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domingo, 27 de novembro de 2022

Sugestão da Semana #536

Das estreias da passada Quinta-feira, a Sugestão da Semana destaca Crimes do Futuro, o mais recente filme de David Cronenberg, protagonizado por Viggo Mortensen, e com Léa Seydoux, Kristen StewartScott Speedman e o luso-guineense Welket Bungué no elenco. A longa-metragem tem crítica no Hoje Vi(vi) um Filme.



Ficha Técnica:
Título Original: Crimes of the Future
Realizador: David Cronenberg
Elenco: Viggo Mortensen, Léa Seydoux, Kristen Stewart, Scott SpeedmanWelket Bungué, Don McKellar
Género: Drama, Ficção Científica, Terror
Classificação: M/16
Duração: 107 minutos

terça-feira, 15 de novembro de 2022

Crítica: Crimes do Futuro / Crimes of the Future (2022)

“Surgery is the new sex"
Timlin


*7.5/10*

Crimes of the Future é o regresso de David Cronenberg ao estilo que marcou grande parte da sua filmografia: um cinema visceral, onde dor e prazer se misturam. Longe de ser tão chocante como alguns dos seus títulos mais famosos, o filme demonstra como a criatividade do realizador não se esgota, enquanto recupera temas sobre os quais já tem trabalhado.

"Crimes of the Future mergulha num futuro não tão distante onde a humanidade aprende a adaptar-se a ambientes sintéticos. Esta evolução leva o ser humano para lá do seu estado natural, para uma metamorfose, alterando a sua composição biológica. Enquanto alguns abraçam o potencial ilimitado deste transhumanismo, outros tentam policiar o mesmo. Saul Tenser é um apreciado artista que abraçou esta Síndrome de Evolução Acelerada, germinando órgãos novos e inesperados no seu corpo." Ele e a sua parceira, Caprice, fazem da remoção destes órgãos um espectáculo artístico, perante uma plateia maravilhada. No entanto, são muitos os que os vigiam.


A estranheza está de volta ao cinema de David Cronenberg. Num futuro onde tudo é antigo e está em ruínas, os corpos alteram-se e a dor, o prazer e a arte misturam-se para o êxtase das massas, que sempre deliraram com o grotesco. Eis Crimes of the Future, a sua estética singular e personagens tão ambíguas, mas igualmente fascinantes. E no meio de uma biologia tão doente e corrompida, eis que os adeptos do sintético, e até os cépticos, se imiscuem entre os admiradores da componente artística da doença.

O body horror regressa à filmografia de Cronenberg, onde, agora, o prazer é obtido através da combinação da arte e da dor (ausente na maioria dos humanos). E eis que o realizador volta a explorar os corpos e as mais inesperadas formas de prazer.


Esteticamente tudo é antiquado (ruas, casas, corpos, sensações), e nem a tecnologia tem um aspeto moderno, mas sim mecânico, industrial - e, algumas vezes, até monstruoso. O fabuloso trabalho da direcção artística, com uma criatividade imensa, cria um ambiente tão ambíguo que condiz com o enredo, conferindo-lhe ainda maior estranheza. A direcção de fotografia potencia todo o obscurantismo da história, dos cenários e dos actos das personagens, entre sombras, tons escuros e cores vívidas, tudo filmado e iluminado, tal qual uma pintura clássica. 


E por entre a excentricidade de Crimes of the Future, com todas características que têm marcado a carreira de David Cronenberg, pode encontrar-se uma mensagem ecológica (desde o mundo em ruínas, a abundância do plástico, os tumores cada vez mais complexos, uma genética cada vez menos natural, etc.) entre as linhas do argumento. 

No elenco, Viggo Mortensen surge de figura frágil como Saul, atormentado por um corpo em constante mutação, num desempenho tão contido como violento. Destaque ainda para Kristen Stewart, a atraente e algo bizarra burocrata Timlin; e para o luso-guineense Welket Bungué, um polícia misterioso e descrente na evolução "artística" do corpo.


Em Crimes of the Future, David Cronenberg repete a fórmula e continua a dividir o público, entre o choque do visceral e a forma provocadora como recupera os mesmos temas, dotando-os de actualidade, num misto de violência e beleza visual.

domingo, 22 de maio de 2022

Sugestão da Semana #508

Das estreias da passada Quinta-feira, a Sugestão da Semana destaca A Viagem de Pedro, de Laís Bodanzky

A VIAGEM DE PEDRO


Ficha Técnica:
Título Original: Pedro
Realizadora: Laís Bodanzky
Elenco: Cauã Reymond, Victoria Guerra, Rita Wainer, Luise Heyer, Francis Magee, João Lagarto, Luísa Cruz, Isac Graça, Isabél ZuaaWelket Bungué, Celso Frateschi, Gustavo Machado
Género: Biografia, Drama
Classificação: M/14
Duração: 96 minutos

sexta-feira, 22 de janeiro de 2021

KINO 2021: Berlin Alexanderplatz (2020)

*6.5/10*


Em Berlin Alexanderplatz, Burhan Qurbani leva-nos ao submundo de Berlim, num filme que adapta o romance homónimo de Alfred Döblin à actualidade. O drama que os refugiados enfrentam ao chegar à Europa serve de ambiente para uma história de amor e do confronto interior entre o bem e o mal.

O filme apresenta "um refugiado em situação ilegal que, de modo honesto, tenta mudar a sua sorte em Berlim e um criminoso alemão que pretende ser o seu mecenas, mas tem para ele planos mais ambiciosos e também mais arriscados: uma odisseia na luta pela dignidade e pela sobrevivência."


Qurbani traz para o grande ecrã uma das grandes questões do mundo actual, em que Francis (Welket Bungué) é o refugiado que sobrevive após o seu bote se afundar no Mediterrâneo. Em terra firme, pretende reconstruir a sua vida, ter casa e emprego, poder tornar-se um cidadão legal. Mas a oportunidade de dinheiro fácil e a mão (pouco) amiga que Reinhold (Albrecht Schuch) lhe estende leva-o a aceitar uma vida desregrada, de excessos e crime que o põem em risco.

Berlin Alexanderplatz divide-se em vários capítulos, que correspondem às várias fases da vida de Francis, de adaptações, quedas e sucessivas tentativas de seguir o caminho do bem. E entre sonhos, alucinações, festas delirantes e conselhos por ouvir, Francis deixa-se hipnotizar pela maldade cínica e egoísta de Reinhold, com quem cria uma espécie de relação platónica e doentia. A maior viragem narrativa dá-se com o surgimento de Mieze (Jella Haase) - a narradora da longa-metragem - , mais uma personagem que vive à margem da sociedade, mas traz o amor e a esperança à vida do protagonista, fazendo antever, finalmente, um futuro.


Burhan Qurbani cria um visual repleto tons de néon, maioritariamente nocturno, num ambiente decadente, sujo, de luxúria e delírio, lembrando a estética de Nicolas Winding Refn. Nesta dimensão, por vezes quase surreal, acompanha-nos a banda sonora de Dascha Dauenhauer, que adensa todas estas sensações.

