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segunda-feira, 7 de fevereiro de 2022

Entrevista: Adriano Mendes, realizador de 28½

Adriano Mendes revelou-se em 2014, com O Primeiro Verão, e a sua segunda longa-metragem, 28½, vem reforçar o talento do promissor jovem realizador no panorama do cinema nacional. O filme continua nas salas e Adriano Mendes respondeu a algumas questões e curiosidades do Hoje Vi(vi) um Filme.

28½

De O Primeiro Verão para 28½ há um desencantamento notório. É como deixar de ser criança ou adolescente, perder a inocência, para entrar na idade adulta? Era teu propósito mostrar que também tu cresceste enquanto realizador?

Adriano Mendes: A ideia para este segundo filme surgiu sem tentar estabelecer qualquer relação com o anterior. As eventuais ligações ou rupturas com O Primeiro Verão são consequência de se tentar criar um outro objecto, onde me propus a trabalhar outras questões, mas em que o autor é o mesmo. Durante o processo não deposito atenção sobre o que quero mostrar de mim. Não é sobre mim, é sobre criar um filme. O objecto final é o resultado de uma investigação profunda e de um constante reajuste, sem haver um olhar programático daquilo que quero mostrar enquanto realizador. O processo de construir o filme e aquilo que os outros vêem nele são realidades distintas. Os dois filmes interpelam estágios muito diferentes de uma relação amorosa. Essa inocência do primeiro filme ou esse desencanto do segundo são consequência dos elementos narrativos de cada um dos filmes. N’ O Primeiro Verão, a protagonista vive em casa dos pais e podemos presumir que ainda está a estudar. No 28½, a protagonista está por si, a tentar sobreviver. Esse choque com o mundo, na tentativa de procurar independência e auto-subsistir, pode traduzir-se nessa sensação de perda da inocência.

O Primeiro Verão

A Anabela Caetano regressa como protagonista e também ela demonstra uma grande evolução e maturidade como actriz. Foi uma escolha óbvia para interpretar Teresa? Como foi trabalhar com ela agora apenas enquanto realizador, depois de terem contracenado em O Primeiro Verão?

Adriano Mendes: A Anabela participou em todas as etapas do processo. Foi fundamental no debate das primeiras ideias, nos ensaios, no processo de recruta do actores. A personagem da Teresa nasceu pela mão dela e só nesse momento é que o filme se começou a tornar palpável. Temos um entendimento muito grande, muito para lá das palavras, o que nos permitiu ir encontrando a tonalidade que procurava.

Toda a acção passa-se apenas num único dia na vida de Teresa, que não corre da melhor maneira. Esta opção é inocente ou querias envolver a plateia com o crescendo dos acontecimentos?

Adriano Mendes: Realizar é escolher. Há opções mais ou menos conscientes, mas realizar é quase o oposto de um acto inocente. Desde o início que havia o desejo de trabalhar narrativamente um daqueles dias que, de tão intensos que são, nos parece uma semana.

28½

A sequência no comboio é dos melhores momentos de 28½. Houve alguma improvisação na rodagem? De onde saiu a ideia para aquela situação em concreto?

Adriano Mendes: O processo de construção da cena foi muito complexo e é quase impossível falar sobre ele de forma justa. A ideia base surgiu de um conjunto de situações que vivi em transportes públicos, de outras situações que me contaram, e da imaginação.

Para além do crescimento e do desencanto e estagnação que sente a geração dos 20 e muitos aos 40 e poucos anos, em que outros temas pretendes que o filme faça reflectir?

Adriano Mendes: A ideia era fazer um filme sobre este intervalo, este “meio” do título. Uma sensação de instabilidade, incompletude, de procura, de desequilíbrio. Para mim não houve nenhum sentido de agenda temática ou política. Quis criar um objecto em total liberdade, e também ele aberto.

28½

Depois dos adiamentos da estreia - com uma pandemia pelo meio -, vês o teu segundo filme finalmente a chegar às salas de cinema. Como foi este longo processo de espera? O que pode o público esperar?

