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terça-feira, 6 de junho de 2023

Opinião - Séries: Rabo de Peixe / Turn of the Tide / Mar Branco (2023)

*8/10*


Rabo de Peixe, segunda série portuguesa da Netflix, inspira-se em acontecimentos reais para criar uma frenética e inacreditável história de crime e aventuras. Momentâneo sucesso mundial - tendo chegado ao top 10 da Netflix em mais de 30 países -, provavelmente perderá algum fôlego entre os mais vistos nos próximos dias, mas o impacto que causou, especialmente em Portugal, já ninguém lhe tira.

Tudo começa quando um barco cheio de cocaína se afunda na costa de São Miguel, ao largo da freguesia de Rabo de Peixe. O jovem pescador Eduardo (José Condessa) vê aí uma oportunidade para ganhar dinheiro, que se revela ter tanto de emocionante como de arriscado.


Criado pelo açoriano Augusto Fraga, que escreveu o argumento em conjunto com Hugo Gonçalves e João Tordo, Rabo de Peixe não fica atrás de outras séries internacionais sobre a máfia ou o tráfico de droga. A série portuguesa tem um ritmo frenético - tal como o efeito da cocaína nas personagens - e está repleta de analepses, com pausas na acção para mostrar como tudo aconteceu até ali. Humor e tragédia convivem com a esperança de uma vida melhor, que choca de frente com a violência dos que também acham que a droga lhes pertence.

A pobreza que se vive na freguesia, as escassas hipóteses de singrar na ilha, a homossexualidade num local tão fechado em si, o sonho americano sempre a pairar - em especial sobre Eduardo - são alguns dos temas que mais se destacam, paralelamente à acção principal.

Os protagonistas têm personalidades bem definidas e um contexto familiar/social que se vai construindo ao longo dos sete episódios desta temporada. O elenco jovem mostra talento: o carismático José Condessa como EduardoHelena Caldeira na pele da rebelde Sílvia, Rodrigo Tomás como Rafael - responsável por muitos dos momentos de humor da série - e André Leitão como o sonhador Carlitos. Pouco haverá a dizer sobre o extraordinário Albano Jerónimo, o antagonista Arruda, um homem perverso e cruel, e todavia, protagonista de momentos hilariantes. Ainda a destacar, o narrador Pêpê RapazoteUncle Joe, uma grande surpresa no decorrer da série.


A direcção de fotografia de André Szankowski filma Rabo de Peixe de um ponto de vista inebriante, destacando as paisagens naturais, mas igualmente as cores vivas das casas pelas ruas da freguesia. A direcção artística aproveita da melhor forma o tempo da acção, quando ainda havia clubes de vídeo, os telemóveis eram raros, os escudos e euros conviviam nas carteiras, as adolescentes espelhavam a moda da época (Sílvia tem sempre uma gargantilha que era peça fundamental também no meu visual de 2001).

Entre situações mais ou menos inverosímeis - ou exageradas - e aproveitando muitos dos mitos que se criaram em redor do caso real da cocaína na ilha, Rabo de Peixe apresenta bons valores de produção, um elenco competente e um enredo viciante que faz os sete episódios passarem num instante.

domingo, 28 de maio de 2023

Sugestão da Semana #562

Das estreias da passada Quinta-feira, a Sugestão da Semana destaca Os Filhos dos Outros, de Rebecca Zlotowski. Ainda uma menção especial para a estreia da nova série portuguesa da Netflix, Rabo de Peixe, disponível na plataforma desde dia 26 de Maio.

OS FILHOS DOS OUTROS


Ficha Técnica:
Título Original: Les enfants des autres
Realizadora: Rebecca Zlotowski
Elenco: Virginie Efira, Roschdy Zem, Chiara Mastroianni, Victor Lefebvre, Callie Ferreira, Antonia Buresi
Género: Comédia, Drama, Romance
Classificação: M/12
Duração: 103 minutos


RABO DE PEIXE


Ficha Técnica:
Título Original: Rabo de Peixe
Elenco: José Condessa, Rodrigo TomásHelena CaldeiraKelly Bailey, Afonso Pimentel, André Leitão, Pêpê Rapazote, Albano Jerónimo, Maria João Bastos, João Pedro VazAdriano Carvalho
Género: Acção, Drama, Crime, Thriller
Plataforma: Netflix

terça-feira, 26 de abril de 2022

Bárbara Branco, José Condessa, Ivan Neskov e Catarina Vasconcelos distinguidos com Prémios NICO 2022

A actriz Bárbara Branco (Bem Bom), o actor José Condessa (O Som Que Desce da Terra, Gabriel), o técnico de som Ivan Neskov (Bem Bom, Glória) e a realizadora Catarina Vasconcelos (A Metamorfose dos Pássaros) serão distinguidos com Prémios NICO 2022, entregues pela Academia Portuguesa de Cinema aos jovens talentos do cinema nacional. 

