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terça-feira, 31 de dezembro de 2024

Sugestão da Semana #646

Das estreias da passada Quinta-feira, a última Sugestão da Semana de 2024 destaca Babygirl, de Halina Reijn, com Nicole Kidman no papel principal.

BABYGIRL


Ficha Técnica:
Título Original: Babygirl
Realizadora: Halina Reijn
Elenco: Nicole Kidman, Harris Dickinson, Antonio Banderas, Sophie Wilde, John Cenatiempo, Anoop Desai, Victor Slezak
Género: Drama, Thriller
Classificação: M/14
Duração: 114 minutos

domingo, 24 de abril de 2022

Sugestão da Semana #504

Das estreias da passada Quinta-feira, a Sugestão da Semana destaca o novo filme de Robert Eggers, O Homem do Norte, que já tem crítica no Hoje Vi(vi) um Filme.



Ficha Técnica:
Título Original: The Northman
Realizador: Robert Eggers
Elenco: Alexander Skarsgård, Nicole Kidman, Claes Bang, Ethan Hawke, Anya Taylor-Joy, Gustav Lindh, Björk, Willem Dafoe, Ralph Ineson
Género: Acção, Aventura, Drama
Classificação: M/16
Duração: 136 minutos

sexta-feira, 22 de abril de 2022

Crítica: O Homem do Norte / The Northman (2022)

"I will avenge you, Father. I will save you, Mother. I will kill you, Fjölnir."

Amleth


*8/10*

Robert Eggers regressa com o visceral O Homem do Norte (The Northman), onde lendas e espíritos se juntam numa acção comandada pelo desejo de vingança. Semelhanças com Hamlet, de William Shakespeare, não são coincidência, já que ambos se inspiram no lendário herói nórdico, Amleth. Contudo, Eggers, em coautoria com o escritor islandês Sjón, cria a sua própria visão dos mitos e lendas escandinavos, inserindo-os no universo sujo e sombrio que caracteriza os seus filmes.

"Durante a viragem do século X, na Islândia, o jovem príncipe Amleth está à beira de se tornar um homem quando o pai é brutalmente assassinado pelo tio, que rapta a mãe do rapaz. Fugindo do seu reino insular por barco, jura vingança. Duas décadas mais tarde, Amleth é um viking berserker que invade aldeias eslavas. Num desses lugares, uma vidente recorda-o do seu voto: vingar o pai, salvar a mãe, matar o tio. Viajando num navio de escravos para a Islândia, Amleth infiltra-se na quinta do seu tio com a ajuda de Olga, uma mulher eslava."

Ainda que a história que inspira o filme de Eggers já seja conhecida, o desenlace não é óbvio nem desilude. A vingança e o desejo de justiça são motivação para cada acto de Amleth, onde a acção é contrabalançada com suspense e misticismo - tudo bem ao estilo do realizador (basta lembrar O Farol A Bruxa) - e muita violência.

O Homem do Norte é exímio na recriação do ambiente inóspito e brutal da época, das batalhas sangrentas, das perigosas viagens de barco nos mares do norte, do trabalho escravo ou da leviandade com que os poderosos tratam os seus subordinados.

No protagonista, Amleth, são trabalhados muitos sentimentos e emoções: da criança que admira o pai e quer estar à altura das suas expectativas, ao trauma que alimenta o desejo de vingança e o obriga a partir para terras desconhecidas; ou do adulto selvagem e implacável, que recupera o seu lado racional e retoma o desejo de fazer justiça ao pai e salvar a mãe. Ao fim de 20 anos, Amleth reencontra-se com o passado e tem a oportunidade de experimentar muitos sentimentos que deixou de parte - entre eles o amor. Alexander Skarsgard revela-se empenhado e tão capaz quer na componente física do papel - onde adopta uma postura quase animalesca -, como na psicológica, com diferentes nuances emocionais ao longo da longa-metragem.

Mas é tecnicamente que O Homem do Norte realmente se eleva. Nos cenários gelados da Islândia, há que dar todo o mérito ao fabuloso trabalho da direcção de fotografia de Jarin Blaschke (o mesmo dos anteriores filmes de Eggers) que, entre o gelo, a lama e os vulcões fumegantes, consegue captar, através da iluminação das imagens - também diurnas, mas em especial as nocturnas -, os corações gélidos das personagens e o calor do ódio que carregam em si. As sequências de acção são intensas e bem coreografadas, potenciadas mais ainda pela excelente montagem de Louise Ford. A pairar, qual fantasma, a banda sonora de Robin Carolan e Sebastian Gainsborough funde-se com os uivos e gritos de guerra ou de terror.

