Mostrar mensagens com a etiqueta Leonor Silveira. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Leonor Silveira. Mostrar todas as mensagens

domingo, 14 de maio de 2023

Sugestão da Semana #560

Das estreias da passada Quinta-feira, a Sugestão da Semana destaca dois filmes: Mal Viver e Viver Mal, de João Canijo. Este díptico sobre maternidade já tem crítica no Hoje Vi(vi) um Filme. Vem mesmo a calhar, para aproveitar a Festa do Cinema, que começa hoje, dia 14, e se prolonga até 17 de Maio, com bilhetes a 3,50€, em todas as sessões 2D, em quase todas as salas de cinema do país.



Ficha Técnica:
Título Original: Mal Viver
Realizador: João Canijo
Elenco: Anabela Moreira, Rita Blanco, Madalena Almeida, Cleia Almeida, Vera Barreto, Nuno Lopes, Filipa Areosa, Leonor Silveira, Rafael Morais, Lia Carvalho, Beatriz Batarda, Carolina Amaral, Leonor Vasconcelos
Género: Drama
Classificação: M/14
Duração: 127 minutos




Ficha Técnica:
Título Original: Viver Mal
Realizador: João Canijo
Elenco: Nuno Lopes, Filipa Areosa, Leonor Silveira, Rafael Morais, Lia Carvalho, Beatriz Batarda, Leonor Vasconcelos, Carolina Amaral, Anabela Moreira, Rita Blanco, Madalena Almeida, Cleia Almeida, Vera Barreto
Género: Drama
Classificação: M/14
Duração: 124 minutos

quinta-feira, 11 de maio de 2023

Crítica: Mal Viver (2023) + Viver Mal (2023)

João Canijo regressa aos cinemas com um díptico sobre maternidade: Mal Viver e Viver Mal são dois filmes que partilham o espaço (um hotel), o tempo e o tema central, mas de pontos de vista distintos. Mal Viver valeu a Canijo o Urso de Prata para Melhor Realização no Festival de Berlim. Em Portugal, os filmes tiveram antestreia, como uma obra em duas partes, no Festival IndieLisboa (onde também arrecadaram prémios). 


No centro da filmografia de João Canijo, são sempre as mulheres que se destacam e eis, mais uma vez, um elenco quase exclusivamente feminino - excepção para Rafael Morais e Nuno Lopes -, do qual o realizador consegue extrair o que de mais profundo cada actriz tem para dar à personagem.

Segundo o cineasta, "os dois filmes são sobre a ansiedade de ser mãe" (Mal Viver é onde tal se sente mais), sobre a incapacidade de amar incondicionalmente e como isso tem consequências naquilo em que as filhas se poderão tornar no futuro. São duas longas-metragens diferentes, até mesmo no tom, mas que se complementam.

Há mulheres que não nasceram para ser mães: ou porque não tiveram o melhor exemplo, ou porque nunca encontraram o instinto maternal, ou porque são egoístas o suficiente para se amarem incansavelmente sem sobrar um pouco de amor para os filhos. Mal Viver e Viver Mal são o retrato destas mães e das suas filhas sem amor, e daqueles que as rodeiam e são, de uma forma ou de outra, contagiados pelo desamor e pela angústia.


Mal Viver
*9/10*

"Num hotel familiar junto à costa norte de Portugal, vivem várias mulheres da mesma família de gerações diferentes. Numa relação envenenada pela amargura tentam sobreviver no hotel em decadência. A chegada inesperada de uma neta a este espaço claustrofóbico provoca perturbação e o avivar de ódios latentes e rancores acumulados."

No centro da narrativa de Mal Viver, estão duas mães - Sara e Piedade - e duas filhas - Piedade e Salomé -que herdaram das progenitoras a incapacidade para amar. Após a morte do pai, Salomé chega para viver com a mãe e avó no hotel que ambas gerem, e onde vivem com a prima Raquel e a cozinheira Ângela.


