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segunda-feira, 28 de março de 2022

Oscars 2022: Os Vencedores

A 94.ª cerimónia dos Oscars acontece na madrugada deste Domingo, 27 de Março. Apesar da polémica dos vencedores de algumas categorias não serem televisionados, por aqui, estaremos, como de costume a actualizar os vencedores em tempo real.


Aqui fica a lista completa de vencedores:

Melhor Filme
Belfast
CODA
Don’t Look Up
Drive My Car
Dune
King Richard
Licorice Pizza
Nightmare Alley
The Power of the Dog
West Side Story

Melhor Actor
Javier Bardem (Being the Ricardos)
Benedict Cumberbatch (The Power of the Dog)
Andrew Garfield (Tick, Tick … Boom!)
Will Smith (King Richard)
Denzel Washington (The Tragedy of Macbeth)

Melhor Actriz
Jessica Chastain (The Eyes of Tammy Faye)
Olivia Colman (The Lost Daughter)
Penélope Cruz (Parallel Mothers)
Nicole Kidman (Being the Ricardos)
Kristen Stewart (Spencer)

Melhor Actor Secundário
Ciarán Hinds (Belfast)
Troy Kotsur (CODA)
Jesse Plemons (The Power of the Dog)
J.K. Simmons (Being the Ricardos)
Kodi Smit-McPhee (The Power of the Dog)

Melhor Actriz Secundária 
Jessie Buckley (The Lost Daughter)
Ariana DeBose (West Side Story)
Judi Dench (Belfast)
Kirsten Dunst (The Power of the Dog)
Aunjanue Ellis (King Richard)

Melhor Realizador
Paul Thomas Anderson (Licorice Pizza)
Kenneth Branagh (Belfast)
Jane Campion (The Power of the Dog)
Steven Spielberg (West Side Story)
Drive My Car (Ryûsuke Hamaguchi)

Melhor Argumento Original
Belfast (Kenneth Branagh)
Don’t Look Up (Adam McKay & David Sirota)
Licorice Pizza (Paul Thomas Anderson)
King Richard (Zach Baylin)
The Worst Person in the World (Joachim Trier & Eskil Vogt)

Melhor Argumento Adaptado
CODA (Sian Heder)
Drive My Car (Ryusuke Hamaguchi & Takamasa Oe)
Dune (Eric Roth, Jon Spaihts & Denis Villeneuve)
The Lost Daughter (Maggie Gyllenhaal)
The Power of the Dog (Jane Campion)

Melhor Filme de Animação
Encanto
Flee
Luca
The Mitchells vs. The Machines
Raya and the Last Dragon

Melhor Filme Estrangeiro
Drive My Car (Japão)
Flee (Dinamarca)
The Hand of God (Itália)
Lunana: A Yak in the Classroom (Butão)
The Worst Person in the World (Noruega)

Melhor Fotografia
Dune (Greig Fraser)
Nightmare Alley (Dan Lausten)
The Power of the Dog (Ari Wegner)
The Tragedy of Macbeth (Bruno Delbonnel)
West Side Story (Janusz Kaminski)

Melhor Montagem
Don’t Look Up (Hank Corwin)
Dune (Joe Walker)
King Richard (Pamela Martin)
The Power of the Dog (Peter Sciberras)
Tick, Tick… Boom! (Myron Kerstein & Andrew Weisblum)

Melhor Design de Produção
Dune (Zsuzsanna Sipos & Patrice Vermette)
Nightmare Alley (Tamara Deverell & Shane Vieau)
The Power of the Dog (Grant Major & Amber Richards)
The Tragedy of Macbeth (Stefan Dechant & Nancy Haigh)
West Side Story (Rena DeAngelo & Adam Stockhausen)

Melhor Guarda-Roupa
Cruella (Jenny Beavan)
Cyrano (Massimo Cantini Parrini)
Dune (Jacqueline West)
Nightmare Alley (Luis Sequeira)
West Side Story (Paul Tazewell)

Melhor Caracterização
The Eyes of Tammy Faye
House of Gucci
Coming 2 America
Cruella
Dune

Melhor Banda Sonora Original
Don’t Look Up (Nicholas Britell)
Dune (Hans Zimmer)
Encanto (Germaine Franco)
Parallel Mothers (Alberto Iglesias)
The Power of the Dog (Jonny Greenwood)

Melhor Canção Original
Be Alive — Beyoncé Knowles-Carter & Darius Scott (King Richard)
Dos Oruguitas — Lin-Manuel Miranda (Encanto)
Down to Joy — Van Morrison (Belfast)
No Time to Die — Billie Eilish & Finneas O’Connell (No Time to Die)
Somehow You Do— Diane Warren (Four Good Days)

