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quarta-feira, 4 de setembro de 2019

Crítica: Democracia em Vertigem / The Edge of Democracy (2019)

"Eu e a Democracia brasileira temos quase a mesma idade..."
Petra Costa


*8/10*

Petra Costa já deu provas no cinema documental - Olmo e a Gaivota, de 2015, será o título mais sonante por terras lusas - e arrisca tudo com o seu mais recente Democracia em Vertigem, que surge num dos momentos mais críticos do Brasil. O filme tem o selo Netflix, pode ser visto no serviço de streaming e teve estreia no IndieLisboa 2019.

O documentário analisa um dos períodos mais dramáticos da história do Brasil, no contexto da actual crise democrática. Com um acesso sem precedentes a vários líderes nacionais passados e presentes, incluindo Dilma Rousseff e Lula da Silva, em combinação com relatos sobre o passado político e industrial complexo da sua própria família, a cineasta Petra Costa traça a ascensão e queda destes dirigentes e da nação tragicamente polarizada que resultou dos escombros. 


Petra Costa realiza e é igualmente a narradora de Democracia em Vertigem. A intimidade que coloca na sua própria participação no filme torna tudo mais pessoal e pode ser vista por muitos como subjectiva e imparcial. Contudo, no decorrer da longa-metragem percebemos as razões desta opção um pouco polémica: a narradora e a Democracia nasceram na mesma época. Cresceram juntas e têm os mesmos antepassados. Com a democracia ameaçada também Petra vê o seu futuro condicionado. A Democracia é uma mulher num país que voltou a ser machista e extremista, onde o fascismo foi espreitando, camuflado, ao longo dos anos e nunca se enterraram os fantasmas da ditadura militar - e, ainda há três anos, Jair Bolsonaro invocou um deles no parlamento...


Apesar da subjectividade do documentário, Democracia em Vertigem insiste em mostrar-nos os dois lados em que o Brasil se dividiu, qual muro imaginário. Dilma e Lula são filmados mais intimamente, mas também Jair Bolsonaro falou com a realizadora, ainda antes de ser eleito Presidente do Brasil.

É-nos feito um interessante resumo da História do país, e a divisão actual esquerda/direita é-nos apresentada com o exemplo da própria realizadora. Famílias dividem-se por causa da política, novamente. Será que vale a pena? A luta devia ser pela Democracia, unidos. Essa parece-me a principal mensagem de Petra Costa.


A realizadora filma manifestações de apoio à esquerda e à direita, apresenta detalhes da operação lava-jacto - não falta, claro, Sérgio Moro -, o impeachment de Dilma, a prisão de Lula. E, no final, entre a decadência e a desilusão de ver um país em crise, com a liberdade ameaçada, muito passará a fazer um sentido perverso à luz do que sabemos da actualidade política brasileira. 

Democracia em Vertigem é sinónimo da coragem de Petra Costa em confrontar o Brasil e o Mundo com a sua assustadora realidade.

sexta-feira, 17 de maio de 2019

IndieLisboa'19: Monólogos com a História (2019) + Sou Autor Do Meu Nome Mia Couto (2019)

Monólogos com a História, de Sol de Carvalho - 6.5/10


Monólogos com a História, de Sol de Carvalho, trouxe às Sessões Especiais do IndieLisboa'19 um apelo ao passado e à memória, com a fantasia a comandar a história.

Eis uma reflexão sobre a História de Moçambique no confronto entre um pai morto e um filho de luto. A distância entre os dois em vida parece quebrar-se na morte. Um passado fechado a cadeado e em ruínas - tal como a casa herdada pelo filho, que é palco da curta-metragem - é agora aberto. Duas visões muito diferentes dos mesmos acontecimentos, com significados totalmente distintos para cada geração. Mas afinal, há muito mais que une pai e filho.

Sou Autor Do Meu Nome: Mia Couto, de Solveig Nordlund - 7/10

Sou Autor do Meu Nome: Mia Couto fez parte das Sessões Especiais do IndieLisboa'19 e leva-nos numa visita ao passado do escritor Moçambicano. É ele próprio, o contador de histórias, que nos conta a sua. A realizadora luso-sueca Solveig Nordlund segue-o pelas ruas de Moçambique, filma os locais que lhe são queridos, na Beira, e que o fazem sentir-se em casa.


A realizadora  já realizou documentários sobre escritores como António Lobo Antunes, Marguerite Duras ou J. G. Ballard. Neste filme, acompanhamos o dia-a-dia do escritor moçambicano e percorremos a sua carreira literária, através de conversas íntimas onde nos revela memórias e nos apresenta as figuras que compõem a sua vida.

A tranquilidade com que passeia na rua, abordado por muitos admiradores que lhe pedem selfies é a mesma com que fala para a câmara de Solveig Nordlund. Com grande sinceridade, conta-nos o seu percurso e o quanto a infância e juventude - muito marcadas pela guerra em Moçambique - o marcaram. Através da literatura, do teatro e do cinema Sou Autor do Meu Nome: Mia Couto conta também parte da História de um país.

segunda-feira, 13 de maio de 2019

IndieLisboa'19: 3 Rostos/ 3 Faces (2018)

*7.5/10*


Jafar Panahi continua a "cumprir" a pena de 20 anos sem filmar a que foi condenado em 2010, supostamente por fazer propaganda contra o governo iraniano. Ora, nos primeiros oito anos destas duas décadas já podemos contar com quatro longas-metragens (Isto Não É Um Filme, Pardé, Táxi e 3 Faces)  na sua filmografia - clandestinas, mas que chegam ao mundo inteiro, felizmente.

3 Faces (3 Rostos) é o seu filme mais recente, onde explora o feminismo e a forma como as mulheres continuam a ser tratadas no Irão, em especial em regiões mais isoladas. Ao mesmo tempo, traça um retrato do Irão mais "profundo", numa espécie de road movie, por estradas estreias e sinuosas, em que as buzinadelas funcionam como código entre condutores.


Três actrizes em diferentes estágios da sua carreira e de três gerações distintas são o foco de 3 Faces. Uma delas, foi uma estrela antes da Revolução Islâmica de 1979, outra é uma actriz dos dias de hoje, famosa por todo o país, e a mais nova é uma jovem que ambiciona entrar no conservatória, mas cuja família proíbe.

