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quarta-feira, 7 de maio de 2025

IndieLisboa 2025: Primeira Pessoa do Plural (2025)

"Vês coisas ainda?"
Irene


*5/10*

Sandro Aguilar é um realizador com uma estética e narrativa muito próprias na sua filmografia. Primeira Pessoa do Plural é uma nova incursão num drama fantasioso e cheio de devaneios de realizador e personagens.

"Mateus Lagoa e a sua esposa Irene preparam-se para celebrar o vigésimo aniversário de casamento num luxuoso resort numa ilha tropical, deixando o filho adolescente perigosamente à deriva."

Ao longo da história que conta, Primeira Pessoa do Plural é um delírio, seja devido aos efeitos secundários das vacinas contra as doenças tropicais que os protagonistas tomaram, seja por vontade do realizador, que experimenta sem pudores várias opções cinematográficas. 


Os actores, em especial Albano Jerónimo (como Mateus, mas que vai tendo uma variedade de outros nomes ao longo da longa-metragem), aproveitam a liberdade criativa do cineasta e do próprio filme, e exploram os seus limites, entre as febres altas, os sonhos vívidos e as sensações que uma viagem tropical poderia causar. O filho do casal, que fica em Portugal, apesar de não padecer de efeitos secundários, parece contagiar-se pelo descontrolo dos pais, e vive solitário entre traumas do passado e os desafios da adolescência.

A par da loucura febril de Mateus e Irene, o luto paira como uma assombração sobre o casal e o seu filho, cada um com a sua forma de lidar com ele. Um quarto vazio de gente, um velório inusitado, tudo se confunde entre o real e o delírio - mas a dor mais profunda está verdadeiramente presente.


A direcção de fotografia de Rui Xavier é exímia neste experimentalismo de Aguilar, e aproveita cada particularidade para criar um quadro vivo, tirando partido de alguns dos adereços que as personagens usam ou que as rodeiam - nota positiva para direcção artística e guarda-roupa. Já a montagem arriscada acentua a desconexão de acontecimentos e a confusão mental das personagens.

Todavia, o grande defeito de Primeira Pessoa do Plural é que, efectivamente, não chegará ao Nós a que o título apregoa. Fiel a si, Sandro Aguilar parece filmar sempre na primeira pessoa do singular. É um exercício de estilo e de ideias soltas, com algum humor à mistura, mas sem se conectar com o público. E aí está a sua maior falha.

quarta-feira, 2 de outubro de 2024

Globos de Ouro - Sic: Vencedores

Os Globos de Ouro SIC 2024 foram anunciados na noite de Domingo, 29 de Setembro. Mal Viver/Viver Mal, Rabo de Peixe e Matilha foram alguns dos premiados nas categorias de cinema e ficção televisiva.

Eis a lista de nomeados e vencedores em cada uma das categorias:

Cinema

Melhor Filme

Baan, Leonor Teles

Mal Viver e Viver Mal, João Canijo

Nação Valente, Carlos Conceição

Nayola, José Miguel Ribeiro

Onde Fica Esta Rua? Ou Sem Antes Nem Depois, João Pedro Rodrigues e João Rui Guerra da Mata


Melhor Actor

João Arrais, Nação Valente

Pedro Inês, Índia

Albano Jerónimo, The Nothingness Club - Não Sou Nada e O Pior Homem de Londres

Rui Morrison, Sombras Brancas

Ruben Simões, Vadio


Melhor Actriz

Rita Blanco, Mal Viver e Viver Mal

Rita Cabaço, O Vento Assobiando nas Gruas

Carla Maciel, Légua

Anabela Moreira, Mal Viver, Viver Mal e A Semente do Mal

Maria João Pinho, A Sibila


Televisão

Melhor Ficção

Codex 632

Lúcia, A Guardiã dos Segredos

Matilha

Rabo de Peixe

Senhora do Mar


Melhor Actor

José Condessa, Rabo de Peixe

Albano Jerónimo, Rabo de Peixe

Afonso Pimentel, Matilha e Rabo de Peixe

Paulo Pires, Codex 632

Rodrigo Tomás, Rabo de Peixe


Melhor Actriz

Inês Aires Pereira, Erro 404

Márcia Breia, Lúcia, A Guardiã do Segredo

Helena Caldeira, Rabo de Peixe

Sofia Ribeiro, Senhora do Mar

Margarida Vila-Nova, Matilha

terça-feira, 6 de junho de 2023

Opinião - Séries: Rabo de Peixe / Turn of the Tide / Mar Branco (2023)

