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quarta-feira, 2 de outubro de 2024

Globos de Ouro - Sic: Vencedores

Os Globos de Ouro SIC 2024 foram anunciados na noite de Domingo, 29 de Setembro. Mal Viver/Viver Mal, Rabo de Peixe e Matilha foram alguns dos premiados nas categorias de cinema e ficção televisiva.

Eis a lista de nomeados e vencedores em cada uma das categorias:

Cinema

Melhor Filme

Baan, Leonor Teles

Mal Viver e Viver Mal, João Canijo

Nação Valente, Carlos Conceição

Nayola, José Miguel Ribeiro

Onde Fica Esta Rua? Ou Sem Antes Nem Depois, João Pedro Rodrigues e João Rui Guerra da Mata


Melhor Actor

João Arrais, Nação Valente

Pedro Inês, Índia

Albano Jerónimo, The Nothingness Club - Não Sou Nada e O Pior Homem de Londres

Rui Morrison, Sombras Brancas

Ruben Simões, Vadio


Melhor Actriz

Rita Blanco, Mal Viver e Viver Mal

Rita Cabaço, O Vento Assobiando nas Gruas

Carla Maciel, Légua

Anabela Moreira, Mal Viver, Viver Mal e A Semente do Mal

Maria João Pinho, A Sibila


Televisão

Melhor Ficção

Codex 632

Lúcia, A Guardiã dos Segredos

Matilha

Rabo de Peixe

Senhora do Mar


Melhor Actor

José Condessa, Rabo de Peixe

Albano Jerónimo, Rabo de Peixe

Afonso Pimentel, Matilha e Rabo de Peixe

Paulo Pires, Codex 632

Rodrigo Tomás, Rabo de Peixe


Melhor Actriz

Inês Aires Pereira, Erro 404

Márcia Breia, Lúcia, A Guardiã do Segredo

Helena Caldeira, Rabo de Peixe

Sofia Ribeiro, Senhora do Mar

Margarida Vila-Nova, Matilha

domingo, 2 de outubro de 2022

Sugestão da Semana #528

Das estreias da passada Quinta-feira, a Sugestão da Semana destaca o português Fogo-Fátuo, de João Pedro Rodrigues. Lê a nossa crítica.

FOGO-FÁTUO


Ficha Técnica:
Título Original: Fogo-Fátuo
Realizador: João Pedro Rodrigues
Elenco: Mauro Costa, André Cabral, Joel Branco, Margarida Vila-Nova, Miguel Loureiro, Anabela Moreira, Raquel Rocha Vieira, Joana Barrios, João Villas-Boas, João Reis Moreira, João Mota, Paulo Bragança, João Caçador
Género: Comédia, Musical, Romance
Classificação: M/16
Duração: 67 minutos

terça-feira, 12 de julho de 2022

Curtas Vila do Conde 2022: Fogo-Fátuo (2022)

"Um príncipe... bombeiro?"

Comandante

*8/10*

Fogo-Fátuo estreou em Cannes e tem seguido o seu percurso por vários festivais de cinema, chegando agora a Vila do Conde. Na secção Da Curta à Longa, João Pedro Rodrigues marca presença com a sua primeira comédia. Um musical futurista, queer e vibrante, que filma a beleza e a conjugação dos corpos, na arte, na História e na Natureza.

"2069, ano talvez erótico - logo veremos - mas fatídico para um rei sem coroa. No seu leito de morte, uma canção antiga fá-lo rememorar árvores; um pinhal ardido e o tempo em que o desejo de ser bombeiro para libertar Portugal do flagelo dos incêndios, foi também o despontar de outro desejo. Então príncipe, Alfredo encontra Afonso. Com diferentes origens e diferentes cores de pele, encontram-se, socorrem-se e o léxico do abuso fica farrusco de desejo. Mas a exposição pública e as suas expectativas interpõem-se e Alfredo abraça um outro estado de prontidão para uma realidade improvável."

Provocador, sarcástico e eficaz, Fogo-Fátuo mantém e vai além dos temas que têm marcado a filmografia de João Pedro Rodrigues. O passado esclavagista português é indissociável da narrativa principal, mas igualmente a sexualidade, a política, os incêndios e o racismo.

O filme passa-se em três tempos distintos: 2011, entre 2017 e a actualidade, e 2069 e, partindo do futuro, viaja-se ao passado para contar a história deste príncipe que não o é.

