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domingo, 25 de fevereiro de 2024

Os Melhores do Ano: Top 20 [20.º-11.º] #2023

2024 já vai bem lançado, e é mais que hora de fazer o balanço do ano cinematográfico que terminou. Gostava de ter visto mais filmes e, principalmente, que mais títulos me enchessem as medidas. Ainda assim, aqui está o Top 20 de 2023, com filmes bastante equilibrados, de diversos géneros cinematográficos, digitais e analógicos (e com um Top 10 muito renhido).

Eis o Top 20 de 2023 do Hoje Vi(vi) um Filme, sempre tendo em conta as estreias no circuito comercial de cinema em Portugal ao longo do ano e nas plataformas de streaming. Aqui ficam os meus eleitos, do 20.º ao 11.º lugares.

20.º Oppenheimer (2023), Christopher Nolan

Não há dúvida que Christopher Nolan ama a Sétima Arte e tudo tem feito para proporcionar a melhor experiência possível em sala de cinema, desta vez, ao filmar com câmaras IMAX 65mm e grande formato 65mm e inclui, pela primeira vez, secções rodadas em película de 65mm IMAX a preto e branco, criada propositadamente para este filme. Ao mesmo tempo, os efeitos visuais - incluindo as explosões - são criados recorrendo apenas a efeitos práticos. Oppenheimer começa bem, perde-se ligeiramente pelo meio, até que resplandece quando surge a criação do cientista, e tudo o que daí advém. 


19.º Légua (2023), Filipa Reis e João Miller Guerra

Légua, de Filipa Reis e João Miller Guerra, é uma obra sobre a passagem do tempo, no corpo e no espaço. É a Natureza (também a Humana) no seu estado cinematográfico mais puro. Há uma luz que paira sobre cada passo de Ana. Em comunhão com a Natureza e com os animais, ela transmite paz e tranquilidade, apesar das circunstâncias. Ao filmarem em película, Filipa Reis e João Miller Guerra captam esta dimensão quase metafísica de plenitude e nostalgia, uma dualidade aparentemente impossível que rodeia Légua em cada plano. Eis a magia e a elegia da passagem do tempo.


18.º Missão: Impossível – Ajuste de Contas Parte Um / Mission: Impossible - Dead Reckoning Part One (2023), Christopher McQuarrie

O incansável Tom Cruise - verdadeiro defensor do projecto e do Cinema enquanto experiência em sala - dá, como sempre, tudo de si, quer em frente da câmara, quer no trabalho de bastidores. A trabalhar com Christopher McQuarrie desde Nação Secreta (2015), a dupla tem dotado os filmes de uma forte personalidade e unidade, tornando a saga mais sólida e coerente. Numa verdadeira roda viva de emoções, sequências de acção de tirar o fôlego e as já habituais cenas que desafiam a física ou a lógica, eis que surge a primeira parte de Missão: Impossível – Ajuste de Contas.


17.º Nayola (2022), José Miguel Ribeiro

Nayola percorre três gerações de uma família marcada pelas guerras em Angola. A primeira incursão de José Miguel Ribeiro nas longas-metragens equivale à estreia comercial da primeira longa portuguesa de animação. Com argumento de Virgilio Almeida, a partir da obra de José Eduardo Agualusa e Mia Couto, Nayola é uma história de amor e liberdade, que mostra a crueldade da guerra, e a luta feminina pela sobrevivência, cada uma à sua maneira, na sua época, através de memórias e da sensibilidade mágica do realizador.


16.º Saint Omer (2022), Alice Diop

Em Saint Omer, Alice Diop recria um julgamento e filma os contraditórios sentimentos de compaixão, dúvida e humanidade, perante alguém que cometeu um crime hediondo. A realizadora cria um filme sobre relações, com grande foco na maternidade - Rama está grávida, Coly não soube lidar com o nascimento de uma criança - e na relação entre mães e filhas. Ao mesmo tempo, toca nos problemas da imigração para quem chega a França - as duas mulheres em foco são imigrantes senegalesas -, a integração, o sentimento de pertença e as relações que se estabelecem (ou não) no novo país ou que se mantêm com a cultura do país de origem. 


15.º Aftersun (2022), Charlotte Wells

Aftersun, longa-metragem de estreia de Charlotte Wells, é o diário, melancólico e sensível, da relação entre pai e filha durante umas férias. O filme consegue vaguear entre a visão ingénua da criança e a profunda maturidade do que fica por dizer.


14.º A Voz das Mulheres / Women Talking (2022), Sarah Polley

Em A Voz das Mulheres, Sarah Polley criou um filme sobre o empoderamento feminino contra uma comunidade violenta e patriarcal. É inevitável vê-lo sem lembrar 12 Homens em Fúria, de Sidney Lumet. Só que, neste caso, a decisão de uma vida está nas mãos das Mulheres, as vítimas, reunidas num palheiro. De tranças entrelaçadas ou de mãos dadas, partilham-se dilemas e o medo do desconhecido, mas todas sabem que urge tomar uma decisão. A Voz das Mulheres é todo sobre o futuro e uma intensa lição de união.