*8/10*


Rabo de Peixe, segunda série portuguesa da Netflix, inspira-se em acontecimentos reais para criar uma frenética e inacreditável história de crime e aventuras. Momentâneo sucesso mundial - tendo chegado ao top 10 da Netflix em mais de 30 países -, provavelmente perderá algum fôlego entre os mais vistos nos próximos dias, mas o impacto que causou, especialmente em Portugal, já ninguém lhe tira.

Tudo começa quando um barco cheio de cocaína se afunda na costa de São Miguel, ao largo da freguesia de Rabo de Peixe. O jovem pescador Eduardo (José Condessa) vê aí uma oportunidade para ganhar dinheiro, que se revela ter tanto de emocionante como de arriscado.


Criado pelo açoriano Augusto Fraga, que escreveu o argumento em conjunto com Hugo Gonçalves e João Tordo, Rabo de Peixe não fica atrás de outras séries internacionais sobre a máfia ou o tráfico de droga. A série portuguesa tem um ritmo frenético - tal como o efeito da cocaína nas personagens - e está repleta de analepses, com pausas na acção para mostrar como tudo aconteceu até ali. Humor e tragédia convivem com a esperança de uma vida melhor, que choca de frente com a violência dos que também acham que a droga lhes pertence.

A pobreza que se vive na freguesia, as escassas hipóteses de singrar na ilha, a homossexualidade num local tão fechado em si, o sonho americano sempre a pairar - em especial sobre Eduardo - são alguns dos temas que mais se destacam, paralelamente à acção principal.

Os protagonistas têm personalidades bem definidas e um contexto familiar/social que se vai construindo ao longo dos sete episódios desta temporada. O elenco jovem mostra talento: o carismático José Condessa como Eduardo, Helena Caldeira na pele da rebelde Sílvia, Rodrigo Tomás como Rafael - responsável por muitos dos momentos de humor da série - e André Leitão como o sonhador Carlitos. Pouco haverá a dizer sobre o extraordinário Albano Jerónimo, o antagonista Arruda, um homem perverso e cruel, e todavia, protagonista de momentos hilariantes. Ainda a destacar, o narrador Pêpê Rapazote, Uncle Joe, uma grande surpresa no decorrer da série.


A direcção de fotografia de André Szankowski filma Rabo de Peixe de um ponto de vista inebriante, destacando as paisagens naturais, mas igualmente as cores vivas das casas pelas ruas da freguesia. A direcção artística aproveita da melhor forma o tempo da acção, quando ainda havia clubes de vídeo, os telemóveis eram raros, os escudos e euros conviviam nas carteiras, as adolescentes espelhavam a moda da época (Sílvia tem sempre uma gargantilha que era peça fundamental também no meu visual de 2001).

Entre situações mais ou menos inverosímeis - ou exageradas - e aproveitando muitos dos mitos que se criaram em redor do caso real da cocaína na ilha, Rabo de Peixe apresenta bons valores de produção, um elenco competente e um enredo viciante que faz os sete episódios passarem num instante.

domingo, 28 de maio de 2023

Sugestão da Semana #562

Das estreias da passada Quinta-feira, a Sugestão da Semana destaca Os Filhos dos Outros, de Rebecca Zlotowski. Ainda uma menção especial para a estreia da nova série portuguesa da Netflix, Rabo de Peixe, disponível na plataforma desde dia 26 de Maio.