Adriano Mendes: Foi sempre com incerteza sobre qual a melhor altura, mas com o enorme desejo de que o filme pudesse ser visto em sala. Foi um processo muito difícil, mas tinha esperança que pudesse acontecer. O público pode esperar um filme intenso, que percorre as horas de um dia desafiante na vida de uma jovem-mulher onde, devagarinho e sem avisos a vida se vai desmoronando.

Quais os projectos que se seguem?

Adriano Mendes: Mistério. Não posso revelar.

domingo, 30 de janeiro de 2022

Sugestão da Semana #492

Das estreias da passada Quinta-feira, a Sugestão da Semana destaca o filme português 28½, de Adriano Mendes. A longa-metragem, protagonizada por Anabela Caetano, tem crítica no Hoje Vi(vi) um Filme.

28½


Ficha Técnica:
Título Original: 28½
Realizador: Adriano Mendes
Elenco: Anabela Caetano, Sérgio Assunção, Sérgio MarcelinoCatherine Boyd-BellArlete CandôEmanuele Simontacchi, Fernando Saldanha, Ibrahim Manafá
Género: Drama
Classificação: M/12
Duração: 93 minutos

segunda-feira, 17 de janeiro de 2022

Algarve Film Week: De 18 a 23 de Janeiro em Loulé

A Algarve Film Week leva vários eventos de cinema a Loulé, de 18 a 23 de Janeiro. Desta iniciativa, fazem parte a Monstrare - 8.ª Mostra Internacional de Cinema Social, a cerimónia da 2.ª edição dos Prémios Cinetendinha e, como festival convidado, haverá um dia dedicado ao Caminhos do Cinema Português

Haverá sessões de curtas e longas-metragens, debates e masterclass ao longo dos vários dias do evento.

A abrir a Algarve Film Week e a Monstrare, no dia 18 de Janeiro, terá lugar uma sessão de esclarecimento para jovens intitulada Saúde Mental e a Pandemia, que contará com a presença do psicólogo Luís Neves e de Nuno Murcho (ARS) na Escola Secundária de Loulé. À noite, serão apresentadas três curtas-metragens portuguesas no Auditório do Solar da Música Nova: A Viagem, de Henrique Lopes, Macabre, de Jerónimo Rocha e João Miguel Real, e Erva Daninha, de Guilherme Daniel.

O Festival Caminhos do Cinema Português foi convidado a programar duas sessões da Algarve Film Week. A 19 de Janeiro, às 15h00, terá lugar uma sessão de curtas-metragens, composta pelos filmes O Lobo Solitário, de Filipe Melo, O Que Resta, de Daniel Soares, e O Macaco, de Xosé Zapata e Lorenzo Degl´Innocent. No mesmo dia, às 21h00, é exibida a longa-metragem Clube dos Anjos, realizada pelo brasileiro Angelo Defanti.

No dia 20, o jornalista Carlos Albino e Miguel Fernandes, do Algarve Tech Hub, estarão num debate sobre Inteligência Artificial na Casa do Meio-Dia. Já no Auditório do Solar da Música Nova, às 21h00, é exibido o filme Desculpa! Uma História Sobre Bullying, de Dave Schram, sobre a questão do bullying nas escolas, tendo como base o livro de Carry Slee.

O quarteirense Bernardo Lopes, realizador da premiada curta-metragem Moço, vai dar uma masterclass sobre realização de cinema, no dia 21 de Janeiro, no Auditório da Escola Secundária de Loulé. No mesmo dia, é exibido o documentário de animação Flee, de Jonas Poher Rasmussen, conta a história verídica de um homem, que, prestes a casar-se, decide revelar o seu passado como refugiado afegão.

O jornalista de cinema Rui Pedro Tendinha regressa a Loulé para a 2.ª edição dos prémios Cinetendinha, numa cerimónia transmitida em live streaming a partir do Cineteatro Louletano. Estes prémios pretendem distinguir  os melhores filmes e actores nacionais de 2021.

