Mostrar mensagens com a etiqueta Oscars 2020. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Oscars 2020. Mostrar todas as mensagens

sábado, 22 de fevereiro de 2020

Crítica: The Cave (2019)

"As a doctor, I've witnesses so many tragedies, so much suffering. So many lies. It made us search for a way to survive."
Amani Ballour


*8/10*

No meio da guerra na Síria estão muitos rostos que vivem para salvar os seus semelhantes e ajudar quem mais precisa. Representam o lado que apenas quer a Paz. O lado da revolta, atacado por todas as frentes. Produzido pela National Geographic, The Cave esteve nomeado para o Oscar de Melhor Documentário.

Filmado entre 2016 e 2018, num cenário de bombardeamentos e ataques constantes, durante a guerra civil na Síria, The Cave retrata o dia-a-dia de uma equipa médica liderada pela Dra. Amani Ballour, que faz de tudo para salvar milhares de vidas debaixo da cidade, num hospital subterrâneo.

Medo e sustos são constantes e, por muitos meses que passem, o som das bombas continua a atormentar quem ali trabalha, mesmo que já faça parte da rotina. Feras Fayyad filma a verdadeira vocação e dedicação. Médicos e enfermeiros que não arredam pé daquele hospital debaixo de fogo, eles resistem e nunca se darão por vencidos.


A câmara percorre o cenário de destruição que rodeia o hospital, acompanha a médica em visitas a crianças doentes a casas de famílias numerosas, mas sem condições, e foge em passo de corrida para o interior do hospital quando os aviões se aproximam e o bombardeamento começa. The Cave está longe de ser um filme fácil, mas revela-se necessário. É preciso denunciar e resistir.

Entre o quotidiano do hospital, os piores dias mostram-nos uma realidade aterradora e difícil de confrontar. Crianças, mulheres e homens civis choram, bem como o pessoal médico. Vêem-se casos violentos, mortes prematuras. A morte é mesmo uma constante, mas as vidas que se salvam valem muito mais. São sinónimo de vitória. E, no meio de tanta dor, há também momentos de alegria.

Os recursos são muito limitados, a anestesia é a música que o Dr. Salim Namour põe a tocar no telemóvel enquanto opera, para tranquilizar os seus pacientes. Falta comida, por vezes a luz, e falta também pararem de bombardear o hospital.


The Cave mostra também o papel da mulher naquela sociedade ainda tão sexista e machista. Amani defende a sua visão. Para ela, todas as mulheres deveriam poder trabalhar, pois são úteis e poderiam ajudar muita gente - mais ainda em tempos de guerra. Amani celebra o seu 30.º aniversário naquele hospital e, mesmo perante a preocupação dos pais, sabe que o seu dever é estar onde está. O perigo que corre não a faz recuar. Fraqueja apenas aos ver a dor e desolação dos que a rodeiam e que não pode remediar.

Feras Fayyad trouxe-nos um filme pesado, forte, que retrata com crueza a desolação, mas com muita ternura a entrega e o amor incondicional dos profissionais à sua causa.

terça-feira, 11 de fevereiro de 2020

Oscars 2020: Red Carpet

Depois dos prémios, analisamos os nossos favoritos da passadeira vermelha dos Oscars 2020. Eis os dez modelos que mais gostei, com predominância de tons claros e verdes - e a excepção de um vestido preto.


LAURA DERN foi receber o seu Oscar de Melhor Actriz Secundária com um belo modelo Emporio Armani, rosa suave, com um decote preto bordado. Cabelo e maquilhagens discretos deram o toque final de elegância à actriz de Marriage Story e Mulhezinhas.



A actriz de Jojo Rabbit, REBEL WILSON, desfilou na passadeira vermelha com um visual muito clássico e elegante, num vestido dourado Jason Wu e uma gargantilha Pomellato.



Elegante e feminina, SIGOURNEY WEAVER estava deslumbrante num vestido verde Christian Dior e uma clutch a condizer. Até o Alien ficaria encantado.



Mulherzinhas levou para casa o Oscar para Melhor Guarda-roupa, e a realizadora GRETA GERWIG fez jus ao prémio que o seu filme recebeu, com um vestido verde seco Dior e um colar Bulgari. Simples e elegante.



RENÉE ZELLWEGER venceu o Oscar de Melhor Actriz pela sua interpretação no filme Judy, e desfilou num belíssimo vestido branco assimétrico Armani Prive. Uma das mais elegantes da noite.



Aos 64 anos, GEENA DAVIS surgiu estonteante na red carpet dos Oscars. O vestido preto Romona Keveža, de decote em V e saia fluída com bolsos e brilho, assentou-lhe que nem uma luva. As jóias eram da Chopard. Sem dúvida, uma das mais bonitas da noite.



BRIE LARSON optou por um vestido Celine com capa, em tons rosa pastel com algum brilho, decote profundo, e abertura lateral na saia. Cabelo, jóias e sapatos a condizer proporcionaram um dos looks mais elegantes da noite.



Aos 22 anos, a actriz e manequim argentina CAMILA MORRONE, namorada de Leonardo DiCaprio, surgiu na passadeira vermelha dos Oscars com um look simples mas que não passou despercebido. O vestido Carolina Herrera, cai-cai rosa nude, destacou a sua jovialidade e beleza.  