OS FILHOS DOS OUTROS


Ficha Técnica:
Título Original: Les enfants des autres
Realizadora: Rebecca Zlotowski
Elenco: Virginie Efira, Roschdy Zem, Chiara Mastroianni, Victor Lefebvre, Callie Ferreira, Antonia Buresi
Género: Comédia, Drama, Romance
Classificação: M/12
Duração: 103 minutos


RABO DE PEIXE


Ficha Técnica:
Título Original: Rabo de Peixe
Elenco: José Condessa, Rodrigo Tomás, Helena Caldeira, Kelly Bailey, Afonso Pimentel, André Leitão, Pêpê Rapazote, Albano Jerónimo, Maria João Bastos, João Pedro Vaz, Adriano Carvalho
Género: Acção, Drama, Crime, Thriller
Plataforma: Netflix

sexta-feira, 7 de outubro de 2022

Crítica: Restos do Vento (2022)

"Tu não podes falar disto a ninguém, percebeste? Ninguém."
Paulo


*7/10*

As tradições mais ancestrais servem de mote para uma história de poder e exclusão numa povoação perdida no interior norte de Portugal. Depois de A Herdade, Tiago Guedes regressa com Restos do Vento, um filme mais sombrio e angustiante que o seu antecessor, com quem partilha a particularidade da acção se passar também em épocas distintas - separadas por 25 anos.

Uma comunidade fechada em si e no machismo tóxico das suas tradições, vê-se assombrada por traumas passados, que emergem quando uma tragédia acontece. Todos guardam segredos, qual pacto de silêncio. Ao mesmo tempo, o estranho ou desconhecido também não é bem acolhido entre a população - mesmo que seja fruto dela.


Tiago Guedes - que assina igualmente o argumento juntamente com Tiago Rodrigues - pretende imiscuir-se no centro da violência e perceber como pode ela ter origem nas sociedades envolventes. Esta pequena vila sem nome guarda em si o rastilho que faz despertar o que de pior pode existir no ser humano. Rituais ultrapassados, escondidos dentro de baús, estão mais vivos do que se pensa, num local onde parece não existir lei. E, por muita boa vontade que alguns tenham, as novas gerações cultivam os piores vícios e medos, da mesma forma que os seus pais: com humilhação, violência, machismo e abusos.

Com uma premissa forte e um protagonista cheio de potencial, Restos do Vento não vai ao âmago das outras personagens, tornando-as superficiais e insensíveis, até mesmo pouco realistas. O início em crescendo, onde os rituais machistas, em que rapazes vestidos com fatos e capuz de serapilheira perseguem as jovens da aldeia para as açoitar (os caretos de Podence,  bem mais modernos, podem ser facilmente entendidos como inspiração para esta "tradição" ficcional), cativa as atenções da plateia para a brutalidade do Homem. Todavia, 25 anos passados, e após as festividades da terra, algo acontece que vem perturbar a aparente tranquilidade da povoação. É aí que o filme perde intensidade: há uma enorme quebra na acção, com decisões pouco consistentes, um suspense frágil e muita previsibilidade. 


Num elenco de grandes nomes do cinema português - como Nuno Lopes (Samuel), Isabel Abreu (Judite), Gonçalo Waddington (Vítor) ou João Pedro Vaz (Paulo) - é Albano Jerónimo quem se distingue, num papel muito diferente daqueles que o têm notabilizado. Ele é o protagonista, Laureano, um homem frágil e ingénuo, apesar do aspecto que assusta muitos com quem se cruza, e que vive à margem da comunidade, numa velha casa isolada. Solitário, apenas conta com o apoio de Judite, e com a companhia dos muitos cães errantes, os seus mais fiéis companheiros. Albano Jerónimo encarna Laureano de forma intensa, desde logo na transformação física que o levou a ganhar peso, assume o desleixo da personagem, o seu jeito de andar desengonçado, as expressões inocentes ou amedrontadas. Esta é a única personagem que mexe com a plateia e desperta verdadeira compaixão.


E mesmo com a falta de maior complexidade narrativa, Restos do Vento oferece-nos uma experiência desafiante, que mexe com emoções e faz reflectir sobre a (i)legitimidade da violência. Um filme capaz de provocar uma angústia latente dos dois lados do ecrã.

domingo, 25 de setembro de 2022

Sugestão da Semana #527

Das estreias da passada Quinta-feira, a Sugestão da Semana destaca o filme português, Restos do Vento, de Tiago Guedes.

