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segunda-feira, 22 de abril de 2013

Sugestão da Semana #60

A Sugestão da Semana poderia recair sobre vários dos filmes estreados na passada Quinta-feira. Apesar da escolha ser difícil, o nomeado para o Oscar de Melhor Filme Estrangeiro, Professor Lazhar, é o destaque de hoje.

PROFESSOR LAZHAR


Ficha Técnica:
Título Original: Monsieur Lazhar
Realizador: Philippe Falardeau
Actores:  Mohamed Fellag, Sophie Nélisse, Émilien Néron
Género: Drama
Classificação: M/12
Duração: 94 minutos

domingo, 21 de abril de 2013

IndieLisboa'13: Não / No

*7.5/10*

No (ou Não), de Pablo Larraín, foi a escolha para a abertura desta 10ª edição do IndieLisboa, na passada Quinta-feira, dia 18 de Abril. O filme relata o que aconteceu nos bastidores do plebiscito de 1988 no Chile, em que se decidia se Pinochet continuaria ou não no governo.

O jovem publicitário René Saavedra, interpretado de forma muito competente por Gael García Bernal, é convencido pelos líderes da oposição a gerir a sua campanha a favor do Não. Sob o olhar da ditadura e com um orçamento reduzido, o protagonista e a sua equipa têm de traçar um plano para vencer e libertar finalmente o país do clima de opressão em que vivia. A escolha tem de ser certeira para que os 15 minutos de antena que lhes cabem dêem frutos. 

Pablo Larraín traz até nós o universo da publicidade num momento crucial da história de um país. Duas campanhas políticas confrontam-se - o Sim e o Não -, tendo à cabeça, de um lado, Saavedra, do outro, o seu próprio chefe. O mundo da publicidade é-nos desvendado, com as perseguições aos homens do Não a serem retratadas, num clima de medo, mas igualmente de vontade de mudar.


O realizador tomou opções muito curiosas em termos técnicos. A longa-metragem foi filmada no formato U-Matic, o mesmo que era utilizado na televisão à época dos acontecimentos. Ao mesmo tempo, a colocação de imagens de arquivo, que se misturam com as restantes - e ser-nos-á quase impossível distingui-las -, transportam-nos mais ainda para o Chile de 1988. 

O ritmo é original e muito se assemelha ao de um documentário - quer mesmo pelos factos relatados -, que se vê reforçado pelos planos e movimentos de câmara, que quase tornam o filme mais real do que ficcional, e pela curiosa opção de montagem. Realidade e ficção confundem-se em No de uma forma genial.

A passagem para o grande ecrã de acontecimentos tão importantes para o Chile valeram à longa-metragem de Larraín uma nomeação para Melhor Filme Estrangeiro nos Oscars deste ano. O filme leva-nos, acima de tudo, a mergulhar de cabeça na campanha publicitária do Não e a sentir o ambiente de opressão que se vivia, como se o presenciássemos. No é a inteligência de uma equipa que quer a alegria e a liberdade de volta ao seu país.

quinta-feira, 21 de março de 2013

Crítica: Um Caso Real / A Royal Affair (2012)

*7/10*

Um Caso Real é o título perfeito da longa-metragem de Nikolaj Arcel. Baseado na história verídica do rei Christian VII da Dinamarca e da sua mulher Caroline Mathilde, que se envolveu com o médico do marido, este foi um dos filmes nomeados para Melhor Filme Estrangeiro nos Oscars 2013. A realeza dinamarquesa e todos os seus pecados, carnais, políticos ou pessoais são postos a nu num drama de época envolvente.

Em 1766, na Dinamarca, Caroline Mathilde está casada com Christian VII, um rei louco e incapaz, que a ignora e opta por uma vida escandalosa. Por seu lado, a rainha habitua-se a uma vida tranquila numa Copenhaga repressiva. Quando o rei regressa de uma viagem pela Europa acompanhado de Struensee, o seu novo médico, a Caroline descobre um inesperado aliado no seu reino. A atracção que os dois sentem desenvolve-se devido aos ideais que ambos partilham, mas depressa evolui para um romance clandestino e apaixonado. Ligado aos ideais iluministas proibidos na Dinamarca, o médico convence o rei a dar uso ao seu poder até aí inexplorado para destituir a conservadora assembleia política e levar a cabo grandes mudanças na sociedade dinamarquesa. Mas as consequências não tardarão.

O argumento é cativante, especialmente para apreciadores de históricos, tendo por base não somente a história verídica do reinado de Christian VII, como igualmente o romance de Bodil Steensen-Leth, Prinsesse af blodet. Fiel aos acontecimentos que aconteceram na época, Um Caso Real dá-nos a conhecer esta monarquia repressiva e de censura que se vivia até Struensee entrar no reino, e todas as consequências dos seus actos.


Desde os distúrbios psíquicos do rei, à infelicidade e ideais iluministas da rainha, deslocados da sociedade dinamarquesa, até ao caso amoroso que ela mantém com o médico Struensee, em quem se revê e lhe oferece todo o carinho e dedicação que não encontra no marido, o filme é claro e construído de forma a atrair atenções da plateia. A componente política é bem explícita, mostrando um rei incapaz de fazer mais do que assinar por baixo as decisões tomadas pela assembleia, que o toma como tolo e desequilibrado. A entrada de Stuensee na vida de Christian VII vem provocar grandes alterações: na personalidade do rei, que ganha confiança e vê no médico um companheiro que o compreende – ao contrário de toda a corte -; e nas decisões tomadas, com o rei a ganhar pulso firme e oferecendo liberdades ao seu povo, que até então nunca seriam permitidas.

terça-feira, 26 de fevereiro de 2013

Oscars 2013: A Red Carpet

Fugindo a qualquer tipo de estereótipo que possa criar-se, a autora deste blog não percebe nada de moda, mas, claro, tem os seus vestidos favoritos entre os que desfilaram pela red carpet da 85ª cerimónia dos Oscars. A grande diferença é que muitas das escolhas aqui apresentadas não agradarão a grande parte dos interessados pelo tema, que, muito provavelmente, os irão considerar de muito mau gosto, por algum motivo que devo desconhecer.

Mas porque a diversidade de opiniões é que interessa, aqui vos deixo os meus favoritos da noite/madrugada de ontem.


Ao lado do marido LIEV SCHRIEBER, a belíssima NAOMI WATTS, nomeada para Melhor Actriz, surpreendeu com este vestido  Giorgio Armani bastante original.


Muito elegante esteve HELEN HUNT no seu vestido azul H&M.