Duplamente nomeada, SCARLETT JOHANSSON não conquistou nenhum Oscar mas marcou a passadeira vermelha com a sua beleza. Desfilou num vestido Oscar de la Renta em tons prata, que marcava a sua figura, e um decote original. O penteado deu-lhe ainda uma grande jovialidade.



Todos os olhares se viraram para JANELLE MONÁE quando chegou. O seu vestido prateado com capuz Ralph Lauren assentava-lhe na perfeição, e os quase 170 mil cristais bordados deram nas vistas. Exagerado ou não, certo é que o visual é estonteante e a cantora e actriz foi inesquecível na red carpet.

segunda-feira, 10 de fevereiro de 2020

Oscars 2020: Resumo

A 92.ª edição dos Oscars deve ter sido a mais aborrecida de sempre, com apresentadores de apresentadores de prémios, números musicais ou vídeos, mas foi também aquela que mais marcou a História dos prémios da Academia de Hollywood nos últimos tempos. Foi a primeira vez, em 92 anos, que um filme internacional ganhou o Oscar de Melhor Filme.

O eleito foi o sul-coreano Parasitas, de Bong Joon-ho, que conquistou quatro Oscars: Melhor Filme, Melhor Realizador, Melhor Filme Estrangeiro e Melhor Argumento Original.

Eis que, quando se fala tanto de inclusão, foram asiáticos os grandes vencedores da noite, com uma longa-metragem de qualidade acima da média a ser a escolhida pelos membros da Academia. Esta foi a maior surpresa em muitos anos e, em comparação com a previsibilidade das últimas cerimónias, um momento de grande emoção.

Nas interpretações, tudo dentro do esperado, com discursos relativamente moderados dos vencedores: Laura Dern a destacar o papel dos seus heróis, os pais, Bruce Dern e Diane Ladd; Renée Zellweger recordou Judy Garland e o facto da actriz nunca ter vencido um Oscar (foi apenas nomeada para dois, em 1955 e 1962). Mais emotivos (e muito ligeiramente politizados) foram os discursos dos vencedores masculinos, Brad Pitt e Joaquin Phoenix. Pitt mencionou John Bolton, o ex-conselheiro de Segurança Nacional dos Estados Unidos que não foi ouvido no processo de destituição de Donald Trump; e Phoenix continuou a lembrar as suas causas - como tem feito nos discursos de agradecimento, durante esta awards season - e a lutar contra a injustiça.

Nas restantes categorias, nada de muito surpreendente. De destacar, a confirmação da compositora islandesa Hildur Guðnadóttir como vencedora do Oscar para Melhor Banda Sonora, numa categoria maioritariamente masculina.

Ao longo da cerimónia, Eminem surgiu sem ninguém esperar - foi o convidado surpresa da noite - e acordou uma plateia adormecida, quer no Dolby Theatre, quer em frente às televisões, um pouco por todo o mundo. Cantou Lose Yourself, do filme 8 Mile, que ganhou o Oscar de Melhor Canção em 2003. Apesar do ar confuso dos presentes, o artista foi aplaudido de pé e foi, sem dúvida, um dos melhores momentos de uma cerimónia para lá de aborrecida. O desfecho, contudo, compensou todas as horas de tédio. Por aqui, fomos dormir satisfeitos!


Podes recordar todos os vencedores da noite aqui.

Oscars 2020: Vencedores

A 92.ª cerimónia dos Oscars aconteceu na noite deste Domingo, 9 de Fevereiro, no Dolby Theatre, em Los Angeles. Estivemos a actualizar os vencedores em tempo real.

Parasitas foi o grande premiado da noite, com quatro estatuetas, incluindo Melhor Realizador e Melhor Filme, e fez História.


Aqui fica a lista completa de vencedores:

Melhor Filme
Ford v Ferrari
The Irishman
Jojo Rabbit
Joker
Little Women
Marriage Story
1917
Once Upon a Time... in Hollywood
Parasite

Melhor Actor
Antonio Banderas (Pain and Glory)
Leonardo DiCaprio (Once Upon a Time in Hollywood)
Adam Driver (Marriage Story)
Joaquin Phoenix (Joker)
Jonathan Pryce (The Two Popes)

Melhor Actriz
Cynthia Erivo (Harriet)
Scarlett Johansson (Marriage Story)
Saoirse Ronan (Little Women)
Charlize Theron (Bombshell)
Renee Zellweger (Judy)

Melhor Actor Secundário
Tom Hanks (A Beautiful Day in the Neighborhood)
Anthony Hopkins (The Two Popes)
Al Pacino (The Irishman)
Joe Pesci (The Irishman)
Brad Pitt (Once Upon a Time... in Hollywood)

Melhor Actriz Secundária 
Kathy Bates (Richard Jewell)
Laura Dern (Marriage Story)
Scarlett Johansson (Jojo Rabbit)
Florence Pugh (Little Women)
Margot Robbie (Bombshell)

Melhor Realizador
Martin Scorsese, The Irishman
Todd Phillips, Joker
Sam Mendes, 1917
Quentin Tarantino, Once Upon a Time in Hollywood
Bong Joon Ho, Parasite

Melhor Argumento Original
Knives Out, Rian Johnson
Marriage Story, Noah Baumbach
1917, Sam Mendes, Krysty Wilson-Cairns
Once Upon a Time in Hollywood, Quentin Tarantino
Parasite, Bong Joon-ho, Jin Won Han

