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domingo, 13 de outubro de 2019

Em Português: As Armas e o Povo (1975)

Os tempos que correm têm feito emergir movimentos fascistas, ódios e ideias que pensávamos ultrapassadas há muitos anos. Um país que viveu uma revolução como a do 25 de Abril de 1974 deveria, sempre, recorrer-se da sua História recente para evitar erros do passado. A luta de muitos, o sofrimento e pobreza de outros tantos, a alegria espelhada nos olhos de quem viu, finalmente, alcançada a liberdade de pensar e falar, saiu para a rua nos dias após a Revolução dos Cravos, culminando numa manifestação grandiosa no dia 1 de Maio de 1974 - apenas cinco dias após a queda do Estado Novo. O Dia do Trabalhador, há tantos anos reprimido pela ditadura, foi dia de júbilo de milhares (ou milhões, por todo o país) que sentiram na pele a Liberdade de expressão.


As Armas e o Povo é o registo destes dias, assinado pelo Colectivo de Trabalhadores da Actividade Cinematográfica (entre os nomes que colaboraram no filme encontramos Acácio de Almeida, José de Sá Caetano, José Fonseca e Costa, Eduardo Geada, António Escudeiro, Mário Cabrita Gil, Fernando Lopes, António de Macedo, João Moedas Miguel, Glauber Rocha, Elso Roque, Henrique Espírito Santo, Artur Semedo, Fernando Matos Silva, João Matos Silva, Manuel Costa e Silva, Luís Galvão Teles, António da Cunha Telles e Monique Rutler). Eles filmaram a História a acontecer na película das suas câmaras; recuperaram imagens dos dias entre 25 de Abril e 1 de Maio (filmadas em película de 8mm a 35mm) e criaram um documentário que é um pedaço da História de Portugal. Um filme que deveria estar em cada casa, ser exibido nas escolas, universidades e televisão, com regularidade. Em breve, tudo isto poderá ser mais fácil com a edição em DVD de As Armas e o Povo. É fundamental preservar a memória e, felizmente, a Cinemateca tem feito - e bem - este trabalho.

As Armas e o Povo mostra-nos as grandes movimentações de massas, os discursos de Mário Soares e Álvaro Cunhal, a libertação dos presos políticos e as entrevistas de rua do cineasta brasileiro Glauber Rocha, no dia 1 de Maio de 1974. A emoção é dominante, as boas vibrações e a esperança que se sente nas ruas contagiam e inspiram. Vemos imagens do Rossio, Praça da Figueira, dos bairros de lata da periferia de Lisboa, onde a pobreza era óbvia e abundante, da Avenida Almirante Reis, do Estádio 1.º de Maio, onde centenas escutavam os discursos dos políticos do amanhã; e ainda do Barreiro e do Funchal.


Na sessão de apresentação à imprensa da cópia digital restaurada de As Armas e o Povo - no passado dia 11 de Outubro, na Cinemateca Portuguesa -, estiveram presentes Fernando Matos Silva e Luís Galvão Teles, que partilharam algumas das experiências que viveram durante a rodagem do documentário. Galvão Teles recordou a importância de aprender "como filmar no meio de uma multidão, sem ser absorvido nela" e destacou a localização da equipa, no Estádio 1.º de Maio, de modo a "cobrir os discursos e a reacção" do povo. Matos Silva acrescentou que, na época, os realizadores como que anteviram que o palanque onde discursavam Cunhal e Soares era um pouco como uma visão do futuro político de Portugal. Destaca ainda alguma "agressividade revolucionária" nas entrevistas de Glauber Rocha, mais um símbolo da liberdade de ideias que finalmente tinha chegado.

Eis o cinema a fazer (parte d)a revolução.

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As Armas e o Povo será apresentado na edição comemorativa do 10.º aniversário do Festival Lumière (dedicado ao património cinematográfico mundial), na secção Tesouros e Preciosidades, que decorre de 12 a 20 de Outubro em Lyon, França. O filme terá duas apresentações, a primeira a 14 de Outubro, às 17h00, no Cinéma Opéra, e a segunda, no dia 15 de Outubro, às 21h30, na sala Lumière Fourmi.

A cópia de As Armas e o Povo foi digitalizada pela Cinemateca Portuguesa - Museu do Cinema e será lançada brevemente em DVD. A cópia digital (DCP 2K) apresentada em Lyon estará depois disponível para pedidos de empréstimo em Portugal e no estrangeiro. Este DCP teve origem na digitalização 4K do negativo em 35 mm, conservado pela Cinemateca. A correcção de cor foi feita usando uma cópia de época como referência. Já o som foi digitalizado a partir da banda óptica de uma cópia de época conservada pela Cinemateca Portuguesa.

quarta-feira, 18 de abril de 2018

Em Português: Cartas da Guerra (2016)

Não só é uma história de amor poética e fogosa, como é um retrato fiel de uma realidade histórica que ainda se tem medo de abordar. É um filme que sinto na pele, de cada vez que o vejo, captando sempre novos pormenores, novas sensações. Cartas da Guerra foi amor à primeira vista, apaixonante e apaixonado. Conquista-me pelas palavras de ternura e pelas imagens duras, a preto e branco.


O filme adapta uma obra do escritor António Lobo Antunes, composta por cartas que este escreveu à mulher durante a sua estadia na guerra do ultramar. A acção começa em 1971, quando António vê o seu quotidiano em Lisboa ser interrompido ao ser destacado para servir como médico no Leste de Angola. Perante a extrema violência e desolação, António escreve à mulher Maria José, contando o que vê, o que sente, como que abrigando-se do pior.