13.º Saltburn (2023), Emerald Fennell

Saltburn é um labirinto de perversidade e ambição que resulta numa experiência cinematográfica essencialmente sensorial. O filme é um prodígio visual, seja pelos planos impactantes, como pelo trabalho da direcção de fotografia, potenciado pelo uso da película, captando cores quase irreais e um trabalho de luz e sombras que torna a acção ainda mais tenebrosa e inebriante. Emerald Fennell continua o seu percurso como realizadora com garra, sem medos nem tabus: o futuro só pode ser radioso - e agitado.


12.º Mal Viver (2023) / Viver Mal (2023), João Canijo

Há mulheres que não nasceram para ser mães: ou porque não tiveram o melhor exemplo, ou porque nunca encontraram o instinto maternal, ou porque são egoístas o suficiente para se amarem incansavelmente sem sobrar um pouco de amor para os filhos. Mal Viver e Viver Mal são o retrato destas mães e das suas filhas sem amor, e daqueles que as rodeiam e são, de uma forma ou de outra, contagiados pelo desamor e pela angústia.


11.º Tár (2022), Todd Field

Todd Field constrói um filme opressivo, com uma forte tensão a pairar, seja pelo ritmo frenético da vida de Lydia Tár, pelos boatos que a assombram, pelos fantasmas mais ou menos reais que lhe passeiam pela casa, ou pelas pontas soltas que a maestrina tem deixado ficar no seu passado.


*Mesmo às portas mas sem entrar neste Top 20 de 2023, destaque para os portugueses O Misterioso Caso de Lázaro Lafourcade, de Tiago DurãoCidade Rabat, de Susana NobreÍndia, de Telmo Churro.

domingo, 7 de maio de 2023

Sugestão da Semana #559





Ficha Técnica:
Título Original: Saint Omer
Realizadora: Alice Diop
Elenco: Kayije Kagame, Guslagie Malanda, Atillahan Karagedik, Aurélia Petit, Ege Güner
Género: Drama
Classificação: M/12
Duração: 122 minutos

quinta-feira, 4 de maio de 2023

Estreias da Semana #559

Esta Quinta-feira, chegam aos cinemas portugueses nove novos filmes. Beau Tem MedoGuardiões da Galáxia Vol. 3, Saint Omer e Vadio são algumas das estreias em destaque.

A Estranha Comédia da Vida (2022)
La stranezza
Em 1920, Luigi Pirandello encontra-se na Sicília para a celebração do 80.º aniversário do seu mentor. A curta estadia prolonga-se quando tem de tratar do funeral da sua amada ama. O imprevisto leva-o a conhecer duas figuras singulares, Onofrio Principato e Sebastiano Vella, coveiros que, por acaso, têm uma companhia de teatro amador. Observando o trabalho deste grupo de actores, Pirandello solta a imaginação e é visitado por ideias, fantasias e aparições. Aos poucos, encontra inspiração para a sua obra prima Seis Personagens à Procura de Um Autor.

Beau Tem Medo (2023)
Beau is Afraid
Beau Wassermann (Joaquin Phoenix) vive sozinho num complexo de apartamentos no centro da cidade, onde cada instante é um pesadelo. Propenso à ansiedade e à paranoia, visita o seu terapeuta de longa data (Stephen McKinley Henderson), que o prepara para a viagem iminente que vai fazer para visitar a mãe (Patti LuPone). Mas a confusão instala-se na véspera da partida de Beau, dando à sua vida um rumo surrealista. Incapaz de alcançar o seu destino num mundo enlouquecido, viajando por estradas que não aparecem em nenhum mapa, Beau é levado a confrontar a sua própria vida e as mentiras que lhe foram contadas por aqueles que lhe são mais próximos.

Guardiões da Galáxia Volume 3 (2023)
Guardians of the Galaxy Volume 3
Os Guardiões da Galáxia estão a habituar-se à sua nova vida quando são perturbados por ecos do passado turbulento de Rocket. Peter Quill, ainda a recuperar da perda de Gamora, tem de reunir a equipa em seu redor para uma perigosa missão destinada a salvar a vida de Rocket - uma tarefa que, se não for concluída com sucesso, poderá levar ao fim dos Guardiões tal como os conhecemos.

Mavka: A Alma da Floresta (2023)
Mavka. Lisova pisnya / Mavka: The Forest Song
Desde que há memória, as vastas florestas ucranianas escondem segredos e mistérios inexplicáveis. São a casa de criaturas míticas que habitam entre árvores antigas guardando fielmente o seu reino. Mavka é a Alma da Floresta e foi recentemente escolhida para ser a sua Guardiã. A sua principal missão é proteger a Floresta e o seu coração sagrado - a Fonte da Vida - contra qualquer agressão ou intruso, incluindo os humanos. Lucas, um rapaz simples da aldeia com grande amor pela música e talento para tocar a sua flauta de madeira, sonha dedicar a vida a esta paixão. Mavka e Lucas encontram-se e apaixonam-se. A sua união enfrenta obstáculos, mas o maior de todos surge quando a avarenta Kylina aparece afirmando ser herdeira de uma velha serração nos limites da Floresta e aliciando os aldeões com as riquezas do progresso industrial que ela trouxe do estrangeiro. Isto é apenas um meio para atingir o seu verdadeiro propósito: conseguir o Coração da Floresta para permanecer jovem e bela para sempre. A chave é a própria Mavka, vulnerável pelos seus sentimentos por Lucas. Para chegar a Mavka, Kylina usa Lucas e lança a raiva e o medo nos corações dos aldeões.