O Homem do Norte veio alargar o espectro da filmografia de Robert Eggers, reforçando a criatividade e o talento que o realizador tem para entorpecer as audiências e, ao mesmo tempo, prendê-las à visceralidade tanto visual como psicológica da sua obra.

domingo, 27 de março de 2022

Oscars 2022: As Actrizes Principais

Passamos às nomeadas para o Oscar de Melhor Actriz. Mais um ano de grandes desempenhos femininos no cinema. Das cinco nomeadas, apenas assisti à prestação de quatro - ainda não vi The Eyes of Tammy Faye, com Jessica Chastain, que tem grandes probabilidades de ser a vencedora. 

Três desempenhos fortes e emotivos, exigentes física e psicologicamente, e um menos destacado, apesar de muito competente. Eis as nomeadas, por ordem de preferência.

1. Olivia Colman (The Lost Daughter)

Olivia Colman entrega-se a Leda, dá-lhe a confiança da experiência de vida, pronta para enfrentar quem lhe faça frente, mas também revela fragilidade e desamparo, decorrente da obsessão que cria pela jovem mãe com quem partilha a praia. E um acto inesperado vai desencadear nela um misto de emoções e lembranças, tonturas, sonolência e esquecimentos, para além de uma sensação de perseguição constante. Colman está, como sempre, fabulosa e destaca-se entre as suas concorrentes à estatueta (mesmo que não a vença).


2. Penélope Cruz (Parallel Mothers)

Penélope Cruz, sempre arrebatadora e inteira, na pele da protagonista, interpreta uma mulher de sucesso, independente, cujo sonho de ser mãe se realiza por volta dos 40 anos, de forma quase inesperada, e que abraça só para si sem hesitar. Perante a herança trágica da sua povoação natal e a vontade de lutar pela preservação dos seus antepassados, vê-se ainda a braços com a maternidade, e com um dilema que a deixa de destroçada. Sempre pronta para os desafios de Pedro Almodóvar, a actriz entrega-se física e emocionalmente à personagem.


3. Kristen Stewart (Spencer)

Num filme que ficou aquém do esperado, o desempenho de Kristen Stewart é competente e revela muito empenho da parte da actriz, que captou todos os maneirismos da princesa Diana, para além das óbvias parecenças físicas. Após a introspecção inicial da personagem, há uma explosão de emoções reprimidas: desamparo, revolta e claustrofobia, entre cortinas fechadas, arame farpado e muita vontade de fugir.


4. Nicole Kidman (Being the Ricardos)

Num filme mediano, Nicole Kidman consegue ser a maior força. Como Lucille Ball, a actriz incorpora maneirismos e a forma afectada mas decidida da personagem, ao mesmo tempo que é capaz de ir da comédia ao drama em breves instantes.


Jessica Chastain (The Eyes of Tammy Faye)

Sem avaliação.

quarta-feira, 26 de janeiro de 2022

Crítica: Being the Ricardos (2021)

*5.5/10*

Aaron Sorkin escreve e realiza Being The Ricardos, filme que apresenta a história de duas figuras icónicas da televisão norte-americana, Lucille Ball e Desi Arnaz

Apesar do grande sucesso da sua sitcom I Love Lucy, a relação pessoal e profissional de Lucille Ball (Nicole Kidman) e Desi Arnaz (Javier Bardem) fica ameaçada por graves acusações pessoais e políticas por parte da imprensa.

Being The Ricardos leva a plateia aos bastidores da sitcom dos anos 50 e à intimidade do casal, entre acusações de comunismo, desconfianças, difíceis decisões criativas e a censura na televisão. Para além da tensão presente entre os protagonistas e aqueles com quem trabalham, Aaron Sorkin intercala a acção com situações do passado do casal, desde o momento em que se conheceram, à passagem de Lucille pela rádio e a sua chegada à televisão. Por vezes, Being the Ricardos transforma-se ainda num falso documentário, com os testemunhos dos argumentistas e realizador da sitcom - mais velhos - a contar a sua versão dos acontecimentos. 