Vencedora do Oscar para Melhor Actriz Secundária em 2012, OCTAVIA SPENCER desfilou num belíssimo vestido Tadashi Shoji.


Sempre o casal mais divertido HELENA BONHAM CARTER e TIM BURTON compareceram no seu estilo muito próprio. A actriz de Os Miseráveis desfilou num irreverente e bonito vestido Vivienne Westwood.


Nomeada para Melhor actriz, JESSICA CHASTAIN desfilou com um Giorgio Armani que condizia e realçava a sua figura.


Uma das vencedoras da noite, ANNE HATHAWAY, que conquistou o Oscar de Melhor Actriz Secundária, desfilou num simples e elegante modelo Prada. Alvo de aparente chacota nas redes sociais, devido ao pormenor do vestido na zona do peito, que o acentuava, a actriz esteve deslumbrante, como sempre. Um dos meus favoritos da noite, contra tudo o que se tem escrito.


JENNIFER ANISTON desfilou deslumbrante num vestido vermelho da Valentino.


A mais jovem nomeada de sempre, QUVENZHANE WALLIS, desfilou elegante num vestido azul da Giorgio Armani. A acompanhar um divertida mala que condizia com a pequena actriz de nove anos. 


A actriz OLIVIA MUNN desfilou com um dos modelos que mais me agradaram. Um vestido Marchesa vermelho com bordados em dourado, arriscado, mas com um corte sublime.


Simples, sensual e elegante, CHARLIZE THERON no seu vestido branco Dior conquistou o meu favoritismo entre os modelos que desfilaram pela red carpet. 

segunda-feira, 25 de fevereiro de 2013

Oscars 2013: Os Vencedores

E chegou a grande noite dos Oscars. Acompanha aqui no Hoje Vi(vi) um Filme o anúncio dos vencedores, com actualização em tempo real.
Melhor Filme
Argo

Melhor Actor
Daniel Day-Lewis por Lincoln

Melhor Actriz
Jennifer Lawrence por Guia para um Final Feliz

Melhor Actor Secundário
Christoph Waltz por Django Libertado

Melhor Actriz Secundária
Anne Hathaway por Os Miseráveis

Melhor Realizador
Ang Lee por A Vida de Pi

Melhor Argumento Original
Django Libertado: Quentin Tarantino

Melhor Argumento Adaptado
Argo: Chris Terrio

Melhor Filme Animado
Brave - Indomável

Melhor Filme Estrangeiro

Melhor Fotografia
A Vida de Pi: Claudio Miranda

Melhor Montagem
Argo: William Goldenberg

Melhor Direcção Artística

Melhor Guarda-Roupa

Melhor Maquilhagem e Cabelo

Melhor Banda Sonora Original
A Vida de Pi: Mychael Danna

Melhor Canção Original
Skyfall, de AdelePaul Epworth, no filme 007 - Skyfall

Melhor Efeitos Sonoros
Os Miseráveis

Melhor Montagem de Som
Empate:
007 - Skyfall 

Melhor Efeitos Visuais

Melhor Documentário
Searching for Sugar Man

Melhor Curta Documental
Inocente

Melhor Curta de Animação
O Rapaz do Papel: John Kahrs

Melhor Curta
Curfew: Shawn Christensen

domingo, 24 de fevereiro de 2013

Oscars 2013: Melhor Filme

Depois da reflexão sobre as interpretações dos nomeados a Melhor Actor e Melhor Actriz, passemos à grande categoria desta noite de 24 de Fevereiro. São nove as longas-metragens na corrida para o Oscar de Melhor Filme. Entre as que merecem totalmente o prémio e as que nem deveriam constar da lista de nomeados, a escolha é muito diversificada e não se fica pelas produções norte-americanas.

1. Django Libertado (Django Unchained)

O meu grande favorito está longe de ser o mais acarinhado pela Academia, mas conta, ainda assim com cinco nomeações (entre as quais Melhor Argumento Original ou Melhor Actor Secundário, categorias com grande possibilidade de triunfar). Django Libertado é o mais recente e sangrento filme do grande Quentin Tarantino, onde se contam homenagens ao cinema quase a cada fotograma. O elenco é de luxo e está recheado de boas interpretações - Waltz, Jackson, Foxx e DiCaprio não deixam ficar mal a nenhum momento -, a banda sonora é viciante e Tarantino é fiel a si mesmo. Polémico ou não, Django Libertado é o melhor entre os nomeados.


2. Amor (Amour)

Uma surpresa entre os nomeados, o filme austríaco, falado em francês, conquistou lugar entre os nove magníficos e reúne, ao todo cinco nomeações (Melhor Filme Estrangeiro, Melhor Realizador, Melhor Actriz e Melhor Argumento Original são as outras quatro). Michael Haneke mostra uma vez mais como sabe contar uma história e comover-nos com o que há de mais real e mais doloroso. Amor é um filme marcante e pesado, que mexe com que há de mais profundo no ser humano. A história de Anne e Georges seria também merecedora do Oscar na principal categoria da noite, mas provavelmente levará apenas o de Melhor Filme Estrangeiro (e, quem sabe, o de Melhor Actriz Principal).


3. Bestas do Sul Selvagem (Beasts of the Southern Wild)

Mais um nomeado que me conquistou verdadeiramente. Bestas do Sul Selvagem tem quatro nomeações e, provavelmente, não conquistará nenhum prémio (apesar do de Melhor Argumento Adaptado lhe assentar tão bem). O filme do jovem realizador Benh Zeitlin transpira harmonia e significância, apelando à nossa reflexão, descoberta e imaginação enquanto espectadores. A protagonista Hushpuppy, brilhantemente interpretada por Quvenzhané Wallis, é a nossa guia nesta viagem à vida naquela comunidade esquecida que é a Banheira.


4. Lincoln

Steven Spielberg lidera as nomeações com o seu Lincoln, indicado para 12 categorias. O filme que se debruça sobre os últimos quatro meses de vida do Presidente norte-americano, tendo como foco toda a sua luta pela abolição da escravatura nos EUA, apesar do seu teor extremamente político, demonstrou ser muito para além disso. Envolvente, sempre construído de forma a chamar a atenção mesmo para o menos cativante dos diálogos, Lincoln quer chegar até ao que meno conhecer acerca da história norte-americana, e fá-lo sem tabus. Com um protagonista de peso - Daniel Day-Lewis - e secundários com grandes prestações - Tommy Lee Jones e Sally Field -, junta-se a Lincoln uma componente técnica marcada pela sua fotografia e banda sonora, tudo culminando num resultado muito positivo. Apesar da incerteza que paira este ano sobre quase todas as categorias dos Oscars, Lincoln não deve ganhar a de Melhor Filme, mas é, certamente, um dos favoritos na corrida.