Humor, drama e suspense, os três géneros juntam-se neste filme de Panahi que também tem muito de documental, a começar por todas as personagens se interpretarem a elas mesmas, realizador incluído. Jafar Panahi, acompanhado por Behnaz Jafari, imiscui-se entre as pessoas daquela aldeia conservadora e retrógrada, onde as mulheres continuam a ser subjugadas e proibidas de estudar ou seguir os seus sonhos. Isolados de tudo, vêem no gado uma importante forma de subsistência.

Ao mesmo tempo, o misterioso desaparecimento da jovem Marziyeh - que enviou um vídeo desesperado a Jafari a pedir ajuda - transforma 3 Faces num filme de detectives.


Nos encontros que Panahi e Jafari vão tendo ao longo da viagem, conhecemos a hospitalidade dos locais, mas descobrimos igualmente mais tradições ancestrais que podem por em causa a própria presença do realizador e da actriz, ou pelo menos, alterar-lhes um pouco crenças e comportamentos. Behnaz Jafari, muitas vezes pensativa, parece recordar tudo pelo que passou para seguir a carreira artística.

3 Faces dá continuidade à crítica cerrada que Jafar Panahi tem construído ao longo da sua obra, ao mesmo tempo que faz um elogio às actrizes e às Mulheres.

IndieLisboa'19: Vencedores

O IndieLisboa'19 terminou este Domingo, 12 de Maio, após 11 dias intensos de cinema independente. Os vencedores já são conhecidos e podem ser vistos nas sessões de Segunda, Terça e Quarta-feira (13, 14 e 15 de Maio), no Cinema Ideal.


Eis a lista completa de vencedores:

JÚRI DA COMPETIÇÃO INTERNACIONAL DE LONGAS METRAGENS

Grande Prémio de Longa Metragem Cidade de Lisboa

DE LOS NOMBRES DE LAS CABRAS/ON THE NAMES OF THE GOATS
Silvia Navarro, Miguel G. Morales, Espanha, doc., 2019, 62'

Prémio Especial do Júri Canais TVCine & Séries
Ex-Aequo

JESSICA FOREVER
Caroline Poggi, Jonathan Vinel, França, fic., 2018, 97'

SĂ NU UCIZI/THOU SHALT NOT KILL
Gabi Virginia Șarga, Cătălin Rotaru, Roménia, fic., 2018, 120′

JÚRI INTERNACIONAL DE CURTAS METRAGENS

Grande Prémio de Curta Metragem

PAST PERFECT
Jorge Jácome, Portugal, fic./doc./exp., 2019, 23′

Prémios Turismo de Macau

Animação
GUAXUMA
Nara Normande, França/Brasil, anim., 2018, 14′

Documentário
SWATTED
Ismaël Joffroy Chandoutis, França, doc., 2018, 21′

Ficção
THE GIRL WITH TWO HEADS
Betzabé Garcia, Reino Unido, fic., 2018, 13′

JÚRI DA COMPETIÇÃO NACIONAL

Prémio Allianz para Melhor Longa Metragem Portuguesa

A MINHA AVÓ TRELOTÓTÓ
Catarina Ruivo, Portugal, fic./doc., 2018, 173'

Prémio Melhor Realizador para Longa Metragem Portuguesa

CAMPO
Tiago Hespanha, Portugal, doc., 2019, 100′

Prémio Dolce Gusto para Melhor Curta Metragem Portuguesa

A CASA, A VERDADEIRA E A SEGUINTE, AINDA ESTÁ POR FAZER/THE HOUSE IS YET TO BE BUILT
Sílvia das Fadas, EUA/Áustria/Portugal, doc./exp., 2018, 35'

Menção Especial

O MAR ENROLA NA AREIA
Catarina Mourão, Portugal, fic./doc./exp., 2019, 16'

Prémio Novo Talento FCSH/NOVA

PODER FANTASMA
Afonso Mota, Portugal, fic., 2019, 23'

JÚRI DA COMPETIÇÃO NOVISSIMOS

Prémio Novíssimos The Yellow Color + Portugal Film

ESTAS MÃOS SÃO MINHAS
André Ferreira, Portugal, doc., 2019, 8′

JÚRI SILVESTRE

Prémio Silvestre para Melhor Longa Metragem
Ex-Aequo

"ÎMI ESTE INDIFERENT DACA ÎN ISTORIE VOM INTRA CA BARBARI2/”I DO NOT CARE IF WE GO DOWN IN HISTORY AS BARBARIANS”
Radu Jude, Roménia/República Checa/França/Bulgária/Alemanha, fic., 2018, 140′

M.
Yolande Zauberman, França, doc., 2018, 106′

Prémio Silvestre para Melhor Curta Metragem

SETE ANOS EM MAIO/SEVEN YEARS IN MAY
Affonso Uchôa, Brasil/Argentina, fic./doc., 2019, 42′

Menção Especial

WONG PING’S FABLES 1
Wong Ping, Hong Kong, anim., 2018, 13′

JÚRI INDIEMUSIC

Prémio IndieMusic

BATIDA DE LISBOA/LISBON BEAT
Rita Maia, Vasco Viana, Portugal, doc., 2019, 65′

JÚRI ÁRVORE DA VIDA

Prémio Árvore da Vida para Melhor Filme Português

INVISÍVEL HERÓI/INVISIBLE HERO
Cristèle Alves Meira, Portugal/França, fic., 2019, 27′

Menção Especial

A MINHA AVÓ TRELOTÓTÓ/MY GRANDMOTHER TRELOTÓTÓ
Catarina Ruivo, Portugal, fic./doc., 2018, 173′

JÚRI AMNISTIA INTERNACIONAL

Prémio Amnistia Internacional

SETE ANOS EM MAIO/SEVEN YEARS IN MAY
Affonso Uchôa, Brasil/Argentina, fic./doc., 2019, 42′

JÚRI SANTA CASA

Prémio Santa Casa  

PRÍNCIPE KIK-KI-DO: A TOUPEIRA MINEIRA
Grega Mastnak, Eslovénia, fic., 2018, 5'

JÚRI UNIVERSIDADES

Prémio Universidades

PRESENT.PERFECT.
Shengze Zhu, EUA/Hong Kong, doc., 2019, 124'

JÚRI ESCOLAS

Prémio Escolas

GUAXUMA
Nara Normande, França/Brasil, anim., 2018, 14′

PRÉMIO DO PÚBLICO

Longas-metragens
Bait, de Mark Jenkin

Curtas-metragens
Guaxuma, de Nara Normande

IndieJúnior
Morcego, de Julia Ocker


*artigo actualizado no dia 13 de Maio 2019 com os vencedores do Prémio do Público.

domingo, 12 de maio de 2019

IndieLisboa'19: Sinónimos / Synonymes (2019)

*6/10*


Sinónimos, de  Nadav Lapid, foi o Filme de Encerramento do IndieLisboa'19. O realizador israelita carrega a longa-metragem de sarcasmo e constrói uma história quase inacreditável, inspirada na sua própria experiência de vida.