Nicole Kidman e Javier Bardem fazem um trabalho consistente na pele de Lucille e Desi, com destaque para a actriz, que incorpora maneirismos e a forma afectada mas decidida da sua personagem, ao mesmo tempo que é capaz de ir da comédia ao drama em breves instantes. Caracterização e direcção artística fazem um excelente trabalho na reencenação da época dos acontecimentos, e de todo o ambiente de bastidores de I Love Lucy.

Being The Ricardos será talvez bom entretenimento para os que conhecem a sitcom e os protagonistas, mas não fugirá da monotonia para quem não está familiarizado com o casal - pouco original, pouco dinâmico e pouco empático.

quarta-feira, 17 de novembro de 2021

Opinião: Séries - Nove Perfeitos Desconhecidos / Nine Perfect Strangers - Temporada 1 (2021)

"We are on the precipice of something great."

Masha

*7/10*

Nove Perfeitos Desconhecidos, minissérie original da Hulu - disponível na Amazon Prime Video -, convida a um retiro relaxante num resort que irá testar todos os limites. Adaptando à televisão o livro homónimo de Liane Moriarty (autora de Big Little Lies), John-Henry Butterworth e David E. Kelley criam oito episódios viciantes, que jogam com os traumas de cada um.

"Nove Perfeitos Desconhecidos acompanha nove pessoas muito diferentes que chegam a Tranquillum House – um retiro de bem-estar misterioso que promete uma 'transformação total'. Quando lá chegam, os hóspedes parecem cair sob o feitiço da enigmática Masha que fará de tudo para os curar. Contudo, com o passar do tempo, os métodos pouco convencionais de Masha ameaçam levar o grupo explosivo ao limite."


Esqueçam a tranquilidade que o nome deste spa apregoa. Pensamentos, acções e emoções fugirão ao controlo de hóspedes e staff, e até os ingredientes e tratamentos menos ortodoxos serão válidos dentro da propriedade de Masha, totalmente desconectada com o exterior. Não há confinamento que supere o destes nove desconhecidos, que, durante a curta estadia, vão passar das terapias e jogos em grupo, às alucinações e sonhos vívidos.

Todas as personagens têm o seu quê de cliché, unidas pelo trauma, mas desconstroem-se com astúcia. A cada episódio, revelam novas camadas da sua personalidade, do seu passado e das razões que os fazem estar ali. A máscara das primeiras impressões vai caindo, bem como as defesas de cada um, e a plateia aproxima-se deles, aos poucos.


A minissérie tem um início prometedor, que cresce e explode em suspense e surpresas nos episódios seguintes. E mesmo que o desfecho não seja estrondoso, é compensador.

No elenco, Nicole Kidman sobressai como Masha, dona do retiro, de ar místico e calmo, mas também misteriosa e de olhar ameaçador, marcada por um passado violento a vários níveis; Melissa McCarthy é a escritora Frances, uma personagem tragicómica bem ao jeito da actriz; Michael Shannon é Napoleon, cujo optimismo extremo esconde uma perda irreparável. A estes nomes juntam-se ainda um conjunto de boas interpretações de Luke Evans, Bobby Cannavale, Melvin Gregg, Regina Hall, Asher Keddie, Samara Weaving e Grace Van Patten.

O argumento audaz de Nove Perfeitos Desconhecidos traz para o pequeno ecrã uma abordagem arriscada à capacidade de superação ou libertação de cada um, num ambiente controlado e alucinogénico, até mesmo para o espectador.

quinta-feira, 3 de dezembro de 2020

Opinião: Minisséries - The Undoing (2020)

*7/10*


The Undoing deu que falar nos últimos dias (e semanas). A minissérie, disponível na HBO Portugal, é protagonizada por Nicole Kidman e Hugh Grant, realizada por Susanne Bier e escrita para televisão por David E. Kelley (Big Little Lies). Muito mistério, sensualidade e incertezas espreitam por cada episódio - são seis no total - e certo é que vamos querer descobrir a verdade.

Os três primeiro episódios de The Undoing são especialmente viciantes, num crescendo de emoções, tensão e possibilidades, fazendo o espectador questionar continuamente tudo e todos os suspeitos. O "vício" começa aqui.


A minissérie acompanha Grace e Jonathan Fraser, que têm a vida que sempre quiseram, com o filho Henry (Noah Jupe). Durante a noite, o abismo abate-se sobre as suas vidas com uma morte violenta e uma cadeia de terríveis revelações.