5. 00:30 A Hora Negra (Zero Dark Thirty)

O filme de Kathryn Bigelow começou a Award Season como um dos grandes favoritos às estatuetas douradas mas foi perdendo fôlego ainda cedo. A realizadora ficou de fora dos nomeados na sua categoria apesar do excelente trabalho feito no seu 00:30 A Hora Negra, Jessica Chastain também perdeu o favoritismo para o prémio de Melhor Actriz, que recai agora sobre Jennifer Lawrence e Emmanuelle Riva, e , apesar das cinco nomeações, o filme sobre a captura de Bin Laden parece já ter poucas hipóteses de se sagrar vencedor na categoria principal. A história, contada sem tabus nem medos de exibir situações de tortura - e que tanta polémica levantou, por isso mesmo -, revela-se um bom filme de acção, e vale principalmente pela meia hora final, intensa e que quase coloca o espectador dentro da cena.


6. Argo

O grande favorito da noite é Argo, o filme de Ben Affleck sobre o resgate dos reféns norte-americanos do Irão, cujos pormenores estiveram em segredo de Estado durante muitos anos. Um filme que apresenta os EUA como heróis conquista, desde logo, a simpatia da Academia, e apesar desta ter esquecido Affleck na categoria de realização, certo é que Argo tem ganho todos os prémios que tinha para ganhar nas duas principais categorias (Melhor Filme e Realizador). Não sendo um filme excepcional, entretém q.b. e conta uma história verídica, o que o torna, desde logo, mais interessante. Também o facto de haver cinema no meio do original resgate, cativa ainda mais a atenção de um público mais cinéfilo.


7. Os Miseráveis (Les Misérables)

Depois de Discurso do Rei, Tom Hooper apostou num musical que se revelou demasiado para aquilo  que o realizador é capaz. Ainda assim a Academia gostou de Os Miseráveis, nomeando-o para oito categorias e, apesar de não ser favorito para Melhor Filme, surpresas podem sempre acontecer. Com um elenco recheado de nomes de peso, é Anne Hathaway que se destaca e merece o Oscar para Melhor Actriz Secundária, que lhe está quase garantido. Os Miseráveis peca pelos seus 158 minutos serem praticamente todos cantados, tornando-se exaustivo para a plateia, a menos que esta seja verdadeira fã de musicais.


[ex aequo] 7. A Vida de Pi (Life of Pi)

Com 11 nomeações está um dos que menos gostei de entre os nomeados para Melhor Filme. A Vida de Pi tem grandes possibilidades de vencer nas categorias técnicas e nunca se sabe se não conseguirá alcançar o prémio de Melhor Realizador ou Melhor Filme. Contudo, o tom demasiado artificial do filme de Ang Lee deita muito a perder, apesar do próprio argumento não ser minimamente cativante. Um filme espiritual e, apesar de tudo, visualmente grandioso - há que dar-lhe os louros pelas imagens que nos proporciona -, mas que está longe de merecer o grande prémio da noite.


9. Guia para um Final Feliz (Silver Linings Playbook)

Inesperado por figurar entre os nove escolhidos pela Academia é Guia para um Final Feliz, um longa-metragem que pouco mais é do que medíocre. Menos inesperado é quando nos lembramos dos dois nomes por detrás do filme, os produtores Bob e Harvey Weinstein que tanta influência detêm em Hollywood. Mais por estes motivos do que por mérito, o filme tem a possibilidade de conquistar alguns troféus, apesar da mediana realização, do argumento, que cai numa comédia romântica já tão vista, e das interpretações tão banais. Guia para um Final Feliz não tem, contudo, grandes possibilidades de ganhar o grande prémio da noite.

sábado, 23 de fevereiro de 2013

Oscars 2013: Os Actores Principais

Depois das mulheres, seguimos para os homens, enumerando, sempre por ordem de preferência, os cinco nomeados ao Oscar de Melhor Actor.

1. Joaquin Phoenix em The Master - O Mentor
As possibilidades de ganhar são muito poucas para Joaquin Phoenix, mas é ele, sem dúvida, o grande merecedor do prémio. Em The Master - O Mentor, o actor presenteia-nos com uma interpretação exigente, onde se entrega ao problemático veterano de Guerra Freddie Quell, que balança entre o álcool, os problemas pessoais e sexuais, e a aparente pouca vontade de os ultrapassar. Phoenix confere à personagem tudo o que ela pede: a postura física, o descontrole emocional, a nostalgia do passado, a culpa que parece não o largar. Phoenix não levará o prémio para casa, mas tem consigo o reconhecimento de todos os que assistiram à sua performance de tirar o fôlego. É impossível ficar-lhe indiferente.

2. Daniel Day-Lewis em Lincoln
O mais provável vencedor do prémio para Melhor Actor é o meu segundo favorito de entre os nomeados. Day-Lewis não desilude na pele do Presidente Lincoln e a sua interpretação é muito competente. Frágil, mas decidido, e capaz de tudo para que a sua vontade - a aprovação da lei que ilegaliza a escravatura - seja cumprida, o actor oferece-nos um Lincoln muito credível, onde nem a caracterização, que o envelhece uns dez anos, nos faz duvidar do que quer que seja. Tudo aponta para que leve o Oscar para casa e, se tal se verificar, é merecido.

3. Hugh Jackman em Os Miseráveis
No musical de Tom Hooper, Jackman oferece uma participação interessante, onde volta a mostrar os seus dotes vocais (que ainda assim o deixam ficar mal algumas vezes durante a longa-metragem). Não sendo brilhante, o actor veste bem a pele do sofrido e corajoso Jean Valjean, surgindo irreconhecível no início de Os Miseráveis.

4. Denzel Washington em Decisão de Risco
Duplamente oscarizado, Denzel Washington soma este ano mais uma nomeação. Sabemos que o actor nunca descura nenhum papel, e como o piloto alcoólico Whip Whitaker também não desilude. Contudo esta não será certamente a sua melhor interpretação, e as probabilidades de Washington levar o prémio para casa são baixas.