Seguimos Yoav (Tom Mercier), um jovem israelita, que vai para Paris, com a ajuda de um simples dicionário hebraico-francês, na esperança de que França e os franceses o salvem da loucura do seu país. Em Paris, as coisas não começam muito bem para Yoav, mas ele está determinado a livrar-se da sua nacionalidade o mais rápido possível. Para ele, ser israelita é como um tumor que precisa de ser removido cirurgicamente.

Sinónimos é um filme que pode provocar sentimentos antagónicos. Deambula entre o absurdo, o sarcástico, a sátira e a crítica, mas, ao mesmo tempo, não chega a bom porto. Há uma hipérbole constante desde o início, onde todas as situações parecem ser elevadas ao mais ridículo possível - e há realmente momentos que têm impacto e cuja crítica social é certeira.


Com uma boa interpretação de Tom Mercier, a personagem de Yoav, apesar de determinada, é construída também no exagero. Os dilemas do israelita que quer ser francês estão presentes e preenchem os espaços vazios, mas o drama existencial parece levado demasiadamente a brincar, quase em negação. Yoav nega-se a falar hebraico e esforça-se ao máximo para se tornar num francês.

Nadav Lapid crítica veementemente Israel e não tem qualquer pudor em mostrá-lo ao mundo. Um filme essencialmente provocador.

IndieLisboa'19: Divino Amor (2019)

*5.5/10*


É com os néons do filme anterior (Boi Néon) que começa Divino Amor, o novo trabalho de Gabriel Mascaro, que fez parte da secção Herói Independente do IndieLisboa'19. No entanto, está muitos pontos abaixo do seu antecessor, num registo diferente.

A crítica política e religiosa é mais que evidente, no meio desta distopia brasileira que o realizador criou. Se, actualmente, apesar das ligações à religião que associamos ao Governo de Bolsonaro (não esquecer o lema "Brasil acima de tudo, Deus acima de todos"), o Brasil é um Estado laico, a visão pessimista retratada em Divino Amor é que num futuro próximo, 2027, o país seria um Estado Religioso.

Apresentam-nos Joana (Dira Paes), uma mulher profundamente religiosa, que usa a sua posição num notário para tentar prevenir o divórcio de casais. Ansiando por um sinal divino como reconhecimento dos seus esforços, vê-se confrontada com uma crise que a colocará mais perto de Deus.


Divino Amor arranca muito bem, num mergulho no mar da ficção científica. A estranheza que se sente com o que vemos e ouvimos a narração contar aguça a curiosidade. Mas, a certo momento, perde o fôlego, com a crítica inicial, tão poderosa, a anular-se e começar a perder o sentido. Algumas das contradições que surgem são totalmente certeiras na crítica acesa que o filme faz, contudo, outras opções mostram o contrário daquilo que o humor mordaz de Gabriel Mascaro vem a defender.

Joana é só mais uma das pessoas daquela espécie de seita que se reúne para um culto ao amor e ao deus que eles defendem. A realidade deste Brasil distópico não é explorada para além do circulo de Joana e esse é um dos grandes desencantamentos do filme.

Visualmente, há planos marcantes, e a direcção de fotografia tem bons momentos, com as cores neón e o fumo a sobressaírem. A direcção artística também é de destacar, onde existe um drive in especialmente bem concretizado - um dos melhores momentos de humor do filme de Mascaro. A banda sonora que nos acompanha desde os créditos iniciais é viciante e outro dos pontos mais fortes de Divino Amor.


Gabriel Mascaro está cheio de ideias a borbulhar, mas precisa voltar a pô-las em ordem. O sentimento foi de desencanto, não tanto com o triste mundo que criou, mas com o resultado de Divino Amor.

sábado, 11 de maio de 2019

IndieLisboa'19: I Do Not Care If We Go Down in History as Barbarians / Îmi este indiferent daca în istorie vom intra ca barbari (2018)

*7.5/10*


Como realizador, o estilo de Radu Jude é irresistível. Nos últimos anos, pega na história do seu país, encontra os momentos que mais o envergonham e conta-os, à sua maneira, mas sem omitir as atrocidades, para que a Roménia e o mundo saibam a verdade. E reflictam sobre ela, para que o mal não se repita.

O realizador romeno tem sido presença frequente no IndieLisboa e, nesta edição, podemos ver I Do Not Care If We Go Down in History as Barbarians, na secção Silvestre. Desta vez, o tema é a quota-parte de responsabilidade que a Roménia teve no Holocausto durante a Segunda Guerra Mundial.

"Eu não me importo se nós entrarmos na história como bárbaros" (a frase que dá título ao filme)  foi proferida no Conselho de Ministros antes do massacre cometido pelo exército romeno contra os judeus do país em 1941, numa tentativa de fazer uma limpeza étnica. No filme, a directora teatral Mariana (Ioana Iacob) pretende criar um espectáculo para relembrar os romenos destas tendências antissemitas que os seus antepassados demonstraram, durante a Segunda Guerra. A reconstituição histórica do massacre de Odessa, que muitos parecem ainda hoje negar que tenha acontecido é o foco das pesquisas de Mariana. Mas este espectáculo público tinha como objectivo ser uma homenagem à História da Roménia, e depressa surgem conflitos de interesse com as autoridades locais. Está lançado o desafio, tanto a Mariana como à plateia e os negacionistas vão surgindo, entre os actores e figurantes.


I Do Not Care If We Go Down in History as Barbarians é tão actual que assusta verificar que, passados 80 anos, há argumentos que ainda não mudaram. Radu Jude, através de Ioana Iacob, faz uma investigação exaustiva, entre textos sociológicos e históricos, filmes e fotografias, e, através do seu humor mordaz, quer acordar a civilização para a crueldade do Holocausto e mostrar que o passado não pode ser apagado.

Escutamos textos, vemos filmes, em longos planos que obrigam à atenção, mas são, ao mesmo tempo, sarcásticos. Somos obrigados a ver, ouvir e ponderar. Há imagens (reais) que nos tiram o sorriso que a cena anterior possa ter motivado. Imagens da morte. Querem melhor sinal de alerta?

Há longos planos sequência onde se debatem ideias e ideais e em que a câmara vagueia entre os ensaios junto ao Museu Militar. Apenas o quotidiano de Mariana, dominado por uma relação amorosa com pouco futuro, corta o ritmo à crítica político-social tão bem escrita e filmada.


