sábado, 30 de abril de 2016

IndieLisboa'16: Le fils de Joseph (2016)

*7.5/10*


Uma boa surpresa cinematográfica chegou à secção Silvestre do IndieLisboa: Le fils de Joseph, de Eugène Green. O realizador adapta algumas passagens da Bíblia ao seu estilo satírico e constrói uma história inteligente, divertida e cativante.

Vincent tem 15 anos e vive com a mãe, Maria, que lhe diz que este não tem pai. Mas Vincent não acredita. Não pode acreditar. Por isso, inicia uma investigação por sua conta. Pelo caminho, fica amigo de Joseph.

Esta comédia é contagiante e toma o seu tempo, sem avanços demasiado repentinos na narrativa. As personagens conversam tranquilamente, num certo tom declamatório, os planos são bem estudados e geométricos e os cenários encaixam bem no todo. A cor abunda e confere um ambiente positivo à longa-metragem.


A religião serve de base a Le fils de Joseph, sem excessos, traduzindo-se num humor inteligente, referências bem construídas e personagens interessantes (com momentos verdadeiramente hilariantes), de características muito próprias. 

Destaque, claro, para o nosso "menino Jesus", Vincent, que, após uma desilusão, consegue dar a volta à situação, mesmo que, para isso, se torne num criminoso procurado. Excelente interpretação do jovem Victor Ezenfis. Ao seu lado, Mathieu Amalric reinventa-se como o poderoso e egoísta Oscar Pormenor, em mais um exemplo da versatilidade do actor. Ainda Maria de Medeiros surge numa pequena mas singular interpretação de uma excêntrica crítica literária.


Le fils de Joseph invoca a Bíblia para contar uma história que depressa conquista a plateia. Gargalhadas não faltarão, mas serão os pormenores que, no meio da simplicidade de Eugène Green, revelam um filme cheio de conteúdo.

sexta-feira, 29 de abril de 2016

Estreias da Semana #218

Oito filmes chegaram às salas de cinema esta Quinta-feira. O Ciclo Grande Cinema Russo continua no Nimas e no Teatro Campo Alegre com mais filmes e, a juntar às longas-metragens, podemos assistir à curta premiada Balada de Um Batráquio, de Leonor Teles, que antecede as sessões de Todos Querem o Mesmo.

A Lei do Mercado (2015)
La Loi du Marché
Aos 50 anos, após 18 meses de desemprego, Thierry consegue finalmente um trabalho como segurança de um supermercado, mas é colocado perante um dilema moral quando lhe pedem para espiar os colegas.

Capitão América: Guerra Civil (2016)
Captain America: Civil War
A nova equipa de Vingadores prossegue o seu esforço contínuo para proteger a humanidade. Mas após outro incidente que provoca danos colaterais, cresce a pressão política para instalar um sistema de supervisão ligado ao governo. A nova situação provoca uma fractura nos Vingadores, resultando em dois campos: um liderado por Steve Rogers que defende a sua ideia de permanecer livre para defender a humanidade sem interferência do estado, e o outro, encabeçado por Tony Stark que, surpreendentemente, decidiu apoiar a decisão governamental.

Cemitério do Esplendor (2015)
Rak ti Khon Kaen
Soldados com uma misteriosa doença de sono são transferidos para uma clínica temporária numa antiga escola. O espaço, repleto de memórias, torna-se num mundo revelador para a voluntária, Jenjira, enquanto ela cuida de Itt, um bonito soldado, que nunca recebe visitas da família. Jen faz amizade com Keng, a jovem médium que usa os seus poderes psíquicos para ajudar as famílias a comunicar com os homens em coma. Os médicos exploraram formas, incluindo a terapia de luz colorida, para aliviar os sonhos conturbados dos homens. Jen descobre o enigmático diário de Itt com estranhos escritos e esboços. Pode haver uma ligação entre a síndrome enigmática dos soldados e a mítica região, situada debaixo da clínica. Magia, cura, romance e sonhos fazem parte do caminho de Jen para uma consciência mais profunda de si mesma e do mundo que a rodeia.

Minúsculos: O Vale das Formigas (2013)
Minuscule - La vallée des fourmis perdues
Numa pacífica clareira, entre as sobras de um piquenique, começa uma batalha entre duas tribos de formigas em busca de uma caixa de açúcar. Uma jovem e corajosa joaninha acaba por ser capturada no meio do fogo cruzado e torna-se aliada das formigas negras, ajudando na luta contra as terríveis formigas vermelhas.