Mas sem o talento dos três actores principais, Berlin Alexanderplatz não seria o mesmo filme. Welket Bungué confirma o talento que tem vindo a demonstrar, com presença e carisma, na pele deste anti-herói que transpira emoções. Francis vem revelar ao Mundo como o actor luso-guineense tem tudo para firmar uma grande carreira internacional. Ao seu lado, Albrecht Schuch cria um sociopata quebrado pela inveja, incapaz de suportar a felicidade alheia. Os seus gestos, postura ou expressão facial deixam-nos desconfortáveis e incapazes de prever a perversidade dos seus actos. Já a angelical Jella Haase vem compor o trio "amoroso". De figura frágil mas atitude firme e decidida, a jovem actriz cria Mieze quase como um anjo perdido que vem para salvar Francis.


Se, por um lado, as personagens parecem algo ingénuas nas opções que tomam, é verdade que são também o reflexo de que, por vezes, é preciso cair repetidamente até encontrar a força necessária para voltar a ficar de pé. Berlin Alexanderplatz é o retrato de uma luta incessante por fazer as escolhas certas, num lugar desencantado em que tantos migrantes procuram sonhar.

terça-feira, 15 de dezembro de 2020

Berlin Alexanderplatz abre a 18.ª KINO - Mostra de Cinema de Expressão Alemã

A 18.ª edição da KINO - Mostra de Cinema de Expressão Alemã abre com o filme Berlin Alexanderplatz, de Burhan Qurbani, protagonizado pelo luso-guineense Welket Bungué.

Berlin Alexanderplatz © Stephanie Kulbach

Serão apresentadas 18 longas-metragens oriundas da Alemanha, Áustria, Suíça e Luxemburgo que se destacaram nos festivais internacionais. O filme de abertura Berlin Alexanderplatz faz uma actualização do romance homónimo de Alfred Döblin, já adaptada por Rainer Werner Fassbinder numa série de televisão com o mesmo nome. Agora, "em vez de um ex-presidiário, os espectadores acompanham a descida aos infernos de um refugiado africano numa Berlim dos dias de hoje".

A secção Visões, que inclui obras de realizadores e elencos já consagrados, apresenta o western contemporâneo feminista Flatland, de Jenna Cato Bass, que retrata o empoderamento de três mulheres na África do Sul; My Little Sister (Schwesterlein), da dupla suíça Stéphanie Chuat e Véronique Reymond, que, a partir de uma história de doença terminal, aborda igualmente a abnegação feminina, com um elenco liderado por Nina Hoss e Lars Eidinger; Stroke of Luck (Glück gehabt), de Peter Payer, uma comédia negra que surpreende até o protagonista com uma improvável história de amor; e Cortex, a primeira obra de realização do actore Moritz Bleibtreu, num thriller psicológico inspirado em obras de realizadores de culto.

A secção Perspetivas inclui filmes como No Hard Feelings (Futur Drei), de Faraz Shariat, em que um jovem gay, alemão, filho de exilados iranianos, encontra num casal de irmãos refugiados uma singular afinidade a três; You Tell Me (Sag Du Es Mir), de Michael Fetter Nathansky, que envolve o espectador numa tragicomédia entre vítimas e culpados; ou Cocoon (Kokon), de Leonie Krippendorff, que acompanha uma jovem de 14 anos na descoberta de um admirável mundo novo num verão quente berlinense.

No Hard Feelings © Juenglinge Film

A KINO apresenta ainda uma secção de documentários premiados, na qual se destaca a viagem de Ines Johnson-Spain em Becoming Black onde confronta as suas origens, apercebendo-se das consequências que a negação e preconceito tiveram na sua existência numa RDA que fechou os olhos face a todas as diferenças; e a complexa abordagem multi-dimensional disfarçada de comédia no filme In the Name of Scheherazade or the First Beergarden in Teheran (In the Name of Scheherazade oder der erste Biergarten in Teheran), de Narges Kalhor, sobre a construção de identidade e alteridade - na vida, como artista, e em particular na Alemanha.

A mostra acontece de 21 a 27 de janeiro de 2021, no Cinema São Jorge e na plataforma de streaming Filmin.pt. Mias informações sobre a KINO em https://www.goethe.de/ins/pt/pt/kul/sup/kpo.html.

terça-feira, 22 de setembro de 2020

Crítica: Treino Periférico (2020), de Welket Bungué

*7/10*

Treino Periférico é um filme de Welket Bungué, que, em Agosto, fez parte da Selecção Oficial do 11.º KUGOMA Film Forum Mozambique, onde teve estreia mundial. A curta-metragem continua agora o seu percurso pelos festivais, seguindo-se exibições no Rio de Janeiro, Brasil.


Mais uma vez, o artista reflecte sobre a herança colonial e o seu papel na sociedade nos dias de hoje.

«Dois artistas saem para treinar, não cabem nos padrões do seu bairro, da sua cidade, nem da sua cultura impostora. "Acredito que a vossa descrição tão sensível me remete à capacidade que temos, de nos desenvolvermos para nos mantermos vivos nesse território que nos foi 'devolvido' pelos colonizadores...", palavras do personagem Raça (Bruno Huca) ditas a Coragem (Isabél Zuaa). Este é um filme feito na periferia da "grande Lisboa" e discursa poética e assertivamente sobre ocupação territorial, pós-colonialismo e desigualdade social ainda vigente na cultura portuguesa.»

Treino Periférico tem uma componente muito teatral e performativa, com uma presença assertiva dos actores Bruno Huca e Isabél Zuaa, numa dança entre as palavras e o corpo, nos arredores da grande cidade, em locais isolados no meio da agitação da capital - os aviões são uma constante.

Treina-se o corpo e a mente, com Raça a desafiar Coragem para uma reflexão profunda sobre o papel que devem assumir na sociedade portuguesa, e o lugar que, ainda hoje, lhes parece destinado, contra a sua vontade.

Treino Periférico termina a expressar, exteriorizar e assumir o lugar do corpo no espaço que o rodeia. Raça e Coragem reclamam o direito de pertença daqueles corpos àqueles espaços. O realizador faz-nos o mesmo desafio que Raça lança a Coragem: reflectir, sem preconceitos, e agir.

sábado, 12 de setembro de 2020

MOTELx'20: Melhor Curta de Terror Portuguesa

Na corrida para o Prémio Melhor Curta de Terror Portuguesa / Méliès d'argent do MOTELx 2020 estão 12 curtas-metragens. Há terror para todos os gostos com A Grande Paródia, de André Carvalho; Carnaval Sujo, de José Miguel Moreira; Com Sono, Mas Não Durmo, de Tiago Bastos Nunes; Death on Tape, de Pedro Miguel Costa; O Intruso, de Hugo Pinto; Karaoke Night, de Francisco Lacerda; Loop, de Ricardo M. Leite; Mata, de Fábio Rebelo; Mirror Room, de David Seguro; Petrichor, de Gustavo Silva; Porque Odeias o Teu Irmão?, de Pedro Martins e Inês Marques; e O Silêncio, de Pedro Caldeira e Paulo Graça

O Hoje Vi(vi) um Filme viu as curtas-metragens em competição e deixa-te uma breve análise.

A Grande Paródia, de André Carvalho 
"Um realizador adormece enquanto vê televisão e sonha sobre vender a alma a troco de fama e glória." A Grande Paródia traz-nos um filme a preto e branco, filmado em película de 8mm, onde os sonhos comandam a acção e revelam o quão longe o protagonista pondera ir para alcançar os seus objectivos.