Radu Jude não tem medo. Quer confrontar o seu país com a verdade da sua História. Afinal, todos temos os nossos monstros escondidos. É importante encará-los para nunca mais os repetirmos.

______________

O filme passou no dia 9 de Maio, no Cinema São Jorge, e volta a ser exibido no dia 12 de Maio, às 21h30, também no Cinema São Jorge.

quarta-feira, 8 de maio de 2019

IndieLisboa'19: Alva (2019)

*6.5/10*


Em Alva, Ico Costa regressa à sua predilecção por personagens marginais, seja por vontade própria, seja porque a sociedade se recusa a recebê-los. Depois de Quatro Horas Descalço e de Antero, o realizador volta a um protagonista outsider, de poucas palavras e de acções impulsivas, que encontra na floresta refúgio para os seus temores e fantasmas.

Inspirado por duas histórias publicadas na imprensa, Ico Costa conta-nos a história de um homem que, após cometer um homicídio, se refugia na floresta. O filme foi filmado no centro de Portugal, junto ao rio Alva - que dá título à longa-metragem.

Filmado em 16mm, Alva coloca-nos ao lado de Henrique no seu dia-a-dia pacato de trabalho com os animais, onde poucas são as frases que troca com quem se cruza. Henrique vive isolado numa casa no campo, onde a companhia mais fiel parece ser o seu cão. Os planos fechados aproximam-nos do protagonista e fazem-nos questionar sobre o que o atormenta - mas cedo descobrimos. Tanto o grão da película, o excelente trabalho da direcção de fotografia, como a expressão triste e angustiada de Henrique adensam a solidão que rodeia a casa e a floresta.


A vingança alimenta a acção e a culpa remói o criminoso. O objectivo do assassinato não parece ter sido atingido, longe disso. Alva é eficaz ao aproximar-nos de Henrique, ao fechar-nos na sala de cinema, sozinhos com o fugitivo - quais cúmplices -, e faz-nos tentar perceber as suas atitudes. E Henrique, na sua fuga, funde-se com a Natureza.

Alva só peca pela duração, pois, apesar dos silêncios de Henrique muito dizerem, a sua história esgota-se demasiado depressa.

Alva, de Ico Costa, faz parte da Competição Nacional do IndieLisboa'19.

Culturgest - Grande Auditório
09/05/2019  -  21h30
Cinema Ideal
11/05/2019  -  18h00

IndieLisboa'19: Competição Nacional Curtas

A Competição Nacional do IndieLisboa'19 conta com 17 curtas-metragens. O Hoje Vi(vi) um Filme viu-as e deixa aqui uma pequena análise a cada uma.

A Casa, a Verdadeira e a Seguinte, Ainda Está por Fazer, de Sílvia das Fadas - 9/10


Sílvia das Fadas leva-nos a sonhar, entre histórias e locais inimaginados, mas reais. Eis um convite à descoberta da arquitectura mais surreal, da luz, da força de vontade e de personagens entusiasmantes. Somos inseridos em cenários de contos de fadas, sem princesas. Onde a magia dos locais - que a película torna ainda mais espectaculares e singulares - nos deixa absorvidos pelas imagens e pelo sonho de as conhecer.

A Casa, a Verdadeira e a Seguinte, Ainda Está por Fazer leva-nos numa jornada por utopias arquitectónicas que incluem um palácio de um carteiro, uma casa vermelha de um socialista e um jardim engendrado no feminino.

Fordlândia Malaise, de Susana de Sousa Dias - 8.5/10


Susana de Sousa Dias faz, em Fordlândia Malaise, um filme sobre a memória e o presente da homónima cidade, agora em ruínas, fundada em 1928 por Henry Ford na floresta amazónica. A partir de imagens de arquivo, planos imensos da cidade na actualidade e de testemunhos de quem ainda lá vive, constrói-se uma imagem de esperança no meio do abandono e da ruína. Destruição da floresta com vista ao progresso, uma cidade ergue-se, mas depressa tudo acaba - e o círculo vicioso continua, qual "metáfora do Brasil de hoje", como disse já a realizadora em entrevista.

Há montagem psicadélica, planos arrepiantes, qual cenário de ficção, onde se conjugam em pleno as lendas e histórias que os nossos contemporâneos nos contam. A música é outro símbolo de esperança, tal como o som dos pássaros, mostrando que a vida e a alegria ainda ali moram, por muito paradoxal que pareça. Fordilândia espera, parada no tempo, pelo progresso anunciado que parece ter partido sem sequer parar.

The Hood, de Patricia Vidal Delgado - 8.5/10


Patrícia Vidal Delgado constrói em The Hood um found footage sobre o processo criativo de um jovem actor que visita Compton (arredores de Los Angeles) e aprende mais do que desejava. A realizadora compõe a curta-metragem com ritmo e acção, cativando a atenção da plateia.

Através da câmara, naturalmente dinâmica, assistimos a todos os acontecimentos em redor do protagonista e somos, afinal de contas, a testemunha decisiva. É inevitável sorrirmos com o desenrolar dos acontecimentos de que, apesar da ingenuidade do protagonista, já prevíamos o desfecho.

Invisível Herói, de Cristèle Alves Meira - 8/10


Duarte, de 50 anos, tem uma deficiência visual. Anda à procura de Leandro, um imigrante cabo-verdiano desaparecido. Cristèle Alves Meira junta na mesma história, realidade e ficção com uma harmonia quase fantasiosa.

A música domina a Invisível Herói. Duarte canta, dança, apanha sol na praia, conversa com conhecidos e desconhecidos, tudo numa incessante procura por Leandro, o Invisível Herói do título. Por momentos, duvidamos da existência desta personagem que não encontramos, mas há quem o conheça para além de Duarte. Nesta jornada, vemo-nos, de repente, num ambiente totalmente inesperado, quase de sono ou de êxtase. Há alguns planos que ficarão na memória.

Em Caso de Fogo, de Tomás Paula Marques - 7.5/10


A paisagem do Ribatejo ardeu e Chico é assombrado pelo homicídio encapotado de um colega com quem esteve envolvido, ao mesmo tempo que procura integrar-se no grupo de amigos. Tomás Paula Marques cruza o drama dos incêndios e suas consequências com uma história de descoberta da sexualidade e do amor.