O Profeta (2014)
The Prophet
Mustafa, um prisioneiro político, conhece por acaso do destino uma menina traquinas de oito anos chamada Almitra, na ilha fictícia de Orfalés. Com ela partilha a sua sabedoria e os seus poemas através de nove histórias com mensagens de paz, amor, amizade e fraternidade.

Tempo Limite (2016)
Term Life
Nick Barrow (Vince Vaughn) planeia e vende assaltos a quem paga mais. Quando um recente golpe corre mal e o filho do chefe de um cartel de traficantes é assassinado, Nick começa a ser perseguido. Para limpar o nome, é obrigado a denunciar os polícias corruptos que cometeram o crime (Bill Paxton, Mike Epps, Shea Whigham). Com o cartel e a polícia no seu encalce, Nick faz a única coisa positiva que lhe ocorre e tenta ajudar a filha Cate (Hailee Steinfeld) efectuando um seguro de vida no valor de milhões de dólares. Mas há um problema: o seguro só é válido daí a 21 dias e os inimigos estão a aproximar-se de Nick e de Cate.

Todos Querem o Mesmo (2015)
Everybody Wants Some
Acompanha um grupo de estudantes durante o seu primeiro ano de universidade, nos anos 80, e as suas tentativas para entrarem na equipa principal de basebol.

Um Dia de Mãe (2016)
Mother's Day
Três gerações e diferentes histórias cruzam-se no Dia da Mãe.

quinta-feira, 28 de abril de 2016

IndieLisboa'16: Helmut Berger, Actor (2015)

*8/10*

Helmut Berger, Actor faz parte da secção Director's Cut do IndieLisboa, e mostra-nos um outro lado daquele que já foi considerado "o homem mais bonito do universo" pela revista Vogue. O realizador Andreas Horvath partiu à aventura e apresenta-nos um Berger decadente, entre a depressão e a loucura.

O documentário mostra-nos o seu estado actual: "entre a tempestuosa demência de um Klaus Kinski e o narcisismo megalómano de uma Norma Desmond". Por seu lado, Andreas Horvath tem de saber lidar com as alterações bruscas de humor do actor, bem como com os seus pedidos mais bizarros.

Acompanhamos o realizador, que passa alguns dias com Berger, na sua casa, em hotéis, etc. Percebemos o estado do actor não apenas pelas suas palavras, conflituosas, desinteressadas, mimadas, mas igualmente pelo estado da sua casa, envolta em desarrumação e sujidade. E é nesse espaço que conhecemos Viola, que ali trabalha e tenta colocar alguma limpeza e organização naquele apartamento, ao mesmo tempo que conta à câmara algumas inconfidências do seu patrão.


Um filme arrojado e provocador, que deixou a plateia (quase cheia) da cinemateca entre as gargalhadas e a estupefacção. E, ironicamente, chegamos ao final com uma dúvida a assolar-nos: tudo o que vimos é a realidade ou será Helmut Berger, Actor em uma das suas personagens?

IndieLisboa'16: Film noir 001 // 002 // 003 (2015) + O cinema que vê (2016)

Na secção Director's Cut do IndieLisboa, encontramos duas curtas-metragens muito ligadas à História do Cinema e seus intervenientes:  Film noir 001 // 002 // 003, de La Ribot e O cinema que vê, de Beatriz Saraiva. Os dois filmes passaram esta Terça-feira, dia 26 de Abril, na Cinemateca Portuguesa.

Film noir 001 // 002 // 003 - *7.5/10*


La Ribot convida-nos a olhar de outra forma para o ecrã de cinema, quase num desafio. De repente, parecemos perdidos ao assistir a uma cena de um clássico como Lawrence da Arábia ou Ben-Hur, já que em Film noir 001 // 002 // 003, em foco está o trabalho dos figurantes.

As estrelas de Hollywood desaparecem da tela e o foco são os desconhecidos que também fizeram com que o filme acontecesse. Esta curta-metragem é um elogio a estes anónimos que ficarão para sempre na memória física que é o cinema. Um exercício curioso e original, em tom de homenagem ao trabalho daqueles que quase passam despercebidos.

O Cinema Que Vê - *6.5/10*


Não sendo uma ideia totalmente original, O cinema que vê  traduz-se numa bonita homenagem às origens do cinema. Trata-se de um ensaio sobre o cinema “como extensão do olho humano”, construído através de excertos de filmes dos irmãos Lumière, Vertov e Varda. Em apenas quatro minutos, Beatriz Saraiva mostra a sua paixão pela Sétima Arte neste regresso aos primórdios.