Os troféus serão atribuídos no evento onde serão anunciados os nomeados aos Sophia 2022, no dia 5 de Maio, na Universidade Lusófona de Humanidades e Tecnologias (ULHT). Cada um dos quatro jovens receberá também um prémio monetário de mil euros, com o apoio da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa.

Em 2021 foram distinguidos com os Prémios NICO a actriz Laura Dutra, o actor Michael Spencer e o realizador Bernardo Lopes.

domingo, 17 de abril de 2022

Sugestão da Semana #503

Das estreias da passada Quinta-feira, a Sugestão da Semana destaca o filme português Salgueiro Maia - O Implicado, de Sérgio Graciano.

SALGUEIRO MAIA - O IMPLICADO


Ficha Técnica:
Título Original: Salgueiro Maia - O Implicado
Realizador: Sérgio Graciano
Elenco: Tomás Alves, Filipa Areosa, Catarina Wallenstein, José Condessa, Frederico Barata
Género: Biografia, Drama
Classificação: M/12
Duração: 115 minutos

sexta-feira, 12 de novembro de 2021

Crítica: O Som que Desce na Terra (2021)

*6/10*


Gabriela Barros dá corpo e voz às mulheres que ficaram, que sofreram a ausência a que a guerra colonial obrigou. Sérgio Graciano faz-lhes uma justa homenagem em O Som que Desce na Terra.

"Maria da Luz espera noticias do marido, soldado no Ultramar, que após ser destacado para liderar uma operação, é dado como desaparecido. Neste período, onde a ausência de notícias traz sofrimento e solidão, toma consciência que estes sentimentos são partilhados por outros que, como ela, esperam pelos seus e toma uma decisão: gravar mensagens de apoio das mães, mulheres e familiares para os soldados e entregá-las pessoalmente a cada um no meio de uma Angola em plena guerra."

A longa-metragem inspira-se na história verídica de Maria Estefânia Anacoreta que, em 1966, saiu de Santarém e, durante sete meses, percorreu quase 20 mil quilómetros, por Angola, com um gravador de som. No filme, a protagonista é Maria da Luz que parte para África com o mesmo objectivo, e movida pelo desejo de reencontrar o marido desaparecido.


Maria da Luz e as situações pelas quais passa, quer enquanto está em Portugal, como quando aterra em Angola, representam bem aquele que era tido como o papel das mulheres na sociedade conservadora da época. Já junto dos soldados, o filme capta os traumas, a insensibilidade e a revolta que a guerra lhes incutiu e as saudades de casa. 

O Som que Desce na Terra começa com pouco fôlego, num reflexo da vida solitária da protagonista junto dos filhos, e em conflito com os pais. O lado mais novelesco e televisivo da longa-metragem perdura até Luz aterrar em Angola. A partir daí, ritmo e ambiente tornam-se mais dinâmicos e desafiadores, tal como as circunstâncias obrigavam.

No clima hostil, seja pelo extremo calor ou pelos horrores da guerra, a acção cresce em maturidade, a violência ganha terreno, tudo sob uma perspectiva feminina (nota-se que as argumentistas são duas mulheres, Joana Andrade e Filipa Poppe) - a mulher entre os soldados causa estranheza e desconforto de ambos os lados do ecrã. E mesmo com uma pitada de romance, algumas histórias paralelas e um tanto de melodrama, o filme cresce bem, até ao final.


Nas interpretações, destaque para José Condessa e, no elenco de secundários, João Jesus rouba totalmente a cena em que aparece - ele que espelha o trauma e o desespero de tantos homens. A direcção artística e guarda roupa fazem um excelente trabalho ao retratar a época dos acontecimentos

Sérgio Graciano faz a justa homenagem às mães, esposas e filhas que a guerra privou da presença de filhos, maridos e pais. O Som que Desce na Terra é um breve retrato do lado feminino da guerra colonial.

domingo, 24 de março de 2019

Sugestão da Semana #369

Das estreias da passada Quinta-feira, a Sugestão da Semana destaca o filme português Gabriel, de Nuno Bernardo. A crítica do Hoje Vi(vi) um Filme pode ser lida no blog, bem como uma entrevista ao realizador.