Melhor Argumento Adaptado
The Irishman, Steven Zaillian
Jojo Rabbit, Taika Waititi
Joker, Todd Phillips, Scott Silver
Little Women, Greta Gerwig
The Two Popes, Anthony McCarten

Melhor Filme de Animação
How to Train Your Dragon: The Hidden World, Dean DeBlois
I Lost My Body, Jeremy Clapin
Klaus, Sergio Pablos
Missing Link, Chris Butler
Toy Story 4, Josh Cooley

Melhor Filme Estrangeiro
Corpus Christi (Polónia)
Honeyland (Macedónia do Norte)
Les Miserables (França)
Pain and Glory (Espanha)
Parasite (Coreia do Sul)

Melhor Fotografia
The Irishman, Rodrigo Prieto
Joker, Lawrence Sher
The Lighthouse, Jarin Blaschke
1917, Roger Deakins
Once Upon a Time in Hollywood, Robert Richardson

Melhor Montagem
Ford v Ferrari, Andrew Buckland & Michael McCusker
The Irishman, Thelma Schoonmaker
Jojo Rabbit, Tom Eagles
Joker, Jeff Groth
Parasite, Jinmo Yang

Melhor Design de Produção
The Irishman, Bob Shaw, Regina Graves
Jojo Rabbit, Ra Vincent, Nora Sopkova
1917, Dennis Gassner, Lee Sandales
Once Upon a Time in Hollywood, Barbara Ling, Nancy Haigh
Parasite, Lee Ha-Jun and Cho Won Woo, Han Ga Ram, Cho Hee

Melhor Guarda-Roupa
The Irishman, Sandy Powell, Christopher Peterson
Jojo Rabbit, Mayes C. Rubeo
Joker, Mark Bridges
Little Women, Jacqueline Durran
Once Upon a Time in Hollywood, Arianne Phillips

Melhor Caracterização
Bombshell, Kazu Hiro, Anne Morgan, Vivian Baker
Joker, Nicki Ledermann, Kay Georgiou
Judy, Jeremy Woodhead
Maleficent: Mistress of Evil, Paul Gooch, Arjen Tuiten, David White
1917, Naomi Donne, Tristan Versluis, Rebecca Cole

Melhor Banda Sonora Original
Joker, Hildur Guðnadóttir
Little Women, Alexandre Desplat
Marriage Story, Randy Newman
1917, Thomas Newman
Star Wars: The Rise of Skywalker, John Williams

Melhor Canção Original
I Can't Let You Throw Yourself Away (Toy Story 4) — Randy Newman
(I'm Gonna) Love Me Again (Rocketman) — Elton John & Bernie Taupin
I'm Standing With You (Breakthrough) — Diane Warren
Into the Unknown (Frozen 2) — Robert Lopez & Kristen Anderson-Lopez
Stand Up (Harriet) — Joshuah Brian Campbell & Cynthia Erivo

Melhores Efeitos Sonoros
Ad Astra, Gary Rydstrom, Tom Johnson, Mark Ulano
Ford v Ferrari, Paul Massey, David Giammarco, Steven A. Morrow
Joker, Tom Ozanich, Dean Zupancic, Tod Maitland
1917, Mark Taylor, Stuart Wilson
Once upon a Time...in Hollywood, Michael Minkler, Christian P. Minkler, Mark Ulano

Melhor Montagem de Som
Ford v Ferrari, Donald Sylvester
Joker, Alan Robert Murray
1917, Oliver Tarney, Rachael Tate
Once upon a Time...in Hollywood, Wylie Stateman
Star Wars: The Rise of Skywalker, Matthew Wood, David Acord

Melhores Efeitos Visuais
Avengers: Endgame, Dan DeLeeuw, Russell Earl, Matt Aitken, Dan Sudick
The Irishman, Pablo Helman, Leandro Estebecorena, Nelson Sepulveda-Fauser, Stephane Grabli
The Lion King, Robert Legato, Adam Valdez, Andrew R. Jones, Elliot Newman
1917, Guillaume Rocheron, Greg Butler, Dominic Tuohy
Star Wars: The Rise of Skywalker, Roger Guyett, Neal Scanlan, Patrick Tubach, Dominic Tuohy

Melhor Documentário
American Factory, Julia Rieichert, Steven Bognar
The Cave, Feras Fayyad
The Edge of Democracy, Petra Costa
For Sama, Waad Al-Kateab, Edward Watts
Honeyland, Tamara Kotevska, Ljubo Stefanov


Melhor Curta Documental
In the Absence, Yi Seung-Jun, Gary Byung-Seok Kam
Learning to Skateboard in a Warzone (If You're a Girl), Carol Dysinger, Elena Andreicheva
Life Overtakes Me, John Haptas, Kristine Samuelson
St. Louis Superman, Smriti Mundhra, Sami Khan
Walk Run Cha-Cha, Laura Nix, Colette Sandstedt

Melhor Curta de Animação
Dcera, Daria Kashcheeva
Hair Love, Matthew A. Cherry
Kitbull, Rosana Sullivan
Memorable, Bruno Collet
Sister, Siqi Song

Melhor Curta
Brotherhood, Meryam Joobeur, Maria Gracia Turgeon
Nefta Football Club, Yves Piat, Damien Megherbi
The Neighbors' Window, Marshall Curry
Saria, Bryan Buckley, Matt Lefebvre
A Sister, Delphine Girard


* artigo actualizado pela última vez às 04h35 de 10 de Fevereiro de 2020.

domingo, 9 de fevereiro de 2020

Oscars 2020: Melhor Filme

A cerimónia dos Oscars 2020 acontece hoje, 9 de Fevereiro, e nada melhor do que uma breve análise aos nomeados. São nove os candidatos na corrida para Melhor Filme, sete deles com muita qualidade, outro com grandiosidade técnica e poucas emoções e, por último, um filme que nem nomeado deveria ter sido. Mas é tudo uma questão de opinião. Aí ficam os nomeados, por ordem de preferência.