5. Bradley Cooper em Guia para um Final Feliz
Surpreendentemente, Bradley Cooper tem sido muito aclamado pela sua interpretação em Guia para um Final Feliz. Com uma personagem bipolar que poderia ser interessante, Cooper começa bem, demonstrando ser capaz de muito mais do que nos tem habituado, mas rapidamente a interpretação se torna banal, ao mesmo tempo que a própria personagem perde a sua singularidade. Melhor do que a sua colega  no filme - Jennifer Lawrence -, é certo, o actor, ainda assim, não me convence.

Oscars 2013: As Actrizes Principais

O dia 24 aproxima-se a passos largos e na comunidade blogger cinéfila chovem opiniões e previsões sobre nomeados e possíveis vencedores. Depois de vos ter dado a conhecer as minhas apostas, farei agora uma breve análise dos nomeados das principais categorias, ordenando-os por ordem de preferência. Comecemos pelas actrizes principais.

1. Emmanuelle Riva em Amor
Emmanuelle Riva faz em Amor o que poucas conseguiriam. A actriz francesa é a minha favorita de entre as cinco nomeadas pela imensidão do que consegue exprimir quase sem falar. Fisicamente desgastante, o seu papel como Anne transborda o  sofrimento, a doença, o desespero, tudo tão intenso e tão real, que farão qualquer um identificar-se, de uma forma ou de outra, com aquilo que vê no ecrã. Aos 85 anos, Riva está nomeada pela primeira vez, e merece o prémio pela sua interpretação de corpo e alma. Não sendo a favorita desde o início, parece ter ganho muita simpatia nos últimos tempos, se isso chegará para se sagrar vencedora no Domingo, só saberemos durante a cerimónia.

2. Quvenzhané Wallis em Bestas do Sul Selvagem
A mais jovem nomeada de sempre na categoria de Melhor Actriz, Quvenzhané Wallis, de nove anos, dá uma lição de representação a muitas actrizes consagradas. Wallis é selvagem como a sua personagem e deixa-nos impressionados com as expressões certeiras, cheias de emotividade e força. A simpatia por Hushpuppy é imediata e o desempenho da actriz é poderoso.

3. Naomi Watts em O Impossível
Não sendo o desempenho mais notável de Watts, de entre as nomeadas ela é a minha terceira favorita. Como Maria, a sobrevivente do tsunami de 2004, a actriz oferece-nos uma entrega física e psicológica digna de elogios. Nomeada pela segunda vez ao Oscar, Naomi Watts dificilmente o levará para casa este Domingo.

4. Jessica Chastain em 00:30 A Hora Negra
Chastain começou a corrida aos Oscars como a favorita ao prémio, mas hoje essa possibilidade está já praticamente afastada. A actriz que encarna a mulher responsável pela captura de Bin Laden tem um desempenho competente, mas que merece pouco destaque se pensarmos em outros dos seus papéis (por exemplo, Celia Foote em As Serviçais ou Mrs. O'Brien em A Árvore da Vida).

5. Jennifer Lawrence em Guia para um Final Feliz
A grande favorita ao Oscar de Melhor Actriz é a que menos o merece das cinco nomeadas. Lawrence está pela segunda vez nomeada a este prémio, mas, enquanto que por Despojos de Inverno esta era totalmente merecida, em Guia para um Final Feliz a actriz apenas oferece uma interpretação banal e muito pouco esforçada. Domingo saberemos se a injustiça se cumpre e se o Oscar irá mesmo para as mãos de Jennifer Lawrence.

sexta-feira, 22 de fevereiro de 2013

Crítica: Bestas do Sul Selvagem/ Beasts of the Southern Wild (2012)

"Everybody loses the thing that made them. It's even how it's supposed to be in nature. The brave men stay and watch it happen, they don't run."
Hushpuppy

*8/10*
Uma grande surpresa, Bestas do Sul Selvagem é todo ele harmonia entre uma realidade dura e a fantasia que paira na mente de uma criança muito pouco comum. Na sua primeira longa-metragem, Benh Zeitlin alcançou quatro nomeações ao Oscar, todas elas em categorias relevantes: Melhor Filme, Melhor Realizador, Melhor Actriz e Melhor Argumento Adaptado. 

Bestas do Sul Selvagem apresenta-nos  uma comunidade esquecida - a Banheira - de uma zona pantanosa separada do mundo civilizado por um extenso dique, onde a pequena Hushpuppy, de seis anos, vive entregue à sua sorte, com o seu pai, Wink, um homem descontrolado e doente. Quando uma tempestade faz subir as águas em torno da aldeia e ferozes criaturas pré-históricas acordam dos seus túmulos gelados para investir através do planeta, Hushpuppy vê entrar em colapso a ordem natural de tudo o que lhe é querido.

Um argumento com tanto de doce como de selvagem, oferece-nos a história de Hushpuppy repleta de reflexões, com um guião cheio de frases marcantes, e em que a protagonista, que assume também o papel de narradora, é o fio condutor de toda a narrativa, onde a crítica social está bem presente. Envolvente, Bestas do Sul Selvagem  leva-nos até à Banheira, esta uma pequena comunidade esquecida, apesar de se situar junto ao mundo civilizado. Quando, depois da tempestade, tentam incutir alguma sociabilidade àquelas pessoas, elas resistem e mostram querer lutar por aquilo que é seu e de que os querem privar. Apesar das precárias condições, Hushpuppy e os seus mostram preferir a sua terra a tudo o resto, com verdadeiro respeito pela Natureza que assume um papel principal ao longo de toda a longa-metragem.


Hushpuppy é o melhor exemplo dessa luta, desse respeito pela sua "casa", pela sua gente, e é ela que faz o filme. Corajosa e aventureira, a pequena protagonista aparenta não ter medo de nada, mesmo nos momentos em que parece fraquejar. Desafiadora, ela recebe uma educação pouco convencional, e provavelmente incómoda para o espectador, que parece querer prepará-la para tudo, à semelhança de um animal selvagem. Todavia, em nenhum momento ela perde a forte imaginação que só a mente de uma criança oferece.

Ao mesmo tempo, nunca a expressão "Mãe Natureza" foi tão certeira. Hushpuppy trata-a como se da sua progenitora ausente se tratasse, e quase que conseguimos acreditar nisso. A relação entre ambas é de tal forma especial, que nem a Tempestade a é capaz de abalar, apenas a torna ainda mais forte. Ao mesmo tempo, a mãe da criança é-nos apresentada como uma mulher fora do comum, num estatuto próximo ao de uma divindade, como uma força da Natureza. Hushpuppy recorda-a, a certo momento, assim: "Back when Daddy used to talk about Mamma, he'd say she was so pretty she never even had to turn on the stove.". O filme é feito de subtilezas como esta, do início ao fim. Conseguiremos fazer uma série de associações, de reflexões, ao longo da longa-metragem.