IndieLisboa'16: Jacques Tourneur, le médium (filmer l’invisible) (2015)

*5/10*

A Cinemateca Portuguesa recebeu Jacques Tourneur, le médium (filmer l’invisible), de Alain Mazars, na secção Director's Cut do IndieLisboa. O documentário apresenta-nos o realizador de I Walked with a Zombie, crente no mundo invisível e nas forças sobrenaturais, ideia que tanto transportou para os seus filmes.

Um filme para conhecer melhor Jacques Tourneur e a sua obra, mas que não a potencia como se poderia esperar. As opiniões sobrepõem-se aos excertos apresentados, que não deixam apreciar suficientemente as cenas - que exemplificam as características do cinema de Tourneur. Fica a curiosidade no ar, nem que seja para contrariar este documentário um tanto egoísta, querendo as atenções todas para os seus intervenientes, mais do que para o cineasta em foco.

quarta-feira, 27 de abril de 2016

IndieLisboa'16: Cartas da Guerra (2016)

"Adoro-te, minha gata de Janeiro, meu amor, minha gazela, meu miosótis, minha estrela aldebaran, minha amante, minha Via Láctea..."
António


*9/10*

Amor em tempos de guerra é uma boa forma de resumir Cartas da Guerra, o corajoso e pioneiro filme de Ivo M. Ferreira nesta abordagem tão intima e absorvente da Guerra Colonial.

Foi assim que se celebrou o 25 de Abril no Grande Auditório da Culturgest, esgotado. Depois da estreia internacional na Competição Internacional do Festival de Berlim, Cartas da Guerra teve no IndieLisboa a sua estreia nacional. O filme adapta uma obra do escritor António Lobo Antunes, composta por cartas que este escreveu à mulher durante a sua estadia na guerra do ultramar. A acção começa em 1971, quando António vê o seu quotidiano em Lisboa ser interrompido ao ser destacado para servir como médico no Leste de Angola. Perante a extrema violência e desolação, António escreve à mulher Maria José, contando o que vê, o que sente, como que abrigando-se do pior.

Um retrato provavelmente nunca antes visto no cinema português do que foi estar na Guerra Colonial. A desconfiança, o medo do inesperado, os vícios, a saudade, a distância, a imprevisibilidade... o fim tão próximo e tão longe. A dor do tempo a passar só era aliviada quando o correio chegava, as notícias da família, do amor que ficou em Portugal, ou no momento de responder às cartas, contar o quotidiano, os tormentos, o desespero, o medo de não voltar.


Margarida Vila-Nova e Miguel Nunes são o casal protagonista e são as suas vozes que nos lêem as cartas enviadas por António a Maria José. Ela em Lisboa, ele em Angola, o tempo a passar, a barriga dela a crescer e o amor dos dois a aumentar com as saudades. Cartas ternas, românticas, fogosas, a paixão que não se pode viver fisicamente é descrita com o mesmo fulgor em cada folha de papel. Um dos momentos mais fortes e envolventes de Cartas da Guerra é-nos mostrado pela câmara de Ivo M. Ferreira, numa espécie de amor feito à distância.

A acompanhar o texto, as imagens, duras, sombrias, entre os horrores da guerra, ver camaradas a partir, minas, tiros, o inimigo iminente que não se sabe por onde espreita, e os povos locais, doentes ou com medo, mas sempre com vontade de conviver com os soldados portugueses. A preto e branco, desde a viagem por mar para Angola, até ao quotidiano em Chiúme, Cartas da Guerra coloca-nos no centro da acção, através de planos hipnóticos, que agarram à acção, deixando-nos extasiados pelas paisagens longínquas e deslumbrantes - que transmitem o calor, o exotismo, a selva -, como igualmente abalados, atordoados, na expectativa de que aconteça o pior a qualquer momento, perdidos, por vezes, numa tranquilidade suspeita e inquietante.

Miguel Nunes merece destaque ao encarnar António, este médico sensível, que é obrigado a deixar a mulher grávida noutro continente para servir na guerra. A experiência transformadora - de onde a tristeza nunca vai desaparecer - e a impotência perante as atrocidades que o rodeiam é transmitida pelo actor de forma comedida, mas com uma naturalidade que nos diz muito. Miguel espelha as emoções no olhar, nos seus gestos subtis e contidos.


No meio destas cartas de amor escritas durante a guerra, sente-se a falta de mais visceralidade nas imagens, e, talvez, de menos narração, que, por vezes, tira o foco da acção (ou vice-versa). Compreende-se, contudo, que num filme romântico as cartas de amor sejam uma forma de aliviar a dor da separação e os horrores do conflito: mais poesia, menos sangue.