É o meu favorito dos nomeados, não tenho vergonha de admitir. Não foi por acaso que venceu o Leão de Ouro no Festival Internacional de Cinema de Veneza. Haja coragem e talento para agarrar numa personagem destas e dar-lhe um background digno, que a justifique enquanto pessoa que podia bem ser real e não apenas ficção. Joker é uma alegoria ao mundo moderno: individualista, mordaz, que vive de aparências. Esqueçam os heróis. Em Joker, só há vilões, com e sem máscara de palhaço. Há uma agonia permanente desde o primeiro plano do filme de Todd Phillips. A angústia por ver ao que tudo chegou, por perceber como a sociedade trata os mais frágeis, com ausência de justiça ou lei; mas principalmente, por encontrarmos tantas semelhanças com o actual Mundo real. 


Espero, sinceramente, que Parasitas consiga vencer o grande prémio da noite, mas a competição é forte. A luta de classes evidencia-se com o humor negro a cumprir um papel essencial no decorrer dos acontecimentos. Enquanto os ricos precisam dos pobres para servi-los, os pobres precisam desse trabalho para sobreviver e, enquanto isso, os Kim sonham com uma vida melhor, em sair da cave, com poucas condições, onde têm vivido. Mas quando tudo se começa a desmoronar, uma desgraça nunca vem só. Parasitas traz consigo uma dura crítica social, um incómodo latente, especialmente cruel. Os momentos de humor disfarçam a culpa que a plateia carrega por não conseguir escolher um lado. Todos têm sonhos e todos querem sobreviver.


Clássica e feminina, Greta Gerwig emancipou-se a par das suas Mulherzinhas, numa adaptação cinematográfica especialmente bem concretizada. Os papéis importantes estão nesta história destinados às mulheres - ao contrário do que ainda hoje continua a acontecer na sociedade real -, as personagens masculinas dependem de uma maneira ou de outra destas mulheres para viverem ou serem felizes. Esta constatação é irónica, mais ainda quando todas as personagens femininas têm um carácter muito mais forte e complexo que os homens. Alcott fê-lo há quase dois séculos, Gerwig reafirma-o, mostrando uma imensa maturidade e respeito pela obra que adapta, afirmando-se como uma das grandes realizadoras da actualidade.


Martin Scorsese é um mestre a contar histórias e adora um bom enredo de mafiosos. Agora na terceira idade, juntou os seus bons rapazes e outros tantos compinchas e fez um filme à medida da sua experiência: tão genial como comedido. Mudam-se os tempos, não se mudam os costumes nem o espírito. Há apenas mais ponderação. O Irlandês é  um filme sobre escolhas e solidão. E sobre uma vida passada com a morte sempre por perto.


Le Mans '66: O Duelo é mais uma homenagem a Ken Miles, mas acompanha com adrenalina e emoção a competitividade feroz entre Ford e Ferrari. James Mangold consegue humanizar os desportos motorizados e, inesperadamente, fá-los mexer com os sentimentos da plateia.O realizador faz a acção fluir com entusiasmo, num trabalho técnico impressionante e dois protagonistas de peso: Matt Damon e Christian Bale - num grande desempenho, que muito dignifica o piloto.


Quentin Tarantino gosta de fazer justiça pelas próprias mãos, isso já sabemos - e gostamos. Em Era Uma Vez... Em Hollywood, o realizador baseia-se pela primeira vez em acontecimentos reais para criar a sua história, num tributo a uma época menos dourada de Hollywood.  Misturando personagens reais a fictícias, o cineasta cria a sua versão da História do ano 1969. Sentimos que este nono filme de Tarantino quer ser mais um retrato de uma época, do que um marco da criatividade do seu criador.


Marriage Story, de Noah Baumbach, respira teatro por todos os poros; é filmado como se estivéssemos a ver os actores moverem-se num palco... A temática pesada é apresentada com leveza, proporcionada pelo humor, contrabalançada por diálogos intensos e emotivos - com grande trabalho dos protagonistas -, com muitas das marcas a que o realizador já nos habituou na sua filmografia. Fica a sensação que Marriage Story resultaria estrondosamente bem numa adaptação teatral, mais do que cinematográfica.

1917 estará longe de marcar a História dos filmes de guerra. É muito "style over substance", mas não desdenhemos do trabalho de Sam Mendes e Roger Deakins: 1917 é tecnicamente exímio, só não chega para ganhar a batalha.

Taika Waititi tenta ser espirituoso, com um humor leve - muitas vezes repetitivo -, e consegue despertar algumas gargalhadas, mas o tom do filme é inconstante e sem foco. Não transmite nada de verdadeiramente único ao espectador, não espicaça o regime que critica como poderíamos esperar, e nenhuma relação - nem entre mãe e filho, nem entre as crianças - é emotiva ou forte.