RESTOS DO VENTO


Ficha Técnica:
Título Original: Restos do Vento
Realizador: Tiago Guedes
Elenco: Albano Jerónimo, Nuno Lopes, Isabel Abreu, João Pedro Vaz, Gonçalo Waddington, Leonor Vasconcelos, Maria João Pinho, Tónan Quito
Género: Drama
Classificação: M/14
Duração: 127 minutos

domingo, 3 de janeiro de 2021

Crítica: Ordem Moral (2020)

*7.5/10*

Ordem Moral, de Mário Barroso, é um elogio a uma mulher que desafiou o seu tempo. Um exemplo de emancipação e feminismo numa época de turbulência social e política - e mesmo de saúde pública, com a gripe espanhola a fazer vítimas, numa imprevisível analogia aos dias que vivemos.

"A história que pretendemos contar é pública e conhecida: em 1918, Maria Adelaide Coelho da Cunha, herdeira e proprietária do Diário de Notícias, abandona o luxo social, cultural e familiar em que vive para fugir com um insignificante chauffeur, 26 anos mais novo. As consequências desta sua decisão serão obviamente dolorosas e moralmente devastadoras."

O retrato de uma época em que as mulheres eram meros acessórios: as de classe baixa viviam para o trabalho e abusos dos patrões, sem dignidade ou defesa, as da alta sociedade vivam no ócio, inúteis e esquecidas pelos homens da casa, que as desrespeitavam e se desfaziam delas quando assim lhes conviesse. Não seria assim tão linear, mas o resumo está feito e somavam-se exemplos, como bem nos conta Ordem Moral, pegando na história da herdeira do Diário de Notícias, interpretada de corpo e alma por Maria de Medeiros. Uma interpretação magistral que é a alma da longa-metragem, entre a rebeldia, o altruísmo, a simplicidade, a paixão, o desespero, mas sem baixar os braços, até ao fim.

Para todos os médicos famosos da época, Maria Adelaide era louca por querer viver e amar, com justificações pouco científicas, em que a menopausa seria a desculpa ideal para aprisioná-la num manicómio e privá-la, ainda mais, de gerir os seus bens. Um marido bem relacionado só piorava a situação de uma mulher que já tinha parcos direitos perante a Lei.

Há um excelente trabalho na recriação da época no guarda-roupa e direcção artística, cuja direcção de fotografia de Barroso compõe e ilumina em belíssimos quadros. Ao mesmo tempo, é capaz de tocar temas como a homossexualidade, o aborto clandestino, a situação política instável e a ascensão dos nacionalismos, os horrores da pneumónica, tudo sem desviar a atenção da figura e mensagem principais.

De foragida por amor - e desejo de liberdade - a prisioneira num hospital - onde encontrou algumas injustiçadas como ela -, Maria Adelaide foi um marco no feminismo e na emancipação das mulheres na sociedade, desafiando convenções, os homens e toda a qualquer Ordem Moral.

segunda-feira, 14 de setembro de 2020

Sugestão da Semana #434

Das estreias da passada Quinta-feira, a Sugestão da Semana destaca o filme português Ordem Moral, de Mário Barroso, protagonizado por Maria de Medeiros.

ORDEM MORAL


Ficha Técnica:
Título Original: Ordem Moral
Realizador: Mário Barroso
Elenco: Maria de Medeiros, Marcello Urgeghe, João Pedro Mamede, João Arrais, Albano Jerónimo, Júlia Palha, Ana Padrão
Género: Drama
Classificação: M/14
Duração: 101 minutos

quarta-feira, 22 de abril de 2020

A Herdade - versão série - estreia na RTP1 a 30 de Abril e 1 de Maio

A versão série de A Herdade, filme de Tiago Guedes, estreado nos cinemas em 2019, chega à RTP  nos próximos dias 30 Abril e 1 de Maio, às 21h45.


A série terá quatro episódios, sendo exibidos dois em cada dia. Protagonizado por Albano Jerónimo e Sandra Faleiro, A Herdade acompanha a história de uma família proprietária de um dos maiores latifúndios da Europa, na margem sul do rio Tejo, ao mesmo tempo que faz o retrato da vida histórica, política, social e financeira de Portugal, dos anos 40, atravessando a Revolução do 25 de Abril e até aos dias de hoje.