Para uma protagonista tão exigente, ninguém melhor do que a pequena estreante Quvenzhané Wallis para lhe vestir a pele, numa interpretação que a tornou a mais jovem nomeada de sempre ao Oscar de Melhor Actriz. Wallis é brilhante, em todas as expressões, em todas as deixas. A acompanhá-la, Dwight Henry encarna o seu pai, Wink, de forma enérgica e muito competente, sendo uma pena terem-no deixado de fora das nomeações aos prémios da Academia.


Tecnicamente, Bestas do Sul Selvagem é extremamente interessante e sensorial. Filmado em película de 16mm, o filme deixa-nos ver o seu grão na imagem. Ao mesmo tempo, a Natureza é-nos mostrada com detalhe, apelando aos nossos sentidos. A câmara nunca é estática, mas o que poderia ser incómodo, pelo contrário, só nos coloca ainda mais na acção, quase como se também fôssemos habitantes da Banheira. A banda sonora, composta por Dan Romer e pelo próprio realizador Benh Zeitlin, é encantadora, reforçando toda a harmonia que a longa-metragem nos transmite.

Um drama fascinante a cada fotograma, é assim Bestas do Sul Selvagem, para ver, sentir e reflectir. Hushpuppy faz-nos viajar entre a fantasia e a realidade, conhecendo e confrontando as mais temíveis criaturas, sejam elas fruto da nossa imaginação, os nossos medos ou a própria Natureza.

quarta-feira, 20 de fevereiro de 2013

Oscars 2013: Previsões

Cada vez mais perto do grande dia, que acontece já na madrugada de 24 para 25 de Fevereiro, as previsões dos vencedores dos Oscars vão-se multiplicando. O Hoje Vi(vi) um Filme aproveita a deixa e vem agora apresentar as suas apostas.


Melhor Filme:
Ganha: Argo
Com possibilidades: Guia para um Final Feliz
Devia Ganhar: Django Libertado

Melhor Actor:
Ganha: Daniel Day-Lewis em Lincoln
Com possibilidades: Hugh Jackman em Os Miseráveis
Devia Ganhar: Joaquin Phoenix em The Master - O Mentor

Melhor Actriz:
Ganha: Jennifer Lawrence em Guia para um Final Feliz
Com possibilidades: Emmanuelle Riva emAmor
Devia Ganhar: Emmanuelle Riva em Amor

Melhor Actor Secundário:
Ganha: Tommy Lee Jones em Lincoln
Com possibilidades: Christoph Waltz em Django Libertado
Devia Ganhar: Christoph Waltz em Django Libertado

Melhor Actriz Secundária:
Ganha: Anne Hathaway em Os Miseráveis
Com possibilidades: Sally Field em Lincoln
Devia Ganhar: Anne Hathaway em Os Miseráveis

Melhor Realizador:
Ganha: David O. Russell por Guia para um Final Feliz
Com possibilidades: Ang Lee por A Vida de Pi
Devia Ganhar: Steven Spielberg por Lincoln

Melhor Argumento Original:
Ganha: Django Libertado: Quentin Tarantino
Com possibilidades: 00:30 A Hora Negra: Mark Boal
Devia Ganhar: Django Libertado: Quentin Tarantino

Melhor Argumento Adaptado:
Ganha: Guia para um Final Feliz: David O. Russell
Com possibilidades: Argo: Chris Terrio
Devia Ganhar: Bestas do Sul Selvagem: Lucy Alibar, Benh Zeitlin

Melhor Filme de Animação:
Ganha: Brave - Indomável
Com possibilidades: Força Ralph
Devia Ganhar: Frankenweenie

Melhor Filme Estrangeiro:
Ganha: Amor (Áustria)
Com possibilidades: No (Chile)
Devia Ganhar: Amor (Áustria)

Melhor Fotografia:
Ganha: 007 - Skyfall: Roger Deakins
Com possibilidades: A Vida de Pi: Claudio Miranda
Devia Ganhar: Anna Karenina: Seamus McGarvey

Melhor Montagem:
Ganha: Argo: William Goldenberg
Com possibilidades: Guia para um Final Feliz: Jay Cassidy, Crispin Struthers
Devia Ganhar: 00:30 A Hora Negra: William Goldenberg, Dylan Tichenor

Melhor Direcção Artística:
Ganha: Os Miseráveis: Eve Stewart, Anna Lynch-Robinson
Com possibilidades: Anna Karenina: Sarah Greenwood, Katie Spencer
Devia Ganhar: Anna Karenina: Sarah Greenwood, Katie Spencer

Melhor Guarda-Roupa:
Ganha: Anna Karenina: Jacqueline Durran
Com possibilidades: Os Miseráveis: Paco Delgado
Devia Ganhar: Anna Karenina: Jacqueline Durran

Melhor Maquilhagem e Cabelo:
Ganha: Os Miseráveis
Com possibilidades: O Hobbit: Uma Viagem Inesperada
Devia Ganhar: O Hobbit: Uma Viagem Inesperada

Melhor Banda Sonora Original:
Ganha: A Vida de Pi: Mychael Danna
Com possibilidades: 007 - Skyfall: Thomas Newman
Devia Ganhar: Anna Karenina: Dario Marianelli

Melhor Canção Original:
Ganha: Skyfall, de Adele, Paul Epworth, no filme 007 - Skyfall
Com possibilidades: Everybody Needs a Best Friend de Walter Murphy, Seth MacFarlane, no filme Ted
Devia Ganhar: Skyfall, de Adele, Paul Epworth, no filme 007 - Skyfall

Melhor Efeitos Sonoros:
Ganha: Os Miseráveis
Com possibilidades: 007 - Skyfall
Devia Ganhar: Os Miseráveis

Melhor Montagem de Som:
Ganha: 007 - Skyfall
Com possibilidades: Argo ou 00:30 A Hora Negra
Devia Ganhar: Django Libertado

Melhor Efeitos Visuais:
Ganha: A Vida de Pi
Com possibilidades: O Hobbit: Uma Viagem Inesperada
Devia Ganhar: O Hobbit: Uma Viagem Inesperada

Melhor Documentário:
Ganha: Searching for Sugar Man
Com possibilidades: How to Survive a Plague

Melhor Curta Documental:
Ganha: Inocente
Com possibilidades: Mondays at Racine

Melhor Curta de Animação:
Ganha: O Rapaz do Papel: John Kahrs
Com possibilidades: Adam and Dog: Minkyu Lee
Devia Ganhar: O Rapaz do Papel: John Kahrs

Melhor Curta:
Ganha: Curfew: Shawn Christensen

sábado, 16 de fevereiro de 2013

Crítica: The Master - O Mentor (2012)

 "What a day. We fought against the day and we won. We won. "
Lancaster Dodd
*8.5/10*

Paul Thomas Anderson nunca é capaz de menos do que nos impressionar a cada novo filme. Com The Master - O Mentor não é diferente, e o estrondo visual que temos perante nós durante cerca de duas horas e meia ofusca qualquer possível fraqueza que o argumento possa ter. Juntam-se-lhe ainda as interpretações magistrais de Joaquin Phoenix e Philip Seymour Hoffman para um resultado deslumbrante.