Oscars 2020: Os Actores Principais

Foco-me agora nos nomeados para o Oscar de Melhor Actor. Entre os cinco candidatos, há um nome que se destaca muito dos restantes candidatos, seguem-se outros dois desempenhos muito bons, um quarto lugar muito merecido e, em último, um actor que admiro muito mas que, este ano, não deveria ter chegado tão longe. Eis os nomeados, por ordem de preferência:


Eis a apoteose do Joker, como não pensávamos possível ver no cinema. Uma personagem sóbria e bem explorada, que carrega um sofrimento tão imenso que as gargalhadas compulsivas só tornam mais aterrador. Joaquin Phoenix supera-se quando pensávamos que já não seria possível, e as lágrimas caem-lhe no rosto, enquanto o riso descontrolado assombra a sala de cinema. A dor que sente - mais mental que física - transparece em cada expressão e, mesmo nas suas danças inebriantes, que acompanhamos vidrados, encontramos a tristeza irreparável.


Um trabalho reflexivo e íntimo, sem excessos, que traz à tona o grande actor que é Antonio Banderas. No meio do bloqueio criativo de Salvador, a dor que o parece impedir de avançar não é apenas física. Ela pede uma reconciliação com o passado. E Banderas dá tudo de si neste papel, sóbrio e intimo, como poucas vezes o vemos, numa tristeza latente.


Adam Driver é, sem dúvida, o destaque de Marriage Story. Expressa as emoções como poucos, consegue transmitir tudo com um simples olhar: sofrimento, esperança, desilusão... Dá gosto vê-lo representar, emocionar-se, chorar, brincar - e cantar!


Teremos sempre tendência para simpatizar mais com Francisco, e Dois Papas favorece-lhe a imagem. Claro que Jonathan Pryce muito contribui para tal, com a bondade e tolerância espelhadas no rosto. Há uma humildade contagiante na prestação do actor, liberal, simples e espirituoso, fanático por futebol e pelo tango, mas igualmente capaz de se comover e permanentemente arrependido dos erros do passado.



Leonardo DiCaprio não merece esta nomeação, especialmente num ano com tantas grandes interpretações masculinas, totalmente ignoradas pela Academia. Todos sabemos o grande actor que é e, no filme de Tarantino, faz tudo com uma perna às costas, seja bêbado, deprimido, galã ou vilão. Uma prestação divertida e competente.

Oscars 2020: As Actrizes Principais

Passamos às nomeadas para o Oscar de Melhor Actriz. Das cinco actrizes, apenas vi o desempenho de três. Não falarei portanto de Renee Zellweger (a quase certa vencedora deste ano) nem de Cynthia Erivo. Das restantes, todas as nomeadas tiveram bons desempenhos, sendo que duas delas se destacam da terceira. Aqui fica a minha listagem das nomeadas, por ordem de preferência.
Saoirse é Jo, a feminista emancipada que sonha ser independente através do seu dom para a escrita e acredita que não precisa casar para ser feliz. Tão focada na sua independência e individualidade enquanto mulher, de repente, vê-se rodeada de solidão. O talento para a escrita desvanece-se a par dos laços, esses que a inspiravam e a motivavam a criar histórias, sem esforço. Saoirse Ronan encaixa perfeitamente na personagem, destemida, corajosa e cheia de garra - com o orgulho por vezes a prejudicá-la.


Em Bombshell, Charlize Theron é camaleónica para além da maquilhagem, vestindo a pele de Megyn Kelly com destreza, confiança e ambição. Uma mulher poderosa que sofreu assédio e, provavelmente, se julgava sozinha. Quando desafia as ideias de Trump - ele que tanto ama a Fox News -, vê a sua carreira em risco, com o ódio a cercá-la.

Scarlett Johansson é Nicole, a mulher à beira de um divórcio difícil. O filme faz-nos sentir menos ligados à protagonista, com quem somos menos compreensivos, menos solidários. Ao mesmo tempo, a actriz não se encaixa tão bem em papéis tão exigentes e dramáticos, sendo muito notáveis as suas fraquezas. Ainda assim, é inevitável destacar a discussão entre Charlie e Nicole, intensa e carregada de emoções, onde Driver e Johansson dão tudo de si.

Cynthia Erivo (Harriet)

Sem avaliação

Renée Zellweger (Judy)

Sem avaliação

sábado, 8 de fevereiro de 2020

Oscars 2020: As Previsões

Como todos os anos, chegou o momento em que faço as apostas para a noite dos Oscars. Depois, é esperar para ver se as minhas previsões vão bater certo com os vencedores. Façam as vossas apostas e conheçam as minhas:


Melhor Filme
Ganha: Parasita
Com possibilidades: 1917
Devia Ganhar: Parasita ou Joker

Melhor Actor
Ganha: Joaquin Phoenix (Joker)
Com possibilidades: Antonio Banderas (Pain and Glory)
Devia Ganhar: Joaquin Phoenix (Joker)

Melhor Actriz
Ganha: Renee Zellweger (Judy)
Com Possibilidades: Scarlett Johansson (Marriage Story)

Melhor Actor Secundário
Ganha: Brad Pitt (Once Upon a Time... in Hollywood)
Com Possibilidades: Joe Pesci (The Irishman)
Devia Ganhar: Joe Pesci (The Irishman)

Melhor Actriz Secundária
Ganha: Laura Dern (Marriage Story)
Com Possibilidades: Margot Robbie (Bombshell)
Devia Ganhar: Kathy Bates (Richard Jewell) ou Florence Pugh (Little Women)

Melhor Realizador
Ganha: Sam Mendes, 1917
Com possibilidades: Bong Joon Ho, Parasite
Devia Ganhar: Todos merecem.