É um filme de guerra mas sensorial e sensível. Não é meigo, não esconde nada. Mas as saudades e a distância que separam um grande amor, em que cada um dos amantes está num continente diferente, a sofrer em silêncio, só o papel pode colmatar. O papel é a partilha que não acontece cara a cara. O papel é o que ateia a chama da paixão.


Uma realidade que tantos foram obrigados a viver, que marcou a vida de famílias inteiras, que está no passado mas corre no sangue da nação e, mesmo que ninguém fale, que ninguém recorde, todos se lembram dela. Uma guerra que Portugal tem vergonha de lembrar, de filmar, de admitir que foi sangrenta e marcante para todos. Por tudo isto, Ivo M. Ferreira é um homem de coragem ao filmar este tema, e fá-lo muito bem.

O sofrimento espelha-se nos olhares, mais do que nas imagens violentas, e o amor é personificado nas vozes e nos rostos jovens de Margarida Vila-Nova e Miguel Nunes.

Cartas da Guerra é um poema de amor em termos de guerra.


Na altura da estreia no IndieLisboa'16 escrevi esta crítica.

domingo, 13 de agosto de 2017

Em Português: Aquele Querido Mês de Agosto (2008)

Agosto chegou e com ele o lembrete do quanto gosto do mais jovial filme de Miguel Gomes, Aquele Querido Mês de Agosto. Desde que o vi, fiquei fascinada por esta docuficção, pelas personagens reais e ficcionais, pelo argumento original e audaz.


O site da produtora do filme O Som e a Fúria descreve Aquele Querido Mês de Agosto da seguinte forma: "No coração de Portugal, serrano, o mês de Agosto multiplica os populares e as actividades. Regressam à terra, lançam foguetes, controlam fogos, cantam karaoke, atiram-se da ponte, caçam javalis, bebem cerveja, fazem filhos. Se o realizador e a equipa do filme tivessem ido directamente ao assunto, resistindo aos bailaricos, reduzir-se-ia a sinopse: «Aquele Querido Mês de Agosto acompanha as relações sentimentais entre pai, filha e o primo desta, músicos numa banda de baile». Amor e música, portanto." Está tudo dito.

Adoro o mês de Agosto e dificilmente outro filme traduz melhor o que significa este mês de regresso às origens, de reencontros, de festas, romarias e procissões, de praia (no mar ou no rio) e calor que potencia os famosos amores de Verão. Miguel Gomes traz para a tela o melhor e o pior desta época do ano, filmando desde as concentrações motards aos incêndios que, todos os anos, assolam o país.


Aquele Querido Mês de Agosto é um excelente retrato do Portugal mais profundo, que se enche de gente no oitavo mês do ano. Todos já fomos, ou conhecemos alguém que vá para a "terra" (aquela que, mesmo que esteja longe, parece partilhar do nosso sangue) nesta altura, dance ao som da música "pimba" das festas das aldeias ou vá dar um mergulho à praia fluvial.


Há uns anos, escrevi uma declaração de amor a este filme, ao quanto ele representa para mim. Hoje destaco-o nesta rubrica. Tudo mais que possa haver para dizer sobre Aquele Querido Mês de Agosto está aqui.

terça-feira, 6 de junho de 2017

Em Português: Vale Abraão (1993)

Criei uma nova rubrica para divagar um pouco sobre cinema português. Será o lugar certo para publicar pequenos textos sobre filmes portugueses que tenham tido algo de especial para mim. Começo com Vale Abraão, de Manoel de Oliveira.


Ema é apaixonante. Não admira os tantos corações que arrebata. Mas a personagem tem tanto de bela como de trágica, o condão perfeito para uma história inesquecível.

Vale Abraão tem uma aura bucólica mágica, diálogos hipnotizantes, poéticos, uma protagonista singular, uma tragédia romântica que rodeia a eterna insatisfeita, Ema, a Bovary portuguesa.

No Vale do Douro, Ema (a belíssima Leonor Silveira) vive com o pai e torna-se numa mulher bela e sensual com um irresistível gosto pelas ficções românticas, que acaba por nunca conseguir encontrar plena satisfação junto dos homens, desde logo casando com um médico que nunca amou. Na sequência de uma intensa vida social, Ema envolve-se com três homens sempre numa constante busca de paixões e desafios. A sua beleza e audácia valem-lhe o epíteto de Bovarinha, uma versão moderna e portuguesa da Bovary, de Flaubert.


Quase três horas e meia de filme e não me canso. Quero ver mais, sinto-me contagiada pelo ritmo, que deixa assimilar bem emoções e segredos, perco-me nos planos fabulosos, nas belas paisagens do Douro, e nas simbologias, tão premonitórias, que o filme nos vai dando.

Ema é desafiadora, provocadora, uma mulher à frente no seu tempo, que diz o que pensa, faz o que bem entende, não tem medo de escândalos, não vive de aparências. "As mulheres não têm que ler livros", dizia alguém a certo momento, Ema é a excepção, ou será antes a razão? É, sem dúvida, a insatisfação, que vive numa incessante procura de estímulos que a façam sentir viva.


Ema e o seu chapéu a surgir entre as laranjeiras ou uma jovem Ema de rosto inexpressivo junto de uma gaiola com canários enquanto constata: "Disparate! Vou-me casar e nem sequer gosto dele", são dois dos inúmeros momentos que ficarão, para sempre, na memória. Na sua quase infinita filmografia, Manoel de Oliveira deixou-nos em Vale Abraão um dos seus filmes mais belos e poéticos.