Em Caso de Fogo insere-nos num grupo de jovens de uma pequena aldeia, que não parece aberta à diferença. De dia tentam caçar-se perdizes, com pouco sucesso. À noite, as festas populares da terra são ponto de encontro para dançar e seduzir, mas também é aqui que se adensam as frustrações. Uma curta-metragem bem filmada e interpretada.

O Mar Enrola na Areia, de  Catarina Mourão - 7/10


Em O Mar Enrola na Areia, Catarina Mourão conta uma história misteriosa, através de bonitas imagens de arquivo de famílias na praia, num filme experimental mas muito cativante. Contam-nos tudo através de conversas que surgem escritas no ecrã e somos, tal como a narradora, meros expectadores destas curiosidades, às vezes inquietantes, sobre um homem que todos reconhecem mas poucos sabem quem é ou de onde vem.

Era conhecido como Catitinha, que vagueava pelas praias portuguesas nos anos 1950. De barbas brancas e apito, atraia as crianças do areal. Catarina Mourão descobriu quatro segundos de película com ele num filme de família e tenta criar um retrato ficcional deste homem. A par de Catitinha, a praia assume um papel fundamental nesta curta-metragem, num retrato curioso da época balnear no Portugal dos anos 50.

Filomena, de Pedro Cabeleira - 7/10


Pedro Cabeleira traz Filomena ao IndieLisboa, um trabalho simples mas emotivo e cativante, com a arquitectura a assumir lugar de destaque - ou não tivesse o filme sido produzido no âmbito da Trienal de Arquitectura de Lisboa. O trabalho de Leonor Teles na direcção de fotografia merece também destaque. Filomena trabalha como empregada doméstica. Pedro Cabeleira acompanha-a ao longo de um dia, por diferentes espaços em que se cruza com amigos, amante, patrões e desconhecidos. Mas quem é Filomena?

Os dilemas da protagonista - acompanhados por seis obras de arquitectura portuguesa contemporânea - atormentam-nos e a curiosidade acerca dos seus pensamentos vai crescendo, até ao último plano. Emoções arquitectónicas seria uma boa descrição para Filomena, que enquadra bem a narrativa no espaço que a rodeia.

Arriaga, de Welket Bungué - 7/10


Welket Bungué é, para nós, uma das grandes promessas da realização em Portugal. Filma de forma entusiasmante, com planos ao nível de filmes de acção de renome. Arriaga é a curta-metragem que traz ao IndieLisboa'19. Acompanhamos o protagonista, Arriaga, vindo de uma família de emigrantes de classe média, que procura ser aceite pelos jovens do seu bairro. O preço a pagar pelo desejado respeito pode ser mortal. O aviso fica feito quando o amigo Kanja lhe sussurra: "A tua sina é outra".

Tecnicamente, Arriaga deixa-nos rendidos, começando desde logo pelo plano sequência de cerca de cinco minutos que abre o filme. Apesar do ritmo da história se perder após a metade da curta - o argumento torna-se confuso, talvez por derivar de uma websérieVã Alma -  é de destacar o bom trabalho dos actores (Cleo Tavares, Gio Lourenço, Mauro Hermínio...) e da direcção de fotografia de Nuno Casanovas.

Memória e Dicionário, de Paulo Lima - 7/10


Filmado em São Miguel, Pico e Faial, o documentário de Paulo Lima, Memória e Dicionário, leva-nos numa visita às lembranças daqueles que ainda trabalharam e conheceram a indústria baleeira nas ilhas dos Açores. Junto dos antigos baleeiros - quais personagens de Moby Dick -, conhecemos aventuras e perigos que nos relatam, ao mesmo tempo que recordam com saudade a movimentação que havia no porto nos seus tempos áureos. Restam estátuas, que lembram o tempo da caça às baleias e um museu que preserva a memória dos objectos, pessoas, canoas, ossos de baleia, miniaturas de barcos...

A acompanhar o documentário está a força das ondas que galgam a terra e cujo som aterrador nos remete para coragem de quem enfrentou este mar. O que, de forma um tanto irónica, contrasta com a actualidade, em que um centro comercial serve de local para a exposição de uma embarcação baleeira e onde são agora os turistas que anseiam pelo vislumbre de baleias.

Grbavica, de Manel Raga Raga - 6/10


Grbavica, um bairro de Sarajevo, é palco da curta-metragem homónima de Manel Raga Raga, que o filma a preto e branco, sob a direcção de fotografia de André Gil Mata. Uma bola gira sem parar, presa no rio que atravessa o bairro.

Baseado no conto Um Fratricídio, de Franz KafkaGrbavica apresenta-nos a dois homens (assumimos que são irmãos), cuja trágica vida actual se cruza com a infância e se desconstrói no ecrã, através de planos lentos mas de grande sensibilidade que lembram Andrei Tarkovski ou Béla Tarr (o mentor da Film Factory, a escola onde Manel Raga Raga estudou, em Sarajevo). As memórias que o protagonista vê (ou imagina) do outro lado do rio contam-nos o passado. Ou será tudo uma coincidência?

Past Perfect, de Jorge Jácome - 6/10


Jorge Jácome continua a dar asas ao experimentalismo e em Past Perfect divaga sobre presente e passado, perdendo-se na História Mundial e nas emoções. Diz-nos que o passado era melhor que o presente, mas, afinal, qual passado? O realizador leva-nos, através de uma geografia da melancolia, numa série de associações livres que atravessam vários séculos da História. Past Perfect coloca-nos, por fim, a questão: qual o lugar da tristeza?

Certo é que nunca estamos satisfeitos com o momento em que vivemos, mas, ao olhar para trás, será que, se pudéssemos voltar atrás no tempo, conseguiríamos encontrar uma época sem tristeza ou crueldade? Há várias questões que se colocam - quer do lado do realizador, quer do da plateia -, e entre as imagens quase alucinatórias, Jácome deixa espaço para a reflexão.

Os Inúteis, de Rui Esperança - 6/10


Alice decide ir viver para Berlim, e Ema, sua colega de casa, organiza-lhe um jantar de despedida. Em Os InúteisRui Esperança mostra-nos como tudo tem um fim. Apesar de tudo, parece que nenhuma das personagens deste filme está segura quando às decisões que tomou ou está prestes a tomar.

Uma reflexão simples e sincera sobre o efeito das mudanças na vida dos jovens, onde os desencontros são mais comuns do que aparentam. As pessoas afastam-se sem notarem e a solidão e as incertezas são uma constante muito maior.

Heatstroke, de Edgar Morais - 6/10


Em Heatstroke, o calor corre nas veias, dilata corpos cavernosos e as confissões soltam-se da língua. Na sua estreia na realização, o actor Edgar Morais reflecte sobre a desorientação sexual e existencial desta geração.