Melhor Argumento Original
Ganha: Parasite, Bong Joon-ho, Jin Won Han
Com possibilidades: Once Upon a Time in Hollywood, Quentin Tarantino
Devia Ganhar: Parasite, Bong Joon-ho, Jin Won Han

Melhor Argumento Adaptado
Ganha: Jojo Rabbit, Taika Waititi
Com possibilidades: Little Women, Greta Gerwig
Devia Ganhar: Little Women, Greta Gerwig

Melhor Filme de Animação
Ganha: Klaus, Sergio Pablos
Com Possibilidades: Toy Story 4, Josh Cooley

Melhor Filme Estrangeiro
Ganha: Parasite (Coreia do Sul)
Com possibilidades: Pain and Glory (Espanha)
Devia Ganhar: Parasite (Coreia do Sul)

Melhor Fotografia
Ganha: 1917, Roger Deakins
Com possibilidades: The Irishman, Rodrigo Prieto
Devia Ganhar: The Lighthouse, Jarin Blaschke

Melhor Montagem
Ganha: Parasite, Jinmo Yang
Com possibilidades: Jojo Rabbit, Tom Eagles
Devia Ganhar: Parasite, Jinmo Yang ou The Irishman, Thelma Schoonmaker

Melhor Design de Produção
Ganha: Parasite, Lee Ha-Jun and Cho Won Woo, Han Ga Ram, Cho Hee
Com possibilidades: Once Upon a Time in Hollywood, Barbara Ling, Nancy Haigh
Devia Ganhar: Parasite, Lee Ha-Jun and Cho Won Woo, Han Ga Ram, Cho Hee

Melhor Guarda-Roupa
Ganha: Jojo Rabbit, Mayes C. Rubeo
Com possibilidades: Little Women, Jacqueline Durran
Devia Ganhar: Little Women, Jacqueline Durran

Melhor Maquilhagem e Cabelo
Ganha: Bombshell, Kazu Hiro, Anne Morgan, Vivian Baker
Com Possibilidades: Judy, Jeremy Woodhead
Devia Ganhar: Bombshell, Kazu Hiro, Anne Morgan, Vivian Baker

Melhor Banda Sonora Original
Ganha: Joker, Hildur Guðnadóttir
Com possibilidades: Little Women, Alexandre Desplat
Devia Ganhar: Joker, Hildur Guðnadóttir

Melhor Canção Original
Ganha: (I'm Gonna) Love Me Again (Rocketman) — Elton John & Bernie Taupin
Com Possibilidades: Stand Up (Harriet)Joshuah Brian Campbell & Cynthia Erivo

Melhor Efeitos Sonoros
Ganha: Ford v Ferrari, Paul Massey, David Giammarco, Steven A. Morrow
Com possibilidades: Ad Astra, Gary Rydstrom, Tom Johnson, Mark Ulano
Devia Ganhar: Ford v Ferrari, Paul Massey, David Giammarco, Steven A. Morrow

Melhor Montagem de Som
Ganha: Ford v Ferrari, Donald Sylvester
Com possibilidades: Star Wars: The Rise of Skywalker, Matthew Wood, David Acord
Devia Ganhar: Ford v Ferrari, Donald Sylvester

Melhor Efeitos Visuais
Ganha: The Lion King, Robert Legato, Adam Valdez, Andrew R. Jones, Elliot Newman
Com possibilidades: The Irishman, Pablo Helman, Leandro Estebecorena, Nelson Sepulveda-Fauser, Stephane Grabli

Melhor Documentário
Ganha: American Factory, Julia Rieichert, Steven Bognar
Com Possibilidades: For Sama, Waad Al-Kateab, Edward Watts
Devia Ganhar: Democracia em Vertigem, Petra Costa

Melhor Curta Documental
Ganha: Learning to Skateboard in a Warzone (If You're a Girl), Carol Dysinger, Elena Andreicheva
Com Possibilidades: St. Louis Superman, Smriti Mundhra, Sami Khan

Melhor Curta de Animação
Ganha: Hair Love, Matthew A. Cherry
Com Possibilidades: Kitbull, Rosana Sullivan

Melhor Curta
Ganha: A Sister, Delphine Girard
Com Possibilidades: Brotherhood, Meryam Joobeur, Maria Gracia Turgeon

Relembra todos os nomeados aqui.

Oscars 2020: Os Actores Secundários

Percorro agora os nomeados para o Oscar de Melhor Actor Secundário. É uma categoria com três desempenhos que poderiam todos partilhar o primeiro lugar da minha lista. Mas o quarto actor segue-os de perto. Não vi o filme de Tom Hanks e, por isso, não o posso avaliar. Eis os nomeados, por ordem de preferência.


Sei que ele é um dos melhores actores da sua geração, mas não consigo deixar de admirar cada nova personagem como se fosse a primeira vez. Em The Irishman, eis mais um estrondoso Al Pacino, o sindicalista irreverente, intransigente e orgulhoso, que desafia a máfia sem querer saber das consequências.


Brad Pitt surge discreto mas nem por isso menos impactante, numa personagem secundária que depressa assume o protagonismo, em especial após a metade do filme. Sempre jovial e sem deixar o seu ar de galã, o actor interpreta o duplo da personagem de DiCaprio. De destacar que os dois actores trabalharam pela primeira vez juntos neste filme de Tarantino, ficando provado que vamos gostar de vê-los mais vezes a contracenar.