André Carvalho realiza, escreve, produz e é o actor principal neste filme mudo, que joga com ambições recalcadas que os sonhos fazem surgir. O bom trabalho de caracterização e efeitos especiais contribuem para a sensação de horror - e alguns arrepios - com o que vemos no ecrã - e com muito gore à mistura.

Carnaval Sujo, de José Miguel Moreira
"Os namorados Pedro e Inês viajam de Lisboa para assistir ao Carnaval de Ovar. Perdem-se nos pântanos da Ria, onde quase atropelam Teresa, uma criança desaparecida.Teresa foge, e Pedro e Inês procuram-na na laguna, ao mesmo tempo que a protegem de um estranho e perigoso grupo de mascarados que também procura a criança: os Dominós..."

Nem tudo é o que parece, muito menos no Carnaval, será a principal mensagem a reter do filme de José Miguel Moreira, Carnaval Sujo. A curta-metragem mergulha nas tradições do Carnaval de Ovar para criar um ambiente de suspeita constante, sensualidade e descoberta. O título Carnaval Sujo remonta aos anos 50, momento crítico destas festividades, onde os mascarados aproveitavam para cometer crimes.

Com Sono, Mas Não Durmo, de Tiago Bastos Nunes
"Uma viúva que grava os próprios sonhos é incapaz de dormir até que o marido regresse a casa. Uma viagem pela memória daqueles que já partiram e a morte que nem sempre é aceite por aqueles que ficaram." Com Sono, Mas Não Durmo traz-nos uma arrepiante performance de Cucha Carvalheiro, na pele de uma mulher perturbada e que parece não suportar a ideia de que o marido morreu.

Entre a espera infinita, as noites sem dormir, em vigília, a rotina diária que mantém, enlouquecem a protagonista, e Tiago Bastos Nunes sabe como contagiar a plateia com a desorientação, a par do comportamento arrepiante desta viúva.

Death on Tape, de Pedro Miguel Costa
"Frank, um engenhoso guitarrista de metal, determinado em entrar para a história do rock graças a uma inovação capaz de superar o famoso 'live on tape', consegue, para esse fim, atrair Angie, uma sensual bailarina." Death on Tape, de Pedro Miguel Costa, usa a sensualidade e a música para criar um filme de terror.

Da beleza e ingenuidade da protagonista, ao ideal macabro idealizado pelo músico, Death on Tape  é atento ao detalhesabe manter o suspense, alcançando um final pouco previsível.

Karaoke Night, de Francisco Lacerda
"Dois turistas desprezíveis passam a noite num bar de Karaoke, nos Açores, quando dão de caras com uma jovem sedutora a cantar.. Mal sabem eles que a rapariga tem intenções maléficas. Karaoke Night é uma história sobre amizades bizarras e um lembrete para não tomarmos tudo como garantido, a menos que planeie ter a noite da sua vida, literalmente." Karaoke Night marca o regresso do realizador Franscisco Lacerda regressa ao MOTELx, com o dedo de Fernando Alle (Mutant Blast). O humor negro e com muito gore em português não podia faltar à Competição Portuguesa, numa espécie de revenge movie.

Karaoke Night é uma paródia com muito sangue, personagens estereotipadas e seres de outro planeta, tudo acompanhado por uma música de karaoke, num bar dos Açores, em tons néon.

Loop, de Ricardo M. Leite
"O ano é 2113, a humanidade encontra-se no limiar da extinção devido ao avanço tecnológico. Raquel procura encontrar uma solução para o problema recorrendo à inteligência artificial. "Loop", um filme hipnótico que explora uma realidade distópica". E quem disse que Portugal não se pode aventurar na ficção científica? Loop, de Ricardo M. Leite serve de prova que é possível fazê-lo com bastante competência.

Loop demarca-se pelo visual, parte futurista, parte de desolação, num mundo destruído, com a tecnologia e a inteligência artificial a tomar lugar - e um grande foco para a consciência ambiental. Um filme construído entre duas dimensões, com muitos mistérios e um grande trabalho de direcção artística, maquilhagem, guarda-roupa e efeitos especiais e sonoros.

Mata, de Fábio Rebelo
"Um casal perdido na floresta acaba por se encontrar. Mas qual será o preço a pagar por esse reencontro?" Logo desde o título, Mata, de Fábio Rebelo, troca-nos as voltas. Um casal passeia por entre as árvores, mas já não sabe onde está e não tem rede no telemóvel. Estão apenas em contacto um com o outro, até que uma sequência de acontecimentos têm lugar.

O realizador constrói uma narrativa circular e perturbadora, num ambiente isolado e sombrio, propício às histórias de terror. Será melhor estar perdido ou encontrar-se?

Mirror Room, de David Seguro
"Luís é um rapaz que aparenta ser normal, revive constantemente o mesmo sonho interrompido apenas pelo toque ensurdecedor de um telefone antigo. Estes sonhos começam a revelar uma verdade aterrorizante e a consumir aos poucos a vida de Luís." David Seguro apresenta-nos Mirror Room, com uma narrativa onde os sonhos persistentes e repetitivos assombram a existência do jovem protagonista.

Mirror Room joga com o sonho e a realidade, sendo difícil distingui-los, após tantas noites agitadas, tantos desenhos sonâmbulos, tanta tinta preta, tanto sangue. Entre a claustrofobia de um quarto fechado e de pesadelos insistentes, Luís duvida de si e do que acontece em seu redor. Bom trabalho de montagem, ritmado e consistente para o crescendo de tensão da curta-metragem.

O Intruso, de Hugo Pinto
"Uma adaptação moderna do conto The Outsider do escritor americano H.P. Lovecraft. Um misterioso indivíduo que habita sozinho num castelo decide libertar-se em busca de algum contacto humano e de luz." Hugo Pinto cria a sua visão muito própria do conto que adapta, com Cláudia Semedo a dar a cara ao misto de emoções, choque e terror. 

O Intruso é um trabalho muito subjectivo e dinâmico. A protagonista confronta-se consigo própria e com os medos e horrores que a fechavam em si e dentro do castelo, qual fortaleza intransponível. 

O Silêncio, de Pedro Caldeira e Paulo Graça
"O silêncio desenhava as paredes, cobria as mesas, emoldurava os retratos. O silêncio esculpia os volumes, recortava as linhas, aprofundava os espaços. Foi então que se ouviu o grito. A partir do conto Silêncio de Sophia de Mello Breyner". Mais uma adaptação da literatura para o cinema nesta competição de curtas nacionais do MOTELx. Filmado em película de 16mm, a preto e branco, O Silêncio, de Pedro Caldeira e Paulo Graça, convida-nos a entrar no universo psicológico da protagonista.

Um trabalho onde as sombras e os sons ganham especial destaque, bem como os olhares que se cruzam e dizem muito mais do que as palavras. Há segredos, medos e circulo que se fecha.

Petrichor, de Gustavo Silva
"Uma artista pinta as suas inseguranças. Quem ganhará?" A proposta de Gustavo Silva, Petrichor, leva-nos às pinceladas que compõem um quadro, onde várias figuras nos olham sérias e inquisidoras. A pintora cria, mas sente-se ameaçada - ou perseguida - pela sua criação, mas esta persiste, mais não seja acompanhando-a no pedaço de tinta marcado no seu rosto.