Ivo M. Ferreira realizou um filme que fazia muita falta a Portugal e ao mundo. Música, imagens e palavras revelam a Guerra Colonial do lado de quem lá esteve. Com harmonia e encanto, o cinema conta uma história de amor, que é também a dura História de uma nação.

terça-feira, 26 de abril de 2016

Sugestão da Semana #217

Das estreias da passada Quinta-feira, a Sugestão da Semana destaca Macbeth, de Justin Kurzel, com Michael FassbenderMarion Cotillard. Uma versão mais obscura do clássico de Shakespeare.

MACBETH


Ficha Técnica:
Título Original: Macbeth
Realizador: Justin Kurzel
Actores: Michael Fassbender, Marion Cotillard, David ThewlisDavid HaymanJack Reynor
Género: Drama, Guerra
Classificação: M/14
Duração: 113 minutos

IndieLisboa'16: O Cinema, Manoel de Oliveira e Eu (2016)

*7/10*

João Botelho pôs mãos à obra e criou O Cinema, Manoel de Oliveira e Eu, onde homenageia o seu mestre. Ao mesmo tempo, encontra um motivo para regressar às origens do cinema e oferece-nos uma curta-metragem de ficção dentro do seu documentário.


A partir de excertos de filmes de Oliveira como Amor de Perdição, Vale Abraão, 'Non', ou a Vã Glória de Mandar, O Estranho Caso de Angélica, Francisca, entre muitos outros; e de filmes seus como Conversa Acabada, Botelho quis apresentar à plateia o método de filmar de Manoel de Oliveira, tão fiel aos cânones e, ao mesmo tempo, tão vanguardista.

Botelho, que narra o seu próprio filme, fala-nos sobre o trabalho do seu mestre, da influência que teve no seu trabalho e do tempo em que conviveu e trabalhou com o realizador. Uma homenagem feita de escolhas muito pessoais, mas facilmente universalizáveis, O Cinema, Manoel de Oliveira e Eu é um apelo à memória, para que todos conheçam e nunca esqueçam o grande cineasta português.

A completar o documentário surge a ficção, uma curta-metragem que pretende ser, acima de tudo, um regresso às origens do cinema, ao mudo e a preto e branco. A admiração por Oliveira continua também neste A Rapariga das Luvas, realizado a partir de um argumento que o falecido cineasta nunca filmou, Prostituição ou a Mulher que Passa.

Uma conclusão que continua com o seu cunho pessoal e demonstra grande coragem em regressar a filmar como nos primórdios. Um filme simples e bem interpretado - também um desafio para os actores - que cumpre o seu principal propósito: travar o esquecimento.

segunda-feira, 25 de abril de 2016

IndieLisboa'16: A Vossa Terra (2016)

*7/10*

A Vossa Terra trouxe às Sessões Especiais do IndieLisboa'16 uma merecida homenagem ao arquitecto Gonçalo Ribeiro Telles. O realizador João Mário Grilo propõe-nos este filme a quatro mãos - de quem filma e de quem projectou -, que nos dá a conhecer a vastíssima obra do arquitecto e as ligações entre o trabalho de um e a vida do outro.


A Vossa Terra é uma homenagem e ao mesmo tempo uma partilha. Ribeiro Telles, responsável, entre outros projectos, pelos jardins da Fundação Calouste Gulbenkian, dedicou uma vida à construção da paisagem. “A que se assemelharia um filme sobre a sua obra?”, pergunta o realizador ao paisagista. “Apenas paisagens, uma depois da outra.” E, a partir desta ideia, Grilo expõe-nos a obra do arquitecto, conduzida por textos do próprio, algumas imagens de arquivo e conversas intimistas na actualidade. 

Um documentário que sabe chegar ao público e exaltar a importância da arquitectura paisagista no nosso país (e no mundo). Percorreremos a Figueira da Foz, Coruche, o Corredor Verde de Monsanto, entre jardins, hortas, campo e cidade, e os ideais de Gonçalo Ribeiro Teles. A harmonia entre o urbano e o rural é alcançada em A Vossa Terra não apenas através dos projectos do arquitecto como nos planos do cineasta - um centro comercial parece nascer de uma horta, por exemplo.

Um filme visual, mas também narrativo, um documentário que coloca o Homem e a Natureza em interacção, num ideal de coerência e ordenamento que é fundamental e João Mário Grilo e Gonçalo Ribeiro Telles mostram-no bem.

IndieLisboa'16: Eva no duerme (2015)

*7/10*

Pablo Agüero veio ao IndieLisboa'16 apresentar o seu filme Eva no duerme. A longa-metragem faz parte da secção Silvestre e tem como foco Eva Péron, mais propriamente os estranhos acontecimentos que procederam a sua morte.