Podes ler a crítica do Hoje Vi(vi) um Filme ao filme, aquando da estreia nos cinemas, em Setembro de 2019, aqui.

terça-feira, 25 de fevereiro de 2020

Momentos para Recordar #64

Em dia de Carnaval, o Momentos para Recordar destaca o filme de Edgar Pêra, Delírio em Las Vedras, uma autêntica folia filmada em plenos festejos do Carnaval de Torres Vedras. 

Uma comédia de costumes com o toque sempre surreal do realizador português. No elenco, encontramos - bem mascarados - Nuno Melo, Albano Jerónimo, José Raposo, Sofia Ribeiro, José de Pina, Rui Melo, Marina Albuquerque, Miguel Borges, Marco Paiva, Jorge Prendas, Miguel Pereira, João Sodré e Mafalda Matos.

Delírio em Las Vedras, Edgar Pêra (2016)

domingo, 22 de setembro de 2019

Sugestão da Semana #395

Das estreias da passada Quinta-feira, a Sugestão da Semana destaca o filme português A Herdade, de Tiago Guedes, protagonizado por Albano Jerónimo e Sandra Faleiro. Lê a crítica do Hoje Vi(vi) um Filme.

A HERDADE


Ficha Técnica:
Título Original: A Herdade
Realizador: Tiago Guedes
Elenco: Albano Jerónimo, Sandra Faleiro, Miguel Borges, João Vicente, João Pedro Mamede, Ana Vilela da Costa
Género: Drama
Classificação: M/12
Duração: 166 minutos

quarta-feira, 18 de setembro de 2019

Crítica: A Herdade / The Domain (2019)

"Roubou-me metade da minha vida, já não me rouba mais nada".
Leonor


*8/10*

Os campos alentejanos, a política do Estado Novo e personagens intensas juntam-se para contar a história de uma família portuguesa em A Herdade. Se fosse um livro, A Herdade poderia ter sido escrito por alguém que fundisse o crítico Eça de Queirós e o apaixonado Camilo Castelo Branco. Rui Cardoso Martins escreveu o guião, posteriormente alterado por Tiago Guedes, e ainda com algumas ideias de Gilles Taurand, que resulta numa história contada a três tempos.

O filme de Tiago Guedes tem uma dimensão pouco usual no cinema português. É um drama histórico, que se pode confundir, por vezes, com uma novela - das boas -, e cujo visual ficará na memória, qual quadro em movimento.


A Herdade apresenta-nos a uma família proprietária de um dos maiores latifúndios da Europa, na margem sul do rio Tejo, e leva-nos a mergulhar nos segredos da sua herdade, fazendo o retrato da vida histórica, política, social e financeira de Portugal, dos anos 40, atravessando a Revolução do 25 de Abril, até aos anos 90.

O homem rico e poderoso está habituado a dominar, ser dono e senhor das suas terras, mais ainda em tempos de ditadura. João, contudo, não é um patrão insensível e distante, bem pelo contrário, ele não quer saber de política e tem uma estreita relação com os seus trabalhadores. Na sua herdade, a lei que impera não é bem a mesma que no resto do território nacional. Já dentro das portas da sua casa, ele mantém a frieza e brusquidão com que foi educado pelo seu pai - que a primeira cena do filme, ainda antes do título surgir, nos demonstra com crueldade - e não admite a fraqueza.


João é um homem frio, poderoso, intransigente, de amores fugazes e opiniões sólidas. Albano Jerónimo é capaz de encarná-lo com dignidade, com uma sensualidade que contrasta com a sua rudez. Ao seu lado, Sandra Faleiro é a maior estrela do filme. Os seus cabelos loiros, olhos azuis, pele clara, de ar angelical, nórdico e frágil, compõem uma mulher muito mais forte e firme do que aparenta. Leonor sofre em silêncio mas não se deixa rebaixar em momento algum, acomoda-se mas não se deixa humilhar, é independente, apesar do marido infiel e do pai general da PIDE. Os seus olhos dizem muito mais do que qualquer palavra.