A ironia de João Pedro Rodrigues não se sente apenas nas palavras dos actores, mas também nos planos de câmara instigantes; na recriação homoerótica de pinturas famosas, ou na forma como o olhar de algumas personagens se dirige à plateia - e com ela também interage.

O elenco chega repleto de surpresas, vindas de várias áreas artísticas - e não só. Destaque para a dupla protagonista Mauro Costa e André Cabral, e à química que transpiram no ecrã, essencial para Fogo-Fátuo funcionar tão bem: do ar angelical do primeiro à sensualidade do segundo, eis a combinação perfeita para encabeçar o filme.

O lado musical de Fogo-Fátuo fica no ouvido, acompanhado por coreografias que vagueiam entre a dança e a pintura. O erotismo e a sensualidade são uma constante, potenciados pela câmara de João Pedro Rodrigues. Enquanto algumas imagens simulam quadros, as restantes são telas em movimento do director de fotografia Rui Poças.

Assente essencialmente na estética, no culto dos corpos, Fogo-Fátuo irá sempre despoletar sentimentos - sejam eles quais forem - na plateia, e ficará na cabeça - temas, imagens e canções - durante muito tempo.

quarta-feira, 15 de junho de 2022

Crítica: Revolta (2022)

"Eu achava que a minha vida era uma desgraça. Ainda bem que vim a este jantar."

João

*7.5/10*

Com uma longa carreira enquanto argumentista, Tiago R. Santos apresenta Revolta, a sua primeira longa-metragem como realizador, e o resultado é desafiador. 

São apenas quatro actores dentro de uma casa, durante um jantar que não o chega bem a ser, assombrado pela pandemia, pelos filmes de John Carpenter, pelas redes sociais e por uma revolução nas ruas de Lisboa. Um filme minimalista e claustrofóbico, tal qual a época em que foi filmado.

"Em consequência da pandemia e da crise económica há uma revolta generalizada nas principais cidades do país e Paulo e Cristina, um casal de classe média alta com um filho recém-nascido, só não se juntam à indignação popular porque combinaram, nessa mesma noite, organizar um jantar para dois amigos: João, a atravessar um processo de divórcio que o mergulha numa estranha depressão; e Raquel, amiga de infância de Cristina que passou os últimos anos a atravessar o planeta numa viagem de autodescoberta. É uma noite onde, enquanto o mundo muda lá fora, as pessoas se revelam cá dentro, neste apartamento onde o confronto entre o real e o virtual revela as mais terríveis verdades."

Em 2016, na curta Vícios Para Uma Família Feliz, Tiago R. Santos já fazia desvendar um especial talento de  para contar as suas próprias histórias: com poucos actores, em espaços fechados e com o álcool como melhor companhia (na curta, uma garrafa de vodka; na longa, muitos copos de um bom vinho). Para lá destas coincidências entre os dois projectos cinematográficos, o texto do realizador e argumentista ganha uma dimensão muito mais íntima e envolvente quando é ele quem toma as rédeas do texto e da câmara.

Revolta começa por ser um jogo de aparências: um casal feliz, um amigo divorciado que encontrou a paz interior, e uma amiga livre e viajada. Só que não. Com o passar dos minutos, questiona-se onde acontece a maior revolução - fora ou dentro daquela casa de classe média-alta. O jogo muda e transforma-se numa espécie de peça de teatro da vida real - ou virtual.

Todo o argumento de Revolta assenta na crítica mordaz à felicidade das publicações do Instagram, em contraste com as amargas desilusões e depressões das pessoas reais. A dificuldade de relacionamento interpessoal, cara a cara, potenciado pelas redes sociais e adensado, mais ainda, pelas restrições pandémicas, resulta em momentos caricatos (sem faltar a máscara ou o álcool gel), mas também em discussões tensas. Do embaraço, às mais inusitadas histórias ou declamações sensuais, a revolução e o medo, dentro de casa, vão tomando conta das quatro personagens, que se desafiam e provocam.

Revolta é um filme que vive essencialmente do texto e dos actores e lembra, em grande parte, o teatro (inevitáveis serão algumas comparações com Quem Tem Medo de Virgina Woolf?). Há um crescendo de tensão, revelações inesperadas e toda a acção acontece num único tempo e espaço.