Adorada por grande parte do povo argentino, Eva Péron morreu jovem e o seu corpo foi embalsamado em 1952. Eva no duerme segue-lhe o rasto, munindo-se da ficção e de imagens de arquivo para dar a conhecer ao mundo parte da História da Argentina. Desde o seu embalsamento, até à transladação definitiva para o cemitério La Recoleta, em 1976, os acontecimentos são-nos apresentados em três capítulos: O Embalsamador, O Transportador e O Ditador.

Agüero traz-nos um filme tecnicamente irrepreensível, repleto de planos-sequência e longos planos fixos, onde a acção acontece perante os nossos olhos. Todo o segmento de O Transportador é marcante para a audiência, quer por este exímio trabalho de câmara, de luz, quer pela prestação dos actores. A direcção de fotografia faz um trabalho digno de elogios e nota-se o empenho de toda a equipa para que os planos saíssem impecáveis - assistimos à aurora dentro do camião que transporta o corpo de Evita, desde a noite ao sol raiar.

Nas interpretações, Gael García Bernal e Denis Lavant são os nomes mais sonantes e o segundo tem um desempenho marcante: frio, intenso e bastante físico.


O ponto fraco de Eva no duerme, que pode contrastar com a exigência técnica levada a cabo pela equipa, é a narração, insistente, algo repetitiva e demasiado presente. De alguma forma, este aspecto poderá distrair e extenuar a plateia que não aproveita na plenitude as imagens.

Acima de tudo, Eva no duerme é um projecto em que se sente a dedicação de Pablo Agüero. Uma óptima lição de História para os mais distraídos, oferecida através da forte premissa bem filmada.

sábado, 23 de abril de 2016

IndieLisboa'16: The Witch (2015)

"Wouldst thou like to live deliciously?"
Black Phillip


*9/10*

A Boca do Inferno do IndieLisboa'16 não se fez rogada e presenteou-nos com um dos filmes de terror mais falados dos últimos tempos: The Witch, de Robert Eggers. Perturbador, aterrador, incómodo, visceral, o filme traz-nos uma visão pouco comum do género, numa abordagem corajosa que junta a História e seus mitos e lendas, à bruxaria e satanismo.

Com esta primeira longa-metragem, Robert Eggers conquistou o prémio de melhor realizador no Festival de Sundance.  O filme percorre os ecos da repressão puritana e das caças às bruxas na Nova Inglaterra no século XVII. Na década de 1630, William e Katherine vivem uma vida cristã e estável com os seus cinco filhos. Quando o mais novo, recém-nascido, desaparece, a família começa a desconjuntar-se e a debater-se entre histeria religiosa, magia negra, feitiçaria e possessão.


The Witch não é para os mais sensíveis, nem para os que só esperam sustos. É para os amantes do verdadeiro terror, aquele que não nos deixa nas horas e dias seguintes à sessão, que faz pensar, investigar, remoer. Robert Eggers criou um trabalho exigente, documentado, bem estudado. Cada um poderá interpretar o filme consoante as suas crenças, mas ninguém vai deixar de falar e pensar nele.

No seio do fanatismo religioso, onde o seguimento das escrituras bíblicas se confunde com o medo do Inferno, encontramos esta família, excluída da comunidade e enviada para um terreno isolado, junto à floresta. E com a solidão, o terreno infértil para o cultivo de milho e a escassez de alimentos, fenómenos bizarros começam a acontecer.


O argumento é imprevisível, sem medos, nem pudores. Ora, entre as bruxas e os demónios, os animais - eles que são a única companhia desta família - revelam-se de uma enorme importância para o desenrolar da narrativa.

A adensar todo o ambiente já de si desconfortável e inseguro de The Witch, a banda sonora de Mark Korven é brilhante, surge como representação do desespero das personagens, e quase nos coloca mais alerta do que as imagens. A câmara, o nosso olhar, percorre os terrenos desconhecidos e embrenha-se na floresta, ao lado das crianças e dos pais. Sabemos o mesmo que eles, vemos os mesmos fantasmas, delírios ou simples alucinações - somos os estranhos do futuro que mergulham num passado de tormenta.


A direcção de fotografia de Jarin Blaschke faz um excelente trabalho, quer nas sombras como no ambiente cinzento e enevoado. Ao mesmo tempo, tira excelente partido das cenas de violência ou nudez, com as cores a tornarem-se mais vivas, numa espécie de sugestão do pecado ou das tentações a que as personagens estão expostas.

The Witch vale ainda mais pelas interpretações, especialmente a da jovem Anya Taylor-Joy. Quase desconhecida do grande público, a jovem actriz revela um talento pouco comum. Como Thomasin, Anya mostra-se frágil e desamparada, confusa e amedrontada com os acontecimentos que a rodeiam e, ao mesmo tempo, fria e agressiva, conseguindo ainda assim conquistar totalmente a plateia.