A expressividade da actriz principal cativa-nos a atenção para a sua conversa desnorteada, confusa e repetitiva. O calor adensa todo o clima de desequilíbrio a que assistimos e também nós vamos duvidar do que estamos a ver. Um trabalho experimental e atrevido, filmado em 16mm e que quer deixar também o espectador desorientado.

Estudos de Muybridge e Etc…, de Júlio F. R. Costa - 5.5/10


Estudos de Muybridge e Etc…, a animação de Júlio F. R. Costa, investiga o movimento a partir da obra do fotógrafo inglês Eadweard Muybridge, com os devidos acrescentos.

Rimas e aliterações, em jogos fonéticos, acompanham a dança das imagens da curta-metragem de animação de Júlio F. R. Costa, entre batalhas, cavalgadas, pássaros, corpos nus e linhas irrequietas. Uma curta, acima de tudo, divertida.

Bela Mandil, de Helena Estrela - 5.5/10


Os amantes caminham de mão dada, à beira mar, como espectros, em Bela Mandil, de Helena Estrela, inspirado numa lenda algarvia sobre um amor proibido que assombra uma vila de pescadores.

A realizadora constrói o filme a partir de textos de Almeida Garrett Luís de Camões e o amor impossível em tempos de conquista e reconquista paira na praia e nas grutas, assombrado pelos sonhos da mulher. Ao mesmo tempo, o tom trágico surge desde o início e é adensado pela teatralidade com que os actores interpretam o texto.

Espectros da Terra, de Clara Pais e Daniel Fawcett - 5/10


Clara Pais Daniel Fawcett filmam em Super8 as paisagens, onde seres místicos proliferam, ao mesmo tempo que se fundem com a Natureza. Estranhos espíritos e criaturas habitam uma misteriosa paisagem de folhagens e ruínas.

As cores, adensadas pela película, tornam o experimental Espectros da Terra um quadro em movimento.

Poder Fantasma, de Afonso Mota - 5/10


Poder Fantasma, de Afonso Mota, coloca em foco a importância do som no Cinema, e põe-nos de ouvidos bem atentos. A procura do som ideal é o mote e o grande objectivo do protagonista. Rafael é director de som e foi incumbido de encontrar um som que falta ao filme em que está a trabalhar. Poder Fantasma, de Afonso Mota, retrata, ao mesmo tempo, Lisboa e a nova geração do cinema português.

O grande ponto forte de Poder Fantasma é exactamente todo o trabalho de som que é feito, num jogo de atenção com o espectador, que passa a ter a mesma responsabilidade que Rafael.

terça-feira, 7 de maio de 2019

IndieLisboa'19: Sacavém (2019)

*6/10*

Sacavém, de Júlio Alves, leva-nos a revisitar 20 anos do cinema de Pedro Costa entre Casa de Lava (1994) e Cavalo Dinheiro (2014), entre registos, fotografias, excertos de filmes e objectos que, só por si, contam uma história.

Na companhia de Pedro Costa, percorremos Casa de Lava, Ossos, No Quarto da Vanda, Juventude em Marcha e Cavalo Dinheiro, através de um conjunto de objectos que se relacionaram com eles. Um caderno, nove fotografias, uma câmara digital, a cópia de um filme em 35 mm e um elevador. 

Alguns comentários de Pedro Costa e muita música (excertos da banda sonora dos filmes, que contrastam com as temáticas algo angustiantes da obra do realizador) juntam-se ao material para ajudar a descobrir a forma de trabalho do realizador e a construção destes cinco filmes. É um conjunto de ideias que se encadeiam e contam histórias interligadas.

Sacavém é um registo interessante mas que não traz nada de realmente novo sobre o cinema de Pedro Costa

O documentário faz parte da Competição Nacional do IndieLisboa'19.

Culturgest - Grande Auditório
07/05/2019 - 22h00
Cinema Ideal
09/05/2019 - 18h00

segunda-feira, 6 de maio de 2019

IndieLisboa'19: Tragam-me a Cabeça de Carmen M. (2019)

*6/10*

Esta Carmen Miranda dos tempos modernos, construída na pessoa de Catarina Wallenstein, questiona o Brasil e faz-nos questionar também. Ela(s), estrangeira(s) no Brasil, leva(m)-nos numa viagem alucinante ao país irmão em Tragam-me a Cabeça de Carmen M., realizado pela actriz portuguesa e por Felipe Bragança. O filme divide-se entre a Competição Nacional e a secção Herói Independente do IndieLisboa'19.

Ana (Catarina Wallenstein), uma actriz portuguesa no Rio de Janeiro, mergulha no actual pesadelo político brasileiro, enquanto se prepara para encarnar o papel da luso-brasileira Carmen Miranda, num misterioso filme que se avizinha. Mas a mitologia colorida da Embaixatriz do Samba choca com o presente cinzento. Um filme que se interroga sobre uma utopia «pan-tropical e futurista», celebrando o «canibalismo cultural» que, nos tempos da ditadura funcionou como forma de resistência. E hoje?


O experimentalismo do filme - que alterna entre o preto e branco e a cor, o presente, e o que aconteceu antes - transmite a loucura do trabalho de actriz, numa procura incessante pela voz de Carmen Miranda, suas origens e modo de pensar, gestos e sorrisos. As mesmas sensações que podemos ter ao analisar o Brasil contemporâneo. Tragam-me a Cabeça de Carmen M. não tem pudores na crítica política que faz. É livre e esperemos que assim o cinema possa continuar.

Tragam-me a Cabeça de Carmen M. constrói-se da inspiração da mulher que trouxe a modernidade ao seu tempo e quebrou convenções. A música é constante, lutemos para que nunca nos calem.

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O filme passou no dia 5 de Maio, no Cinema São Jorge, e volta a ser exibido no dia 7 de Maio, às 22h30, no Cinema Ideal.

domingo, 5 de maio de 2019

IndieLisboa'19: Batida de Lisboa / Lisbon Beat (2019)

*7/10*

Eis que entramos numa viagem sonora pela periferia da capital. Batida de Lisboa, de Rita Maia e Vasco Viana, colocou a Sala Manoel de Oliveira a balançar ao ritmo dos vários géneros musicais de génese africana que têm influenciado gerações.