A química entre Teresa Tavares e Margarida Vila-Nova no grande ecrã supera expectativas. Elas encarnam Cristina e Raquel, duas mulheres tão diferentes e distantes que, ao longo daquela noite, mudam e criam uma relação íntima. E se as mulheres dominam a tela, Ricardo Pereira e Cristóvão Campos, Paulo e João, seguem-nas de perto, por vezes meros espectadores da contracena de Cristina e Raquel, outras vezes, eles próprios o centro da acção.

Tiago R. Santos tem uma estreia auspiciosa, usando as palavras como motor da acção e da Revolta, numa noite que muda as vidas egoístas e enclausuradas dos protagonistas, enquanto as ruas pegam fogo.

domingo, 5 de junho de 2022

Sugestão da Semana #510

Das estreias da passada Quinta-feira, a Sugestão da Semana destaca o filme português Revolta, primeira longa-metragem de Tiago R. Santos enquanto realizador, com Ricardo Pereira, Teresa Tavares, Margarida Vila-Nova e Cristóvão Campos no elenco.

REVOLTA


Ficha Técnica:
Título Original: Revolta
Realizador: Tiago R. Santos
Elenco: Teresa Tavares, Ricardo Pereira, Cristovão Campos, Margarida Vila-Nova
Género: Drama
Classificação: M/14
Duração: 91 minutos

segunda-feira, 13 de maio de 2019

Sugestão da Semana #376

Das estreias da passada Quinta-feira, a Sugestão da Semana recomenda o filme português, Hotel Império, de Ivo M. Ferreira. Passada integralmente em Macau, a longa-metragem é protagonizada por Margarida Vila-Nova. Podes ler a crítica ao filme aqui, bem como a conversa com realizador e elenco, aqui.

HOTEL IMPÉRIO


Ficha Técnica:
Título Original: Hotel Império
Realizador: Ivo M. Ferreira
Actores: Margarida Vila-Nova, Rhydian Vaughan, Tiago Aldeia, Cândido Ferreira
Género: Drama
Classificação: M/14
Duração: 82 minutos

sexta-feira, 10 de maio de 2019

Crítica: Hotel Império (2018)

*8/10*


Ivo M. Ferreira guia-nos numa viagem de sensações e nostalgia a Macau, 20 anos após ter regressado à soberania chinesa. Hotel Império apela à memória e aos sentidos e filma uma realidade tão distante mas com tanto em comum com o passado português.

Falado em quatro línguas diferentes, onde o cantonês é o idioma mais presente (os outros são o português, inglês e mandarim), eis um projecto ambicioso. A decadência das personagens condiz com a dos bairros macaenses, e é o encanto presente nesta desilusão que se afigura singular e comovente.


A casa de Maria (Margarida Vila-Nova) sempre foi o Hotel Império, nos bairros tradicionais de Macau, onde há roupa pendurada entre os neons, e um emaranhado de fios eléctricos invade ruas cheias de vapores. Com o pai envelhecido e viciado no jogo, o fardo de manter o decrépito hotel em funcionamento recai-lhe sobre os ombros. Canta fado num casino onde o jogo e a prostituição andam de mãos dadas, mas o dinheiro é pouco e os especuladores imobiliários tornam-se insistentes. Surge então Chu (Rhydian Vaughan), jovem misterioso com um interesse obsessivo por Maria.

O realizador Ivo M. Ferreira tem uma sensibilidade estética pouco comum no cinema português. Tudo é inebriante em Hotel Império. Exteriores e interiores distinguem-se pelas cores, o brilho e os muitos paradoxos causados pela alegria dos neons junto aos edifícios antigos em tons escuros. Nas ruas, as sensações são mais que muitas, desde o homem que passeia com a gaiola do seu pássaro - parece saído de outra dimensão - à azáfama do dia-a-dia. As personagens e os bairros são filmados com um encanto que os eleva a algo inatingível, intocável: uma cidade em degradação, a par das personagens, coreografadas na ruína.


Os sonhos de Maria vão ficando pelo caminho, enquanto o dinheiro escasseia e tantos dependem dela. Chu chega para quebrar a monotonia da rotina da protagonista, carregando um segredo consigo. E, entre os dois, a ganância de Edgar - num bom desempenho de Tiago Aldeia - é o motor de arranque para o desmoronamento do hotel e da sua gente. A história de Maria e de Chu poderá não ser o ponto mais forte da longa-metragem, mas também ela é intensa, principalmente pelo magnetismo e sensualidade das personagens num excelente trabalho dos actores - destaque, sem dúvida, para Margarida Vila-Nova e Rhydian Vaughan.