Robert Eggers dá uma nova vida ao cinema de terror. Já tínhamos saudades que nos surpreendessem assim.

sexta-feira, 22 de abril de 2016

Estreias da Semana #217

Sete filmes estrearam esta Quinta-feira nas salas de cinema portuguesas. Para além das estreias comerciais, ainda temos a possibilidade de assistir ao Ciclo Grande Cinema Russo que começou esta semana no Cinema Nimas, em Lisboa, e no Teatro Campo Alegre, no Porto.

Demolição (2015)
Demolition
Davis (Jake Gyllenhaal), um banqueiro de investimento bem sucedido, não consegue reagir à morte da esposa num trágico acidente de carro. Apesar da pressão do sogro Phil (Chris Cooper) que tenta animá-lo, Davis continua a afundar-se. Uma série de reclamações para uma empresa de máquinas de venda automática chamam a atenção de Karen (Naomi Watts), uma funcionária do serviço a clientes. Entre os problemas emocionais e financeiros que cada um carrega, acabam por estabelecer uma improvável ligação. Com a ajuda de Karen e do seu filho Chris (Judá Lewis), Davis começa a reconstruir-se, começando pela demolição da sua vida anterior.

Gesto (2011)
António Coelho tem 18 anos e é surdo profundo. Quer estudar cinema fora de Portugal e ser realizador, com o objectivo de fazer filmes para todos, surdos e ouvintes. É um sonho que, como todos os sonhos, tem um preço, e que poderá pôr em causa o seu primeiro amor com Irina, uma jovem também surda, que não compreende o que motiva António a querer partir para longe, em busca de um sonho tão ambicioso. Pela primeira vez, a realidade do jovem António é questionada e ganha nova dimensão, sente que vale a pena arriscar para conquistar um universo desconhecido, onde surdos e ouvintes possam descobrir-se num mesmo gesto.

Macbeth (2015)
Macbeth (Michael Fassbender), o senhor de Glamis, recebe a profecia de um trio de bruxas de que um dia se tornará Rei da Escócia. Consumido pela ambição e incentivado pela esposa (Marion Cotillard), Macbeth mata o rei e toma o trono para si .

O Caçador e a Rainha do Gelo (2016)
The Huntsman Winter's War
Muito antes de ter sido vencida pela lâmina de Branca de Neve, a Rainha Ravenna (Charlize Theron) assistiu em silêncio à traição sofrida pela sua irmã Freya (Emily Blunt) que a levou a abandonar o reino. Com o poder de congelar qualquer inimigo, Freya passou décadas num remoto palácio de inverno a criar uma legião de perigosos caçadores - incluindo Eric (Chris Hemsworth) e Sara (Jessica Chastain). Quando sabe da morte da irmã, Freya convoca os soldados que lhe restam para recuperar o Espelho Mágico e trazê-lo à presença da única feiticeira viva capaz de dominar o seu poder.

Robinson Crusoé (2016)
Robinson Crusoe
Terça-feira, um papagaio divertido, vive com um grupo de animais amigos numa pequena ilha paradisíaca. No entanto, Terça-feira não para de sonhar sobre como será o resto do mundo. Depois de uma violenta tempestade, Terça-feira e os seus amigos dão de caras com uma estranha criatura: Robinson Crusoé. O papagaio vê imediatamente em Robinson a certeza de que há um mundo para além da ilha. Da mesma forma, Robinson logo percebe que a chave para sobreviver na ilha passa pela ajuda dos animais. De início, não é fácil, porque estes não compreendem o humano, mas, lentamente, todos começam a viver juntos em harmonia, até ao dia em que a sua vida confortável é posta em causa por dois gatos, também eles náufragos, que desejam assumir o controlo da ilha.

Suburra (2015)
Um gangster conhecido como o Samurai quer transformar a zona ribeirinha de Roma numa nova Las Vegas. Todos os chefes da máfia local concordaram trabalhar em conjunto para a obtenção deste objectivo comum, mas a paz não dura muito tempo.

Truman (2015)
Quando Julián (Ricardo Darín) recebe uma visita inesperada do seu amigo de infância Tomás (Javier Cámara) que vive no Canadá, este reencontro, depois de vários anos, será também o último. Depois de lhe ser diagnosticado um cancro terminal, Julián decide pôr fim ao tratamento para poder concentrar-se em deixar todos os seus assuntos em ordem: a distribuição dos seus bens, as diligências do seu funeral, e, acima de tudo, encontrar um lar para o seu mais fiel amigo – o cão Truman. Entre diálogos repletos de humor e passeios pelas ruas de Madrid visitando livrarias, restaurantes, médicos e veterinários, a relação dos dois amigos sai fortalecida e a separação torna-se cada vez mais difícil.