A câmara de João Canijo segue as actrizes pelos vários pisos, piscina e jardim, onde se cruzam com os poucos hóspedes, vêem televisão, nadam, conversam, discutem e fazem a gestão diária do funcionamento do alojamento. O hotel decadente, que lhes serve de sustento e de lar, surge como uma espécie de prisão para as cinco mulheres. Não há fuga possível, as suas vidas estão ali. A recém-chegada Salomé, apesar de não totalmente integrada, já sente o local como a sua casa - também ela não tem mais para onde fugir.


E é esta chegada que faz emergir todas as mágoas da família. Piedade é a maior vítima de uma mãe que não a soube amar: dilacerada pela solidão, pela falta de consolo e compreensão, por não conseguir lidar com a filha. Uma mulher incapaz de demonstrar afectos com naturalidade - a menos que seja para a sua inseparável cadela Alma -, que se culpa por não saber amar a filha, vivendo numa depressão silenciosa.

Mal Viver carrega todo o realismo trágico dos filmes de João Canijo, superando-se pela forma de filmar, e pela dualidade inevitável com Viver Mal - ambos com uma direcção de fotografia fabulosa de Leonor Teles, tirando o melhor partido da luz, dos reflexos e sombras, estimulando a curiosidade para o que cada quarto esconde, entre portas fechadas ou entreabertas.


Anabela Moreira supera-se como Piedade, revelando dor, angústia e desespero num olhar que aparenta, simultaneamente, uma tranquilidade aterradora. A Sara de Rita Blanco emana um egocentrismo e uma confiança de quem é rainha e senhora do seu hotel e das vidas das que a rodeiam. Cleia Almeida e Vera Barreto, habituais colaboradoras do realizador, são aqui mais observadoras (a Raquel de Cleia é também mais provocadora) mas fundamentais para o realismo da narrativa, e acolhem da melhor forma a jovem Madalena Almeida, que se revela à altura do desafio na pele de Salomé, desamparada, mas obstinada por chegar ao coração da sua mãe e ver respondidas todas as questões que a assombram.


Viver Mal
*7.5/10*

"Um hotel junto à costa norte de Portugal, acolhe os seus clientes, num fim-de-semana. Um homem vive dividido entre a atenção a dar à sua mulher e o espaço que ocupa a sua mãe no meio deles. Uma mãe promove o casamento da filha para facilitar a sua relação amorosa com o genro. Outra mãe vive através da filha, impedindo-a de tomar as suas próprias decisões. Três núcleos familiares em final de ciclo de aceitação."

Viver Mal é o outro lado de Mal Viver, desta vez, sob a perspectiva dos hóspedes - de meros figurantes passam agora a protagonistas -, três famílias instáveis, de relações pouco saudáveis. Aqui, cada grupo é apresentado muito para lá dos breves fragmentos de discussões que se ouviam, ao longe, em Mal Viver. Por outro lado, as desavenças das donas do hotel surgem agora apenas como pano de fundo, que os hóspedes ignoram.


Vagamente inspirado pelo dramaturgo August Strindberg (em especial nas peças Brincar com o Fogo, O Pelicano e Amor de Mãe), João Canijo divide em três capítulos as histórias paralelas de cada cliente e, mais uma vez, há uma mãe dominante em cada acto, a complicar as relações amorosas e a vida dos filhos.

Viver Mal dá a conhecer cada uma das três histórias de forma individual - embora partilhando o mesmo espaço -, e constrói-se com um sentido de humor mais apurado, mas com a mesma frieza de sentimentos e relações à beira da ruptura. O egoísmo das mães contrasta com a passividade dos filhos que poucos limites impõem à interferência da matriarca nas suas vidas, muitas vezes decidindo (ou arruinando) o seu futuro.