Rama, uma romancista na casa dos 30 anos, assiste ao julgamento de Laurence Coly no tribunal de Saint-Omer. É acusada de ter morto a filha de 15 meses ao abandoná-la numa praia no norte de França quando a maré estava a subir. A autora gostaria de criar uma adaptação contemporânea do antigo mito de Medeia a partir desta história, mas nada corre conforme planeado. À medida que o julgamento avança, as palavras da ré e os depoimentos das testemunhas abalam as convicções de Rama e, no final, é a sua própria relação com a maternidade que vê questionada.

Simone - A Viagem do Século (2021)
Simone, le voyage du siècle
A história de vida de Simone Veil através dos acontecimentos centrais do século XX. A sua infância, as batalhas políticas, as tragédias. Um retrato íntimo de uma mulher extraordinária que desafiou e transformou a sua época defendendo uma mensagem humanista ainda hoje relevante.

Têm de Vir Vê-la (2022)
Tenéis que venir a verla
Amigos que perderam o contacto, reencontram-se num concerto em Madrid. Guillermo (Francesco Carril) e Susana (Irene Escolar) imploram a Dani (Vito Sanz) e Elena (Itsaso Arana) que os visitem na sua casa no campo. Seis meses depois, eles fazem a viagem.

André tem 13 anos e vive isolado com o pai numa zona seca e remota do Alentejo, onde o ajuda com o negócio de perfuração de água em vez de ir à escola. Quando o pai desaparece subitamente, André bate à porta da única vizinha por perto, uma jovem mãe chamada Sandra. Nela reside a sua única esperança de encontrar o pai.

Yoon (2021)
Retrato da viagem circular e recorrente de Mbaye Sow, um routier senegalês, num antigo Peugeot 504. Os dois lugares a que chama casa, Portugal e Senegal, são separados por 4 000 km. Numa arriscada e solitária viagem para sul, reveladora de uma complexa rede de relações e zonas cinzentas, o caminho de Mbaye Sow revela-se repleto de (des)encontros, obstáculos e constrangimentos: com as autoridades, com mecânicos e migrantes, com colegas routiers e com os destinatários das bagagens que transporta, com os potenciais compradores dos carros velhos que conduz, com a família.

sexta-feira, 28 de abril de 2023

Crítica: Saint Omer (2022)

*7.5/10*

Em Saint Omer, Alice Diop recria um julgamento e filma os contraditórios sentimentos de compaixão, dúvida e humanidade, perante alguém que cometeu um crime hediondo. 

"Tribunal de Justiça de Saint Omer. A jovem romancista Rama (Kayije Kagame) assiste ao julgamento de Laurence Coly (Guslagie Malanda), uma jovem acusada de matar sua filha de 15 meses ao abandoná-la à maré alta numa praia no norte da França. Mas, à medida que o julgamento avança, as palavras da acusada e os depoimentos das testemunhas abalarão as convicções de Rama e questionarão o nosso próprio julgamento."

Saint Omer inspira-se no caso verídico do julgamento, a que a realizadora assistiu, em 2016, de Fabienne Kabou, uma imigrante senegalesa em França, acusada de matar a sua filha bebé. Na ficção, Rama pretende inspirar-se para um novo romance, adaptando aos tempos modernos o mito de Medeia. Contudo, no decorrer do julgamento, parece rever-se em algumas das vivências de Coly e o resultado poderá não ser tão semelhante ao da tragédia grega.

Alice Diop cria um filme sobre relações, com grande foco na maternidade - Rama está grávida, Coly não soube lidar com o nascimento de uma criança - e na relação entre mães e filhas. Ao mesmo tempo, toca nos problemas da imigração para quem chega a França - as duas mulheres em foco são imigrantes senegalesas -, a integração, o sentimento de pertença e as relações que se estabelecem (ou não) no novo país ou que se mantêm com a cultura do país de origem. 

Mas Saint Omer é também sobre aceitação e saúde mental, sobre desamparo, numa história onde o bem e o mal, o certo e o errado, se confundem, separados por uma linha muito ténue. A plateia será o júri e é para ela que a advogada de defesa de Coly faz as alegações finais, olhos nos olhos com a câmara, perto do final da longa-metragem.

A interpretação de Guslagie Malanda é arrebatadora, numa verdadeira convicção daquilo que defende em torno da sua inocência - sob o seu ponto de vista -, num relato das suas vivências e crenças. Tudo num tom tão frio como sincero - uma dualidade intensa e incómoda.

Habituada ao género documental, a estreia de Diop na ficção traz um realismo que lhe é intrínseco, e sentimentos paradoxais: identificação, compreensão e condenação.