estava à procura de alguém que falasse russo e que tivesse alguns traços russos. Quando escrevo os guiões já imagino as características das personagens e quando vi a primeira curta da Michalina achei que ela tinha as características ideais e que se ia enquadrar no papel. Falei com a Joana Domingues, que é a produtora, e disse: "olha, acho que é esta rapariga", e ela disse: "mas tens a certeza? não querias escolher uma pessoa russa? ela é polaca" e eu disse: "tenho a certeza absoluta que é esta rapariga". Mandámos-lhe uma mensagem pelo Facebook e ela pediu para enviarmos o guião. Passado um dia, mandou-me um testamento enorme a dar-me uma dica, que não posso dizer para não criar spoilers do filme. Entretanto, veio cá três dias, nós falamos um bocadinho e depois eu e a Michalina criamos uma conexão enorme e, hoje em dia, ela é quase das minhas melhores amigas. É uma pessoa extraordinária além de, para mim, ser das mais talentosas da geração dela. Tive o Miguel, o Vítor que estavam a vê-la contracenar e até eles ficaram surpreendidos como é que uma rapariga com 25 anos consegue ter aquela capacidade, para além de ela ser um prodígio. Já escreveu livros, aprendeu a tocar violino aos seis anos de idade... Mas foi realmente a pessoa que mais me surpreendeu neste filme.


Nota-se no teu filme um pouco a estética que associamos aos filmes europeus - e é europeu, é português. Foi intencional? Tem a ver com as tuas influências cinematográficas?
B.G.: Também tem um bocadinho a ver com as minhas influências mas é a primeira vez que me dizem isso e que me fazem essa pergunta. Neste momento ainda estou à procura de encontrar um estilo próprio, mas há coisas que vou sempre fazendo e isso tem a ver com as influências que tenho. Por exemplo, utilizo muito planos centrados e o Kubrick utilizava muito as perspectivas. Vejo cinema, seja ele europeu, seja ele americano. Sou uma pessoa que gosta realmente de cinema, vejo do mais autoral ao mais comercial que possas imaginar. Gosto de Kubrick, Hitchcock, Polanski... Quando vou ao cinema gosto que o filme me diga alguma coisa e poderá ser essa a explicação para eu gostar tanto de temas fortes. Gosto muito de tudo o que seja sobre a Segunda Guerra Mundial, sobre os judeus. Gostei muito de O Pianista, Os Falsificadores... Também gosto muito de cinema nórdico. Utilizam muito a técnica fria, escura, é uma coisa com que me identifico. Tens a saga Millennium ou Lars von Trier, têm muito esse lado negro. Acima de tudo quero passar uma mensagem, mesmo que essa mensagem seja negra. O mundo não é um mundo cor-de-rosa. As pessoas andam um bocadinho adormecidas e tu às vezes tens de levar aquele murro no estômago para que te apercebas que aquela realidade existe. E, se calhar, só assim é que as coisas vão mudar.

Tens aqui um filme feminista?
B.G.: Sim, pode dizer-se que sim. Tem de se começar a retirar a ideia de que só os homens têm personalidades fortes e são as pessoas fortes num filme. Até porque, muitas vezes, uma mulher é muito mais complexa do que um homem e acho que isso devia jogar a favor das pessoas que fazem cinema. Porque é que se dão sempre papéis fortes a homens? Apesar dos homens [em Carga] serem a rede de tráfico, o papel duro, físico, as mulheres têm um papel muito mais complexo e quando as pessoas virem o filme vão perceber que quem domina são as mulheres. A ideia foi, de certa forma, inverter os papéis. As mulheres aqui são traficadas, são frágeis mas o frágil não implica que as pessoas sejam fracas. Deve haver uma igualdade entre todos e a sociedade tem de evoluir para isso. Fala-se muito de feminismo e do #MeToo mas acho que ainda existe um largo caminho para isso acontecer. Não é uma questão das mulheres serem mais do que os homens mas de serem iguais. Ponto final. Tanto no cinema como na nossa sociedade as coisas devem ser igualadas. Este filme é um filme mais feminista, mas também foi com esse intuito, de mostrar às pessoas que apesar de serem frágeis, as mulheres também são extremamente complexas e, na verdade, são o sexo forte.

E é curioso porque surge no momento certo...
B.G.: Foi um timing, calhou. Quando começamos a gravar foi quando rebentou o #MeToo... Calhou. Mas é uma coisa que deve ser falada e temos de caminhar para isso. E acho que a sociedade só tem a ganhar.