Em Viver Mal, juntam-se às actrizes de Mal Viver, Beatriz Batarda e Leonor Silveira, no papel de duas mães egocêntricas e controladoras; e as jovens e prometedoras actrizes Filipa Areosa e Carolina Amaral, que vestem a pele de mulheres decididas que desafiam sogras e companheiros, bem como Lia CarvalhoLeonor Vasconcelos, que interpretam filhas com ambições anuladas pelas mães e que vivem, principalmente, ao sabor das suas vontades. Nuno Lopes e Rafael Morais, os nomes masculinos do elenco, são Jaime e Alex, homens manipuladores e de pouca confiança.


Eis o díptico Mal Viver / Viver Mal, um exercício de estilo de realismo feroz e opressivo, onde João Canijo se supera e reinventa ao lado da sua equipa.

segunda-feira, 24 de abril de 2023

Crítica: Nação Valente / Tommy Guns (2022)

"A pátria está orgulhosa de si, meu cabo"


*9/10*

Nação Valente, a segunda longa-metragem de Carlos Conceição, reaviva os fantasmas da guerra colonial em Angola, com o toque provocador e contemporâneo que caracteriza o realizador. As pistas vão sendo deixadas ao longo do filme, cuja narrativa esconde segredos acima e debaixo da terra. Os mortos estão prontos para lembrar os vivos das atrocidades que já esqueceram.

"A história começa em 1974, apenas um ano antes da independência do país, após séculos de domínio português. Portugueses e seus descendentes estão a fugir do país enquanto os revolucionários angolanos reclamam gradualmente a sua terra de volta. Uma rapariga mumuíla descobre o amor e o perigo quando o seu caminho se cruza com o de um militar português. Por outro lado, um grupo de soldados, completamente isolados do mundo exterior, cumpre cegamente as ordens brutais do seu comandante, em nome do serviço à Pátria."


Com a guerra colonial perto do fim, Nação Valente apresenta o clima de medo que se sentia entre os portugueses que ainda permaneciam em Angola - Leonor Silveira é a freira portuguesa que apoia as tribos locais -, mas igualmente dos nativos que receiam as tropas portuguesas ainda no terreno. Noutro local, mais isolado, jovens soldados portugueses treinam incessantemente preparando-se para lutar contra um inimigo, aparentemente, invisível. E, neste filme, não há descanso, nem para as vítimas nem para os agressores, todos em constante alerta, de arma em punho, olhar atento a cada movimento ou sombra.

Carlos Conceição lança dúvidas e provocações à plateia ao longo de todo o filme, dos momentos sensuais que se tornam instantaneamente violentos, às fotos a preto e branco e recortes de jornal bem guardados, um cordão de Nossa Senhora que passa de mão em mão - unindo personagens que nunca se conheceram, bem como as duas metades da longa-metragem -, uma musa Brigitte Bardot salva das águas pelos jovens soldados, um muro infindável que os intriga, memórias que escasseiam, visões fantasmagóricas e a chegada de uma prostituta que lhes traz a revelação e a salvação.


Entre o realista e o sobrenatural, de dia ou de noite, o fabuloso trabalho da direcção de fotografia de Vasco Viana, capta a magia incómoda que as analogias, os traumas e os fantasmas carregam.
 
Apesar de todo o lado fantasioso e irónico de Nação Valente, há uma clara mensagem para reavivar memórias nunca totalmente assimiladas pelo povo português, espelhadas agora no crescimento dos movimentos extremistas, racistas e saudosistas. Conceição criou uma longa-metragem simbólica e incompassiva, que não quer esquecer, para alertar e acordar os mortos, exorcizar os descrentes ou esquecidos. Traz a Memória colectiva ao cinema de uma forma diferente do que já se fez e com a coragem e personalidade necessária.


De forma inesperada, Nação Valente confronta o Presente com o Passado do qual tem fugido e que lhe é desconfortável lembrar, e fá-lo de uma forma visualmente perturbadora e com uma criatividade que lhe é muito particular.

domingo, 23 de abril de 2023

Sugestão da Semana #557

Das estreias da passada Quinta-feira, a Sugestão da Semana destaca o filme Nação Valente, de Carlos Conceição.

