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terça-feira, 12 de janeiro de 2021

Crítica: Let Them All Talk (2020)

*5.5/10*

Let Them All Talk é a curiosa experiência de Steven Soderbergh a filmar a bordo de um navio, ao longo de uma viagem transatlântica. Um filme de reencontros, mágoas e confrontação com um passado comum.

"Uma escritora famosa reúne as amigas para se divertir e sarar feridas antigas num cruzeiro, com a companhia do seu sobrinho para guardar as senhoras e se apaixonar por uma jovem agente literária."


Let Them All Talk
tem um registo leve e descontraído, com os dilemas do escritor em leve debate. Todavia, as conversas recaem principalmente numa reflexão sobre o passado e na forma como este influenciou a vida actual, quer das personagens mais velhas como das mais novas.

Com três grandes actrizes no elenco, o trabalho do realizador fica facilitado e, realmente, Meryl StreepCandice Bergen e Dianne Wiest são a luz de Let Them All Talk. Streep é Alice, a escritora contida e cansada, cujo snobismo actual intriga as amigas de juventude; Candice Bergen é Roberta, a mais extrovertida, incansável na busca por um homem rico, que guarda um rancor doentio por Alice que quer - e não quer - esclarecer; e Wiest é Susan, a amiga apaziguadora, mais introvertida e altruísta, é o elo pacificador do grupo.


Soderbergh cria um filme de reencontros e (tentativas de) reconciliação, de amores perdidos e recordações de uma juventude juntas. Mas também com invejas e actos falhados a compor a narrativa. O tom nunca é de alegria sincera, mas uma junção de melancolia e saudade do tempo que já não volta.

domingo, 11 de março de 2018

Sugestão da Semana #315

Das estreias da passada Quinta-feira, a Sugestão da Semana do Hoje Vi(vi) um Filme destaca Lady Bird, de Greta Gerwig. O filme esteve nomeado para cinco Oscars da Academia e a crítica pode ser lida aqui.

LADY BIRD


Ficha Técnica:
Título Original: Lady Bird
Realizadora: Greta Gerwig
Actores: Saoirse Ronan, Laurie Metcalf, Tracy Letts, Lucas Hedges, Timothée Chalamet
Género: Comédia, Drama
Classificação: M/14
Duração: 94 minutos

sábado, 13 de janeiro de 2018

Crítica: Três Cartazes à Beira da Estrada / Three Billboards Outside Ebbing, Missouri (2017)

"What's the law on what ya can and can't say on a billboard?" 
Mildred Hayes

*9/10*

Três Cartazes à Beira da Estrada é um grande murro no estômago. Um filme amargo, com personagens tão reais e profundas interpretadas por actores que põem alma no que fazem. Martin McDonagh escreveu e realizou um daqueles filmes que não nos vamos cansar de rever, partilhar dúvidas, esperanças, mágoas e clamar por justiça.

Depois de meses sem ser encontrado o culpado no caso do homicídio da sua filha, Mildred Hayes (Frances McDormand) faz uma jogada ousada ao alugar três cartazes à entrada da cidade com uma mensagem polémica dirigida a William Willoughby (Woody Harrelson), o respeitado chefe de polícia da cidade. Mas quando o seu adjunto Dixon (Sam Rockwell), um menino da mamã imaturo com uma inclinação para a violência, se envolve, a batalha entre Mildred e a lei de Ebbing, descontrola-se.


Martin McDonagh coloca-nos numa pequena cidade sulista, de velhos costumes e pouca vontade de mudar. Apresenta-nos, desde logo, a uma mulher de armas, com excelente visão publicitária, que decide alugar três velhos outdoors perto de sua casa para pressionar a polícia a fazer o seu trabalho. E sete meses depois, o crime não resolvido volta a estar em cima da mesa e nas bocas de todos os habitantes - e visitantes. Os três cartazes passam a ser o seu maior tesouro.

A violência policial, actos irreflectidos, arrependimentos e relações familiares são alguns dos temas que constroem a história amarga e de desesperança que McDonagh nos conta - e que belo contador de histórias. O guião traz coerência e realismo, mas sabe igualmente como introduzir o humor, um humor sombrio, mordaz, que também dói.


No meio da forte crítica social de Três Cartazes à Beira da Estrada - a que nem a Igreja escapa -, destacam-se os actores e as suas personagens. Frances McDormand é uma força da Natureza na pele de Mildred Hayes, uma mãe-justiceira, sem medo de consequências, sem remorsos, sem papas na língua. Ela nunca sorri, é fria, dura, mas também chora. Já foi vítima, mas aprendeu a não se sentir intimidada por nada, desafia a autoridade e as provocações e protege os seus como pode. Sam Rockwell é um camaleão como Dixon, o homem intragável, intratável, violento e com um ódio desmedido que toma conta dos seus actos. É uma criança grande, que veste farda e usa armas, enquanto não larga os headphones ou as revistas de banda desenhada. A sua personagem sofre uma grande transformação ao longo do filme e há valores que vamos descobrindo neste homem imaturo que nos vão surpreender. Woody Harrelson é o desafiado chefe da polícia, um dos bons, mas impotente, desencantado, é um homem em claro sofrimento. O trio de actores tem desempenhos tão credíveis que tudo o que vemos poderia ser real.


Três Cartazes à Beira da Estrada é uma história de luta, revolta, batalhas infrutíferas, preconceitos, impunidade, onde, no meio do drama, surge o humor inusitado, sarcástico. Afinal, há que rir da própria desgraça.

sábado, 25 de fevereiro de 2017

Oscars 2017: Os Actores Secundários

Percorro agora os nomeados para o Oscar de Melhor Actor Secundário. É uma categoria equilibrada, com boas prestações, outras que poderiam dar lugar a nomes que ficaram de fora - o caso de Aaron Taylor-Johnson, vencedor do Globo de Ouro nesta categoria, é o exemplo mais flagrante. Eis os cinco nomeados, por ordem de preferência.