O tom novelesco que percorre esta história não incomoda, pelo menos até à chegada dos anos 90 em que o socio-político que até então dominava a narrativa muda o foco para a tragédia familiar. Os filhos já são adultos e não há espaço para as suas personalidades crescerem tanto como os seus corpos. Miguel - um intenso João Pedro Mamede - ganha protagonismo e a importância que sempre espreitou atrás das portas ao longo do filme; mas não chega para conquistar a plateia da mesma maneira que os seus pais já conseguiram.


Elementos fundamentais e simbólicos surgem em A Herdade, quase como parte dos protagonistas. Os cavalos de João, com quem parece ter uma relação mais próxima que com a própria família; o vento, omnipresente naqueles campos a perder de vista; o sótão dos que não querem ser encontrados; a vedação onde Miguel encontra alguma liberdade, tal como o pequeno forte em ruínas onde João se refugiava em criança; a árvore que desde o início é quase um membro da família...

Um dos mais marcantes momentos do filme de Tiago Guedes coincide com o 25 de Abril de 1974. Imagens e som de arquivo entram em cena para contar a História. Testemunhamos a revolução a nascer lá fora mas não dentro daquela casa.


Tecnicamente, A Herdade consegue proporcionar-nos imagens inesquecíveis através da direcção de fotografia de João Lança Morais (que joga da melhor forma com luz e escuridão, adequando-as através dos tempos), entre planos sequência memoráveis (o do baile, com cerca de oito minutos, não escapará a ninguém), o simbolismo das personagens que surgem nas sombras ou os planos filmados junto à árvore ao longo dos tempos. Os silêncios são trabalhados de forma eficaz pela equipa de som que merece igualmente destaque.

A Herdade é quase um épico do cinema português e Tiago Guedes teve a coragem de assumir as rédeas de um projecto de grande dimensão, quer no elenco, responsabilidade histórica, duração (166 minutos) e beleza estética. Cada personagem é toldada pela infância que teve. João, com todos os seus fantasmas e vícios, só quer salvar o património da família e manter o poder que sempre julgou seu de direito.

domingo, 16 de dezembro de 2018

Opinião - Séries: Sara (2018)


*9/10*



Sara
ultrapassa barreiras, tão depressa passa da comédia ao drama, satiriza-se a si mesma e atinge, por diversos momentos, um estatuto delirante. Sara é uma série portuguesa com grande potencial de exportação. Nunca se viu nada assim.

Toda a ideia de Bruno Nogueira transpira genialidade - de génio e de louco, temos todos um pouco, e deve ser por isso que Sara nos diz tanto. Na realização, Marco Martins faz-nos esquecer que estamos a ver televisão, construindo quase um híbrido de plataformas (sem esquecer que a série teve antestreia no IndieLisboa, um festival de cinema). Às vezes, parece que o ecrã é o do cinema e para tal muito contribui o bom trabalho da direcção de fotografia. A adicionar a esta dualidade, surge a música e a literatura com temas de B Fachada e textos de Valter Hugo Mãe, apropriados pelas personagens da série (Tónan Quito e António Durães, respectivamente).

Ao longo da série, acompanhamos Sara Moreno, uma actriz de 42 anos, que começa a questionar as suas escolhas profissionais até ao momento. Conhecida pela sua densidade dramática no teatro e cinema, e pela facilidade em chorar nos papéis que interpreta, de repente, Sara deixa de ter lágrimas. Com o pai doente, abandona a rodagem do seu último filme e vê-se forçada a entrar no mundo das novelas, redes socais, sessões fotográficas para revistas cor-de-rosa, transformando totalmente a sua vida.

Nestes oito episódios que passam a correr, acompanhamos a tentativa de adaptação de Sara a um novo estilo de vida, as suas frustrações e dúvidas. Que turbilhão de sensações!