A família de Grace Fraser é rica e bem sucedida, elegante, com um núcleo de amigos de classe alta e o filho num colégio privado. O surgimento de uma nova mulher no grupo de amigas de Grace, totalmente deslocada, de classe mais baixa, imigrante e extremamente sensual, vem abalar a vida da protagonista. O choque de classes sociais é logo o primeiro desconforto sentido em The Undoing. Depois surge a morte, a traição e as suspeitas que recaem sobre a família. Grace vê-se no lugar dos seus pacientes, que a procuram para reatar as relações após traições. Mas Grace não quer ser fraca, mesmo quando fraqueja.


As mentiras sucedem-se a cada episódio, bem como as suspeitas do espectador. As cenas do julgamento voltam a conferir algum fulgor à acção, sem receios de chocar - seja por imagens ou por jogadas mais ou menos sujas das advogadas -, mas, no final, não há nada de absolutamente novo a revelar.

O melhor de The Undoing são, sem dúvida, as interpretações, seja a sempre brilhante Nicole Kidman, como um sofrido e dúbio Hugh Grant, com destaque ainda para o jovem Noah Jupe - num papel que é um turbilhão de emoções para um pré-adolescente que idolatra o pai - e a prestação sempre intimidante de Donald Sutherland.


A minissérie de David E. Kelley é eficaz ao prender-nos ao ecrã, numa incessante ânsia por descobrir a verdade, mas cai em alguns lugares-comuns, com diversos altos e baixos na narrativa e um final que deixa a desejar. Visualmente, estamos perante um trabalho cativante, tirando partido das cenas nocturnas, e de um guarda-roupa distinto. A montagem confere dinamismo e algum atordoamento - bem como os planos desfocados -, fazendo-nos construir e reconstruir vários cenários, quais detectives.

The Undoing deve ser visto e apreciado mas sem demasiadas expectativas.

segunda-feira, 27 de janeiro de 2020

Crítica: Bombshell: O Escândalo (2019)

"Early on he realized for a network to stay on 24 hours a day you need something to hold an audience. That something is legs. There's a reason for clear desks."
Megyn Kelly


*7.5/10*

Bombshell: O Escândalo é um filme #MeToo, com três grandes actrizes a encabeçar o elenco, e um argumento inspirado numa história real que explodiu pouco antes das primeiras denúncias do movimento. Jay Roach explora os meandros da Fox News, o assédio e a progressão na carreira, com foco nas mulheres que deram a cara pelas notícias e pelos seus direitos.

Bombshell - O Escândalo segue o grupo de mulheres (Charlize Theron, Nicole Kidman, Margot Robbie) que decide denunciar Roger Ailes (John Lithgow), o presidente da Fox News, por assédio sexual, e enfrentar a atmosfera tóxica gerada no ambiente profissional.

O filme é-nos narrado pelas três actrizes, relatando a experiência de cada uma das suas personagens, expectativas e terrores. Dinâmico e corajoso, Jay Roach conta-nos a trama com muito ritmo, com um argumento de Charles Randolph, bem construído, inspirado nos casos das jornalistas Megyn Kelly Gretchen Carlson.


O trabalho de caracterização é fenomenal, transformando de tal modo Charlize Theron, Nicole Kidman John Lithgow que quase não os reconhecemos.

No entanto, Bombshell é, acima de tudo, um filme de actrizes. Charlize Theron é camaleónica para além da maquilhagem, vestindo a pele de Megyn Kelly com destreza, confiança e ambição. Uma mulher poderosa que sofreu assédio e, provavelmente, se julgava sozinha. Quando desafia as ideias de Trump - ele que tanto ama a Fox News -, vê a sua carreira em risco, com o ódio a cercá-la. Nicole Kidman, por sua vez, é quem dá o primeiro passo para a exposição dos assediadores. Ela é Gretchen Carlson, jornalista de meia idade, cujas ideias chocam com as de Ailes e que parece estar no limite para permitir que o machismo continue a imperar em seu redor. Também ela foi vítima do homem poderoso que tem a coragem de denunciar e procura encorajar outras vítimas. Margot Robbie é Kayla Pospisil, das três protagonistas a única que é ficcional. Ela é a jovem ambiciosa mas ingénua, que não espera os avanços de Ailes. De repente, a confiança que exibe inicialmente transforma-se em medo e insegurança, especialmente quando percebe que parece estar sozinha naquela redacção cheia de competitividade e beleza.