A obra de arte ganha uma dimensão mística - um reflexo dos nossos medos - no filme de Gustavo Silva. Um trabalho simples, mas inspirado, com um plano final de arrepiar.

Porque Odeias o Teu Irmão?, de Pedro Martins e Inês Marques
"Clara e Vítor são dois irmãos com uma  relação conturbada, marcada pelo desacordo sobre o rumo a tomar em relação à relíquia da família. A relação será ainda mais  abalada pelo súbito aparecimento de um visitante inesperado chamado Luís." Porque Odeias o Teu Irmão? é um trabalho cheio de substância e detalhes, com leituras históricas que irão além da visualização.

Carla Chambel incorpora uma mulher que vê a sua vida anulada para cuidar da mãe (Carmen Santos) doente e o seu olhar espelha a loucura que dela se tem apoderado. A decoração da casa onde habitam causa arrepios e carrega as memórias de uma família que viveu em Moçambique - uma herança causadora de desavenças familiares. Mas a chegada de um homem (Welket Bungué, revelando grande química no ecrã com Carla Chambel) faz com que o passado de duas famílias se cruzem. Os objectos contam-nos a história que Pedro Martins e Inês Marques tão bem constroem no ecrã. Porque Odeias o Teu Irmão? faz reflectir sobre a herança colonial, com uma história de terror e suspense crescente a lançar subtilmente o debate.

domingo, 30 de agosto de 2020

FUSO 2020: Vencedores

Welket Bungé, Nuno Cera e Kopal Joshy foram os vencedores da Open Call do FUSO 2020.

A 12.ª edição do FUSO - Anual de Videoarte Internacional de Lisboa, que começou no dia 27 de Agosto, numa edição exclusivamente online, anunciou este Domingo os vencedores deste ano.

Metalheart, de Welket Bungué
O júri, presidido por Margarida Chantre (Fundação EDP/MAAT) e composto por Isabel Nogueira, Irit Batsry, Yuri Firmeza e Susana de Sousa Dias como observadora, atribuiu o Prémio Aquisição Fundação EDP/MAAT à obra Metalheart, de Welket Bungué, "pelo despojamento que o mesmo apresenta na sua abordagem visual e sonora, mas também por uma qualidade poética marcadamente crua que o mesmo aporta na sua reflexão ao tema proposto para este ano: ‘Diversidade. Adversidade’".

Hello Tomorrow, de Nuno Cera, recebeu uma Menção Honrosa, "pela narrativa visual intimista e fluída que o vídeo constrói sobre a interrogação do tempo do futuro". O Prémio Incentivo Restart, votado pelo público, foi para Letters to Nowhere, de Kopal Joshy.


Os vídeos vencedores da Open Call, assim como os programas curatoriais, podem ser visualizados no site do FUSO (https://fusovideoarte.com/) até à meia-noite de 6 de Setembro.

segunda-feira, 27 de julho de 2020

Crítica: Jah Intervention / Intervenção Jah (2019)

*7.5/10*


Jah Intervention é uma performance poderosa, numa conjunção entre dança e luta, uma forma de expressão e de manifestação. Contra o racismo e contra a violência.

A curta-metragem realizada por Daniel Santos, e escrita e interpretada por Welket Bungué, tem passado por diversos festivais no mundo inteiro, e conquistou recentemente uma menção honrosa no  Screen.dance Film Festival, na Escócia, e está agora em competição no Moovy Tanzfilmfestival, em Colónia, na Alemanha.

"Intervenção Jah visa uma caminhada simbólica até à exaustão. A intervenção propõe o aquecimento pré-liminar que antecede um combate de titãs num ringue de boxe. A intervenção consiste no movimento do performer intuindo a queda repentina quando afectado por perfurações por balas de armas semi-automáticas. Segundo os resultados divulgados em 2017, pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública, as pessoas negras no Brasil ainda representam mais de metade da população do país. Entre 2005 e 2015 o número de pessoas negras assassinadas aumentou 18% e isso nos tornou também a maior parte das vítimas de homicídio, tendo correspondido a 71% do total de corpos registados." 


A presença de Welket Bungué domina o ecrã, com as desigualdades do Rio de Janeiro como pano de fundo: o Corcovado de um lado, a favela do outro. Eis a grandiosidade de um país desconstruído pela câmara de Daniel Santos e pela interpretação de Welket

A banda sonora envolve-nos ainda mais no manifesto de Jah Intervention, dando ritmo aos movimentos de libertação do actor, onde o olhar directo à câmara coloca também em nós espectadores, a responsabilidade de agir e lutar. É no Brasil, mas podia ser em Portugal, nos Estados Unidos da América ou em outras partes do mundo.

Daniel Santos e Welket Bungué trazem-nos um filme sensorial e profundo, onde o corpo, o olhar e a cidade se cruzam e assumem o comando da acção e das acções.

terça-feira, 16 de junho de 2020

Young South Film Festival: Curtas-metragens de afro-descendentes para ver online até 28 de Junho

O Young South Film Festival está a disponibilizar online, até 28 de Junho, curtas-metragens de realizadores afro-descendentes, com curadoria do artista transdisciplinar guineense-português Welket Bungué.


Entre 15 e 28 de Junho, nas redes sociais do festival algarvio, podem ser vistos filmes de Ana F. Cavalcanti e Julia Zakia (), Katya Aragão (Mina Kiá), Vanessa Fernandes (Tradição e Imaginação), Lolo Arziki (Homestay), Daniel Santos (Intervenção Jahe Yuri Costa (Eleguá).

Durante a preparação de um novo projecto, a organização do Young South Film Festival deparou-se com uma lacuna de realizadores afro-descendentes com trabalho promovido em Portugal. Deste modo, a direcção convidou Welket Bungué a criar "uma curadoria abrangente e desafiadora de seis curtas-metragens de realizadoras e realizadores afro-descendentes", explica Diogo Simão, director do festival.

Bungué quer mostrar "cinema de relevância, cinema de representatividade, cinema composto de uma pluralidade subjectiva que se revê num objectivo comum, global, naquele que é o desejo de contar histórias ímpares baseadas numa subjectividade libertadora", explica. "É fundamentalmente inspirado nessa óptica de expressão através do audiovisual - que é entoado qual antífona gloriosa - a partir da individualidade artística", que convidou os sete realizadores, "para que nos presenteassem com os seus filmes, impressivamente transversais às realidades do continente africano e do território brasileiro", conclui.

Welket Bungué relembra que a justiça e igualdade são valores pelos quais devemos lutar e acrescenta que "esta curadoria é feita em homenagem a Cláudia Simões, a cidadã de origem angolana que foi violentamente agredida por agentes da polícia no concelho da Amadora, em Lisboa, a 19 de Janeiro de 2020. Proponho-vos a possibilidade difícil - mas mais dignificante, - a que compreende a esperança de um mundo melhor, de um mundo mais justo e igualitário. E para isso temos de erradicar o mal que nos corrói, fazendo o que é indispensavelmente o mais acertado, isto é, cuidarmo-nos mais uns aos outros.”