A encerrar a Algarve Film Week, no dia 23 de Janeiro, às 17h00, estará 28 ½, a segunda longa-metragem de Adriano Mendes. O filme centra-se na personagem de Teresa, interpretada por Anabela Caetano, ao longo de um dia e de uma noite difíceis.


PROGRAMA

entrada livre


18 Janeiro

Monstrare

15h00 - Debate/Sessão de Esclarecimento para jovens: Saúde Mental e a Pandemia com Luís Neves (Psicólogo) e Nuno Murcho (ARS)

Auditório da Escola Secundária de Loulé

21h00 – Curtas-Metragens

A Viagem, de Henrique Lopes (Portugal)

Macabre, de Jerónimo Rocha e João Miguel Real (Portugal)

Erva Daninha, de Guilherme Daniel (Portugal)

Auditório do Solar da Música Nova


19 Janeiro

Festival Convidado: Caminhos do Cinema Português

15h00 – Curtas-metragens

O Macaco, de Xosé Zapata e Lorenzo Degl´Innocenti (Portugal/Espanha)

O Lobo Solitário, de Filipe Melo (Portugal)

O Que Resta, de Daniel Soares (Portugal)

Auditório da Escola Secundária de Loulé

21h00 – Longa-metragem

Clube dos Anjos, de Angelo Defanti – 98min (Portugal/Brasil)

Auditório do Solar da Música Nova


20 Janeiro

Monstrare

18h00 – Debate: Inteligência Artificial com Carlos Albino (Jornalista) e Miguel Fernandes (Algarve Tech Hub)

Casa do Meio-Dia

21h00 – Longa-metragem

Desculpa! Uma História Sobre Bullying, de Dave Schram - 95 min (Holanda)

Auditório do Solar da Música Nova


21 Janeiro

Monstrare

15h00 – Masterclass: Bernardo Lopes

Auditório da Escola Secundária de Loulé

21h00 – Documentário

Flee, de Jonas Poher Rasmussen – 90 min (Dinamarca)

Auditório do Solar da Música Nova


22 Janeiro

Prémios Cinetendinha

17h00 – Streaming e gravação para broadcast

Cineteatro Louletano


23 Janeiro

Monstrare

17h00 – Longa-metragem

28 ½, de Adriano Mendes – 92 min (Portugal)

Cineteatro Louletano

sexta-feira, 4 de setembro de 2020

IndieLisboa'20: 28½ (2020), de Adriano Mendes

*8.5/10*


Depois de O Primeiro Verão, Adriano Mendes está de regresso ao IndieLisboa para apresentar a sua segunda longa-metragem, 28½.

Depois da descoberta do amor, em 2014, em 2020 a proposta é mais desafiante e reflexiva. Seguimos Teresa (Anabela Caetano), com quase 30 anos, que procura emprego. Depois de um dia difícil, tudo deverá parecer bem num jantar com estrangeiros que visitam Lisboa.

28½ é o espelho dos obstáculos e do desencanto que o fim da inocência - e da adolescência - traz a cada um. O foco é a protagonista Teresa e os desvios e desfoques que a vida leva, por vezes, e que as palavras não são suficientes para explicar. 


A idade do amadurecimento tem sido de estagnação para a geração que está entre os 20 e muitos e os 30 e poucos anos. A incerteza do futuro está espelhada nos olhos tristes e no ar pensativo que Anabela Caetano carrega. Uma interpretação que marca um crescimento imenso desde O Primeiro Verão até 28½ - o mesmo que se sente, inevitavelmente, relativamente ao cinema de Adriano Mendes, que se assume neste novo filme um realizador corajoso e com características muito próprias. A inocência ficou em 2014, mergulhando agora numa temática mais dura e melancólica. Contudo, o desespero e desencanto espelhado no rosto da protagonista tem rasgos de esperança no sorriso aberto e desafiador que por vezes lança a quem lhe faz frente. 

Num dia aparentemente normal, com uma entrevista de emprego, um treino de muay thai, um trabalho babysitting para uma amiga, tudo começa a correr pior quando o carro não pega. Tudo o que se segue provoca uma mistura de sentimentos e emoções em Teresa mas também na plateia, e transforma 28½ num filme com uma personalidade muito própria. 