GABRIEL


Ficha Técnica:
Título Original: Gabriel
Realizador: Nuno Bernardo
Actores: Igor Regalla, José Condessa, Sérgio Praia,  Ana Marta Ferreira, Ameno GonçalvesCarlos Areia
Género: Drama
Classificação: M/14
Duração: 92 minutos

quarta-feira, 20 de março de 2019

Entrevista a Nuno Bernardo, realizador de Gabriel

Gabriel chega aos cinemas portugueses esta Quinta-feira, dia 21 de Março. O Hoje Vi(vi) um Filme já viu e a crítica está publicada no blog. Ficámos curiosos e quisemos saber mais sobre todo o processo de criação deste filme sobre um jovem cabo-verdiano, recém-chegado a Lisboa, que procura o pai e vê no boxe uma forma de ajudá-lo e ligar-se a ele.

O realizador Nuno Bernardo respondeu a algumas perguntas do Hoje Vi(vi) um Filme sobre Gabriel, a sua primeira longa-metragem.


Gabriel é um filme atual, que vai muito para além do boxe. De onde surgiu a ideia de escrever e realizar um filme com esta temática?
Nuno Bernardo (NB): Em 2014 estava em Dublin realizar um documentário sobre Stand-Up Comedy e, para um dos segmentos desse documentário, decidiu-se gravar um pequeno combate de boxe, isto porque um dos comediantes era um lutador amador. Esta experiência – de filmar boxe – foi amor à primeira vista. Adorei conhecer o meio, as pessoas e acima de tudo os códigos de valor e ética que regem este desporto. Depois, em Portugal, fui contactando frequentemente com esta comunidade, assistindo a galas e combates, o que fizeram crescer este desejo de fazer um filme sobre boxe. 

A violência das palavras funciona com uma naturalidade assustadora e condiz com a brutalidade dos vilões da história. Acha que é precisa coragem para filmar a violência com este realismo? 
NB: Apesar de não ser um apaixonado pelo Boxe, sempre tive um interesse especial por filmes sobre este desporto. Mas as lutas de Gabriel, em especial a forma de as filmar, seguiram um padrão diferente. O meu foco foi sempre criar uma luta realista, que represente um pouco o mundo do boxe amador como o descobri em Portugal. Ou seja, não estamos a falar de um combate de 12 assaltos, realizado em Las Vegas, com 10.000 espectadores onde tudo é muito estilizado. Em Gabriel, procurei filmar o boxe de uma forma crua, mas real. 

O racismo é um problema que persiste na actualidade e também é abordado em Gabriel. Quer despertar consciências, mudar mentalidades?
NB: As histórias que me dão prazer contar são as histórias que reflectem a vida como ela é, a atualidade, os problemas que nos afetam enquanto sociedade. Por isso Gabriel e esta história de imigração, de integração social, de chegada a um novo país e a uma nova vida. O meu objetivo é sempre contar uma boa história, uma história que não termine quando os créditos começam a passar no final do filme mas sim continue na memória de quem assistiu e gere discussões após sair da sala de cinema.

Como chegou a Igor Regalla para protagonista e como foi trabalhar com ele?
NB: Existiu um trabalho - em ligação com a produtora Sara Moita - de identificar atores portugueses que se enquadrassem nas personagens criadas. Na altura vimos vários showreels, ficção nacional e peças de teatro. A escolha do Igor vem de uma peça que vimos no Teatro São Luiz. A Ana Marta da sua carreira de um filme que tinha visto umas semanas antes em que ela participa. O José Condessa pela paixão que demonstrou no projeto quando reunimos com ele.


A câmara tem uma grande proximidade com as personagens e filma os combates com muita credibilidade. Como foi o desafio de filmar boxe?
NB: Existiu um intenso trabalho realizado com o coreógrafo e preparador de atores - David Chan - e com o Diretor de Fotografia, o Pedro Negrão, para passar o realismo para as cenas do combate de boxe. Eu não queria duplos, ou slow-motions, ou aqueles truques que vemos em filmes do género. Eu queria passar ao espetador a ideia de realismo e que aqueles combates são reais. 