O Young South Film Festival disponibilizará as seis curtas-metragens na sua página de Instagram: https://www.instagram.com/youngsouthfilm. Os realizadores irão falar sobre os seus filmes em Lives nesta rede social, onde os espectadores poderão fazer perguntas para serem respondidas em tempo real.

terça-feira, 9 de junho de 2020

Crítica: Bustagate (2020), de Welket Bungué

*8/10*


Depois de Eu Não Sou Pilatus, Welket Bungué regressa com mais um filme-manifesto, seguindo a linha da curta-metragem sobre a manifestação na Avenida da Liberdade, que se seguiu ao caso de violência policial no Bairro da Jamaica, em Janeiro de 2019 (lê a entrevista que deu ao Hoje Vi(vi) um Filme aqui).

Em 2020, o realizador apresenta-nos Bustagate (começamos logo com um jogo de palavras no título), um filme-activista em homenagem ao jovem Luís Giovani Rodrigues, o estudante cabo-verdiano que morreu em Dezembro de 2019, após ter sido agredido por pelo menos dez homens, em Bragança, e dedicado ao povo português, «aos tradicionalmente "nativos" e aos descendentes do continente africano que nasceram aqui», como explica na sinopse.

Em Bustagate, a violência da colonização volta a estar na origem dos muitos problemas graves de desigualdade social que existem em Portugal. Welket Bungué "faz o recorte de um panorama escandaloso e desajustado de violência e desigualdade social em Portugal. Aqui está um filme-intervenção póstumo ao personagem imaginário aqui chamado Pretugal (personificando o Luís Giovani Rodrigues)", explica o artista.

O realizador inspira-se no caso real de Cláudia Simões (cujas imagens circularam nos vários meios de comunicação e redes sociais), agredida por um polícia na Amadora, em Janeiro de 2020, intercalando estas imagens virais com filmagens nas ruas do Bairro Eugénio Lima, na cidade da Praia, em Cabo Verde, e ainda a vídeo-instalação da intervenção-performance Não, Somos Daqui, com as actrizes Cleo Tavares e Isabél Zuaa.


Desde o sentimento de pertença/não pertença ao país que é nosso mas não nos tem como seus, ou ao país que nos acolhe mas onde há alguém que prefere usar da violência e do preconceito para não nos tratar como iguais, retirando direitos a quem os detém, Bustagate clama a defesa dos que foram e ainda são oprimidos pela brutalidade retrógrada. Clama Liberdade, Igualdade e Justiça.

Um trabalho de denúncia "mais-que-pertinente" no momento actual, em que o mundo se uniu contra o racismo e violência, e sempre fundamental, até que todos os preconceitos e injustiças sejam ultrapassados - em Portugal e no Planeta.

Podes ver a curta-metragem completa aqui:

quarta-feira, 6 de novembro de 2019

Entrevista a Welket Bungué, realizador de Eu não sou Pilatus: "Temos que criar estratégias não somente anti-racistas mas contra racistas"

Welket Bungué é um dos jovens realizadores que tem dado cartas dentro e fora de Portugal. No Doclisboa 2019, foi dele o único filme português na Competição Internacional, Eu não sou Pilatus. A propósito desta curta-metragem, fomos conversar com o artista luso-guineense e assunto não faltou. Falámos de racismo, política, cinema, redes sociais e muito mais. Nada como ler a entrevista, para conhecer melhor o Welket e os seus filmes.

Créditos: Kristin Bethge
Estavas no Rio de Janeiro quando se deu o episódio de violência policial no Bairro da Jamaica - sobre o qual o teu filme, Eu não sou Pilatus, trata. Como reagiste, do outro lado do oceano, ao que se passava em Portugal?
Welket Bungué: Fiquei surpreendido por ver aquelas imagens nas redes sociais, porque já não consumo assiduamente a informação dada pela televisão, vou eu à procura daquilo que me interessa. Isto veio ao meu encontro através de uma prima minha, que tem uma preponderância a ser reactiva nas redes sociais, fazendo lives. Aí, fiquei a saber que tinha havido esta situação de violência policial e fiquei triste por ver que se tratava de uma agressão física a um jovem, mas também à família dele. E, por outro lado, porque aquele bairro, invisibilizado por todos nós, quando é mostrado, é naquelas circunstâncias, pela primeira vez, e qualquer pessoa minimamente atenta percebe que são as diásporas, nomeadamente africanas, que habitam aquele lugar. Senti-me, portanto, na obrigação de desconstruir ou questionar o porquê de aquilo acontecer. A partir daí, tive que guardar o primeiro vídeo e, posteriormente, o segundo.

Eu não sou Pilatus é o teu manifesto. Consideras que seja um filme activista?
Welket Bungué: Sim, Eu não sou Pilatus impõe-se enquanto filme que assume essa demanda activista. É um lugar em que eu não me quero colocar, enquanto artista. Prefiro deixar que as minhas peças se manifestem nesse sentido. Sobretudo, por causa da temática que é retratada no filme, mas, por outro lado, pela técnica, pelo formato do filme enquanto objecto artístico, que vem desconstruir ou questionar alguns paradigmas de concepção, produção, realização e concretização de peças audiovisuais que são consideradas pelos experts como Cinema. Nesse sentido, este filme também traz algum sentido de ruptura e podemos dizer que se apresenta enquanto uma peça que tem essa demanda activista...

Uma palavra um bocadinho forte, talvez, mas...
Welket Bungué: É. (risos)

Que mensagens é que querias passar?
Welket Bungué: As mensagens subjacentes ao filme são principalmente a inconformidade face à violência policial e à desigualdade no quadro do tratamento cívico que é dado à população, que não é só aquela maioritariamente branca, tida como nativa portuguesa. É também uma população composta por minorias étnicas - que já não são os negros africanos, porque não se pode chamar minoria à diáspora africana negra que está aqui em Portugal. Toda esta diversidade cultural que tem chegado do norte de África, por si só, traz um outro tipo de lógica do ponto de vista comunitário, mas também este movimento de cidadãos de proveniência oriental (do Bangladesh, Indianos, Indochineses, Chineses...), que existe e que só conseguimos ter acesso a eles quando vamos às suas lojas, por exemplo, ou quando, a passar por uma rua, sentimos o cheiro da sua gastronomia. É claro que um filme curto não pode abarcar tudo isso, mas apela a uma honestidade cívica, que implica aceitar a diversidade étnico-cultural que o país tem. E visa inocular auditivamente algumas palavras de força que devem ser motrizes para que possamos aceder a essa consciência social e cívica. Sinto que temos que nos confrontar com as nossas diferenças e fazer com que isso seja a paleta de cores que ilustra o nosso país, enquanto um país mais inclusivo e mais conhecedor de si mesmo. Por outro lado, pretendi trazer à luz um filme que não estereotipasse ainda mais um discurso previsível, que poderia, como é o caso, ser proferido por uma pseudo-nacionalista, patriótica, xenófoba, racista. Queria diluir esse discurso, mas que se assumisse essa retórica alienante como sendo um resquício do pensamento colonialista que reside em grande parte dos portugueses. E, para aqueles que podem imiscuir-se da responsabilidade desse discurso dito por esta Júlia do filme, que entendam que, quando o fazem, podem estar a distanciar-se da responsabilidade que nos cabe a todos. É, não só,  repudiar aquilo que estamos a ouvir aquela mulher dizer, mas desnormalizar aquele discurso inconscientemente enraizado em nós. Já os habitantes de lugares precarizados ou marginalizados pela sociedade, como é o caso do Bairro da Jamaica, precisam de se inteirar e perceber onde é que se colocam no meio desta leva. Permitem que sejam tratados assim? Estão mobilizados? Estão informados? Estão organizados para que possam correr atrás daquilo que são os seus direitos enquanto cidadãos portugueses, enquanto cidadãos europeus, enquanto cidadãos africanos a morar na Europa? Há que perceber também como esses lugares estão tão destituídos de direitos e de acessibilidade, ficam ilhados na sua aparente passividade ou conformidade com aquilo que está institucionalizado e estruturalizado pelo sistema vigente.