Hotel Império faz-nos ainda questionar valores e apela à memória, com grande ênfase na destruição do passado (neste caso, o de Portugal em Macau), que acontece em Macau mas igualmente em outros locais do mundo, desde há muitos anos. Eis aqui a intemporalidade da narrativa. Mas há hábitos que continuam iguais. Como o dedilhar a parede enquanto subimos as escadas. O toque que faz regressar à infância, quase esquecida, dos protagonistas. Agora, no presente, tudo é cruel e difícil. A memória física vai desaparecendo, mas enquanto existirmos ela perdurará.


Há uma magia e encanto naturais do que nos é distante e quase desconhecido mesmo que alguma vez já tenha feito parte de nós. Assim é Macau. Assim nos chega em Hotel Império.

quarta-feira, 8 de maio de 2019

Hotel Império: Realizador e actores falaram com o Hoje Vi(vi) um Filme

Hotel Império, o novo filme de Ivo M. Ferreira, estreia esta Quinta-feira, dia 9 de Maio, nas salas de cinema nacionais. O Hoje Vi(vi) um Filme esteve no visionamento privado da longa-metragem e conversou um pouco com actores e realizador acerca deste trabalho, filmado integralmente em Macau. A longa-metragem é protagonizada por Margarida Vila-Nova, e conta com Rhydian Vaughan, Tiago Aldeia e Cândido Ferreira no elenco.


Margarida Vila-Nova fala quatro línguas diferentes no filme (cantonês, português, inglês e mandarim) e assume que a sua personagem, Maria, "é uma guerreira, uma lutadora, uma sobrevivente, uma mulher que vemos transformar-se ao longo do filme". A actriz explica que a sua personagem "começa por se anular e por ter como prioridade salvar este Hotel Império, este hotel em ruínas que é do pai dela, e está penhorado por uma dívida ao jogo". Vamos tentando perceber qual o preço da protagonista. "E entre casinos, prostituição, jogo, até onde é que esta Maria vai para salvar o seu hotel que no fundo são as memórias dela, as referências dela, a sua identidade", continua Margarida.

Margarida Vila-Nova convida a ver Hotel Império

Também os bairros de Macau surgem em Hotel Império como quase mais uma personagem e, a par de Maria, "também a própria cidade onde ela vive se transforma e muda, E há uma certa erosão, há um ruir deste Hotel Império, mas também de uma cidade e destas personagens que habitam este hotel", conclui.

Sobre interpretar Maria, personagem que a fez aprender a falar cantonês - já que é o idioma em que mais fala ao longo do filme -, Margarida Vila-Nova não hesita em dizer que "foi certamente um dos meus maiores desafios". "Tive durante muito tempo aulas de chinês e depois, próximo da rodagem, tinha cerca de duas horas de coaching por dia para ter a certeza de que tudo o que eu estava a dizer estava a dizer com o tom certo, da forma certa...", explica. Dado o português e o cantonês serem tão diferentes, houve necessidade de "esmiuçar cada palavra, perceber o sentido, a emoção, a sensação, a intenção que estava por detrás de cada frase", conta Margarida. "No caso do chinês, se alterarmos um tom à palavra vamos mudar-lhe o sentido. Corremos o risco de dizer... uma coisa muito feia." [risos]

Para além da língua, também fisicamente Margarida se sentiu desafiada ao interpretar Maria. "Eu vivi em Macau durante sete anos, mas não deixei de ser uma estrangeira", diz. "Esta personagem cresceu neste ambiente, então esta identificação ou esta familiaridade com o espaço, com o bairro, com os outros personagens foi um trabalho ainda longo de conquistar ou de construir", conclui.

Tiago Aldeia convida a ver Hotel Império

Para o realizador, Ivo M. Ferreira, que vive em Macau há mais de 20 anos, Hotel Império é, "de alguma forma, um filme síntese sobre as primeiras impressões em Macau e, por outro lado, sobre o que lá passei ao longo destes 20 e tal anos". Assume que "o filme tem um lado muito distópico, mas também um lado muito actual", tanto que poderia passar-se tanto agora, como nas décadas passadas ou até nos próximos anos. Contudo, conclui que "faz muito sentido ser agora, 20 anos depois da transferência de soberania da administração de Portugal para a República Popular da China".