Foi o Igor que lhe deu a conhecer a música de Vado Más Ki Às, que participa com quatro temas na banda sonora de Gabriel (e faz até uma participação especial). Por coincidência a história do cantor tem algumas semelhanças com a do protagonista (também cresceu num bairro problemático). De que forma a música de Vado e de outros interpretes de hip hop influenciaram a produção do filme?
NB: Durante o processo de escrita e de pregação do filme eu ouvi muitas músicas do novo hip hop português. Cheguei a criar um playlist no Spotify que ouvia muitas vezes durante a escrita e reescrita do guião. Algumas dessas músicas foram mesmo usadas no filme. O Vado apenas conheci dois dias antes do início da rodagem - por isso a sua música não influenciou a preparação do filme, mas depois a fase de pós-produção. 

Qual espera que seja a reacção do público português?
NB: Espero que vão ver cinema português, em especial Gabriel. Muitas vezes existe o preconceito contra o filme nacional. Mas Gabriel, como muitos outros filmes portugueses, contam histórias dos nossos locais, das nossas tradições e culturas, algo que nenhuma outra cinematografia faz. Só isso, justifica uma ida ao cinema. Mas Gabriel, espero, adiciona uma história atual, bons atores e a maior sequência de boxe alguma vez filmada em Portugal.

segunda-feira, 18 de março de 2019

Crítica: Gabriel (2018)

"Acredita em ti que tu vais ganhar isto."
Paulo


*7/10*

Eis que as atenções se viram para o boxe e para a direita de Gabriel, a sua arma mais forte contra os adversários. Fora do ringue, mergulhamos numa vida a recomeçar num país diferente, em busca do caminho certo. Gabriel é de um realismo cruel, pouco experimentado no cinema português. A violência das palavras e dos actos mostra o pior dos seres humanos, mas também ensina como é possível construir o trilho mais digno.

Depois da morte da mãe, Gabriel (Igor Regalla), um jovem pugilista cabo-verdiano recém-chegado a Portugal, vem à procura do pai, um antigo campeão de boxe dos Olivais. Na busca, Gabriel entra em contacto com Rui (José Condessa), um membro violento do gangue local liderado por Jorge (Sérgio Praia), que organiza todas as lutas no bairro.


A história de Gabriel é simples e familiar. Filmam-se as dificuldades da vida num bairro social lisboeta, filma-se o racismo, a imigração, a violência, o medo e o desespero. Ao mesmo tempo, capta-se também o amor pela família, a força do desporto e a vontade de ser a nossa melhor versão. A história não nos é contada cronologicamente, mas o encadeamento temporal da narrativa constrói-se com naturalidade graças à montagem eficaz.

Gabriel é incansável na busca pelo seu pai, aventurando-se pelos locais mais sinistros da vizinhança. Ao mesmo tempo, vê na sua paixão pelo boxe a única solução para melhorar a vida dos seus. E mesmo que a ingenuidade do jovem protagonista por vezes nos deixe revoltados, certo é que a sua humildade e coragem criam a empatia necessária para torcermos por ele. Depois de ser Eusébio, Igor Regalla regressa ao grande ecrã e encaixa-se na perfeição na personagem, mesmo com o aspecto franzino que o caracteriza e que torna, ainda mais, Gabriel num herói improvável. O filme foi não só física como psicologicamente desafiante para o actor.


Ao seu lado, há muita química com Ana Marta Ferreira, a namorada que também sofre em silêncio, bem como com o seu rival no ringue de boxe, José Condessa. Um trio de jovens actores que funcionam muito bem em cena. Ainda de destacar são as personagens de Almeno Gonçalves - o treinador que protege e incentiva Gabriel -, e o vilão da história, totalmente desprovido de coração, interpretado e bem por Sérgio Praia.

A banda sonora, repleta de hip hop tuga, torna-se viciante por se encaixar completamente no ritmo e temática do filme. Destaque para Vado Más Ki Às (com uma participação especial na longa-metragem) que assina quatro temas de Gabriel, incluindo a canção original, Vai.


O realizador, Nuno Bernardo, consegue inserir-nos na vida do bairro sem que nos sintamos estranhos. A câmara coloca-nos no local, como mais um morador ou um curioso que aposta tudo em Gabriel. A violência é muito bem filmada, e cada soco parece-nos real, faz-nos sentir desconfortáveis na cadeira do cinema - e isso é muito bom! É fundamental que um filme marque quem o vê e Gabriel é capaz, em alguns momentos, de deixar-nos KO.

Gabriel é mesmo "um murro no estômago" (provavelmente dado com o punho direito do protagonista), um daqueles que o espectador de cinema bem precisa, de vez em quando.