Ciclo Grande Cinema Russo

quinta-feira, 21 de abril de 2016

Crítica: Instinto Fatal / Basic Instinct (1992)

"You know I don't like to wear any underwear, don't you, Nick?"
Catherine Tramell

*7/10*

Sexy e erótico são duas palavras que assentam na perfeição a Instinto Fatal (Basic Instinct), do Herói Independente do IndieLisboa'16, Paul Verhoeven. A estas duas características, juntou-lhes uma história de crime e mistério (o argumento é de Joe Eszterhas) e, voilà, eis os ingredientes certos para estalar a polémica e ficar na História, nem que seja pelo mais famoso (des)cruzar de pernas do cinema.

Em Instinto Fatal, Sharon Stone é Catherine Tramell, uma escritora suspeita de assassinar o amante, e Michael Douglas é o detective Nick Curran, com um passado atribulado, chamado a investigar o caso.

Um enredo bem construído, com suspense e a dúvida a pairar na mente das personagens e do espectador. Somos também detectives deste caso. Verhoeven mostra como a estética do seu trabalho também tem conteúdo, criando este perigoso jogo de sangue, sedução, sexo e crime com mestria e personalidade. Mais do que escandalizar a época, o realizador consegue cativar a audiência que não vai querer perder nenhum momento da acção. Os planos incómodos e íntimos constituem outro ponto de envolvimento da plateia: perturbam e seduzem-na.


As personagens têm a sua complexidade, e vamos dar por nós a tentar compreender o encanto animalesco de Nick por Catherine, e igualmente a sua obsessão pelo detective. Mentes perturbadas em corpos movidos pelo instinto e temos Instinto Fatal.

O filme é exibido no IndieLisboa no dia 27 de Abril (quarta-feira), às 21h30, na Cinemateca Portuguesa.

Primeiro trailer de Café Society

Foi finalmente revelado o primeiro trailer do novo filme de Woody Allen, Café Society. A longa-metragem, protagonizada por Kristen Stewart, Jesse Eisenberg, Blake Lively e Steve Carell, tem estreia marcada na abertura do Festival de Cannes.

quarta-feira, 20 de abril de 2016

IndieLisboa'16: Filmes a Não Perder

O IndieLisboa começa hoje, dia 20 de Abril, prolonga-se até 1 de Maio, e enche Lisboa de cinema independente. A escolha é imensa, e eu deixo-vos algumas sugestões de filmes a não perder no festival.

Longas-metragens

Esta comédia de costumes, adaptando o romance de Jane Austen, Lady Susan, passa-se na sociedade inglesa no século XVIII. Lady Susan (Kate Beckinsale) resolve passar uma temporada em casa dos sogros, enquanto os rumores sobre a sua conhecida indiscrição se desvanecem. Aí resolve procurar um bom partido para a sua filha Frederica.

Chevalier, de Athina Rachel Tsangari - Competição Internacional
O argumento de Chevalier coloca homens a comparar pilinhas em alto mar. Durante uma viagem num iate de luxo, seis amigos resolvem fazer um jogo para saber quem é o melhor homem. As regras implicam saber quem monta mais rápido um móvel do IKEA ou quem tem o melhor toque de telemóvel. Esta é uma hilariante desconstrução da masculinidade e das suas inseguranças.

Cartas da Guerra, de Ivo M. Guerra - Sessões Especiais
O último filme de Ivo Ferreira adapta uma obra do escritor António Lobo Antunes composta por cartas que este escreveu à mulher durante a sua estadia na Guerra do Ultramar. O filme começa em 1971 quando António vê o seu quotidiano em Lisboa ser interrompido, ao ser destacado para servir como médico no Leste de Angola. Perante a extrema violência e desolação, António escreve à mulher Maria José, contando o que vê, o que sente, como que abrigando-se do pior.

Treblinka, de Sérgio Tréfaut - Competição Nacional
“Eu sinto que todos os comboios vão dar a Auschwitz, Dachau e Treblinka”. Uma viagem pela memória que funde passado com presente. Percorrendo os caminhos férreos que ligam hoje Polónia, Rússia e Ucrânia, Tréfaut encontra pistas de um passado que resiste ao slogan do pós-guerra: “Nunca mais”. Não, “Tudo está a acontecer outra vez”

Love, de Gaspar Noé - Boca do Inferno
Irreverente como sempre, o realizador usa o 3D para filmar uma intensa história de amor. Ou seja, sexo em 3D.