A longa-metragem passa-se nos anos 50 e relata a viagem de um veterano da Marinha, Freddie Quell, que chega a casa vindo da Guerra, indeciso e inseguro em relação ao futuro, até se deixar seduzir pela Causa e pelo seu carismático líder, Lancaster Dodd.

O argumento é muito suportado pelas personagens, que lhe dão a força que necessita para vingar apesar das pontas soltas que deixa, muito numa espécie de apelo ao espectador, para que este reflicta, explore hipóteses e decida ele mesmo. Freddie é o retrato das marcas deixadas pela Guerra nos seus veteranos e na sociedade, em todos os aspectos. A aparente paz que se vive está muito longe da luta interior do protagonista, que demonstra um desequilíbrio mental e sexual e mágoas deixadas pelo passado. Ao dar de caras com A Causa - movimento aparentemente inspirado na Cientologia - Freddie começa a tentar ultrapassar esses seus problemas, numa espécie de auto-conhecimento e auto-controlo, segundo os métodos do seu líder Lancaster Dodd.


Mas é também interessante denotar como há diversas semelhanças entre Quell e Dodd, por muito diferentes que possam parecer. Certo é, desde logo, a empatia que se gera entre ambos, bem como a dependência do álcool que parece uni-los ainda mais. Um dos momentos mais emocionantes é a primeira vez que Quell serve de cobaia aos estudos de Dodd, uma sequência verdadeiramente inquietante. Menos evidentes que os problemas de Freddie, também os do Mestre vão-nos sendo subtilmente apresentados ao longo de The Master - O Mentor

E personagens complexas pediam interpretações competentes por parte do elenco, que não as deixam ficar mal. Joaquin Phoenix é a grande estrela do filme, surge com uma aparência carregada, mais magro, de rosto fechado, espelhando bem os distúrbios do seu personagem, presenteia-nos por vezes com o seu característico sorriso que encaixa perfeitamente em Freddie Quell. Segue-o de perto Philip Seymour Hoffman, com uma interpretação forte deste Mestre, ambicioso e persistente. Amy Adams, como Peggy Dodd, não deixa ficar mal a forte personagem feminina, a grande mulher por detrás do grande homem. Os três vêem o seu desempenho reconhecido pela Academia com as únicas nomeações aos Oscars que o filme alcançou (merecendo muitas mais a bem dizer). 


No entanto, o que torna a longa-metragem de Paul Thomas Anderson verdadeiramente fabulosa é toda a componente técnica, desde as marcas autorais, à fotografia hipnotizante de Mihai Malaimare Jr., com uma iluminação genial, aliada às cores que tanto sugerem a época vivida. Toda esta qualidade técnica duplica com a utilização da cada vez mais rara película de 70 mm, que nos permite uma profundidade e detalhe assombrosos - a sequência em que Dodd e Freddie andam de mota no deserto é talvez o expoente máximo daquilo a que me refiro.

Não sendo provavelmente o melhor filme de Paul Thomas Anderson, The Master - O Mentor prova que o realizador não faz um mau filme. Argumentativamente aberto a muitas interpretações, visualmente digno de ser visto no cinema, de preferência, de modo a usufruir das sensações únicas que consegue proporcionar. 

sexta-feira, 15 de fevereiro de 2013

Crítica: A Vida de Pi / Life of Pi (2012)

"Above all: don't lose hope."
Pi Patel 
*6/10*

Espiritual, delicado e artificial são três palavras que se ajustam bem ao mais recente filme de Ang Lee, A Vida de Pi, que conta com 11 nomeações aos Oscars 2013. A adaptação do livro homónimo de Yann Martel traz consigo fortes mensagens de esperança e pretende emocionar os mais sensíveis.

A história roda em torno de Pi Patel, filho do administrador do jardim zoológico de Pondicherry, na Índia. O jovem possui um enorme conhecimento sobre animais e uma visão da vida muito peculiar. Aos 16 anos, Pi junta-se à família que decide emigrar para a América do Norte num navio cargueiro, juntamente com os habitantes do zoo. Porém, o navio afunda-se logo nos primeiros dias de viagem e Pi vê-se na imensidão do Pacifico a bordo de um salva-vidas acompanhado pelos mais inesperados companheiros de viagem: uma hiena, um orangotango, uma zebra ferida e um tigre de Bengala, baptizado de Richard Parker. Em breve restarão apenas Pi e o tigre, e a única esperança para sobreviver é descobrirem que precisam um do outro.

A luta pela sobrevivência está no centro da longa-metragem que joga com as nossas crenças. Mas seria mesmo possível um rapaz e um tigre conviverem tanto tempo juntos? Toda a história parece querer conduzir a plateia para o mesmo, não deixando espaço a outros sentimentos ou possibilidades. A persistência de Pi, a obediência que, a certa altura, Richard Parker demonstra, o medo que ambos sentem um do outro, tudo nos oferece a tão anunciada mensagem de esperança, contra todas as adversidades. Logo aqui, o argumento peca. Mas aos pontos fracos narrativos junta-se-lhe a artificialidade técnica que torna A Vida de Pi ainda mais fantasioso. Se já estava comprometido, o ambiente espiritual que se pretende perde-se quase totalmente.


Tecnicamente sente-se que tudo está demasiado competente, demasiado limpo, demasiado artificial. Os efeitos especiais são interessantes – apesar de não nos fazerem esquecer que estamos perante um tigre digital–, a realização, montagem, som e fotografia merecem destaque (tendo todos nomeação na sua categoria), mas verdadeiramente eficaz é a banda sonora, de Mychael Danna. Apesar de também transparecer esse “asseio” tão dispensável, é na música que está toda a aura do filme, a sua espiritualidade. Contudo, é ainda de destacar que esta componente de artifício nos proporciona momentos de uma beleza visual pouco comum.