Quando pensávamos que Joe Pesci já não precisava de provar nada a ninguém, eis que é ele a maior surpresa do elenco de The Irishman. O actor (que fez uma pausa na reforma só porque Martin Scorsese insistiu muito) surge reinventado, comedido, limitando-se a seguir as regras da máfia, para que nada saia do seu controlo - bem diferente da sua personagem de Tudo Bons Rapazes.


Sempre talentoso, Anthony Hopkins, incorpora o austero e conservador Papa Bento XVI, conferindo-lhe, ainda assim, a humanidade que muitos cristãos não lhe associavam. Ao mesmo tempo, o actor dá-lhe a dignidade que merece, para lá da ostentação que exibia, a par dos costumes tradicionais da Igreja, e mesmo que o seu papado tenha ficado marcado por escândalos financeiros e padres acusados de abusos sexuais. Mais um desafio superado para o veterano.

Tom Hanks (A Beautiful Day in the Neighborhood)

Sem avaliação

sexta-feira, 7 de fevereiro de 2020

Oscars 2020: As Actrizes Secundárias

Começo a análise pré-Oscars aos nomeados com a categoria de Melhor Actriz Secundária. Temos grandes nomes nomeados e algumas estreantes nestas andanças dos prémios. Há duas actrizes - as minhas favoritas deste ano - que, a meu ver, se destacam das restantes. Eis as nomeadas por ordem de preferência.

Kathy Bates já conta com um Oscar no curriculo, e é mais que certo que não vencerá este ano. Contudo, é ela a mais merecedora das cinco nomeadas. Interpreta Bobbi, a mãe de Richard Jewell, no filme homónimo de Clint Eastwood, e, em poucos minutos, consegue comover e convencer qualquer um.

A jovem actriz interpreta Amy, a mais nova das quatro irmãs March. Ela quer ser pintora mas cedo percebe que pintar nunca lhe garantirá o futuro. É mimada, apaixonada, por vezes maliciosa, mas especialmente esclarecida. Florence Pugh interpreta-a com a fúria e clarividência que a personagem pede. Esta primeira nomeação só prova o talento anunciado no seu soberbo desempenho em 2016, como protagonista de Lady MacBeth, totalmente ignorado pela Academia.

Margot Robbie é Kayla Pospisil, das três protagonistas de Bombshell, a única que é ficcional. Ela é a jovem ambiciosa mas ingénua, que não espera os avanços de Ailes. De repente, a confiança que exibe inicialmente transforma-se em medo e insegurança, especialmente quando percebe que parece estar sozinha naquela redacção cheia de competitividade e beleza. Um tipo de papel a que a actriz já nos tem habituado, mas desempenhado com competência.

Scarlett Johansson encarna a mãe carinhosa e revolucionária, em tempos difíceis. Para além de representar no grande ecrã uma família monoparental (com o marido ausente na Guerra), é a figura clara da mulher emancipada na Alemanha nazi. A actriz cria facilmente empatia com a plateia já que depressa percebemos que é uma mulher lutadora e com valores. Um papel mais à imagem de Johansson (duplamente nomeada este ano) do que a protagonista do dramático Marriage Story.

A actriz é Nora Fanshaw, a advogada irascível contratada por Nicole para tratar do seu divórcio. Uma mulher superficial, independente, provocadora, num misto de características que não fazem Laura Dern parecer nada realista. Pelo contrário, penso que se justificaria muito mais uma nomeação nesta categoria mas pelo papel de Marmee March em Mulherzinhas, uma personagem totalmente distinta e carinhosa. Ironicamente, é quase certo que Dern irá conquistar o seu primeiro Oscar graças a Nora.

Crítica: Mulherzinhas / Little Women (2019)

"I can't get over my disappointment at being a girl."
Jo March


*8/10*

Clássica e feminina, Greta Gerwig emancipou-se a par das suas Mulherzinhas, numa adaptação cinematográfica especialmente bem concretizada. Enquanto realizadora, cresceu a olhos vistos e começa a ganhar identidade; como argumentista ganhou uma maturidade inspiradora.

Louisa May Alcott era uma mulher à frente no seu tempo e ver, em pleno século XXI, a adaptação cinematográfica de um romance do século XIX, sentindo-o tão actual, com problemáticas feministas que ainda hoje se colocam, de uma forma ou de outra, mostra como Greta incorporou bem as ideias da autora norte-americana e adaptou-as ao ecrã de um modo moderno e singular.

As irmãs Jo (Saoirse Ronan), Beth (Eliza Scanlen), Meg (Emma Watson) e Amy (Florence Pugh) vivem a passagem da infância para a vida adulta, enquanto os Estados Unidos atravessam a Guerra Civil. Vivem com dificuldades com a mãe (Laura Dern). Com personalidades completamente diferentes, elas enfrentam os desafios de crescer, unidas pelo amor que nutrem umas pelas outras.


O filme de Gerwig começa quando as irmãs são já adultas, recuando depois sete anos. A partir daí, a acção desenrola-se em duas linhas temporais distintas. As cores quentes contrastam com as frias, numa clara diferenciação temporal, entre os felizes tempos da infância, cheios de sonhos, e a dureza da vida adulta, com desgostos e perdas.