The Lobster, de Yorgos Lanthimos - Boca do Inferno
Estamos num futuro distópico próximo e os solteiros são levados, de acordo com as leis da cidade, para o Hotel. Aí, terão de encontrar parceiro em 45 dias ou o seu destino será o Bosque, onde serão transformados em animais selvagens. Colin Farrell e Rachel Weisz são os protagonistas.

The Witch, de Robert Eggers - Boca do Inferno
A primeira longa metragem de Robert Eggers, vencedor de prémio de melhor realizador em Sundance, aborda os ecos da repressão puritana e da caças às bruxas na Nova Inglaterra de meados do século XVII. William e Katherine vivem uma vida cristã e estável com os seus cinco filhos. Quando o mais novo, recém nascido, desaparece, a família começa a desconjuntar-se e a descer às profundezas da histeria religiosa, da magia negra e da feitiçaria.

The 1000 Eyes of Dr. Maddin, de Yves Montmayeur - Director's Cut
Para Guy Maddin, o cinema é sonho, fantasia e fantasmagoria. Em 1000 Eyes of Dr. Maddin, Yves Montmayeur expõe a obsessão do “David Lynch canadiano” pelos filmes perdidos do mudo, tendo como principal objecto Seances. Neste “projecto interactivo” convocam-se os espíritos desassossegados dos filmes desaparecidos em sessões espíritas onde intervêm vários actores de renome, tais como Mathieu Amalric, Charlotte Rampling e Maria de Medeiros.

Basic Instinct, de Paul Verhoeven - Herói Independente
Sharon Stone é uma escritora suspeita de assassinar o amante e Michael Douglas um detective com um passado atribulado chamado a investigar o caso. Basic Instinct ficou conhecido pelo descruzar de pernas mais famoso da história do cinema.

Les deux amis, de Louis Garrel - Herói Independente
Na primeira longa metragem de Louis Garrel, escrita a meias com Christophe Honoré, Vincent Macaigne interpreta o papel de um tímido actor que procura o auxílio de um amigo extrovertido (Garrel) para o ajudar a seduzir Mona, uma prisioneira em liberdade condicional. Quando os dois se interessam por ela, a relação entre ambos complica-se.

Le fils de Joseph, de Eugéne Green - Silvestre
Vincent tem quinze anos e vive com a mãe, que lhe diz que este não tem pai. Mas Vincent não acredita. Por isso, inicia uma investigação por sua conta.

Janis: Little Girl Blue, de Amy Berg - IndieMusic
A documentarista Amy Berg mergulha na psique de uma artista tão brilhante quanto acossada. A narração é baseada nas cartas que Joplin escreveu aos pais, amigos e colaboradores ao longo dos anos e que aqui são reveladas pela primeira vez pela voz da cantora Cat Power.

Curtas-metragens

World Of Tomorrow, de Don Hertzeldt - Silvestre
Don Hertzfeldt inventa um futuro de clones, viagens no tempo, e paixões: World of Tomorrow foi nomeado para o Oscar de melhor curta metragem de animação.

Ascensão, de Pedro Peralta - Competição Nacional e Internacional
A ascese formal de Ascensão, reduzida a três magníficos planos sequência, combina com a transfiguração mortificada da sua narrativa: o cinema como matéria de milagres.

Balada de um Batráquio, de Leonor Teles -  Competição Nacional e Internacional
A curta de Leonor Teles conquistou o Urso de Ouro em Berlim e agora vem ao IndieLisboa. Balada de um Batráquio, num gesto tão pessoal quanto activista, desfaz um dos preconceitos sobre a comunidade cigana.

Thunder Road, de Jim Cummings - Competição Internacional
Um velório nunca foi tão tocante e tão festivo: Thunder Road usa a homónima canção de Bruce Springsteen como catalisador do luto.

Campo de Víboras, de Cristèle Alves Meira - Competição Nacional
Campo de Víboras, em Trás-os-Montes, acolhe uma história de mistério e más-línguas durante as festividades dos Caretos.

Macabre, de Jerónimo Rocha e João Miguel Real - Competição Nacional
Um homem tem um acidente de carro num bosque o que o leva a uma casa sombria.

Menina, de Simão Cayatte - Competição Nacional
Durante o Estado Novo uma “rapariga ideal” começa a suspeitar dos atrasos do marido.

Hora di Bai, de Bruno Leal - Novíssimos
Hora di Bai é uma expressão que se refere ao “evasionismo” do povo de Cabo Verde. O filme retrata a destruição iminente do bairro 6 de Maio e dos laços dos seus residentes.