Claro que nem tudo poderia ser negativo num filme com tantas (demasiadas) nomeações aos prémios da Academia. A narrativa tem momentos com algum humor bem conseguido, as mensagens que pretende transmitir são inocentes mas reconfortantes, e, perto do fim, encontramos algum realismo, o lado mais selvagem que esperávamos descobrir mais cedo, e isso revela-se uma agradável surpresa.

A Vida de Pi está muito longe de ser um filme inesquecível e é um dos mais sobrevalorizados de 2012. Vale pelo espectáculo visual (e artificial) que traz consigo, e pela espiritualidade que irá, certamente, comover muitos públicos.

quinta-feira, 14 de fevereiro de 2013

Crítica: 00:30 A Hora Negra / Zero Dark Thirty (2012)

"I'm going to smoke everyone involved in this op and then I'm going to kill bin Laden. "
Maya
*7/10*

00:30 A Hora Negra é mais uma história feita para os norte-americanos mas que interessa ao resto do planeta. A captura de Bin Laden é, só por si, tema para captar todas as atenções, mais ainda quando se sabe que a longa-metragem é realizada por Kathryn Bigelow e tem Jessica Chastain como protagonista.

A caça a Osama Bin Laden inquietou o mundo e dois Governos americanos durante mais de dez anos. Contudo, foi uma pequena e dedicada equipa de operacionais da CIA que o conseguiu localizar. Todos os pormenores de preparação desta missão estiveram no mais absoluto segredo e, apesar de alguns dos detalhes terem sido, entretanto, tornados públicos, os aspectos mais relevantes da operação foram agora trazidos para o grande ecrã pela dupla criativa vencedora de três Oscars com filme Estado de Guerra - Bigelow e Mark Boal.

A realizadora quis aqui mostrar, sem rodeios, os dez anos de trabalho da CIA até à recente captura do terrorista mais procurado. E começa por apelar aos (res)sentimentos da plateia, com o audio (apenas), de poucos minutos, das últimas palavras de algumas das vítimas do 11 de Setembro de 2001. Arrepiante e, de certa forma, uma preparação para que tudo o que continuaremos a ver esteja “justificado” ou “desculpado”. As cenas de tortura, que tanto deram que falar, estão lá, são fortes, mas possivelmente muito longe da realidade, que será de certo muito mais brutal. Há, todavia, que gabar o facto de não existir medo em assumir os actos.

Polémicas à parte, a história é-nos apresentada da melhor forma, dando a conhecer os factos, perdendo, contudo, o fôlego bastante cedo. Felizmente, a última meia hora vale pelos momentos menos bem conseguidos, com uma sequência de acção que nos prende ao ecrã, sendo impossível desviar as atenções. Graças à realização exemplar de Kathryn Bigelow, sentimo-nos dentro do filme, ao lado dos soldados.


No elenco, o grande destaque vai para Jessica Chastain como a agente da CIA Maya, que, apesar de não ter aqui o seu mais brilhante desempenho, mostra-se à altura do desafio, ganhando a frieza que a sua personagem pede ao longo do filme (e com o passar dos anos). Sangue frio, coragem e muita persistência é o que Maya espelha, revelando o seu lado mais humano na derradeira cena, num misto de dever cumprido e alívio.

Apesar de todas as questões políticas ou morais que lhe estão associadas, 00:30 A Hora Negra é um filme feito para glorificar os feitos dos norte-americanos, desta vez contudo, sem esconder que, muitas vezes, estes não são os mais legítimos.

terça-feira, 5 de fevereiro de 2013

Crítica: Lincoln (2012)

"No one is loved as much as you by the people. Don't waste that power. "
Mary Todd Lincoln
*8/10*

Liberdade e Igualdade são os valores em jogo no novo filme de Spielberg. Um histórico que marca o fim da escravatura nos EUA e muito diz aos norte-americanos, mas que, mais do que para "agradar", sente-se que se fez com a sinceridade e a garra de quem ama a sua história e o seu país.

As 12 nomeações não podiam ser em vão ou estaríamos perante demasiados erros da Academia. Lincoln e Spielberg merecem-nas todas, em jeito de reconhecimento por uma longa-metragem, provavelmente incompreendida pelos menos pacientes ou insensíveis, cheia de amor e competência técnica e artística. Repleto de opções visuais de louvar e de excelentes interpretações, Lincoln só poderá afugentar os menos interessados em política, apesar de todas as reuniões e debates estarem brilhantemente construídos de forma a captar a atenção da plateia como poucos filmes do género conseguem.

Lincoln retrata os últimos quatro meses de vida do Presidente norte-americano, nomeadamente na abolição da escravatura e no fim da Guerra Civil Americana. A votação renhida pela 13ª emenda pela Câmara dos Representantes, que ilegaliza a escravatura, é o ponto central do filme.


Arriscado, de facto, mas bem concretizado, sem qualquer sombra de dúvida, Lincoln é uma aposta ganha de Spielberg, depois do muito fraco Cavalo de Guerra. Argumentativamente, o facto de estarmos perante um momento-chave da história dos Estados Unidos torna o filme, desde logo, o centro das atenções. No centro da narrativa temos a luta do Presidente norte-americano pela abolição da escravatura, com a aprovação da 13ª emenda à Constituição, e, ao mesmo tempo, a relação com a mulher e filhos tem espaço para alguma atenção.

Conseguimos facilmente traçar o carácter do protagonista: um homem justo, bom, persistente, com alguma dificuldade em lidar com a mulher. Lincoln revela-se próximo daqueles que lhe são íntimos mas também dos seus subordinados, que trata como se de familiares se tratassem, preocupando-se com os que sofrem injustiças. Para levar a sua vontade em diante e tornar a escravatura ilegal, o Presidente tem acções que poderão levantar dúvidas acerca da sua conduta, se as suas opções são ou não legítimas, se os fins justificam os meios, mas o certo é que o retrato político que Spielberg nos apresenta prova, a cada cena, o rigor e transparência que a plateia anseia, e onde se podem encontrar tantos paralelismos com a política actual. Cabe-nos a nós fazer os juízos de valor.


Como referi, a temática política, que acompanha reuniões do presidente e debates na Câmara dos Representantes, poderia deitar tudo a perder, mas, muito pelo contrário, a história nunca se mostra cansativa. Lincoln tem ritmo e sabe com prender a atenção até do menos entendido em história dos EUA, com conversas claras e discursos fluidos, que deixam de lado qualquer tipo de superficialidade. Aliás, o filme de Steven Spielberg de superficial nada tem, bem pelo contrário, demonstra ser muito profundo e mesmo emocional.