Neste documentário cheio de ginga, os realizadores dão a conhecer a vida de uma série de músicos que vivem numa cidade com complexas lutas de identidade e que nem sempre lhes dá o devido reconhecimento. Aqui, encontram-se diferentes gerações e origens, de Angola a São Tomé, de Cabo Verde à Guiné Bissau, representadas por antigos músicos de renome e jovens produtores cheios de energia.

O filme dá-nos a conhecer a música que saiu dos bairros sociais ou "bairros de lata" dos arredores de Lisboa e tem chegado, finalmente, ao público mais generalizado e às salas mais "in", seja o MusicBox ou a Galeria Zé dos Bois, por exemplo. Os realizadores apresentam-nos aos mais jovens produtores e músicos, bem como a algumas lendas da música mais tradicional - fiquei rendida a Julinho da concertina, um dos poucos tocadores de funaná tradicional. DJ Marfox, DJ Firmeza, DJ Nervoso, o projecto Celeste Mariposa, Vado Más Ki Ás, são alguns dos muitos músicos que acompanhamos nesta viagem.


Vamos à Quinta do Mocho, em Sacavém, ao Bairro 6 de Maio e Quinta da Lage, na Amadora, ao Bairro da Jamaica, no Seixal, a Queluz e a outros locais bem próximos da capital. Entre demolições, concertos, festas, conversas, vão-nos apresentando o funaná, afro-house, kizomba, kuduro, batuque... 

E como, pessoalmente, passei a minha adolescência rodeada por sonoridades africanas, gostava que Batida de Lisboa ainda se estendesse um pouco mais e tocasse em mais artistas e bairros. Ainda assim, Rita Maia e Vasco Viana cumprem bem o seu papel ao documentar uma realidade musical menos filmada para o cinema, direccionado o seu foco para a música, mas mostrando, ao mesmo tempo, os problemas sociais e estruturais que continuam a rodear os subúrbios.

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O filme passou no dia 4 de Maio, no Cinema São Jorge, e volta a ser exibido no dia 6 de Maio, às 10h30, no Pequeno Auditório da Culturgest.

sábado, 4 de maio de 2019

IndieLisboa'19: Tristeza e Alegria na Vida das Girafas (2019)

*7.5/10* 


Tristeza e Alegria na Vida das Girafas é sobre crescer e sobre a auto-descoberta. Sobre os nossos amigos imaginários da infância e sobre as primeiras aventuras fora do porto seguro que é o lar. Tiago Guedes faz-nos voltar a acreditar e leva-nos de volta à imaginação e inocência que tínhamos aos 10 anos. 

Baseado na peça homónima de Tiago Rodrigues, Tristeza e Alegria na Vida das Girafas acompanha a aventura de uma menina e do seu urso de peluche suicida, chamado Judy Garland, em busca do perdido Discovery Channel. Lisboa é um território mágico, apesar da crise espreitar a cada encontro, e há que saber fugir das panteras negras e pedir ajuda ao primeiro ministro.

Eis um filme tão cómico como trágico, tão ternurento como cruel, numa mistura espirituosa entre o infantil e o maduro. Tiago Guedes e Tiago Rodrigues criam uma obra inesperadamente original e muito rica, uma viagem ao passado, com muita nostalgia.

O urso de peluche mal-criado (esqueçam o Ted, este é muito melhor) é o maior ponto de ligação com o mundo dos adultos e suas frustrações constantes, a tomada de consciência da realidade muitas vezes cruel. Como era bom regressarmos à infância, nem que fosse um dia por semana...


Para o sucesso de Tristeza e Alegria na Vida das Girafas muito contribui o belíssimo desempenho da pequena Maria Abreu, com um à-vontade e desembaraço incomum para a idade - provavelmente, filha de peixes sabe nadar. A protagonista utiliza palavras pouco próprias no vocabulário de uma criança, e é consumidora acérrima de dicionários. Directos do teatro para o ecrã, Miguel Borges é um pai desafiado pela viuvez com uma menina de 10 anos para criar, numa performance emotiva e criativa, quase inesperada; e Tónan Quito, o urso Judy Garland, que clama pela morte entre palavrões, mas é inseparável da sua querida girafa, que o guia por assustadoras aventuras.

Tristeza e Alegria na Vida das Girafas faz parte da Competição Nacional do IndieLisboa'19.

Cinema São Jorge - Sala Manoel de Oliveira
08/05/2019  -  21h30
Cinema São Jorge - Sala 3
10/05/2019  -  14h30

IndieLisboa'19: Miles Davis: Birth Of the Cool (2019)

*7/10*

O documentário Miles Davis: Birth Of the Cool, de Stanley Nelson, faz parte da secção IndieMusic, do IndieLisboa 2019, e revela-se um trabalho competente, com bastante pesquisa sobre o revolucionário trompetista.

O filme segue a carreira do trompetista, líder e inovador. A visão progressista de Miles Davis fiz dele uma inspiração para músicos e um ícone cultural para gerações de ouvintes. Foi inovador, do bebop ao “cool jazz”, quintetos modernos, música orquestral, jazz fusion, rock ‘n roll e hip-hop. Miles Davis: Birth Of the Cool mostra imagens inéditas, outtakes de estúdio e fotos raras.

Um documentário que diz o essencial do que é preciso saber sobre Miles Davis. A partir de entrevistas a muitos dos que com ele se cruzaram ao longo da vida, de registos audio do trompetista, fotos e imagens de arquivo, concertos, etc., assim se constrói o documentário de Stanley Nelson.


É cronologicamente que tudo nos é apresentado, desde o desabrochar da estrela, passado pelas fases mais degradantes e vários renascimentos, sempre à frente no seu tempo e adaptável a vários estilos e formações musicais.

Carl Lumbly lê excertos da autobiografia de Davis, fazendo-nos confidências acerca da vida do músico vaidoso e rebelde. E nós batemos o pé, ao ritmo do seu jazz tão diferente, tão moderno, tão actual e inspirador.

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O filme passou no dia 2 de Maio, no Cinema São Jorge, e volta a ser exibido no dia 12 de Maio, às 21h45, no Pequeno Auditório da Culturgest.

quinta-feira, 2 de maio de 2019

IndieLisboa'19: Campo (2019)

*8/10*


Tiago Hespanha regressa para surpreender. Campo é uma experiência que nos faz questionar o Mundo, e recebemo-lo de olhos bem abertos, sem saber se estamos preparados para todas as imagens e reflexões que vão surgir.

O realizador parte das origens da palavra campo, do latim capere (capturar). Nos arredores da Roma Antiga ficava o Campo de Marte, o terreno onde os soldados treinavam. Hoje, nos arredores de Lisboa, fica a maior base militar da Europa, o Campo de Tiro de Alcochete. Ali, inventam-se missões fictícias, enquanto astrónomos observam estrelas e um rapaz toca piano para veados que espreitam os homens à noite. 