Mahershala Ali faz-se notar em Moonlight, numa prestação muito emotiva na pele de Juan. Num filme em que os secundários brilham (Naomi Harris faz-lhe companhia nas nomeações), o actor consegue que a sua personagem conquiste a simpatia da plateia, mesmo fazendo parte do submundo da droga, já que tem uma sensibilidade que até agora não tivera oportunidade de mostrar no cinema. Juan tem pouco tempo de ecrã, mas a sua presença é forte o suficiente que nos lembremos sempre dele.

Sempre inesquecível em qualquer personagem que dota do seu toque tão característico, Michael Shannon é o incansável polícia texano Bobby em Animais Noturnos. O actor incorpora este homem amargurado e sem nada a perder com a mesma força a que nos tem habituado. Confere-lhe a fragilidade de um homem doente e, ao mesmo tempo, a brutalidade de quem não tem medo de prestar contas a ninguém. É um dúbio homem da lei.

Não tão forte como os dois primeiros actores na corrida ao prémio, Dev Patel é um secundário com muito tempo de antena em Lion - A Longa Estrada para Casa. O actor interpreta o protagonista Saroo, adulto, na sua incansável e doentia procura pela família biológica de quem se perdeu aos cinco anos de idade. Patel tem um interpretação esforçada e competente, apesar de não atingir o pleno.

Mais um xerife nos nomeados para Melhor Actor Secundário. Desta vez, temos um mesmo à beira da reforma e com um difícil caso de assaltos a bancos para resolver. Jeff Bridges é um veterano que desempenha bem e sem dificuldade qualquer papel. Ele quer cumprir a lei, custe o que custar, é um homem que vive para o trabalho, dedicado e muito persistente.

Lucas Hedges poderia não constar nesta lista de nomeados, apesar do seu desempenho esforçado no papel de adolescente rebelde, que vive com a mágoa da perda do pai. Apesar da revolta que demonstra, o jovem está unido ao tio pelo sangue, dor e recordações.

sábado, 11 de fevereiro de 2017

Crítica: Manchester by the Sea (2016)

"My heart was broken, but I know yours was broken too."
Randi Chandler

*7.5/10*

Quando deixamos de pertencer à terra onde nascemos ou crescemos, nem os laços familiares podem, por vezes, curar a ferida. Manchester by the Sea faz-nos seguir a trágica família Chandler, e a sua realidade dura e triste. Kenneth Lonergan escreve e filma um drama familiar bem construído, focado essencialmente em dois elementos da mesma família: tio e sobrinho - os dois que restam. 

Quando Joe (Kyle Chandler) morre subitamente, o seu irmão, Lee (Casey Affleck), passa a ter a guarda legal do sobrinho Patrick (Lucas Hedges), um adolescente de 16 anos. Este facto obriga-o a lidar com o trágico passado que o separou da mulher, Randi (Michelle  Williams), e da comunidade onde nasceu e foi criado.

Presente e passado vão-se alternando à medida que conhecemos Lee e a história da sua família. O companheirismo com o irmão, os problemas conjugais de ambos, os dias felizes e aqueles que arruinaram tudo. Certo é que por muito dramático que seja, Manchester by the Sea não é um filme previsível. Lonergan consegue desconstruir a história ao pormenor, encaixando as revelações nos momentos certos e atraindo, cada vez mais, a atenção do seu público.


Lee é um homem solitário que vive num pequeno quarto em Boston onde é uma espécie de zelador de diversos prédios - um faz-tudo de poucas falas ou sorrisos. O seu emprego mal pago é uma espécie de hobby que o ajuda a passar os dias. A morte inesperada do irmão traz uma reviravolta à sua vida. Um regresso ao doloroso passado. Casey Affleck é o motor da narrativa, seguimo-lo de Boston a Machester-by-the-sea, entre o presente e passado, num conflito interior constante. Um homem triste, deprimido, com uma aura cheia de mágoa e culpa. O actor transparece todas estes sentimentos e emoções sem esforço e faz-nos nutrir facilmente uma simpatia tímida pela sua personagem reservada.

A solidão do tio contrasta com a rebeldia do sobrinho, no esplendor da adolescência, mas ambos estão unidos pelo sangue, dor e recordações. Conflitos e egoísmo, dão lugar à compreensão. Mas os reencontros, as hostilidades, o desconforto, os vícios do passado, os traumas e os fantasmas regressam e Lee vê-se a afundar como acontecera muitos anos antes.


As cores frias perduram, junto ao mar já de si azul (blue), ou em Boston gelada, onde o pacato Lee vive. O ambiente de Manchester by the Sea é também pouco caloroso, às vezes desesperante, com a banda sonora a acompanhar o mood.

Realista e amargo, o mais recente filme de Kenneth Lonergan não ficará na memória, mas vale uma sentida visualização, onde o Lee de Casey Affleck vai merecer toda a nossa compaixão e admiração. Para muitos, o regresso às origens pode ser um pesadelo.

quinta-feira, 12 de janeiro de 2017

Sugestão da Semana #254

Das estreias da passada Quinta-feira, a Sugestão da Semana destaca Manchester by the Sea, de Kenneth Lonergan.

MANCHESTER BY THE SEA


Ficha Técnica:
Título Original: Manchester by the Sea
Realizador: Kenneth Lonergan
Actores:  Casey Affleck, Michelle Williams, Kyle ChandlerLucas Hedges
Género: Drama
Classificação: M/14
Duração: 137 minutos