Criaste um filme muito internacional, e não só pelo número de línguas em que é falado, quantas são?
B.G.: Três. Inglês, português e russo. Essa linguagem também funciona um bocadinho como uma personagem, porque tens muitas falhas de comunicação ao longo do filme. Pessoas que só falam russo, pessoas que só falam inglês, pessoas que falam português, mal falam inglês e nem sequer falam russo... e estas falhas de comunicação acontecem no nosso dia-a-dia e têm também a ver com a cultura que temos. Tentei criar um filme internacional, e como o tráfico de seres humanos é um problema global, tentei dar-lhe esse realismo. Estamos em Portugal mas, com a Internet, temos acesso a qualquer parte do mundo. Tentei que as pessoas percebessem que esta realidade existe em Portugal, existe na Rússia, existe em todo o mundo.

Criaste uma Torre de Babel...
B.G.: Tentei. Na verdade, a tentativa foi essa, criar um microcosmos, em que se perceba que existem varias pessoas da nossa sociedade metidas lá dentro, não só no nosso país mas no mundo inteiro. Tentei recriar um mundo ali.


Que motivos vão levar o público às salas de cinema para ver o Carga?
B.G.: Acho que um dos motivos será... Pergunta difícil essa! um dos motivos é o facto de termos um leque de actores fantástico. Outro é o facto de, apesar de ser um drama, também tens muitas situações de tensão. Também pela estreia da Sara Sampaio, como é óbvio. Pelo tema, que é o tráfico de seres humanos e está bem mais perto de nós do que podemos pensar. E porque é um filme português e espero que as pessoas possam dar uma oportunidade, porque o cinema português está a evoluir cada vez mais. Tem de se tirar aquele estigma de que o cinema português é chato e aborrecido.

Na Comic Con Portugal, disseram que já tinham vendido o filme para alguns países. Quais?
B.G.: Já vendemos para a China, existe interesse do Japão, da França, e já fomos vendidos para os Estados Unidos e para o Canadá. Para já é só, mas vamos passar na Rússia e no Luxemburgo, entretanto.

Queres que o Carga seja um filme activista?
B.G.: Boa pergunta. O que eu quero é que o filme chegue ao máximo de pessoas possível, que as pessoas vão ver e que tenha as salas cheias, não vou dizer que não. Mas, acima de tudo, quero que o filme passe uma mensagem, e essa mensagem tem a ver não só com o tráfico de seres humanos, como com o nosso dia-a-dia. Existem coisas subliminares que estão lá colocadas, que não são sobre o tráfico de seres humanos.

domingo, 9 de setembro de 2018

Comic Con Portugal 2018: Carga

Foi no segundo dia de Comic Con Portugal 2018 que o filme Carga se deu a conhecer ao público presente no auditório Olimpo. A produtora Joana Domingues, o realizador Bruno Gascon e os actores Dmitry Bogomolov, Duarte Grilo e Rui Porto Nunes apresentaram o filme e responderam a algumas questões.


O filme estreia a 8 de Novembro nos cinemas portugueses e já está vendido para a China, e com muitos outros interessados como a Índia, os Estados Unidos e alguns países Europeus. O filme é falado em três línguas diferentes.

Um camião, uma estrada e um destino imprevisível cruzam-se numa rede de tráfico de seres humanos. Apanhada nessa rede, Viktoriya tem apenas uma hipótese: lutar para sobreviver. E eis o mote para um thriller de peso.

Carga é um filme independente que arriscou, quer levar temas (quase) tabu ao grande ecrã e colocá-los na ordem do dia. Toda a equipa quer alertar para o problema do tráfico humano. Joana Domingues destacou que todos sentem "uma responsabilidade muito grande" e acrescenta que "há certos temas que é preciso ter coragem de abordar". Este é um deles. A temática despertou grande interesse da parte da plateia presente que quis saber mais e, até, como ajudar as vítimas deste crime.

Num mundo onde o movimento #MeToo continua a ser notícia, Carga é um filme em que "as mulheres têm um papel fundamental", explicou o realizador. A protagonista Michalina Olszanska e a modelo Sara Sampaio serão duas dessas mulheres fortes. No elenco ainda se encontram nomes como Vítor Norte, Rita Blanco, Miguel Borges e Ana Cristina Oliveira.


Durante o painel, a equipa apresentou, para além do novo trailer, lançado em primeira mão na Comic Con Portugal, duas cenas do filme, em exclusivo. A curiosidade já está aguçada.