A respeito disso, na sessão do Doclisboa disseste que muitos dos afrodescendentes que vivem em Portugal não conhecem os seus direitos. Porque achas que tal acontece?
Welket Bungué: Isso acontece porque a máquina mediática, passivamente, contribui para que as coisas assim sejam. Por outro lado, o racismo institucional e estrutural, que está na génese da formação das leis e do modus operandi deste sistema. Não é uma coisa que surja na Modernidade, tem origem no período colonial. As estruturas de poder têm como objectivo dar destaque a determinados perfis da sociedade, a determinados estratos sociais, se virmos isto como uma cadeia hierárquica, os migrantes, os estrangeiros estão no fundo da hierarquia. Todo o processo de legalização é altamente burocratizado para os indivíduos que queiram aceder a esse direito básico, do ponto visto legal, que é a pessoa ter a documentação em dia, ser visto enquanto cidadão, querer que lhe seja permitido o livre-trânsito no lugar onde se encontra. Tudo isso é altamente inacessível, começando pela forma como é explicado e o nível de língua que está associado à descrição de como a pessoa se pode legalizar. Os departamentos fornecem um serviço condicionado do ponto de visto de recursos humanos, insuficientes... O que incentiva a que haja uma negligência e um sentimento de impotência, e faz com que as pessoas - lá está, têm de viver, têm de se manter vivas, quanto mais não seja - tenham então de dar início à clandestinidade, o que implica uma série de receios, quer do ponto de vista de acesso ao direito à saúde, a uma habitação com saneamento básico garantido, a deslocar -se nos transportes públicos ou nos espaços públicos... O que faz com que as pessoas que estejam nessa condição acabem por se aglomerar em lugares onde se sintam mais seguras. São lugares onde encontram outros pares quer estejam na mesma situação ou não, mas que se revejam na mesma etnicidade. Vão sentir-se acolhidos ou reunidos de pessoas com quem podem falar, partilhar angústias e vão sentir-se pertencentes a uma comunidade. O que me fazem chegar de alguns bairros precarizados, que ficam nas margens da cidade de Lisboa, do Porto, dos centros urbanos, são imagens de desumanização, marginalidade e que chegam, sobretudo, quando há uma situação de conflito policial. Sou levado a acreditar que o tipo de fenómeno que ocorre nas áreas periféricas aos centros urbanos acontece porque as pessoas se sentem desamparadas pelo sistema social público. Não é só dizer que os serviços de estrangeiros e fronteiras ou serviço de segurança social português não se esforça para incluir essas pessoas. É preciso repensar como é que a lógica de inclusão é executada e o que está disposta a fazer para que essas pessoas se sintam incluídas e  empoderadas, do ponto de vista da soberania da sua existência e intervenção, socialmente falando.

Créditos: Burhan Qurbani
Cresceste no Alentejo. Sentiste algum estigma?
Welket Bungué: Posso dizer que fui privilegiado no sentido da educação que tive. Como cresci num internato, chamado Casa do Estudante, havia crianças de todas as origens e perfis familiares. Nós criamos ali uma irmandade, circulávamos todos juntos naquela cidade de brandos costumes [Beja]. Aí, não posso dizer que tenha sentido o racismo, no seu aspecto mais grotesco, porque não éramos vistos como branco ou preto, éramos vistos como os miúdos da Casa do Estudante. Havia crianças que tinham sido retiradas às suas famílias porque os pais tinham problemas, judiciais ou não, mas também havia alunos que tinham conseguido entrar porque os pais tinham de se ausentar do país, ou tiveram que abandonar o país subitamente e essas crianças já estavam encaminhadas, do ponto de vista de formação escolar, ou os pais estavam a enfrentar uma situação de divórcio e eram acolhidas pela instituição. Isso moldou muito a minha maneira de observar. Não senti que nos fosse imputado algum tipo de diferenciação. Mas depois, ao voltar para casa, nas férias, primeiro morávamos na Ramada, Odivelas, e foi aí que crescemos até aos 12 anos. Depois mudámos para Camarate. Ambas as localidades correspondem a uma área suburbana, circundante ao centro, o que caracteriza muito esses lugares, pela acessibilidade e pelo estrato social que aí habita. Consoante fui crescendo - e também porque comecei a fazer teatro com 15 anos -, já fui observando esses lugares com alguma crítica, porque percebia que a acessibilidade, o conforto e o trato com as pessoas era diferente daquele que havia em Beja, não só por Beja ser uma outra região do país, mas também por lá estarmos no centro da cidade. Porque, nas zonas periféricas à cidade de Beja, o comportamento das pessoas era muito similar àquele que eu via em quem morava nas zonas periféricas aqui em Lisboa. A partir daí, comecei a interessar-me sobre porque é que as pessoas agiam daquela maneira e quais eram as responsabilidades das autarquias, em relação ao conforto e às condições de vida daquelas pessoas. Fui entendendo que o facto de ter crescido em Beja, numa instituição que tem o apoio do Estado português, fez com que tivesse uma protecção diferente daquela que os jovens que viviam em Odivelas ou Camarate tinham. Isso fazia com que eles tivessem um determinado tipo de comportamento, que as suas carências fossem diferentes das que tive na minha adolescência. Reflecti também sobre a minha estrutura familiar. O meu pai morreu muito cedo, eu tinha 14 anos. Ele viajou muito e formou-se, era Engenheiro Florestal, e quando morreu estava a estudar Direito. Foi um ex-combatente do ultramar, do lado dos portugueses, era uma pessoa instruída, civicamente bem estruturado, também escreveu poesia... O meu pai, as poucas vezes que esteve connosco em vida, porque estava sempre a viajar, deu-nos uma formação, educou-nos. E a minha mãe também, à sua maneira, e o colégio também, à maneira portuguesa. Ao fim e ao cabo, era o que o meu pai pretendia, por isso é que nos mandou para o colégio. Depois de equacionar todas essas informações, olhei para a minha família, a fim de entender o que é ser-se uma família migrante. Quais é que são as lacunas que aquelas pessoas têm, do ponto de vista social? A partir dai, comecei - num sentido de me questionar a mim mesmo e de questionar este sistema do qual fazemos parte - a fazer filmes sobre a realidade social. Este filme surge como uma peça, de um ponto de vista formal, diferente, mas os outros filmes que faço visam justamente tentar encontrar um enquadramento que desconstrua o paradigma dessas comunidades das áreas periféricas da cidade. O facto de eu ter ido para o Brasil contribuiu ainda mais para aprofundar este questionamento. Aí, desloco-me para o lugar de uma pessoa negra, portuguesa, ocidentalizada, que está no Brasil à procura de qualquer coisa. Lugar esse onde a discussão que questiona o lugar do negro brasileiro já está muito mais desenvolvida do que aqui, porque os negros brasileiros ou negras brasileiras compõem mais de 50 por cento daquilo que é o tecido social no Brasil. Aqui em Portugal, como não nos é permitido ter acesso a esses dados estatísticos, não podemos discutir baseando-nos nessa informação.