Quanto ao visual dos bairros de Macau, o realizador explica que "a minha ideia era quase uma coisa um bocado absurda, como se a erosão da paisagem urbana pudesse ser também uma aglomeradora de ideias para forjar uma identidade. Há tanta coisa a acontecer de repente - que não é de repente, porque acontece desde os anos 50 -, em relação à destruição do que é património arquitectónico indoeuropeu, que cria um medo nas pessoas".

Ivo convida o público a assistir a Hotel Império: "Acho que é uma viagem interessante a Macau, uma viagem muito condicionada pelo meu olhar, pela minha visão, pela minha imagética".


Rhydian Vaughan e Ivo M. Ferreira convidam a ver Hotel Império (em português e cantonês)

Sinopse:
A casa de Maria sempre foi o Hotel Império, nos bairros tradicionais de Macau, onde há roupa pendurada entre os neons, e um emaranhado de fios eléctricos invade ruas cheias de vapores. Com o pai envelhecido, o fardo de manter o decrépito hotel em funcionamento recai-lhe sobre os ombros. Canta Fado num Casino onde o jogo e a prostituição andam de mãos dadas, mas o dinheiro é pouco e os especuladores imobiliários tornam-se insistentes. Surge então Chu, jovem misterioso com um interesse obsessivo por Maria. Sonhos desiludidos, ganância e decadência: crónica de uma Macau de hoje, 20 anos após o regresso à China.

quarta-feira, 18 de abril de 2018

Em Português: Cartas da Guerra (2016)

Não só é uma história de amor poética e fogosa, como é um retrato fiel de uma realidade histórica que ainda se tem medo de abordar. É um filme que sinto na pele, de cada vez que o vejo, captando sempre novos pormenores, novas sensações. Cartas da Guerra foi amor à primeira vista, apaixonante e apaixonado. Conquista-me pelas palavras de ternura e pelas imagens duras, a preto e branco.


O filme adapta uma obra do escritor António Lobo Antunes, composta por cartas que este escreveu à mulher durante a sua estadia na guerra do ultramar. A acção começa em 1971, quando António vê o seu quotidiano em Lisboa ser interrompido ao ser destacado para servir como médico no Leste de Angola. Perante a extrema violência e desolação, António escreve à mulher Maria José, contando o que vê, o que sente, como que abrigando-se do pior.

É um filme de guerra mas sensorial e sensível. Não é meigo, não esconde nada. Mas as saudades e a distância que separam um grande amor, em que cada um dos amantes está num continente diferente, a sofrer em silêncio, só o papel pode colmatar. O papel é a partilha que não acontece cara a cara. O papel é o que ateia a chama da paixão.


Uma realidade que tantos foram obrigados a viver, que marcou a vida de famílias inteiras, que está no passado mas corre no sangue da nação e, mesmo que ninguém fale, que ninguém recorde, todos se lembram dela. Uma guerra que Portugal tem vergonha de lembrar, de filmar, de admitir que foi sangrenta e marcante para todos. Por tudo isto, Ivo M. Ferreira é um homem de coragem ao filmar este tema, e fá-lo muito bem.

O sofrimento espelha-se nos olhares, mais do que nas imagens violentas, e o amor é personificado nas vozes e nos rostos jovens de Margarida Vila-Nova e Miguel Nunes.

Cartas da Guerra é um poema de amor em termos de guerra.


Na altura da estreia no IndieLisboa'16 escrevi esta crítica.

segunda-feira, 5 de setembro de 2016

Sugestão da Semana #236

Das estreias da passada Quinta-feira, a Sugestão da Semana destaca o filme português, Cartas da Guerra, de Ivo M. Ferreira. Baseado nas cartas que António Lobo Antunes escreveu à mulher enquanto esteve na Guerra Colonial, o filme dá-nos uma visão romântica e dura desta época da História de Portugal. A crítica do Hoje Vi(vi) um Filme pode ser lida aqui.