Narrado pelo realizador, Campo mune-se de citações de Carl Sagan, Alberto Caeiro ou Franz Kafka, por exemplo. Com as fronteiras entre realidade e ficção muito diluídas, Campo é uma docuficção, que incorre numa série de analogias e dicotomias. Vida e morte, Natureza, Deuses, Homens e Animais, guerra e paz, que se encontram claramente nas tão diversas actividades que acontecem no campo da acção.

A música do jovem pianista - qual banda sonora de Star Wars - é um dos muitos contrastes que encontramos em Campo, tal como o som dos pássaros, das ovelhas, dos treinos militares, dos tiros, das explosões, ou a tranquilidade da noite enquanto observamos as estrelas e planetas, e divagamos sobre a origem do universo. E é a partir do mito de Prometeu (ou Prometeus), que roubou o fogo aos deuses para dá-lo aos Homens, que Tiago Hespanha nos faz pensar. Eis a superioridade humana sobre animais e Natureza... mas será mesmo assim?


Campo é aliás uma divagação inquietante sobre a origem de tudo, desde a Terra ao engenho, com planos inesquecíveis, onde até sentimos as pedras que saltam após a força de uma explosão. Há planos onde o homem cai do céu, onde rebanhos surgem fantasmagóricos entre o nevoeiro serrado. Mais um excelente trabalho da direcção de fotografia no cinema português. Também o som tem uma função impactante e fulcral para sentirmos Campo na sua plenitude. A montagem faz-nos sonhar e imaginar para lá do que vemos.

Tiago Hespanha cria assim um filme quase existencialista e muito criativo, fazendo com que o espectador tenha um papel muito mais activo do que se espera numa experiência cinematográfica.

Campo faz parte da Competição Nacional do IndieLisboa'19.

Cinema São Jorge - Sala Manoel de Oliveira
03/05/2019  -  21:45
Cinema São Jorge - Sala 3
04/05/2019  -  17:00

terça-feira, 30 de abril de 2019

IndieLisboa'19: Filmes a Não Perder

O IndieLisboa'19 está quase a começar e, para aquecer, o Hoje (vi) um Filme dá-te 20 sugestões de filmes que não deves perder. O festival acontece entre 2 e 12 de Maio.

Campo, de Tiago Hespanha
Competição Nacional

Sessões
Cinema São Jorge - Sala Manoel de Oliveira
03/05/2019  -  21:45
Cinema São Jorge - Sala 3
04/05/2019  -  17:00

Tristeza e Alegria na Vida das Girafas, de Tiago Guedes
Competição Nacional

Sessões
Cinema São Jorge - Sala Manoel de Oliveira
08/05/2019  -  21:30
Cinema São Jorge - Sala 3
10/05/2019  -  14:30

A Casa, a Verdadeira e a Seguinte, Ainda Está por Fazer, de Sílvia das Fadas
Competição Nacional

Sessões
Culturgest - Grande Auditório
06/05/2019  -  19:00
Culturgest - Grande Auditório
10/05/2019  -  19:00

Present.Perfect., de Shengze Zhu
Competição Internacional

Sessões
Culturgest - Grande Auditório
02/05/2019  -  21:30
Cinema São Jorge - Sala 3
04/05/2019  -  14:30

Temporada, de André Novais Oliveira
Competição Internacional, Herói Independente

Sessões
Cinema São Jorge - Sala Manoel de Oliveira
06/05/2019  -  21:45
Cinema Ideal -
08/05/2019  -  20:30

Hotel Império, de Ivo M. Ferreira
Sessões Especiais

Sessões
Culturgest - Grande Auditório
03/05/2019  -  21:30

Synonymes, de Nadav Lapid
Sessões Especiais

Sessões
Culturgest - Grande Auditório
12/05/2019  -  18:00

Sou Autor Do Meu Nome Mia Couto, de Solveig Nordlund
Sessões Especiais

Sessões
Culturgest - Grande Auditório
05/05/2019  -  18:00

3 Faces, de Jafar Panahi
Silvestre

Sessões
Cinema São Jorge - Sala 3
11/05/2019  -  16:15

Burning, de Lee Chang Dong
Silvestre

Sessões
Cinema São Jorge - Sala Manoel de Oliveira
10/05/2019  -  21:45

Tarde para morir joven, de Dominga Sotomayor
Silvestre

Sessões
Culturgest - Pequeno Auditório
02/05/2019  -  21:45
Culturgest - Pequeno Auditório
03/05/2019  -  19:15

“I Do Not Care If We Go Down in History as Barbarians”, de Radu Jude
Silvestre

Sessões
Cinema São Jorge - Sala 3
09/05/2019  -  16:00
Cinema São Jorge - Sala 3
12/05/2019  -  21:30

Coincoin et les Z’inhumains, de Bruno Dumont
Boca do Inferno

Sessões
Cinema São Jorge - Sala Manoel de Oliveira
11/05/2019  -  15:00

In Fabric, de Peter Strickland
Boca do Inferno

Sessões
Cinema Ideal 
04/05/2019  -  23:00
Cinema Ideal 
05/05/2019  -  22:30

Nice Girls Don’t Stay for Breakfast, de Bruce Weber
Director's Cut

Sessões
Cinemateca Portuguesa - Sala Félix Ribeiro
04/05/2019  -  19:00

Divino Amor, de Gabriel Mascaro
Herói Independente

Sessões
Cinema São Jorge - Sala Manoel de Oliveira
11/05/2019  -  19:00

Anna Karina souviens-toi, de Dennis Berry
Director's Cut, Herói Independente

Sessões
Cinemateca Portuguesa - Sala Félix Ribeiro
06/05/2019  -  21:30

Batida de Lisboa, de Rita Maia e Vasco Viana
IndieMusic

Sessões
Cinema São Jorge - Sala Manoel de Oliveira
04/05/2019  -  19:00
Culturgest - Pequeno Auditório
06/05/2019  -  10:30

Miles Davis: Birth Of the Cool, de Stanley Nelson
IndieMusic

Sessões
Cinema São Jorge - Sala 3
02/05/2019  -  21:30
Culturgest - Pequeno Auditório
12/05/2019  -  21:45

Um Punk Chamado Ribas, de Paulo Miguel Antunes
IndieMusic

Sessões
Cinema São Jorge - Sala Manoel de Oliveira
06/05/2019  -  19:00