Para tal, muito contribuem as personagens secundárias, especialmente a de Tommy Lee Jones, com uma interpretação muito competente enquanto Thaddeus Stevens, defensor incansável da aprovação da 13ª Emenda, que prende todas as atenções e protagoniza dos momentos mais emocionantes de Lincoln. Por seu lado, a actriz Sally Field veste bem a pele a Mary Todd Lincoln, uma mulher que nunca superou a morte de um dos filhos, revelando um certo desequilíbrio advindo daquela perda, e com quem Lincoln revela dificuldade em lidar, apesar do amor que os une. Por seu lado, a personagem de Daniel Day-Lewis é fulcral, e o actor interpreta-a com alma, conferindo-lhe uma aparente fragilidade e calma, aliadas a uma forte vontade de corrigir o que está mal na sociedade da época. De entre o elenco de actores, destaque ainda para as participações de John Hawkes ou Hal Holbrook, por exemplo, entre muitas outros nomes de relevo.


Tecnicamente, deve dar-se todo o mérito à realização de Spielberg, que volta assim à grande forma, a que se junta um excelente trabalho da direcção de fotografia, a cargo de Janusz Kaminski, repleta de tons escuros - que se tornam frios nas cenas da Guerra Civil -, e de cores pouco fortes, onde se sente a sua saturação, que tão bem se conjugam com a difícil época vivida, e onde o trabalho de iluminação é de elogiar. A banda sonora de John Williams é subtil e encaixa na perfeição em Lincoln, nunca se sobrepondo à força de cada cena. O guarda-roupa merece igualmente destaque, bem como a excelente caracterização de Daniel Day-Lewis (com uns bons 10 anos a mais), sem que ninguém duvide de que se está perante Lincoln.

Lincoln é um retrato de uma época conturbada e cheia de dificuldades, são quatro meses da luta de um dos homens mais importantes da história norte-americana apresentados sem tabus e onde o espectador tem um papel activo. Que todos os filmes históricos fossem tão sinceros e profundos.

sexta-feira, 11 de janeiro de 2013

Oscars 2013: Os Nomeados - Apontamentos

No rescaldo das nomeações anunciadas ao início da tarde de ontem, a maior surpresa terá vindo da Áustria. Amor, o filme de Michael Haneke, alcançou cinco nomeações, umas mais esperadas que outras. Os mais nomeados foram, no entanto, Lincoln, com 12 nomeações, seguido de A Vida de Pi, com 11, e Guia para um Final Feliz e Os Miseráveis, ambos nomeados em oito categorias.


Não sendo possível fazer previsões certeiras sobre quem serão os vencedores, certo é que entre os nomeados vemos muitos nomes a que já nos habituamos, ou filmes que se enquadram, como é hábito, dentro das conhecidas preferências dos membros da Academia. Lá está a comédia romântica (Guia para um Final Feliz), lá estão os filmes que puxam por um certo nacionalismo americano (Argo, 00:30 Hora Negra ou Lincoln), mas há por lá muito mais do que isso e cá estamos nós para ser surpreendidos.

Amor triunfou com cinco nomeações, no meio de tantos filmes americanos. Para além da já esperada nomeação a Melhor Filme Estrangeiro, o filme austríaco surpreendeu ao ser um dos nove nomeados para Melhor Filme, Michael Haneke conseguiu também uma inesperada, mas totalmente merecida, nomeação para Melhor Realizador e Emmanuelle Riva, aos 85 anos, foi uma das cinco escolhidas para Melhor Actriz, sendo a mais velha actriz de sempre nomeada nesta categoria. Amor está também indicado para Melhor Argumento Original.

Bestas do Sul Selvagem revelou-se outra surpresa, com quatro nomeações. Para além de estar entre os nove concorrentes a Melhor Filme, a protagonista Quvenzhané Wallis, com apenas 9 anos de idade, tornou-se na mais jovem nomeada para Melhor Actriz. Ao mesmo tempo, o também jovem realizador Benh Zeitlin, de 30 anos, é um dos indicados ao prémio de realização, estando o filme igualmente na corrida para Melhor Argumento Adaptado.

Tarantino foi esquecido na realização, mas o seu Django Libertado marca presença em cinco categorias: Melhor Filme, Melhor Actor Secundário - distinção totalmente merecida para Christoph Waltz -, Melhor Fotografia, Melhor Argumento Adaptado e Melhor Montagem de Som. Sente-se, contudo, a ausência de Leonardo DiCaprio (uma vez mais deixado de parte pela Academia) também para Melhor Actor Secundário, bem como de Samuel L. Jackson.


David O. Russell repetiu o feito de 2011, e conseguiu estar entre os nomeados para Melhor Realizador, pouco merecido se tivermos em conta os nomes que ficaram de fora como o já referido Quentin Tarantino, Paul Thomas Anderson ou Kathryn Bigelow. Ainda relativamente a Guia para um Final Feliz, é justa a nomeação para De Niro, contudo, o mesmo não se pode dizer de Jacki Weaver, que poderá ter tirado o lugar a Helen Mirren, por Hitchcock, ou mesmo a Judi Dench, por 007 - Skyfall.  

The Master - O Mentor apenas marca presença no que toca a nomeações de interpretação (conta três), sentindo-se a sua ausência em categorias como Melhor Filme, Melhor Realizador, Melhor Fotografia, e outras categorias mais técnicas. A Moonrise Kingdom aconteceu pior, merecendo a longa-metragem, no entender da Academia, uma nomeação apenas, para Melhor Argumento Original, o que poderá vir a confirmar que a desilusão que o filme foi para mim é compartilhada por quem votou.


Amigos Improváveis surpreendeu por não constar entre os nomeados para Melhor Filme Estrangeiro. Na animação, foi inesperada a escolha do divertido Os Piratas!. Já nas categorias técnicas pode estranhar-se a total ausência de O Cavaleiro das Trevas Renasce ou Looper - Reflexo Assassino. Cloud Atlas foi um injustiçado desde os pré-nomeados para a categoria de Melhor Maquilhagem.

No meio de tantos apontamentos, e provavelmente outros tantos que possam ter-me escapado, há que aguardar pelo dia 24 de Fevereiro para conhecer os vencedores. Até lá, acompanhemos esta Award Season e façamos as nossas previsões.