CARTAS DA GUERRA


Ficha Técnica:
Título Original: Cartas da Guerra
Realizador: Ivo M. Ferreira
Actores: Miguel Nunes, Margarida Vila-Nova, Ricardo Pereira, João Pedro Vaz, Simão Cayatte, Isac Graça, Francisco Hestnes Ferreira, Tiago Aldeia
Género: Drama
Classificação: M/14
Duração: 105 minutos

quarta-feira, 27 de abril de 2016

IndieLisboa'16: Cartas da Guerra (2016)

"Adoro-te, minha gata de Janeiro, meu amor, minha gazela, meu miosótis, minha estrela aldebaran, minha amante, minha Via Láctea..."
António


*9/10*

Amor em tempos de guerra é uma boa forma de resumir Cartas da Guerra, o corajoso e pioneiro filme de Ivo M. Ferreira nesta abordagem tão intima e absorvente da Guerra Colonial.

Foi assim que se celebrou o 25 de Abril no Grande Auditório da Culturgest, esgotado. Depois da estreia internacional na Competição Internacional do Festival de Berlim, Cartas da Guerra teve no IndieLisboa a sua estreia nacional. O filme adapta uma obra do escritor António Lobo Antunes, composta por cartas que este escreveu à mulher durante a sua estadia na guerra do ultramar. A acção começa em 1971, quando António vê o seu quotidiano em Lisboa ser interrompido ao ser destacado para servir como médico no Leste de Angola. Perante a extrema violência e desolação, António escreve à mulher Maria José, contando o que vê, o que sente, como que abrigando-se do pior.

Um retrato provavelmente nunca antes visto no cinema português do que foi estar na Guerra Colonial. A desconfiança, o medo do inesperado, os vícios, a saudade, a distância, a imprevisibilidade... o fim tão próximo e tão longe. A dor do tempo a passar só era aliviada quando o correio chegava, as notícias da família, do amor que ficou em Portugal, ou no momento de responder às cartas, contar o quotidiano, os tormentos, o desespero, o medo de não voltar.


Margarida Vila-Nova e Miguel Nunes são o casal protagonista e são as suas vozes que nos lêem as cartas enviadas por António a Maria José. Ela em Lisboa, ele em Angola, o tempo a passar, a barriga dela a crescer e o amor dos dois a aumentar com as saudades. Cartas ternas, românticas, fogosas, a paixão que não se pode viver fisicamente é descrita com o mesmo fulgor em cada folha de papel. Um dos momentos mais fortes e envolventes de Cartas da Guerra é-nos mostrado pela câmara de Ivo M. Ferreira, numa espécie de amor feito à distância.

A acompanhar o texto, as imagens, duras, sombrias, entre os horrores da guerra, ver camaradas a partir, minas, tiros, o inimigo iminente que não se sabe por onde espreita, e os povos locais, doentes ou com medo, mas sempre com vontade de conviver com os soldados portugueses. A preto e branco, desde a viagem por mar para Angola, até ao quotidiano em Chiúme, Cartas da Guerra coloca-nos no centro da acção, através de planos hipnóticos, que agarram à acção, deixando-nos extasiados pelas paisagens longínquas e deslumbrantes - que transmitem o calor, o exotismo, a selva -, como igualmente abalados, atordoados, na expectativa de que aconteça o pior a qualquer momento, perdidos, por vezes, numa tranquilidade suspeita e inquietante.

Miguel Nunes merece destaque ao encarnar António, este médico sensível, que é obrigado a deixar a mulher grávida noutro continente para servir na guerra. A experiência transformadora - de onde a tristeza nunca vai desaparecer - e a impotência perante as atrocidades que o rodeiam é transmitida pelo actor de forma comedida, mas com uma naturalidade que nos diz muito. Miguel espelha as emoções no olhar, nos seus gestos subtis e contidos.


No meio destas cartas de amor escritas durante a guerra, sente-se a falta de mais visceralidade nas imagens, e, talvez, de menos narração, que, por vezes, tira o foco da acção (ou vice-versa). Compreende-se, contudo, que num filme romântico as cartas de amor sejam uma forma de aliviar a dor da separação e os horrores do conflito: mais poesia, menos sangue.

Ivo M. Ferreira realizou um filme que fazia muita falta a Portugal e ao mundo. Música, imagens e palavras revelam a Guerra Colonial do lado de quem lá esteve. Com harmonia e encanto, o cinema conta uma história de amor, que é também a dura História de uma nação.