Bombshell é uma arma contra a masculinidade tóxica, contra o poder de subjugar as mulheres. Jay Roach traz ao cinema um filme que elogia quem quer mudar o establishment, mas revela igualmente como tudo e nada mudou. Ainda há muito a fazer.

domingo, 26 de janeiro de 2020

Sugestão da Semana #413

Das estreias da passada Quinta-feira, a Sugestão da Semana recomenda Bombshell - O Escândalo, de Jay Roach, protagonizado por Charlize Theron, Nicole Kidman e Margot Robbie.

BOMBSHELL - O ESCÂNDALO


Ficha Técnica:
Título Original: Bombshell
Realizador: Jay Roach
Elenco: Charlize Theron, Nicole Kidman, Margot Robbie, John Lithgow, Allison Janney, Kate McKinnon, Malcolm McDowell, Mark Duplass
Género: Biografia, Drama
Classificação: M/12
Duração: 109 minutos

quarta-feira, 10 de janeiro de 2018

Crítica: O Sacrifício de um Cervo Sagrado / The Killing of a Sacred Deer (2017)

"It's the only thing I can think of that is close to justice." 
Martin

*6.5/10*

Yorgos Lanthimos tem uma imaginação prodigiosa. Sabe chocar, surpreender e trabalhar o non sense como poucos. Canino, em 2009, catapultou-o para a fama pela forma ímpar e macabra que retratou a história do filme. Recentemente, A Lagosta marcou a sua estreia em inglês e O Sacrifício de um Cervo Sagrado segue a mesma linha do filme anterior.

Mas a fórmula está a repetir-se e, apesar da originalidade e competência técnica continuarem a brilhar, a sensação de dejá vu começa a surgir. Apesar de O Sacrifício de um Cervo Sagrado ser um filme de terror - e dentro do género tem um argumento incómodo a jogar com o sobrenatural, que funciona -, repete toda a estranheza das relações humanas, os diálogos impessoais, as conversas despropositadas.


Steven (Colin Farrell) é um cardiologista conceituado, casado com Anna (Nicole Kidman), com quem tem dois filhos. Já há algum tempo que ele mantém contacto frequente com Martin (Barry Keoghan). A relação entre ambos é de grande cumplicidade e o médico decide apresentá-lo à família. Entretanto, o jovem sente que não está a receber a mesma dedicação e, por isso, decide elaborar um plano de vingança.

O realizador grego continua os seus planos geométricos, iluminados e limpos. Semelhanças ao cinema de Stanley Kubrick ou Michael Haneke têm-se sucedido e fazem crer que Lanthimos está a perder as suas próprias marcas autorais. Ainda assim, se isso não estiver a acontecer, está, pelo menos, a perder qualidades. O realizador continua a desafiar valores, mas desta vez vai mais longe - e com pouco sucesso, a meu ver -, ao querer associar o seu filme a simbolismos bíblicos e a peças gregas de autores clássicos.


O protagonista é tão semelhante ao de A Lagosta que até o actor é o mesmo: Colin Farrell. As personagens têm pouca profundidade, tal como no filme anterior, são despersonalizadas tal como os planos que a câmara capta. Eles são cobardes e hipócritas. Não há qualquer ligação entre a plateia e a família protagonista.

Curiosamente, e é ele o ponto forte do filme, vamos admirar o "vilão". Admirá-lo e temê-lo, tal como a família Murphy. Rodeia-o uma aura diabólica e violenta e, ao mesmo tempo, frágil e intimidante. Barry Keoghan tem uma interpretação aterradora na pele deste jovem Martin, omnipresente e de poderes sobrenaturais. A sua vingança personifica-se numa maldição que, para ele, não passa de justiça. Nicole Kidman é a mais corajosa de O Sacrifício de um Cervo Sagrado, para além de dar um show de interpretação com uma personagem pouco rica, uma mãe a quem a actriz confere poder e determinação.


Não são precisas mais explicações, Lanthimos joga com medos e aparências, com a moral e as crenças de cada um, e cria um filme de terror incómodo, mas que sabe a pouco. Os fãs do seu trabalho queriam mais novidades, menos exagero, menos preguiça.

terça-feira, 30 de maio de 2017

Cannes 2017: Os vencedores

Os vencedores do Festival de Cannes 2017 foram anunciados no passado fim-de-semana. O filme português Fábrica do Nada, de Pedro Pinho, conquistou o Prémio da Crítica (Prémio FIPRESCI), na Quinzena dos realizadores.