NAÇÃO VALENTE



Ficha Técnica:
Título Original: Nação Valente
Realizador: Carlos Conceição
Elenco: João Arrais, Anabela Moreira, Miguel Amorim, Ivo Arroja, André Cabral, João Cachola, Vicente Gil, Diogo Nobre, Gustavo Sumpta, Sílvio Vieira, Ulé Baldé, Meirinho Mendes, Leonor Silveira, Angelina Gonga
Género: Drama, Guerra
Classificação: M/14
Duração: 118 minutos

terça-feira, 6 de novembro de 2018

Sugestão da Semana #349

Das estreias da passada Quarta-feira, a Sugestão da Semana destaca o filme português Raiva, de Sérgio Tréfaut. O filme recorda os tempos da ditadura de Salazar por terras alentejanas e tem crítica no Hoje Vi(vi) um Filme.


Ficha Técnica:
Título Original: Raiva
Realizador: Sérgio Tréfaut
Actores: Hugo Bentes, Isabel Ruth, Leonor Silveira, Adriano Luz, Rita Cabaço, Luís Miguel Cintra, Catarina Wallenstein, Rogério Samora, Herman José, José Pinto, Diogo Dória, Lia Gama, João Pedro Bénard, Xico Xapas
Género: Drama
Classificação: M/14
Duração: 84 minutos

terça-feira, 6 de junho de 2017

Em Português: Vale Abraão (1993)

Criei uma nova rubrica para divagar um pouco sobre cinema português. Será o lugar certo para publicar pequenos textos sobre filmes portugueses que tenham tido algo de especial para mim. Começo com Vale Abraão, de Manoel de Oliveira.


Ema é apaixonante. Não admira os tantos corações que arrebata. Mas a personagem tem tanto de bela como de trágica, o condão perfeito para uma história inesquecível.

Vale Abraão tem uma aura bucólica mágica, diálogos hipnotizantes, poéticos, uma protagonista singular, uma tragédia romântica que rodeia a eterna insatisfeita, Ema, a Bovary portuguesa.

No Vale do Douro, Ema (a belíssima Leonor Silveira) vive com o pai e torna-se numa mulher bela e sensual com um irresistível gosto pelas ficções românticas, que acaba por nunca conseguir encontrar plena satisfação junto dos homens, desde logo casando com um médico que nunca amou. Na sequência de uma intensa vida social, Ema envolve-se com três homens sempre numa constante busca de paixões e desafios. A sua beleza e audácia valem-lhe o epíteto de Bovarinha, uma versão moderna e portuguesa da Bovary, de Flaubert.


Quase três horas e meia de filme e não me canso. Quero ver mais, sinto-me contagiada pelo ritmo, que deixa assimilar bem emoções e segredos, perco-me nos planos fabulosos, nas belas paisagens do Douro, e nas simbologias, tão premonitórias, que o filme nos vai dando.

Ema é desafiadora, provocadora, uma mulher à frente no seu tempo, que diz o que pensa, faz o que bem entende, não tem medo de escândalos, não vive de aparências. "As mulheres não têm que ler livros", dizia alguém a certo momento, Ema é a excepção, ou será antes a razão? É, sem dúvida, a insatisfação, que vive numa incessante procura de estímulos que a façam sentir viva.


Ema e o seu chapéu a surgir entre as laranjeiras ou uma jovem Ema de rosto inexpressivo junto de uma gaiola com canários enquanto constata: "Disparate! Vou-me casar e nem sequer gosto dele", são dois dos inúmeros momentos que ficarão, para sempre, na memória. Na sua quase infinita filmografia, Manoel de Oliveira deixou-nos em Vale Abraão um dos seus filmes mais belos e poéticos.