Com dois momentos especialmente marcantes: a fabulosa cena no comboio - tão realista como inusitada -, que é, provavelmente, o melhor momento do filme; e o jantar com as visitas estrangeiras e a conversa de circunstância que aborda diversas problemáticas da cidade de Lisboa (a gentrificação e o turismo desenfreado) e da incerteza que se tem vivido nos últimos anos.


28½ tem uma aura que contagia, desperta e emociona. Não é mais um filme banal sobre os problemas dos jovens na cidade. É introspectivo e pro-activo e revela que Adriano Mendes está aqui para marcar a diferença e criar a sua visão, o seu cinema.

terça-feira, 7 de agosto de 2018

Revista Gerador #20 e o meu texto

A revista Gerador #20 já está nas bancas desde o mês de Julho e lá podes encontrar o meu texto sobre os novos talentos saídos do IndieLisboa. Falo, em especial, sobre três nomes: Adriano Mendes, Duarte Coimbra e Leonor Teles.

Encontra-me entre as páginas 25-28

Descobre mais sobre a revista Gerador e onde comprá-la em: http://gerador.eu/revista/.

quarta-feira, 5 de agosto de 2015

Crítica: O Primeiro Verão (2014)

*8/10*

Simples, sincero e eficaz: O Primeiro Verão é uma lufada de ar fresco no cinema português, e marca a estreia do jovem realizador Adriano Mendes nas longas-metragens. Um filme independente construído com o esforço de todos os envolvidos, num cenário que convida a conhecer, em busca da tranquilidade que muitas vezes falta no cinema comercial actual. E O Primeiro Verão é um filme para todos, dos mais jovens aos mais idosos, dos mais aos menos exigentes, das elites aos fãs de blockbusters. Tudo isto porque o realizador consegue envolver-nos numa história simples e realista, uma história de amor com três protagonistas: Miguel, Isabel e Cmyk.


É na Sertã que tudo acontece, quando Isabel e Miguel se encontram pela primeira vez numa aula de condução. Ali, naquele que é O Primeiro Verão dos dois, inicia-se uma história de amor, que tem percorrido o mundo e já recebeu diversos prémios.

A simplicidade é o trunfo mais forte desta longa-metragem, que comporta consigo uma ternura, proximidade e realismo enormes. O filme prende o público que se envolve na história, que segue as conversas, a timidez inicial, os passeios do casal pela Sertã com o companheiro canino Cmyk, a inocência destes jovens que se descobrem a cada momento. O amor cresce e descobre-se aos poucos, tanto o amor romântico entre Miguel e Isabel, como o amor para com o companheiro de uma vida, Cmyk, personagem fundamental para O Primeiro Verão ser tão singular.

Adriano Mendes constrói o seu filme com poucas palavras, pois um olhar, um gesto ou um abraço valem muito mais do que longos discursos. A banda sonora, também da sua autoria, é igualmente importante para o desenrolar do enredo. Tudo surge natural, umas vezes com uma ingenuidade calorosa - que também poderá ser de principiante -, outras com laivos de brilhantismo. Há planos que nos ficarão na memória, há olhares que não vamos esquecer, tal como a espontaneidade dos sentimentos ali filmados.


No elenco, o destaque vai para Anabela Caetano, a Isabel emotiva e destemida que nos conduz pelas dúvidas típicas da juventude e pela dedicação extrema a alguém. A jovem actriz tem um desempenho que revela grande talento e, provavelmente, voltaremos a ouvir falar dela.

Faltam, cada vez mais, filmes tão sinceros, com a realidade das emoções humanas a tomar conta do grande ecrã e a conquistar o espectador. O Primeiro Verão tem uma aura muito própria e por muito que Adriano ainda tenha para crescer enquanto realizador, aqui provou que detém já fortes marcas autorais e sabe o que faz falta no cinema português - que muitas vezes só se consegue concretizar com muita vontade, esforço e amor à Sétima Arte.