Eis os vencedores da Competição Oficial e Un Certain Régard:

Competição Oficial

Palma de Ouro
THE SQUARE, de Ruben ÖSTLUND

Grande Prémio do Júri
120 BATTEMENTS PAR MINUTE, de Robin CAMPILLO

Melhor Realizadora
THE BEGUILED, de Sofia COPPOLA

Prémio do Júri 
NELYUBOV, de Andrey ZVYAGINTSEV

Melhor Argumento (ex-aequo)
THE KILLING OF A SACRED DEER, de Yórgos LÁNTHIMOS e EFTHIMIS FILIPPOU e YOU WERE NEVER REALLY HERE, de Lynne RAMSAY

Melhor Actor
JOAQUIN PHOENIX por YOU WERE NEVER REALLY HERE

Melhor Actriz
DIANE KRUGER, por AUS DEM NICHTS

Caméra d’Or
JEUNE FEMME, de Léonor SERRAILLE

Palma de Ouro para Melhor Curta-metragem
XIAO CHENG ER YUE, de QIU Yang

Menção Especial - Curta-metragem
KATTO, de Teppo AIRAKSINEN

Prémio do 70.º Aniversário
NICOLE KIDMAN

Un Certain Regard

Prémio Un Certain Regard
LERD, de Mohammad RASOULOF

Prémio do Júri - Un Certain Regard
LAS HIJAS DE ABRIL, de Michel FRANCO

Prémio de realização Un Certain Regard
WIND RIVER, de Taylor SHERIDAN

Prémio de Interpretação
JASMINE TRINCA por FORTUNATA

Prémio Poesia no Cinema
BARBARA, de Mathieu AMALRIC

A lista completa de vencedores e outras informações podem encontrar-se aqui.

sábado, 25 de fevereiro de 2017

Oscars 2017: As Actrizes Secundárias

Analiso agora as nomeadas para Melhor Actriz Secundária. Mais um ano de bons desempenhos nesta categoria. Duas das nomeadas destacam-se das restantes, mas as cinco são merecedoras da nomeação, ainda que Michelle Williams pudesse trocar com outro nome (Janelle Monáe por Elementos Secretos seria a minha opção). Eis as cinco nomeadas por ordem de preferência.

É quase certo que à terceira nomeação será de vez, e a actriz levará, finalmente, o Oscar para casa. Ainda que seja discutível que Viola Davis esteja nomeada na categoria de Actriz Secundária e não Principal, e mesmo que tenha a seu favor o facto de já ter interpretado anteriormente o mesmo papel na Broadway, ela merece este prémio. Em Vedações, a actriz tem o melhor desempenho do filme, com a sua Rose conciliadora mas muito magoada. É contida e defende a família com as armas que tem, mas explode com todas as emoções e ressentimentos quando assim tem de ser. 

Se Viola Davis não estivesse na corrida, Naomi Harris merecia, sem dúvida, o seu primeiro Oscar pelo papel de Paula em Moonlight. Na pele de uma toxicodependente, mãe do protagonista, a actriz tem uma interpretação atordoante, com uma notória e realista degradação física e psicológica ao longo do filme.

Bastam poucos minutos da sua presença para que um filme se encha do seu talento, assim é Nicole Kidman. A actriz de Lion - A Longa Estrada para Casa enche o ecrã sempre que surge, num desempenho sentido, cheio de amor e dedicação aos filhos adoptivos.

Numa interpretação mais contida do que a que lhe valeu um Oscar em As Serviçais, Octavia Spencer merece a nomeação deste ano. Em Elementos Secretos (onde as três principais actrizes fazem um excelente trabalho), a actriz é uma matemática da NASA que está descontente com a forma como as negras ali são tratadas, mas receia levantar ondas. A revolta que sente por fazer o trabalho de supervisora mas não ganhar como tal fá-la, contudo, querer mudar e ultrapassar os seus receios.

Pela quarta vez nomeada para um Oscar, ainda não será desta que Michelle Williams levará a estatueta consigo. Apesar da dor e sofrimento que demonstra quando veste a pele da sua personagem em Manchester by the Sea, a actriz não consegue competir com as performances das restantes nomeadas.