Os papéis importantes estão nesta história destinados às mulheres - ao contrário do que ainda hoje continua a acontecer na sociedade real -, as personagens masculinas dependem de uma maneira ou de outra destas mulheres para viverem ou serem felizes. Esta constatação é irónica, mais ainda quando todas as personagens femininas têm um carácter muito mais forte e complexo que os homens. Alcott fê-lo há quase dois séculos, Gerwig reafirma-o. Estas mulheres são artistas, de ideias claras e informadas, e o seu discurso prova-o.


Jo é a feminista emancipada que sonha ser independente através do seu dom para a escrita e está decidida que não precisa de casar para ser feliz. Tão focada na sua independência e individualidade enquanto mulher, de repente, vê-se rodeada de solidão. O talento para a escrita desvanece-se a par dos laços, esses que a inspiravam e a motivavam a criar histórias, sem esforço. Saoirse Ronan encaixa perfeitamente na personagem, destemida, corajosa e cheia de garra - com o orgulho por vezes a prejudicá-la. Emma Watson é Meg, a mais velha e mais tradicional das quatro irmãs. Apaixonada pelo teatro, ambiciona casar e ter filhos, com alguém que realmente ame, independentemente do dinheiro que possua. Amy é a mais nova, quer ser pintora mas cedo percebe que pintar nunca lhe garantirá o futuro. Uma jovem mimada, apaixonada, por vezes maliciosa, mas especialmente esclarecida. Florence Pugh interpreta-a com a fúria e clarividência que a personagem pede. Beth, num desempenho doce e tranquilo de Eliza Scanlen, é frágil mas apaziguadora, dotada para a música, protectora e protegida das irmãs. Laura Dern - numa interpretação contida mas dotada de emoção - é a mãe protectora e compreensiva, uma mulher sempre pronta a ajudar o próximo. Aparentemente feliz e paciente, guarda em si preocupação e raiva que insiste em não revelar. Meryl Streep é a Tia March, uma mulher rica, mas solitária e desagradável, que faz questão de relembrar as sobrinhas do fado que espera uma mulher sem dinheiro.


As personagens femininas são apaixonantes e inspiradoras. Modernas na sua concepção clássica. As suas personalidades transformam esta versão de Mulherzinhas num trabalho singular. Os planos sequência, os diálogos aguerridos, o guarda-roupa pensado ao pormenor e a banda sonora de Alexandre Desplat, tudo se funde para criar este clássico moderno do século XXI.

Curiosamente, Greta Gerwig estava grávida do primeiro filho enquanto filmava Mulherzinhas, num desafio a dobrar que parece ter sido inspirador. A realizadora desabrochou e, depois da adolescência problemática de Lady Bird, mostra uma imensa maturidade e respeito pela obra que adapta, afirmando-se como uma das grandes realizadoras da actualidade.

quarta-feira, 5 de fevereiro de 2020

Crítica: Le Mans '66: O Duelo / Ford v Ferrari (2019)

"We're lighter, we're faster, and if that don't work, we're nastier."
Carroll Shelby


*8/10*

Le Mans '66: O Duelo (Ford v Ferrari) trouxe ao grande ecrã o percurso do prodígio do automobilismo Ken Miles - que poucos conhecem - e do seu parceiro  Carroll Shelby, e como ambos marcaram a História das competições. 

James Mangold faz a acção fluir com entusiasmo, num trabalho técnico impressionante e dois protagonistas de peso: Matt Damon e Christian Bale - num grande desempenho que muito dignifica o piloto.


A longa-metragem conta a história do visionário designer de automóveis Carroll Shelby (Matt Damon) e do destemido piloto britânico Ken Miles (Christian Bale). Juntos, lutaram contra os regulamentos, as leis da física e os seus próprios demónios com o objectivo de construir um carro de corrida revolucionário para a Ford Motor Company e vencer os carros de Enzo Ferrari nas 24 Horas de Le Mans em França, em 1966.

Eis o enredo em redor do icónico Ford GT40, bem contado através da câmara de James Mandgold. Tecnicamente irrepreensível, de montagem dinâmica e coordenada, tão certeira como os momentos certos para Ken ultrapassar os adversários, acompanhada por um trabalho de som fundamental. Ford v Ferrari é adrenalina pura, como se estivéssemos nós no lugar de Christian Bale. A direcção de fotografia é exemplar, com sombras e reflexos a lembrar sonhos e expectativas - do avião e carro, cujas sombras vemos deslizar na parede por detrás de Bale, enquanto ele ouve o relato da corrida no rádio, aos adversários reflectidos nos óculos escuros -, e ainda a direcção artística merece destaque por toda a necessária reconstituição da época.


Se a primeira metade da longa-metragem vai aquecendo, aos poucos, certo é que a última hora deixa-nos presos ao ecrã, com uma reacção semelhante à de Henry Ford II quando experimenta pela primeira vez o Ford GT40, com Shelby ao volante.

Christian Bale tem um desempenho tremendo, incorporando maneirismos do verdadeiro Ken Miles, e mostrando como um homem rude e independente é capaz de deixar o orgulho de lado. A amizade tem forte presença neste filme, bem como a relação de admiração pai/filho.


Le Mans '66: O Duelo é mais uma homenagem a Ken Miles, mas acompanha com adrenalina e emoção a competitividade feroz entre Ford e Ferrari. James Mangold consegue humanizar os desportos motorizados e, inesperadamente, fá-los mexer com os sentimentos da plateia.