Beatriz Batarda encarna Sara, a actriz de cinema que se rende à televisão, tal como a própria, com um currículo quase exclusivamente dedicado à Sétima Arte. Começam aí as ironias e coincidências. Estas continuam com as ideias preconcebidas que sempre associamos aos filmes portugueses, as revistas cor-de-rosa e os paparazzi sempre à espera da melhor oportunidade, entre tantas outras. A sátira às novelas é certeira, mas é igualmente eficaz a crítica a quem as condena. A personagem de Nuno Lopes, o galã João Nunes, é, por sua vez, um estereótipo muito curioso, cheio de fragilidades, escondendo uma inesperada sensibilidade até ao último episódio.

Sara faz-nos pensar, ao mesmo tempo que surge o equilíbrio - também é preciso não pensar, as novelas são o símbolo máximo disso mesmo -, e faz-nos rir dos momentos mais nonsense possíveis. Faz-nos chorar com duros dramas familiares ou dilemas psicológicos - onde surge a questão da dignidade da morte. Faz-nos enlouquecer com a consciência (aka agente, interpretado e bem por Albano Jerónimo) da actriz que a persegue e persuade a render-se àquilo que ela mais critica.

O meio audiovisual nacional é muito bem desconstruído em Sara e entre ataques, caricaturas e sátira, revelam-se igualmente a compreensão e até o lado mais puro do que parece apenas superficial. Sara sabe rir de si mesma, constrói-se através dessa sabedoria e é por isso que resulta. O background e influências de Marco Martins e Bruno Nogueira fundem-se para criar este universo tão inspirado na própria Beatriz Batarda, e piscam-nos o olho de quando em quando ao longo dos oito episódios memoráveis. Queremos mais!

segunda-feira, 26 de novembro de 2018

LEFFEST'18: Caminhos Magnétykos (2018)

"O dinheiro não é tudo..."

*7/10*

Em Caminhos Magnétykos, Edgar Pêra regressa à ficção surrealista a que já nos tem habituado, criando uma realidade que relembra ditaduras passadas, tão depressa como utiliza as ideias mais actuais e futuristas. O filme guia-nos por cenários que vão do tradicional ao moderno, sempre com distorções de imagens e sons, de luzes e cores alucinogénas.

Eis esta nova ditadura ultraliberal, um liberalismo ultraconservador, ou nem uma coisa nem outra. Mas temos um primeiro-ministro-celebridade televisiva com algo semelhante às conversas em família de Marcelo Caetano; Donald Trump surge sorrateiramente e os poderosos continuam a mandar no país. É novamente de admirar como mais um conto de Branquinho da Fonseca consegue ser tão bem adaptado na actualidade. Edgar Pêra inspira-se no autor pela terceira vez, após Rio Turvo e O Barão.


Em Caminhos Magnétykos, Raymond (Dominique Pinon), 60 e poucos anos, parisiense, autor de filmes fotográficos e BDs, veio para Portugal com o 25 Abril, apaixonou-se e ficou, onde reside há 40 anos. A sua actividade entrou em decadência e Raymond vive na dependência económica da sua mulher Gertrudes. Caminhos Magnétykos desenrola-se no dia do casamento da sua filha de 21 anos, Catarina (Alba Baptista), com Damião (Paulo Pires), um homem rico mais velho que ela. Em Lisboa, vive-se uma guerra civil.

Entre alguma paródia, surge o drama familiar e os dilemas de um pai que acaba de casar a filha preferida. Um existencialismo latente em Raymond vai-se desenvolvendo ao longo do filme, com o protagonista a questionar a sua vida e crenças. As ruas da cidade levam-no a encontrar-se com velhos amigos de ideais místicos ou revolucionários.

Após o encontro com a personagem de Ney Matogrosso, a expressão "o dinheiro não é tudo" passa a atormentar Raymond até ao final, num ambiente por vezes fantasmagórico.


No elenco, destaque para o protagonista Dominique Pinon, mas também para os papéis de Ney Matogrosso, Albano Jerónimo, Alba Baptista, Paulo Pires, António Durães e Teresa Ovídeo. Ao mesmo tempo, a banda sonora é outro ponto forte do filme de Pêra, com a música a cargo de Manuel de Oliveira, Paulo Furtado e Tó Trips.

Caminhos Magnétykos são mais um inspirado trabalho de Edgar Pêra, repleto da sua marcada estética e com ideias provocatórias e inebriantes.