Melhor Som
Belfast
Dune
No Time to Die
The Power of the Dog
West Side Story

Melhores Efeitos Visuais
Dune
Free Guy
Shang-Chi and the Legend of the Ten Rings
No Time to Die
Spider-Man: No Way Home

Melhor Documentário
Ascension
Attica
Flee
Summer of Soul
Writing With Fire

Melhor Curta Documental
Audible
Lead Me Home
The Queen of Basketball
Three Songs for Benazir
When We Were Bullies

Melhor Curta de Animação
Affairs of the Art
Bestia
Boxballet
Robin Robin
The Windshield Wiper

Melhor Curta
Ala Kachuu — Take and Run
The Dress
The Long Goodbye
On My Mind
Please Hold

domingo, 27 de março de 2022

Oscars 2022: Melhor Filme

Para finalizar a análise aos nomeados, eis as dez longas-metragens na corrida para o Oscar de Melhor Filme. Há dois filmes muito bons - ambos merecedores da estatueta -, seguidos de perto por outros dois; mais alguns títulos acima da média e um que não deveria constar nesta lista. Sente-se a ausência de mais filmes de qualidade como The Lost Daughter ou The Card Counter, que poderiam ocupar alguns dos lugares da lista de nomeados de 2022.

Quem vota são os membros da Academia, mas o Hoje Vi(vi) um Filme não deixa de ter os seus eleitos. Eis os nomeados para o Oscar de Melhor Filme, por ordem de preferência.

1. The Power of the Dog

O Poder do Cão está repleto de subtexto, desconstruções subliminares e uma sexualidade latente, com muito para absorver para além da visualização do filme. Excelente regresso de Jane Campion, com uma obra que, na aparente simplicidade de um western, cria um turbilhão de tensões e desejos reprimidos.


2. Drive My Car

As três horas de filme propõem reflexão, introspecção e, todavia, nunca monotonia. Se, por um lado, uma morte precoce vem mudar a vida de várias personagens e o foco da acção, por outro, o Teatro - o texto e as palavras - tem um papel central na exorcização dos fantasmas que se teima em não deixar partir. Entre o teatro e o cinema, mas igualmente entre o espiritual e o terreno, Drive My Car é uma obra introspectiva e de sentimentos complexos, que leva a plateia numa viagem de entrega e partilha, conduzida por Misaki mas iniciada por Yûsuke.


3. Licorice Pizza

Licorice Pizza é uma viagem jovial e vibrante aos anos 70. Paul Thomas Anderson parte de vivências suas e do contexto da época e cria um filme que, conduzido pelas hormonas da adolescência e dos primeiros amores, percorre as mais inesperadas aventuras entre o universo cinematográfico, dos negócios e da política.


4. Dune

Denis Villeneuve anuncia a chegada do Messias em Duna, um filme que serão dois, e no qual colocou toda a sua dedicação e esmero. Os acontecimentos são apresentados com clareza, bem como a história de Paul Atreides e do planeta Arrakis, seus habitantes e forasteiros. O realizador não mostra receios em avançar com Duna e está decidido a "preservar" a história original.


5. Belfast

Belfast traz os conflitos de 1969, na Irlanda do Norte, através dos olhos de uma criança. Kenneth Branagh inspira-se na sua própria experiência para criar um universo de sonhos e medo, aventura e incerteza, na agitada vida de Buddy, um menino de nove anos, e de todos os que o rodeiam. Através da inocência do protagonista, Branagh explora a incompreensão das crianças - e de muitos adultos - acerca de um conflito adensado por diferenças religiosas; a escalada de violência e ameaças; a impossibilidade de ser-se neutro num bairro que sempre viveu em comunhão; tudo enquanto Buddy vive a experiência do seu primeiro amor.


6. CODA

CODA é uma obra simples e melodramática, que propõe uma reflexão séria sobre as dificuldades que a população surda enfrenta no que toca à integração, justiça e independência; mas igualmente põe em cheque o comportamento da sociedade, que não faz o suficiente para acolhê-la. O elenco de CODA é a prova viva de que basta uma oportunidade para mostrar o valor que cada um tem em si e alcançar a merecida notoriedade e reconhecimento.


7. West Side Story

Neste West Side Story "moderno", há menos coreografias, mas mais tempo e espaço para algum desenvolvimento emocional das personagens, sendo que quase todos os protagonistas têm um background bem definido, que justificará muitas dos actos que vêm a tomar ao longo da trama. Ao mesmo tempo, e apesar do racismo já latente na história original, o filme de Spielberg quebra alguns clichés (e tabus da época): os vândalos são os Jets, os Sharks são estudantes e trabalhadores, esforçados para melhorar as suas condições de vida; a transexualidade (ou género não-binário) de Anybodys é abordada com maior impacto; e até mesmo a multiculturalidade da cidade, que vai muito além dos porto-riquenhos e dos supostos Jets "nativos", são alguns dos elementos que tornam o filme mais actual em costumes.