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2017

Crítica: Lion - A Longa Estrada para Casa (2016)

"I'm not from Calcutta... I'm lost."
Saroo Brierley

*5/10*

Sabe-se que o epíteto "baseado numa história verídica" nem sempre é sinónimo de qualidade e Lion - A Longa Estrada para Casa é mais um exemplo disso. Realmente, o argumento do filme tem por base o passado de um homem com muito para contar. Denuncia desigualdades e problemas muito preocupantes no que respeita às crianças indianas, contudo, isso não chega.

Há que olhar muito para lá da história comovente. Garth Davis está cheio de boas intenções com a sua primeira longa-metragem de ficção, todavia o seu principal objectivo parece ser chegar, a todo o custo, ao coração da plateia mais sensível.

Em Lion, seguimos um rapaz indiano de cinco anos, Saroo, que se perde do irmão mais velho e, por engano, embarca num comboio que o leva até às ruas de Calcutá. Perdido e sem saber como regressar a casa, sobrevive a diversos perigos e acaba por ser adoptado por um casal australiano. Passados 25 anos, quer descobrir a família biológica.

O argumento tem uma boa premissa, abordando diversos temas em parte desconhecidos do mundo ocidental: a pobreza, o elevadíssimo número de crianças perdidas na Índia, etc. Contudo, a procura de Saroo pela família biológica estende-se demasiado, sem acrescentar nada de novo, entrando numa espiral repetitiva. A relação do protagonista com a personagem de Rooney Mara é outro dos factores dispensáveis da narrativa, e para além de demarcar mais ainda o isolamento e a obsessão de Saroo, nada mais traz à história.


Os grandes pontos fortes de Lion - A Longa Estrada para Casa são as interpretações de Nicole Kidman, que enche o ecrã sempre que surge, num desempenho sentido, cheio de amor e dedicação aos filhos adoptivos; e Dev Patel, o Saroo adulto incansável, em busca do caminho que o leve de regresso à família biológica, num trabalho esforçado e competente do actor.

Por sua vez, a direcção de fotografia de Greig Fraser consegue tirar excelente partido das paisagens quer da Índia, quer da Austrália e da luz tão característica dos dois países, onde abundam os tons quentes e secos na primeira, e as cores vivas e frescas na segunda.

A montagem é uma das grandes fraquezas do filme de Garth Davis, com uma primeira metade bastante ritmada, torna-se depois insistente e cansativa. Opta-se por intercalar imagens do passado de Saroo, enquanto, já adulto, investiga o paradeiro da família, que, mais do que flashbacks, pretendem intensificar a obsessão do protagonista, sem qualquer necessidade de tal. Ao longo da segunda metade de Lion essa ideia é repetida até à exaustão.


Lion conta uma difícil e persistente história de vida, mas não toma as melhores opções para a tornar verdadeiramente apetecível de conhecer. Perde-se na repetição de ideias e acaba por ser essencialmente suportada pelas boas interpretações do elenco.

quinta-feira, 2 de outubro de 2014

Momentos para Recordar #34

Três grandes mulheres, três grandes actrizes e três grandes interpretações femininas foi o que nos trouxe As Horas, de Stephen Daldry. O Momentos para Recordar destaca aqui um dos grandes momentos desta irreconhecível Nicole Kidman na pele de Virginia Woolf.

As Horas (The Hours), Stephen Daldry (2002)

sexta-feira, 6 de junho de 2014

Momentos para Recordar #30

O Momentos para Recordar está de volta com uma das cenas mais marcantes do derradeiro filme de Stanley Kubrick, De Olhos Bem Fechados. Estamos perante uma revelação determinante para o desenrolar de toda a acção e Nicole Kidman domina totalmente a cena.

De Olhos Bem Fechados (Eyes Wide Shut), Stanley Kubrick (1999)

domingo, 19 de maio de 2013

Sugestão da Semana #64

Numa semana de estreias onde O Grande Gatsby está a cativar a grande maioria das atenções, a Sugestão da Semana do Hoje Vi(vi) um Filme vira-se para a longa-metragem protagonizada por Nicole Kidman e Aaron Eckhart.

O OUTRO LADO DO CORAÇÃO


Ficha Técnica:
Título Original: Rabbit Hole
Realizador: John Cameron Mitchell
Actores:  Nicole Kidman, Aaron Eckhart, Dianne Wiest
Género: Drama
Classificação: M/12
Duração: 91 minutos