Sim, fica-se muito ofendido quando se perguntam etnias, mas depois não conseguimos fazer contabilizações de nada...
Welket Bungué: E não há nada mais colonizante que esse aspecto. Não sabendo quantos somos, não sabemos como é que nos podemos organizar e a que aglomerados comunitários é que podemos aceder para tentar estruturar aquilo que são os nossos interesses enquanto comunidade afrodiaspórica a viver aqui. A forma que encontrei para discutir e levar essas problemáticas para fora de Portugal é fazendo cinema e traduzindo os filmes, para que as pessoas lá fora possam ver e entender o que se passa aqui.

Tens mostrado os teus filmes em escolas?
Welket Bungué: Já mostrei, já me investi a sugerir algumas mostras, nomeadamente na junta de freguesia de Camarate, ou noutros lugares inusitados - que não tenham sido projectados para mostrar filmes -, mas depois percebi que isso é algo que surgirá com o tempo e que será solicitado pelos agentes ligados à educação (professores, técnicos sociais...) porque eu sou um artista e trabalho com vários medias. Trabalho com cinema, performance, literatura, e este seria um campo de operacionalidade que me tiraria tempo útil. Os filmes estão a ser feitos, estão a ser submetidos a festivais. Essa malta tem de aparecer, falar comigo e dizer: "Estou a leccionar num determinado lugar e acho que estes filmes teriam cabimento e pertinência para serem apresentados".

Mas algumas pessoas ouvem "cinema português" e fogem a correr...
Welket Bungué: Mas atenção: Isto é um cinema multicultural. Eu tenho influência brasileira, europeia, portuguesa e africana, no sentido lato do termo. O facto de estar na Competição Internacional do Doclisboa reflecte isso, que é um filme que não corresponde ao estigma que existe em relação ao cinema português. Eu pretendo fazer um cinema que se sobreponha à convenção daquilo que é o cinema português, até porque comecei a fazer cinema não acreditando nessa categorização. Fiz os filmes a pensar que deveriam ser mostrados em festivais brasileiros ou de países africanos falantes de língua portuguesa. Acabaram por chegar aqui porque "água mole em pedra dura tanto bate até que fura". Nas primeiras entrevistas que dei, categorizaram-me como cinema negro, que é mais fácil tipificarem a coisa dessa maneira, e não enquanto cinema português - é claro que agora [a imprensa] vai, cada vez mais, assumindo isso. Os meus filmes estiveram a representar Portugal em festivais internacionais - estiveram em Zanzibar, São Tomé e Príncipe, Cabo Verde, em vários festivais brasileiros, onde não havia um único filme português - e eles [imprensa] não foram lá fazer cobertura mediática. Eu já estava preparado para isto, por isso é que expandi o público-alvo e comecei a conceber filmes muitas vezes falados em português do Brasil, porque é mais acessível para os cerca de 205 milhões de habitantes brasileiros, mas também é uma língua inteligível para toda a africanidade que fala português. Naturalmente, o circuito de festivais português tem vindo a ter cada vez mais interesse nestes trabalhos. É uma coisa tipicamente portuguesa: deixar que as coisas ganhem uma reputação, que sejam dignas de apreciação por parte das estruturas internacionais e só depois é que se abraça aqui a coisa.

E voltando um pouco atrás, como surgiu a opção de trabalhares com vídeos que se tornaram virais? E como chegaste ao vídeo da Júlia?
Welket Bungué: O vídeo da Júlia, à semelhança do vídeo passado no Bairro da Jamaica, aparece-me através dessa minha prima muito activa e reaccionária nas redes sociais. Depois de mostrar o vídeo do Bairro da Jamaica, ela incentiva o pessoal a sua rede de amigos do Facebook a ir à manifestação da Avenida da Liberdade. Após a manifestação, este vídeo vai parar às redes, ela vê e, indignada, partilha-o a contar o que se passou. Quando vejo este vídeo, já prevendo que fosse ser censurado ou apagado de um momento para o outro, fiz logo o download. E isso também fortaleceu a minha ideia de criar um filme-manifesto, que viesse trazer ao de cima a minha inconformidade e indignação perante esta situação.


O que te motivou ou inspirou para as distorções do som?
Welket Bungué: Há aqui uma coisa importante: este filme não tem nenhum som acrescentado. Toda a sonoplastia é uma desconstrução que eu faço, acelerando ou relentando as vozes ou os ruídos. Mesmo aquele som sombrio, que parece a voz de um monstro, é a distorção que faço da voz da Júlia. Da mesma maneira que o loop imagético, a repetição das frases, era um aspecto que visava reforçar algumas palavras de força, mas também diluir o discurso individual, para um discurso mais colectivo. O som serviu para desconstruir, apelando ao distanciamento em relação ao discurso e em relação à imagem, para que nos parecesse uma coisa surreal, maquinal, artificial, sintetizada, daquilo que é a voz de origem humana ou, neste caso, de uma mulher branca portuguesa alienada.

E o que é que podemos fazer para mudarmos esta situação e também não sermos Pilatus?
Welket Bungué: Essa deveria ser a questão que nós, individualmente, nos devíamos colocar. Não ser Pilatus significa não nos imiscuirmos da responsabilidade de intervir activamente nesta que é uma ideia de construção de uma portugalidade muticultural. Esta Nova Lisboa, que o Dino D'Santiago canta e eleva, é esta nova Lisboa, este novo portugal que, apesar de estar aqui há muito tempo, deve ser assumido e incorporado pelos seus habitantes. Isso implica que estejam atentos ao que está a acontecer do ponto de vista social. A nova configuração da Assembleia da República é algo que traz um chamativo face à transformação que se vivencia neste momento. Estamos geograficamente posicionados no limite da Europa. Do ponto de vista mítico, Portugal apresenta-se como um país que teve que viajar para alargar os seus horizontes e as suas fronteiras geográficas... Findada essa campanha de usurpação de territórios além fronteiras e consequente retorno ao país, também a visitação desses povos acaba por surgir. Porque é que não há uma formação de cidadania por parte do programa educacional, para que se apaguem todas as falsidades que foram trazidas na idade moderna para Portugal? O regime Salazarista procurou trazer a ideia de um novo mito nacional de lusitanidade que tem de ser desconstruído, para que todos - sobretudo os que vivem nessa ideia de que a colonização foi uma coisa construtiva e benéfica para os povos africanos -, abandonem essa ideia alienante e comecem a ver como é que a História foi e continua a ser reproduzida em Portugal, relativamente ao passado colonial. O filme funciona como uma peça que, quando aprofundado, pretende despertar as pessoas para a responsabilidade que têm no que toca às repercussões do pensamento colonialista, do racismo institucional, do racismo estrutural mas, sobretudo, do racismo culturalista que está vigente no que chamamos agora de nacionalismo ou patriotismo. O racismo culturalista faz com que não aceitemos a diversidade cultural que o país tem e que passemos a investir numa ideia do que é ser-se português nativo, legítimo, sobretudo pela questão a cor, ao contrário de se dizer que se é português pela cultura que se abraçou. Nós temos muitos negros afrodescendentes, que nasceram aqui e já não sabem ser outra coisa que não portugueses e isso é algo que a sociedade e os órgãos de comunicação têm que assumir. Significa diversificarem os pivots dos telejornais, modificarem as pessoas chamadas a exercer o direito opinativo, fazerem com que o júri de instituições que atribuem financiamento a peças artísticas ou filmes não seja simplesmente configurado por pessoas brancas, heteronormativas.