8. Nightmare Alley

Nightmare Alley - Beco das Almas Perdidas não faz ressurgir um Guillermo del Toro primordial; longe da sua criatividade, o realizador tira o melhor partido de uma história que o intriga e explora os pontos que mais o inspiram: as macabras atracções circenses, o passado e a personalidade dúbia de Stanton, a psiquiatra femme fatal e todo o misticismo em torno da vida de enganos do protagonista. Explora as crenças e a questão metafísica, os traumas que assombram Stan, em sonhos e na realidade, bem como a sedução do dinheiro e dos vícios.


9. King Richard

Longe de ser memorável, King Richard: Para Além do Jogo presta uma merecida homenagem à família Williams e ao exemplo que a ascensão e conquistas das duas irmãs tenistas pode ser para todos os que lutam pelos seus sonhos, seja qual for a sua origem. A união da família, sob o comando do pai, é o motor que faz com que Venus e Serena nunca desistam dos sonhos, com dedicação constante.


10. Don’t Look Up

A crítica mordaz que tem caracterizado os últimos filmes de Adam McKay esmoreceu neste disaster movie; já a sua subtileza é agora a mesma que a de "um elefante numa loja de porcelanas". Não Olhem Para Cima faz um gritante anúncio do fim do mundo e, por mais que os cientistas tentem, ninguém quer saber do que eles dizem. Um filme que tem dividido opiniões e, definitivamente, não deveria estar nesta lista de nomeados.

Crítica: CODA / No Ritmo do Coração (2021)

"Can you sing it for me?"

Frank Rossi

*7/10*

Com CODA, a realizadora Sian Heder convida a entrar num mundo quase desconhecido para a maioria das pessoas: como é ser surdo na sociedade actual e, mais concretamente, como é ser o único ouvinte numa família de surdos. CODA é um remake norte-americano do filme francês A Família Bélier, de 2014, todavia, no filme de 2021, os três actores que interpretam personagens surdas são surdos na vida real.

"A jovem Ruby, filha de pais surdos, vive numa comunidade pesqueira de Massachusetts, dividida entre ser a intérprete dos pais com o mundo exterior e perseguir o sonho de uma carreira como cantora."


CODA (sigla para Child of Deaf Adults - filhos ouvintes de pais surdos) explora, com algum humor mas também grande realismo, a vida de uma adolescente e da sua família surda. Se, por um lado, os pais e irmão dependem de si para ser compreendida por quem os rodeia (principalmente no seu negócio na pesca), por outro, Ruby sente-se muitas vezes à parte da família, com quem não pode partilhar a sua maior paixão, a música.

O argumento roda em torno dos dilemas da adolescente, mas igualmente da família, em especial do pai e irmão, os que melhor compreendem que o futuro de Ruby pode não passar pela vida que eles levam. A par disso, junta-se a vida escolar da protagonista, o bullying que sofre por pertencer a uma família de surdos, o primeiro amor e o seu empenho nas aulas de canto de que poderá depender a sua entrada na universidade.

CODA é uma obra simples e melodramática, que propõe uma reflexão séria sobre as dificuldades que a população surda enfrenta no que toca à integração, justiça e independência; mas igualmente põe em cheque o comportamento da sociedade, que não faz o suficiente para acolhê-la.

Há que destacar o trabalho de sonoplastia, capaz de colocar a plateia dos dois lados, com algumas sequências em que não se ouve qualquer som. Para além disso, o fundamental para CODA funcionar tão bem é o trabalho dos actores, em especial a protagonista Emilia Jones que aprendeu linguagem gestual americana, como manobrar uma traineira de pesca e teve aulas de canto. A jovem actriz entrega-se à personagem e mostra-se à altura do desafio. Ao seu lado, está Troy Kotsur, como Frank, o pai compreensivo e capaz de tocar verdadeiramente o coração da plateia. Ele é sensibilidade e realismo em carne e osso. O actor surdo tem uma interpretação comovente e é capaz de transmitir tanto sem falar: entre a frustração de não ser compreendido pelos que ouvem, as dificuldades financeiras e o dilema em torno do futuro da filha mais nova. Também Daniel Durant merece destaque, ele é o irmão mais velho de Ruby, que luta pela própria independência, seguro de que será capaz de ter uma vida normal, mesmo sem ouvir.

Sian Heder pega na premissa do filme francês e abre portas para que o mundo conheça a realidade e dificuldades das famílias surdas. O elenco de CODA é a prova viva de que basta uma oportunidade para mostrar o valor que cada um tem em si e alcançar a merecida notoriedade e reconhecimento.