O racismo é crime mas parece que muitos o encaram como se fosse apenas uma questão de opinião. Concordas que a melhor forma de combatê-lo é expondo os comportamentos racistas numa espécie de confrontação?
Welket Bungué: Eu acredito que, fazendo uso das palavras de Grada Kilomba, o racismo não é biológico, ele é discursivo. É justamente no discurso que é proferido ou conscientemente representado que o racismo ganha vida. Temos que criar estratégias não somente anti-racistas mas contra racistas e isso implica fazermos o exercício de perceber quando é que estamos a agir baseando-nos no preconceito racial ou racializante. O que faz com que tomemos determinadas opções que favorecem um perfil? Porque eu acho que o racismo actua, primeiro, em questões de género e depois sim chega às questões da cor. Depois da cor, vai para as questões culturais. Porque o racismo de hoje não é igual ao racismo como nós o entendemos na sua génese. Agora, opera pela questão da cultura, daí eu falar do racismo culturalista, que é dizermos "somos todos portugueses, mas tu não podes ser português porque não tens um nome português, ou porque não sabes qual é a raiz de um cozido à portuguesa, ou porque não te vestes como aquilo que é o código de vestimenta de um português, ou porque não falas a nossa língua com o sotaque que é tido como genuinamente português...". Até aqui não falamos de questões de cor, mas meramente culturais e que são mesquinhices. Só que, perversamente, transformado numa ideia de nacionalismo patriótico, os que não abraçam fervorosamente ou não se revêem, enquanto representação da sua individualidade, nestes parâmetros são convidados, automaticamente, a colocarem-se num lugar onde não se possam rever enquanto portugueses. Para quem não está por dentro, isto pode parecer altamente complexo. Por isso é que nós, no dia-a-dia, quando nos aproximamos de alguém que, pela cor, entendemos que não é branco e que também não é português, mesmo perguntando "de onde é que és?"; e ele responda "sou português, nasci aqui""sim mas és originariamente de onde?", temos que anexar esta questão. E isso é uma forma de exercer racismo e é aí que temos de entender como é que agimos. Porque para muitas pessoas isto não é sintoma de racialização do outro, mas é! Porque nós, à partida, estamos a desconsiderar a possibilidade de que pode haver portugueses negros, amarelos, verdes ou brancos. O exercício é complexo mas passa por nos autoavaliarmos e repensarmos o que é a nossa ideia de ser-se racista. Se conseguirmos percepcionar como é que o racismo opera hoje em dia, iremos entender que, maioritariamente, agimos baseados numa ideia de privilégio ou de supremacia racial em relação aos outros, mas já não tem tanto a ver com a cor e sim com a cultura na qual nos enquadramos.

domingo, 27 de outubro de 2019

Doclisboa'19: Eu Não Sou Pilatus / I'm not Pilatus (2019) + Santikhiri Sonata (2019)

Sessão dupla de dois filmes da Competição Internacional do Doclisboa'19, um português, outro uma co-produção da Tailândia e Alemanha. Os dois com um tema em comum: os problemas vividos pelas minorias étnicas (violência, racismo...) que o mundo continua a enfrentar, seja no oriente ou no ocidente. Cada um à sua maneira, Eu Não Sou Pilatus, de Welket Bungué, e Santikhiri Sonata, de Thunska Pansittivorakul, são dois alertas aos países de origem: o primeiro em forma de manifesto, o segundo como uma carta de amor.


Eu não sou Pilatus, de Welket Bungué - 7.5/10

Foi à distância que o realizador Welket Bungué reagiu aos polémicos acontecimentos no Bairro da Jamaica e posterior manifestação em Lisboa, no início de 2019. Estava no Rio de Janeiro e sentiu-se na obrigação de intervir, de "não ser Pilatus". Eis que surge um Manifesto em forma de curta-metragem, que utiliza dois vídeos virais nas redes sociais, transformando-os para passar a sua mensagem e ponto de vista.

Contrapondo o vídeo filmado por moradores do Bairro da Jamaica - que mostra agressões de polícias a populares - a um outro, filmado por uma mulher que se apresenta como "Júlia", onde relata o seu ponto de vista desinformado e racista da manifestação na Avenida da Liberdade, Welket Bungué cria um filme reaccionário, num grande constaste entre duas perspectivas tão distintas. O realizador trabalho sobre as palavras daquela mulher.

O título subversivo é apenas mais uma ferramenta que alerta para o perigo que a sociedade corre.
"É preciso confrontarmo-nos", afirmou o realizador na sessão. E se, como refere a sinopse de Eu Não Sou Pilatus, "este é o Estado em que nos tornámos. No entanto, queremos que os direitos civis sejam respeitados, mas continuamos a manifestar uma espécie de sentimento pelo outro aparentemente inusitado e distante, um racismo endémico, purgante e distanciador", é preciso resistir e lutar para que o estado das coisas mude para melhor.




Santikhiri Sonata, de Thunska Pansittivorakul - 7.5/10

Dividido em três partes, Santikhiri Sonata foi rodado na zona que dá título ao filme, Santikhiri, que significa “a colina da paz”. E é esta paz que o realizador Thunska Pansittivorakul parece apregoar nesta "carta de amor", um tanto cheia de mágoa, ao seu país. 

A música é uma constante - ou não fosse uma sonata - e, entre conversas e actuações de dois rapazes de origens distintas, vemos imagens de arquivo, provocadoras e impactantes, parte da História censurada. Discutem-se origens e dificuldades de obter nacionalidade tailandesa mesmo para os que lá nasceram, fala-se do exército, de sonhos, de sair do país.

Após a chegada ao poder do governo do general Prem, nos anos 1980, foi tudo – drogas, comunismo, corrupção, tráfico humano e pessoas apátridas – suprimido por completo, para promover a ordem e a paz. “Quando era miúdo, a TV estava cheia de propaganda, inculcando na cabeça das pessoas que o governo militar protegia o país de várias ameaças. A ilusão e o orgulho inabaláveis no facto de o país nunca ter sido colonizado moldaram com sucesso o nosso nacionalismo cego.”, conta o realizador. 

Santikhiri Sonata é violento e poético e, principalmente, muito político. Desmascara o que quiseram apagar da História, e cria uma espécie de alegoria em redor da tragédia.